Por que uma derrocada do Arsenal nesta Premier League seria verdadeira ‘amarelada’
Gunners convivem com fama de 'pipoqueiros' das últimas temporadas, mas termo só seria justo se perdessem o título inglês em 2025/26
O título da Premier League que parecia encaminhado ao Arsenal se abriu de novo com um improvável empate do time londrino com o lanterna Wolverhampton. A equipe, com um jogo a mais, pode ver a vantagem de cinco pontos diminuir para dois se o Manchester City vencer o jogo adiado contra o Crystal Palace, que só tem uma vitória nas últimas 11 rodadas.
Os Citizens ainda enfrentarão os líderes do Campeonato Inglês em 18 de abril, na 33ª rodada, em pleno Etihad Stadium, onde só perderam duas vezes em 21 partidas por 2025/26. Ou seja, dá para dizer que a taça da PL está completamente aberta, um golpe duro aos comandados por Mikel Arteta, que já chegaram a ter sete pontos de folga na ponta da tabela.
Em caso de uma derrocada a 11 jogos do fim, seria justo, dessa vez, os rivais usarem um termo mais forte, como “pipocada”, “amarelada” e coisas do tipo.

Tratar o Arsenal como “pipoqueiro” virou praxe de torcedores e páginas de futebol em redes sociais pelos anos sem títulos — a última Premier League veio há quase 22 anos — e, principalmente, pelos três vices consecutivos do campeonato nacional nas últimas temporadas para Manchester City (duas vezes) e Liverpool.
As temporadas passadas, porém, tiveram um contexto completamente diferente da atual. A Trivela explica neste artigo o porquê ser razoável, em 25/26, dizer que, se os Gunners perderem o título inglês, será uma verdadeira “amarelada”, ao contrário das anteriores.
Arsenal nunca investiu tanto e nem teve um elenco como esse
Os quase 300 milhões de euros (R$ 1,8 bilhão) investidos em oito reforços transformaram o elenco de Arteta no melhor de toda a Inglaterra. Basicamente, todas as posições possuem duas ou até mais opções, com jogadores versáteis podendo exercer mais do que duas funções, como Calafiori, Hincapié e Timber, ao mesmo tempo opções para zaga e laterais.

A janela sanou, justamente, várias questões que foram problema nas últimas temporadas, além de que o departamento médico ficou menos vazio do que outrora. A posição de centroavante, por exemplo, teve a chegada de Gyokeres e a recuperação de Gabriel Jesus, além de Havertz, que atuou mais no meio-campo em seu retorno.
O elenco gunner, por poucas opções ou lesões, foi um dos principais problemas para não conseguir competir com City e Liverpool recentemente. Em 2024/25, uma ilustração perfeita: o Arsenal foi obrigado a jogar a primeira semifinal de Champions League em quase 20 anos com Mikel Merino, um meio-campista, de camisa 9.
Enquanto o grupo de Arteta se consolidou pelo trabalho dos últimos anos, com cada janela trazendo peças para aumentar o elenco, mantendo a base e buscando na última janela novos jogadores para entrar na rotação — dos contratados, em teoria, apenas Gyokeres e Zubimendí são titulares –, o City iniciou sua transição do elenco pentacampeão.
De janeiro de 2025 para cá, foram 13 jogadores contratados, ao mesmo tempo que nove, entre eles Gundogan, Kevin de Bruyne e Ederson, se despediram do clube como lendas.
A equipe de Guardiola também tem sofrido com problemas físicos, em especial na defesa, que obrigaram improvisações (O’Reilly passou boa parte da temporada na lateral esquerda) ou utilização de atletas pouco experientes (Max Alleyne atuou em derrotas a Bodo/Glimt e Manchester United), mostrando como as opções do técnico catalão se tornaram mais escassas. Matheus Nunes, titular absoluto na lateral direita, é um sintoma disso.
O Liverpool, que seria o outro concorrente ao título, acabou não conseguindo manter a regularidade e viu seu elenco ter claras lacunas na zaga, mesmo investindo como nunca na janela e quebrando o recorde de maior compra da história do futebol inglês duas vezes (Florian Wirtz e Alexander Isak).
Na teoria, o contexto perfeito para o Arsenal conseguir sua primeira Premier League desde os Invencíveis.
— [Seu time tem o que precisa para ser campeão?] Sim, eu sinto. Está ficando cada vez mais competitivo a cada ano. O nível está aumentando. Nós sabemos disso, então as nossas exigências também têm que aumentar — disse Arteta em julho passado, ainda na pré-temporada.

