Futebol feminino

De Mônica a Ketlen: Como evolução no futebol fez apoio à maternidade mudar cenário da modalidade

Maior artilheira do Santos, Ketlen retorna aos gramados após nascimento do seu primeiro filho

Maternidade e futebol são temas que se fazem presentes no centro dos debates no meio esportivo. Desde a proibição do futebol de mulheres até os dias atuais, a modalidade passou por inúmeras transformações, até chegarmos às conversas sobre a garantia de direitos das atletas.

O sonho de muitas jogadoras em se tornarem mães foi, por anos, ponderado devido às dúvidas e as inseguranças tanto na vida pessoal, quanto na profissional. Isso porque, em muitos casos, as atletas além de não receberem um salário digno e não terem o acompanhamento adequado, também corriam o risco de não conseguirem retomar a carreira, além da perder o patrocínio.

No futebol, a zagueira Mônica foi a primeira jogadora a subir ao pódio das Olimpíadas após a maternidade, durante a edição de Atenas, em 2004, quando a seleção brasileira conquistou a medalha de prata. Durante a gravidez, ela manteve as atividades em campo até os cinco meses.

— Não tinha problema. Joguei muita pelada. Levantava a perna, chutava, fazia tudo. Só evitava entrar em divididas — contou em entrevista à “Folha de São Paulo” em setembro de 2003.

Um ano antes do torneio, a jogadora compartilhou a sua rotina em uma época em que as mulheres encontravam inúmeras dificuldades para atuar na modalidade. Sem poder se dedicar exclusivamente ao futebol, Mônica se dividia entre cuidar do seu filho, treinar e estudar.

—  Pela manhã, cuido do meu filho. De tarde, vou treinar. No início da noite, ainda faço faculdade para tentar conseguir um futuro melhor para a minha família. Quase todo mundo aqui vive nessa condição — afirmou a atleta.

Monica comemora gol com Elaine durante as Olimpíadas de 2004 (Foto: IMAGO / Colorsport)

Na época, com 25 anos, a zagueira ganhava quase R$ 800 mensais pagos por uma prefeitura do interior de São Paulo para jogar no time da cidade e fazia faculdade de educação física. Mônica foi a única mãe que esteve na conquista da medalha de ouro nos jogos Pan-Americanos de 2003, na República Dominicana.

— Na minha vida, só penso em economizar. A diária [de R$ 30, paga pela CBF], mando sempre para a minha mãe. O futuro do meu filho e da minha mãe depende do meu. Por isso, sou muito responsável. A nossa conquista no Pan quase não foi valorizada. Ainda dizem que estamos no país do futebol — declarou.

As primeiras regras da Fifa e as mudanças no futebol

Pouco mais de 20 anos depois, a Federação Internacional de Futebol estabeleceu regras trabalhistas para o futebol feminino. Inicialmente, foram realizadas cinco mudanças no Regulamento de Status e Transferência de Jogadores, o que permitiu que muitas jogadoras pudessem sonhar em ser mães sem abrir mão da carreira.

Com as modificações, veio a implementação de direitos ligados à gravidez e à maternidade no futebol, que incluíam a determinação da licença maternidade mínima de 14 semanas com remuneração, com pelo menos oito semanas a serem tiradas após o nascimento do bebê.

Além disso, houve a garantia de que a validade do contrato não pode estar sujeita à gravidez ou ao fato da atleta exercer os direitos de maternidade de uma forma geral.

No Artigo 6 também a Fifa prevê que o clube possa registrar uma jogadora fora da janela de transferências, seja para substituir uma atleta de licença ou para reintegrar uma que a completou. 

Já o quinto item firma os clubes têm obrigação de fornecer instalações adequadas para uma jogadora amamentar e/ou ordenhar o leite materno após o retorno da licença maternidade.

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Ketlen Wiggers vive o avanço da modalidade

Tais medidas implementadas pela Fifa foram fundamentais para que a maternidade deixasse de ser um tabu no esporte e passasse a ser debatida entre atletas e equipes com maior naturalidade, garantindo os avanços necessários para as mulheres no esporte.

Foi o caso de Ketlen Wiggers, a maior artilheira do Santos, que deu à luz a Lucca, o seu primeiro filho junto ao seu companheiro, Ricardo Eid, que atua como médico da área esportiva. 

Ela reintegrou o elenco das Sereias da Vila após o período de licença maternidade. A jogadora chegou a treinar com o clube até o último mês antes do parto para manter a forma física e auxiliar neste retorno às atividades. Em entrevista à Trivela, a atacante detalhou como tem sido os seus primeiros dias de volta ao CT.

— Não tem sido fácil conciliar a maternidade com a vida de atleta. A rotina tem sido muito intensa desde a chegada do Lucca, ainda mais sendo o primeiro filho. Fisicamente também tem que correr atrás e tem sido um período bem longo, bem difícil, mas eu sei que tudo isso vai valer a pena. O período longe dos gramados não é fácil, mas eu estou feliz porque está cada vez mais perto do meu retorno à Ketlen melhor do que antes da gestação. O Lucca está bem e eu também — afirmou.

Ketlen Wiggers, atacante do Santos (Foto: Reinaldo Campos/Santos FC)
Ketlen Wiggers, atacante do Santos (Foto: Reinaldo Campos/Santos FC)

Ketlen relembra o receio que sentiu ao descobrir a gravidez por medo de saber como seria a sua retomada, mas ressaltou que o suporte oferecido pelo clube foi fundamental para fazer a transição e garantir que a jogadora conseguisse se adaptar à nova fase.

— Eu tive muito medo de como seria tudo. Se eu continuaria jogando, se eu voltaria ao futebol, e agora eu me sinto muito bem em poder estar realizando isso aos poucos, com o apoio de todo o clube, que me dá todo esse suporte para eu estar bem e não ter lesões. Então, claro, todo aquele medo e a incerteza ficaram para trás, sabendo que eu estou realizada junto com o meu filho com tudo isso que tem acontecido — explicou.

— Com certeza, todo o suporte durante esse período fez toda a diferença. Eu tive todo o apoio, a CBF também me apoiou bastante para que eu pudesse estar com o meu filho durante as viagens, que era um medo que eu tinha também em deixá-lo durante uma viagem muito longa. Então, poder tê-lo ao meu lado é maravilhoso — ressaltou Wiggers.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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