Futebol feminino

‘Estilo Sarina Wiegman’ marca título da Inglaterra em Euro que ficará para a posteridade

Torneio teve brilho de treinadora histórica em edição que deve ser crucial para um fortalecimento ainda maior da modalidade

O esporte tem o poder de transformar vidas e inspirar gerações a construir novas histórias. O bicampeonato da Inglaterra na Eurocopa Feminina neste domingo (27) foi um exemplo da influência do futebol feminino para meninas que vivem um momento mágico da modalidade em seu país.

Sob o comando da seleção inglesa está a atual imbatível Sarina Wiegman, que conquistou neste domingo o terceiro título do torneio em sequência, sendo um deles pelo seu país, a Holanda, e os dois últimos com as Lionesses, se tornando a primeira treinadora a conquistar o título com seleções diferentes.

Em meio ao turbilhão que o elenco vive durante as competições, o papel da comissão técnica é crucial no desempenho físico e mental das jogadoras. E Wiegman se tornou uma maestrina pronta para conduzir as inglesas entre as situações positivas e adversas.

Com calma e paciência, se estabelece nas laterais do gramado para conduzir o seu time, independente da situação em campo. É conhecida pelas suas atletas pela tranquilidade e honestidade, além da gentileza e carinho.

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Sarina Wiegman comemora com a comissão técnica da Holanda o título da Eurocopa 2017 (Foto: IMAGO / Revierfoto)

Mas a campanha da Inglaterra nesta Eurocopa extraiu da treinadora um pouco mais sentimentos do que o habitual, quando a mesma revelou que chegar à final é como se fosse ‘um filme’ e que as jogadoras ‘quase a mataram pelo menos duas vezes’ durante a competição.

— Ela demonstra um pouco mais de entusiasmo depois dos jogos do que antes. Ela está dançando e cantando. Quando ela chegou, não víamos tanto isso. Ela é provavelmente uma das melhores treinadoras para quem já joguei, em termos de tentar fazer com que todos se sintam amados. É um trabalho muito, muito difícil quando você está num torneio. Ela realmente se importa com o lado humano–, revelou a meio-campista Keira Walsh, em matéria para a BBC Sports.

Para construir uma carreira de sucesso tão respeitável, há o desejo irreparável de vencer misturado com a vontade de trabalhar sob pressão. E foi com essa missão que Sarina assumiu a seleção inglesa, em 2021.

A expectativa era que repetisse a dose do fantástico período que viveu com a seleção holandesa, quando conquistou o título da Euro em 2017 e chegou à final da Copa do Mundo de 2019. E assim ela fez com a Inglaterra em 2022, 2023 e 2025 novamente.

— O intervalo é quando você fala de tática, mas os discursos de Sarina antes dos jogos definitivamente nos motivaram. Às vezes estamos perdendo por um gol, mas você ainda se lembra das palavras que ela disse antes do jogo. Não importa o que Sarina diga, você ouve –, explicou Ella Toone à BBC.

E parecia premeditado para o que aconteceria com as Lionesses durante o torneio europeu, no qual precisaram em mais de uma ocasião encontrar forças para reverter o placar.

England v Italy – UEFA Women’s EURO 2025 Semi-Final
Sarina Wiegman conversa com elenco da Inglaterra na Eurocopa (Foto: IMAGO / justpictures.ch)

“Pragmática” e “organizada” foram palavras ligadas por quem atuou e ainda atua com a treinadora à “formula mágica” da holandesa, que também inclui um alto nível de execução do futebol.

Mas se teve uma palavra que definiu a campanha da Inglaterra na Eurocopa de 2025 foi “resiliência”. E, como destacou a BBC, ela acredita fielmente nas suas jogadoras reservas, a quem deu o nome de “finalizadores”.

Elas têm a missão de tentar mudar o jogo. Com elas, Sarina acredita que, não importa o quão tarde, a Inglaterra consegue voltar para a partida se estiver perdendo. O lema é quase uma predestinação, já que foi exatamente assim que as inglesas superaram as suas adversárias na competição.

