Do ataque ao gol: Como Hannah Hampton virou esperança para a Inglaterra mesmo com disfunção ocular
Goleira é um dos destaques da nova geração da seleção da Inglaterra
A campanha da Inglaterra como uma das favoritas ao título na Eurocopa passa pelos pés e mãos de Hannah Hampton, goleira cuja trajetória no futebol feminino é cheia de reviravoltas e muita paixão pelo esporte envolvida.
Nascida com uma disfunção ocular grave, Hannah foi informada pelos médicos que ela não deveria jogar futebol, ao ser diagnosticada com estrabismo. Ao longo dos anos, a inglesa passou por diversas cirurgias na visão, mas ainda assim não conseguiu corrigir totalmente a percepção de profundidade.
— Desde pequena, me disseram que eu não poderia jogar futebol, que não seria uma profissão que eu pudesse seguir. Mas aqui estou. Sempre passei a vida tentando provar que as pessoas estavam erradas — declarou a inglesa em entrevista à BBC Sports.
Hampton deu os primeiros passos na modalidade como atacante, no início do que ainda seria sonho no futebol, aos cinco anos, quando se mudou com os pais para a Espanha.
Foi no país que despertou para a paixão pela modalidade e foi observada pela base do Villarreal depois que o ex-zagueiro argentino Fabio Fuentes recomendou que a garota participasse de um teste no clube.
Hannah e a família permaneceram na Espanha por mais cinco anos, quando retornaram à Inglaterra. No seu país de origem, integrou a base do Stoke City.

Os primeiros passos em uma equipe profissional aconteceram no Birmingham City aos 16 anos, e foi justamente durante a efetivação para o time principal que Hannah acabou trocando de posição em campo, passando de atacante para goleira.
Conhecida nas seleções de base da Inglaterra, Hampton despertou a atenção pela habilidade com os pés. Sua treinadora na época, Rehanne Skinner, também destacou a característica da jogadora.
— Ela jogava com os dois pés. São pouquíssimas as pessoas no esporte que conseguem jogar com o pé mais fraco e fazer um lançamento de 55 metros com precisão milimétrica — detalhou Skinner à BBC Sports.
Com a técnica, a jogadora ainda em ascensão passou a receber as primeiras instruções na função que a levaria ao topo da carreira profissional. Durante uma partida da seleção sub-19 da Inglaterra contra a Suécia, Skinner instruiu Hampton a bater forte na bola.
— Hannah deu uma assistência nos primeiros 10 minutos de jogo. Vencemos por 4 a 0. Poucas goleiras têm essas ferramentas. Com o passar do tempo, com a maturidade, estando nos ambientes certos e fazendo muito trabalho nos bastidores, ela cresceu e se concentrou em usar esses pontos fortes da melhor maneira possível — afirmou Skinner.
Quando Carla Ward chegou ao Birmingham City como nova técnica em 2020, ela já tinha ouvido falar do adolescente Hampton, mas ainda buscava entender como ela pretendia se desenvolver em campo.

— Conversamos no primeiro dia. Eu queria saber onde ela queria estar. Cada um tem um talento diferente, mas ela nasceu para ser jogadora de futebol — afirmou Ward à BBC.
Dificuldades na carreira e adaptações
No processo de adaptação à nova função em campo, Hannah se viu diante da necessidade de reformular efetivamente a maneira como jogava — além da adequação ao estrabismo — para construir uma carreira no esporte.
— Tive muitas, muitas hemorragias nasais, muitos dedos quebrados. Eu tentava pegar [a bola] e ela batia no topo [da mão], foi aí que comecei a me adaptar porque estava farta — afirmou a jogadora ao iNews.
Depois da profissionalização no Birmingham City, onde viveu cinco temporadas com a equipe, Hannah foi transferida para o Aston Villa, na temporada 2021/22 e, atualmente, veste a camisa do Chelsea.
Mas apesar da trajetória em clubes ingleses, a principal característica, a qual a própria jogadora destaca, veio ainda nos primeiros passos, com o “estilo de jogo espanhol”, como ela mesma classifica.
— Quando penso nos meus pontos fortes como goleiro hoje em dia, um deles é a distribuição. A filosofia espanhola é de movimento constante, e isso realmente me ajudou muito como goleira. Os jogadores de futebol na Espanha usam os dois pés, é uma parte muito importante do jogo deles e, por isso, não tenho medo de usar os pés ou de jogar na defesa quando necessário — explicou Hannah em entrevista à Versus.