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Manchester City atual não se aproxima de campeões anteriores da Premier League
A reformulação dos Citizens e os problemas em alguns setores ajudam a ilustrar o porquê de este time de Guardiola não chegar nem perto dos times históricos que venceram a taça sobre o Arsenal em duas oportunidades.
A equipe atual, apesar de também vencer com regularidade, não consegue controlar partidas como antes — quem imaginaria uma daquelas equipes sofrer um empate do Tottenham após abrir 2 a 0, como aconteceu no começo deste mês — e acumulou derrotas inexplicáveis, a exemplo do 3 a 1 do Bodo/Glimt.
Nas temporadas 22/23 e 23/24, nas quais o Arsenal foi líder por longos períodos, o apelido dos azuis de Manchester era “tubarão” porque, antes de emplacar uma sequência de vitórias que dessem o título a eles, sentiam o cheiro de sangue a partir do momento em que os Gunners tropeçavam.
Em 22/23, venceram 11 consecutivas até ser campeão com três rodadas de antecedência, incluindo um 4 a 1 sobre o próprio concorrente direto que lhe deu a liderança. Essa temporada do clube londrino teve 27 rodadas e 248 dias como líder, recorde de um não campeão na história da Premier League, e ostentou oito pontos de vantagem, terminando cinco atrás do campeão.
— Até hoje, ainda me dói profundamente não ter vencido essa Premier League depois de passar 10 meses brigando com o City. Mas isso é o esporte. Dito isso, o que foi alcançado com um time tão jovem vale muito a pena. Isso também está claro para mim — assumiu, em junho de 2023, ao jornal “Marca”.

A campanha serviu para mostrar que o time de Arteta, realmente, poderia tomar o lugar do Liverpool como segunda força do futebol inglês. É importante lembrar que o técnico basco assumiu uma fogueira em dezembro de 2019, um clube ainda na sombra de duas décadas de Àrsene Wenger, substituído sem sucesso por Unai Emery por quase um ano e meio.
Os dois primeiros Campeonatos Ingleses do ex-meio-campista no comando do clube que havia sido jogador terminaram com a pior colocação (oitavo) desde 1994/95. Na seguinte, um quinto lugar que dava o caminho do que viria a partir de 2022.
Arteta fez os Gunners deixarem de ter “medo” em jogos contra o Big Six e passarem a competir de igual para igual, ou até superar, seus maiores rivais.
A trajetória em 2023/24 foi menos dominante que a da temporada anterior, mas tão competitiva quanto e, após uma disputa ponto a ponto com o Liverpool nos últimos momentos de Klopp, novamente a disputa se limitou ao lado vermelho de Londres e ao azul de Manchester.
O Arsenal, outra vez, sucumbiu mentalmente em jogos-chave, o mais marcante uma derrota em casa para o Aston Villa, e a ponta da tabela foi perdida na 32ª rodada, exatamente a mesma de um ano antes. O City foi campeão com apenas dois pontos de vantagem.
A temporada de 2024/25 teve um contexto completamente diferente. O time de Arteta não liderou uma rodada sequer, enquanto o City de Guardiola viveu seu pior ano com o técnico espanhol. Surgiu um surpreendente Liverpool, no primeiro ano de Arne Slot e praticamente sem reforços, que dominou o campeonato quase que de ponta a ponta, tomando a liderança na nona rodada até confirmar a taça.
Os Reds foram quase perfeitos e deram pouca margem para o time londrino, menos regular do que nas duas épocas anteriores pelo elenco prejudicado por lesões e pela campanha europeia recorde em muito tempo, com direito a 3 a 0 sobre o 15 vezes campeão da Champions, Real Madrid.
Por tudo isso que os três vices seguidos serem considerados pipocadas é um exagero e carece de contexto, mesmo que o fator psicológico de um clube e elenco pouco acostumado com esses momentos, em especial nas duas campanhas com título do City, tenha pesado. O empate dos Wolves na última semana pode ser outro sintoma disso.
O que falta para o Arsenal voltar a vencer a Premier League? 🏆
— Trivela (@trivela) May 19, 2025
Gunners batem na trave mais uma vez, mas têm precedentes para sonhar com o título da liga em brevehttps://t.co/fxM2KExhjO
A questão mental, no entanto, às vezes é muleta e motivo “rápido” para tentar justificar qualquer derrocada do Arsenal. Parece o que acontecia com o Botafogo em qualquer derrota em 2024, após ter perdido o título brasileiro do ano anterior tendo 13 pontos de vantagem sobre o Palmeiras. O cenário só mudou quando o Glorioso venceu o Brasileirão e a Libertadores na mesma temporada.
Ou seja, a pecha de pipoqueiro ou fraco mentalmente dos Gunners seguirá até que conquistem uma taça. Uma derrocada nesta temporada atual, com todo investimento e contexto favorável, só fortalecerá isso.
Neste domingo (22), o Arsenal visita o rival Tottenham e, se perder e o City ganhar, ficaria com sua posição na liderança ameaçada até a partida adiada do concorrente pela ponta da Premier League. O confronto direto entre primeiro e segundo colocados em abril terá um “esquenta” na final da Copa da Liga Inglesa, em 22 de março.



