Copa do MundoCopa do Mundo Feminina

Crônicas da Copa #16: Entre a bola e o berço, houve apenas cinco mamães na Copa da França

Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

A discussão sobre a maternidade de atletas na ativa está em alta, especialmente após o relato da corredora multicampeã Alysia Montaño. Ela expôs as contradições entre o discurso público da sua patrocinadora, a Nike, e a pressão privada exercida naquelas que não desejam esperar a aposentadoria para engravidar.

No futebol masculino, vemos com frequência os filhos dos jogadores — aliás, você já enalteceu Mateo Messi hoje? Diante disso, me perguntei: quantas mulheres são mães nesta Copa da França? Fui atrás. São cinco.

Esse número é menor do que na Copa anterior, já que no Canadá havia 11 mamães. Ressalto que essa contagem é só daquelas que fisicamente gestaram uma criança, pelo motivo do tempo de afastamento do esporte. Então, por exemplo, a goleira sueca Hedvig Lindahl, mãe de dois filhos gerados pela sua esposa, não entra na contagem.

A nossa mamãe

Uma das mamães na França foi a brasileira Tamires (Foto: Getty Images)

Uma das mulheres que teve de conciliar a gestação com a vida de atleta profissional é a brasileira Tamires, fato sempre ressaltado nas transmissões. Aos 21 anos, engravidou do marido Cesinha, também jogador profissional. Eles se conheceram na base do Juventus da Mooca. As pessoas ao seu redor davam a curta carreira da atleta como acabada.

Ela parou por dois anos, o primeiro mediante a licença gestante padrão e o segundo por opção — se é que se pode chamar assim a necessidade de cuidar atentamente de sua cria. Vivia em Minas Gerais para acompanhar a carreira do marido, que, à época, defendia o Patrocinense.

Em 2011, acertou a volta aos campos, embarcando no projeto do Atlético Mineiro. No entanto, a distância de mais de 400km entre Patrocínio e Belo Horizonte fez com que Tamires desse outro tempo na carreira. No término do contrato de Cesinha, voltaram para São Paulo. A contratação de Tamires pelo Centro Olímpico alavancou a carreira da jogadora, que passou a integrar a Seleção brasileira a partir de 2013.

Quando ela recebeu proposta da Dinamarca, dois anos depois, dessa vez foi Cesinha quem parou de jogar bola. Na última quinta, 27, a lateral anunciou o retorno ao Brasil, para defender o Corinthians e jogar ao lado das também selecionáveis Mônica, zagueira, e Letícia, goleira.

A última das mamães

Jessica McDonald com seu filho (Foto: Getty Images)

Com o avançar da competição, a norte-americana Jessica McDonald é a única jogadora-mãe que ainda disputa a competição. Estará no banco, como opção de ataque, contra a Inglaterra, na partida semifinal. Antes, porém, fiquem com essa interação entre ela e Jeremiah, seu filho de sete anos que sempre vai aos jogos usando uma camiseta do time ou da seleção da mãe, nas costas estampado MOMMY.

Fora do campo, minha xará também quer ser exemplo. Em entrevista à Forbes, a atacante disse esperar que sua participação inspire a comunidade afro-americana: “Para mostrar a eles que essas coisas são possíveis. Você tem que ralar duro, mas você consegue”. Jessica, filha de mãe adolescente e criada pela avó, ralou. Apesar de seu grande poder ofensivo, a seleção americana demorou a tê-la como uma de suas representantes. A estreia ocorreu em 2016, quando já tinha 28 anos.

A National Women Soccer League (NWSL) surgiu em 2012, em substituição a Women League Soccer, falida. No draft para a temporada 2010 da WLS, Jessica foi uma das primeiras escolhidas. Porém, uma lesão gravíssima no joelho a tirou dos gramados por mais de dois anos. A volta ocorreu no fim de 2012, na liga australiana, porque a desconfiança acerca de seu desempenho pós-cirurgia era natural.

Provando estar bem, Jess retornou ao campeonato norte-americano. No entanto, acabou pulando de time em time, envolvida em trocas — técnicas ou para ajuste financeiro —, fazendo com que ela se desdobrasse para balancear as vidas como atleta e mãe, sempre mudando de cidade. De 2013 a 2017, foram 6 times pelo país adentro, até se encontrar futebolisticamente com o North Caroline Courage.

Apoio importante, mas insuficiente

A ex-jogadora americana Jay Fawcett, lutou por babás às jogadoras pagas pela seleção (Foto: Getty Images)

Principalmente a partir dos esforços da lateral direita Joy Fawcett e da zagueira Carla Overbeck, ambas campeões mundiais e olímpicas pelos EUA, a Federação Americana passou a bancar, desde 1998, babás para as mamães atletas, enquanto serviam a seleção. Mas e durante o resto da temporada, com seu clube?

“Não tem havido avanços positivos para as mães da NWSL. Nós [ela e as outras jogadoras-mães da liga], estamos nos reunindo, pensando juntas. Gastos com criança não são baratos. Se você olha para o nosso salário e depois para esses gastos, lá se vai o pagamento. Como nós vamos comer? Então, sim, precisa mudar. Precisamos fazer algo, precisamos de ajuda financeira ao menos”, afirmou Jessica.

Biologicamente falando, a possibilidade de ser mãe tem prazo de validade, expira. Pode não permitir que se aguarde o final de uma carreira como atleta, pois os riscos de uma primeira gestação tardia são consideráveis. É claro que esse tipo de desejo é individual e não serão todas as jogadoras — como não são todas as mulheres — que o manifestarão. No entanto, para as que fizerem essa opção, deve haver uma fórmula. Digo, alguma alternativa que não as obrigue aos esforços de Tamires e Jessica.

Por si só, ser mãe é tarefa dura. Ser jogadora de futebol também. Apesar disso, tem de ser possível ser as duas coisas. Contudo, em que pesem os cinco casos deste Mundial, ainda não é. Esse é mais um assunto que, passada a euforia da competição, não pode ser sufocado.

Mostrar mais

Jessica Miranda

Atacante que não volta para marcar. Burocrata do direito e eterna curiosa pelas histórias do futebol.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.