Mas quando Hampton revelou a extensão de sua condição ocular na mídia, a ex-companheira de Birmingham e da seleção inglesa, Ellen White, admitiu os impacto dos comentários a respeito da colega de equipe e como tentou ajudá-la a superar as críticas.
— As emoções tomavam conta dela com frequência, o que aconteceria com qualquer garota de 16 anos, e era uma questão de lidar com os altos e baixos. Você não vai evitar um gol todas as vezes. Lidar com as emoções exigiu tempo, experiência e compreensão. Tentei protegê-la um pouco e orientá-la. Naquela época, eu achava que ela seria uma ótima goleira, mas precisava de ajuda — relembrou White em entrevista à BBC.
Falando sobre aquela época, Hampton disse que as histórias eram “dolorosas”. Hannah revelou no podcast Fozcast que havia considerado desistir do futebol diante da repercussão da mídia sobre a sua condição.
— Era muito jovem quando todas essas histórias vieram à tona e não estava preparada para isso. Você não espera por isso. Houve momentos em que todas [no elenco] provavelmente pensaram que estavam em uma posição difícil, mas vocês ajudam uns aos outros a sair dela. Você não pode deixar todo o escrutínio da mídia vencer. Se fizer isso, só vai colocar mais lenha na fogueira, e eu não estava disposta a aceitar isso — revelou Hannah ao ex-goleiro Ben Foster.

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Consistência na seleção e defesa do título na Eurocopa 2025
O amadurecimento e a superação das dificuldades ao longo da carreira rendeu a Hannah o retorno à seleção inglesa. Hampton subiu na hierarquia da Inglaterra e foi convocada para a Eurocopa de 2022, ano em que a sua seleção conquistou o título em casa.
Pouco depois da conquista da Inglaterra do título europeu, Hannah ficou afastada da seleção inglesa e precisou esperar até março de 2023 para receber uma nova convocação.
Na ocasião, a técnica Sarina Wiegman anunciou o retorno da goleira e afirmou que Hampton havia “resolvido problemas pessoais”.
O retorno da jogadora aconteceu em um bom momento. A seleção disputava a Copa do Mundo na Austrália e Nova Zelândia, em uma campanha em que chegaram à final, ficando com o segundo lugar após perderem para a Espanha.

Capitã da seleção inglesa na estreia de Hampton, Ellen White declarou que acreditava que Hampton “só precisava de tempo” para amadurecer. De acordo com a ex-jogadora, o momento aconteceu sob o comando da ex-técnica do Chelsea, Emma Hayes, quando Hannah se juntou à equipe em 2023.
Com o retorno em definitivo à equipe nacional, Hannah Hampton disputa a Eurocopa Feminina de 2025 em uma nova circunstância: como goleira titular em definitivo, após o anúncio da aposentadoria da lendária Mary Earps.

Hampton, inclusive, já virou a chave e hoje passou a ser o presente da seleção inglesa, inspirando novas gerações. Próxima à sua ex-técnica Carla Ward, Hannah vive um momento de destaque em uma das seleções favoritas ao título.
— Não me surpreende o quão bem ela se saiu. Eu sempre soube que ela seria a número um da Inglaterra e acho que ela é uma das melhores que já vi — disse Ward em entrevista à rede BBC, após confirmar que sua filha gostaria de ter “Hampton” estampado nas costas de sua camisa.
Para além da seleção inglesa, Hannah Hampton vive uma nova fase, reforçada pela confiança refletida em um papel fundamental que tem desempenhado ao ajudar o Chelsea a conquistar uma tríplice coroa nacional invicta.
— Eu queria mostrar quem eu sou como pessoa e mostrar que isso nem sempre foi verdade. Pensei: ‘Simplesmente mergulhe’. Acho que posso dizer que provei que as pessoas estavam erradas. Tem sido um turbilhão. Será que eu, quando era jovem, achava que estaria sentada aqui agora, na posição em que estou? De jeito nenhum. Mas estou orgulhoso e ansioso pelos desafios que virão. Acho que será um verão de futebol muito emocionante — finalizou Hannah em entrevista à BBC Sports.



