‘Não pode pensar só em futebol’: Sole Jaimes reflete sobre maternidade e deixa recado
Atacante do 3B é mãe de Aurora, fruto do casamento com a goleira Kelly Chiavaro
A atacante Florencia Soledad Jaimes, popularmente conhecida como Sole Jaimes, viu a vida mudar há pouco mais de um ano. Em 25 de janeiro de 2024, a argentina deu à luz Aurora, fruto de seu casamento com a goleira ítalo-canadense Kelly Chiavaro.
As duas jogadoras defendem o Instituto 3B, de Manaus, no Amazonas. Sole arrumou um tempo entre viagens, treinos e jogos pelo Brasileirão feminino para conversar com a Trivela sobre o “milagre” Aurorita e a vida fora das quatro linhas, afinal, foi exatamente o cenário além-campo que amplificou o desejo do casal em ter um filho.
— Futebol, em algum momento, vai terminar, e a gente não pode pensar só em futebol, tem que pensar em ter uma família.

Durante a entrevista, Sole repete algumas vezes a frase “na verdade”. A primeira verdade é que houve alguns desafios ao longo do processo. A argentina relembra quando o tratamento de fertilização iniciou e a incerteza em relação à concretização do sonho, como a espera para saber se estava grávida. O outro momento ocorreu já com a gestação em andamento, nos primeiros meses, quando ela teve perda de sangue “muito preocupante”. “No final, tudo deu certo”, comemora.
Outra verdade é a extrema alegria nos clubes. Sole Jaimes defendia o Flamengo enquanto estava grávida, e Kelly vestia a camisa do Botafogo. A atacante afirma que treinou em alto nível no Rubro-Negro por sete meses e não sentiu nenhum incômodo.
— O tratamento no Flamengo foi maravilhoso. Cuidaram de mim, me trataram bem… Na verdade, não tenho palavras, sempre serei grata. Nos outros clubes que passei também foram muito cuidadosos. As jogadoras do Botafogo também ficaram muito felizes, tivemos um apoio imenso dos dois clubes. Eu nunca pensei que seria esse tratamento. Pensamos que poderia ser um pouco mais difícil, mas não. E hoje, no 3B, é incrível. O carinho que eles têm por nós, por nossa filha. Estamos muito felizes.
O nome Aurora foi escolhido como homenagem à mãe de Sole, dona Maria Aurora. A pequena nasceu calma, comenta a atleta, mas agora, com um ano e três meses, já está mais agitada. “Ela começou a andar, é elétrica, não para. Anda por todos os lados, é muito simpática”, destaca a jogadora.
— Acho que ela puxou a mim. A Kelly, neste sentido, é mais tranquila. Ela também gosta de falar. Fala seu próprio idioma –, diz ela, aos risos.
O futuro para Aurora
Ainda é preciso esperar alguns anos para saber se a Aurora vai seguir os passos das mães e se tornar jogadora de futebol, contudo, caso essa seja a profissão escolhida por ela, Sole acredita que o caminho está melhor. A experiente atacante de 36 anos nasceu em Nogoyá, em Entre Rios, e começou a carreira no Boca Juniors, aos 15 anos.
A projeção não demorou a acontecer, tanto que ela recebeu convite para treinar com a seleção sub-20 do país natal. A primeira mudança para o Brasil foi em 2014, ao se transferir ao Foz Cataratas, do Paraná. Também teve passagem por São Paulo e Santos antes de ir à China vestir a camisa do Dalian Quanjian em 2018.
Um ano depois, acertou com o Lyon e, na mesma temporada, retornou às Sereias da Vila. O currículo inclui ainda Changchun Zhuoyue e Napoli. “Há mais recursos e a modalidade está crescendo”, afirma Sole sobre o futebol feminino atualmente.
— Eu gostaria que, se a Aurora quiser jogar, possamos estar por perto. Que não viva o que eu tive que viver. Sair de casa para poder ajudar minha família economicamente. Eu gostaria que, para ela, seja tudo mais leve e que, se ela quiser mesmo jogar bola, não tenha que se preocupar com a gente. Seguir seu caminho e tentar fazer tudo mais leve. Que ela consiga jogar, estudar e ser bem tratada, com respeito, e que admirem seu trabalho. Acho que, no momento, essa parte do futebol falta amadurecer.
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Sole deixa recado às jogadoras de futebol que querem ser mães

A maternidade é parte importante da vida extracampo do casal, e elas gostariam que mais jogadoras experimentassem o sentimento. “A mensagem que deixo é algo que falo bastante para a Kelly desde o dia em que engravidamos. ‘Eu quero mostrar para as atletas que a gente pode pensar em uma família’. Muitas vezes a gente pensava: ‘Por que os caras que jogam bola podem formar família e nós não?‘”.
No âmbito legal, a Fifa intensifica apoio à maternidade e gravidez de jogadoras de futebol feminino desde 2021, e determina licença-maternidade remunerada. Além disso, medidas anunciadas em 2024 garantem proteção do emprego, recebimento de salário durante a gestação e direito da atleta de retorno às atividades ao término do afastamento.
Tudo isso, para Sole Jaimes, faz a diferença atualmente. Ela usa como exemplo a própria trajetória, e não sente que a gravidez mudou sua forma de jogar ou perspectiva no gramado. Embora reconheça que levou certo tempo para atuar em alto nível novamente, ressalta que treino e foco tornam tudo possível. “Fiquei três meses parada. Acho que, para mim, não mudou muito”, relembra.
— Antes, você não podia parar de jogar porque não tinha uma lei que amparasse, e hoje tem uma lei. A gente pode parar e recomeçar. Eu queria muito mostrar para as meninas que a gente pode engravidar e retornar ao futebol em alto nível novamente, e que tem que pensar na família. O tempo passa, as coisas passam, e nada volta.