Mas em meio aos triunfos, passam também as decisões, inclusive de substituições e de trocas no elenco. Decisões das quais Wiegman não fugiu quando comunicou à ex-goleira Mary Earps que ela se tornaria reserva -resultando no pedido de dispensa da jogadora -, mas também nas substituições durante o jogo.

E todas as características apresentadas por Sarina levam a treinadora a receber o título de ‘mãe’ da equipe.

— Sabe, às vezes quando as pessoas dizem ‘as meninas’ eu penso, elas estão se referindo às minhas filhas ou ao meu time? É complicado. Eu me importo com eles, mas, ao mesmo tempo, sou o treinador. Estou tomando decisões difíceis, então, às vezes, você deve deixar essa responsabilidade para eles. Elas são mulheres adultas! Mas uma mãe deveria se importar. Às vezes, sinto falta delas. Só entro em contato quando é urgente ou realmente necessário– reconheceu a técnica.

A combinação dos fatores deu a Wiegman a fórmula mágica para se tornar campeã, aproveitar a resiliente jornada e sentir o carinho e admiração por parte do elenco e torcedores.

England v Spain – UEFA Women’s EURO 2025 Final
Sarina Wiegman celebra bicampeonato da Eurocopa com a Inglaterra (Foto: IMAGO / Sportsphoto)

Aumento de interesse de meninas no futebol

Diante de um recorde de público da Eurocopa Feminina, somando 657.291 torcedores presentes ao longo do torneio, o futebol feminino registrou crescimento antes mesmo do início da competição.

Segundo o, “The Guardian”, as vendas de ingressos para jogos da Women’s Super League (WSL), a principal liga inglesa, dispararam e mais partidas femininas foram transferidas para campos maiores. O Arsenal anunciou que todas as suas partidas como mandantes serão disputadas no Emirates Stadium na próxima temporada.

Mas para além do retorno do público ao futebol profissional, espera-se que um dos maiores impactos que os jogos na Suíça traga seja o aumento do apoio ao futebol de base.

O jornal destacou que o “efeito Lionesses” resultou na duplicação do número de equipes femininas – se tornando o maior aumento desde a temporada pós-título da Inglaterra sobre Alemanha na final da Eurocopa de 2022.

UEFA Womens EURO 2025 Final – England v Spain – St. Jakob-Park
Público da Eurocopa Feminina de 2025 (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

O impacto das Lionesses no futebol do país foi monitorado pela Football Beyond Borders, instituição de inclusão social cujo objetivo é usar o futebol e a educação para transformar a vida de jovens.

Segundo a pesquisa, mais de um terço da amostra de 500 meninas de 13 a 18 anos pesquisadas – 36% – agora estão vinculadas a um clube de futebol, demonstrando um maior engajamento com o esporte em comparação com os dados de 2023, que mostraram que 29% nunca haviam praticado o esporte.

A expectativa é que esse impacto também chegue à WSL, que conta 84 jogadoras envolvidas que disputaram a Eurocopa e com todas as partidas transmitidas ao vivo pela TV aberta.

CALCIO – UEFA Campionato Europeo – UEFA Women’s EURO 2025 – Final – England vs Spain
Inglaterra durante a conquista do bicampeonato na Eurocopa (Foto: IMAGO / IPA Sport)

O “The Guardian” destacou que as últimas semanas “têm sido um sonho para o departamento de marketing”, principalmente com o surgimento de novas heroínas na Europa, como Michelle Agyemang.

A liga inglesa, agora, busca repetir o feito de 2022, quando conseguiu usar o sucesso histórico da Inglaterra para fazer a competição crescer. Depois do título das Lionesses, a competição registrou um aumento do público presente nos jogos em 172% e os números de audiência na TV aumentando em 33% na temporada seguinte.

Além disso, o jornal informou que a WSL2 (segunda divisão da liga inglesa), será totalmente profissional, e terá todos os jogos das duas primeiras divisões transmitidos ao vivo pela primeira vez, seja pela Sky Sports, BBC ou YouTube.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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