Por que a NWSL alterou a política de aquecimento após jogo marcado por altas temperaturas e confusões por atrasos?
Partida sofreu atrasos devido às altas temperaturas nos Estados Unidos
A principal partida da National Women’s Soccer League (NWSL) nesta temporada entre Kansas City Current e Orlando Pride, realizada no sábado (16), enfrentou mais um descaso relacionado às políticas climáticas adotadas nas competições futebolísticas dos Estados Unidos.
Devido ao calor extremo em Kansas City, o início do jogo foi adiado em diversos momentos, chegando a ocorrer quase três horas e meia depois do previsto para iniciar. A partida foi disputada em meio a altas temperaturas e terminou empatada em 0 a 0.
De acordo com o veículo “The Kansas City Star”, pelo menos 16 pessoas foram tratadas por ferimentos relacionados ao calor no Estádio CPKC e uma pessoa foi levada para um hospital.
Mas os relatos dentro de campo também chamaram atenção. Segundo o técnico do Orlando Pride, Seb Hines, a situação deveria ter sido tratada de forma diferente, já que ambos os times tiveram que entrar em campo diversas vezes para se aquecer, com a prática também sendo realizada antes do início do jogo ser adiado mais uma vez.
— É brutal. Muita confusão e falta de comunicação também sobre quais seriam os próximos passos. Estava extremamente quente, quente demais para jogar. Gostaríamos que essa decisão tivesse sido tomada antes do aquecimento para que elas provavelmente pudessem se preparar um pouco melhor –, afirmou o treinador ao “The Guardian”.
O jornal “The Athletic” noticiou que a comissária da NWSL, Jessica Berman, negou um pedido feito ainda pela manhã por ambos os clubes para adiar a partida devido às altas temperaturas (já que o Serviço Nacional de Meteorologia havia emitido um alerta de calor para a região alguns dias antes), com receio de que o adiamento do jogo significasse a perda do horário de transmissão nacional no canal de tv americana CBS.

A reportagem do site “The Athletic” também informou que a comissária da liga ameaçou o Kansas City com uma multa pela forma como o clube lidou com o adiamento durante o jogo.
Contudo, as mudanças saíram das quatro linhas e passaram a englobar o regulamento da competição. Segundo apuração do “The Guardian”, a NWSL atualizou discretamente suas Regras e Regulamentos de Competição de 2025, de maneiras que podem ter afetado diretamente o andamento da partida.
A mudança mais significativa seria a eliminação de uma cláusula que determina o que deve acontecer se a temperatura no campo estiver um grau abaixo de 33,3 graus Celsius, o limite que automaticamente aciona o atraso da partida.
Nesse caso, a política costumava dizer que “caberá ao quarto árbitro, em conjunto com o médico da equipe do clube mandante, com o feedback da equipe médica visitante, das operações, dos árbitros e de ambas as comissões técnicas, tomar a decisão final sobre se e quando o jogo será permitido”.
A cláusula, entretanto, não está disponível atualmente no documento de política, pois ela está vinculada na página de regras e políticas da liga. Mas, de acordo com o “The Guardian”, quando a temperatura foi lida cerca de 45 minutos após o horário de início programado em Kansas City, ela marcou 33,22ºC — apenas 0,5 grau abaixo do limite.
O periódico pontuou que, se a cláusula mencionada na política, até então disponível publicamente, significava que qualquer temperatura um grau ou menos abaixo de 92,3º Fahrenheit (33,5º graus Celsius) — e não exatamente um grau abaixo do limite — dava liberdade aos oficiais no local, essa leitura estava dentro dessa faixa.

O “The Athletic” também relatou que fontes no estádio pensaram que a queda na temperatura era provavelmente o resultado de uma nuvem passando acima e que estavam confiantes de que a temperatura subiria novamente após a nuvem passar.
Ainda segundo o jornal, a equipe médica do Kansas City levou essa preocupação à Cindy Chang, diretora médica da NWSL, que esteve envolvida durante todo o atraso e concordou que uma segunda leitura da temperatura deveria ser feita.
Depois que uma segunda leitura foi realizada, a temperatura de 95,6 graus (35,33 ºC) foi registrada, o que desencadeou outro atraso. Então, segundo o jornal, a comissária da NWSL, Jessica Berman contatou os proprietários do Kansas City e ameaçou multar o clube por quebrar o protocolo.
Um porta-voz da liga disse ao “The Guardian” que, ao revisar o documento publicado no site da liga, notou-se que as mudanças anteriores feitas em 2023 na política oficial utilizada pelos clubes nas operações diárias não foram refletidas na versão disponível ao público. A liga não respondeu a uma pergunta sobre quando as discrepâncias foram notadas e corrigidas.
Meghann Burke, diretora executiva da Associação de Jogadores da NWSL, declarou ao jornal inglês que a organização não sabia que o texto havia sido removido e não concordou com sua remoção.
Mudanças no regulamento da NWSL sobre as temperaturas
No documento mais antigo, com exceção de uma ocasião, os limites de temperatura eram de 33,3°C, o que é consistente com o nível negociado pela Associação de Jogadores no acordo coletivo de trabalho de 2024.
Ainda de acordo com o jornal, outro limite de temperatura mencionado é de 34°C – provavelmente uma relíquia do primeiro acordo coletivo de trabalho (CBA) da liga e dos jogadores–, firmado em 2022, que tinha a temperatura número como limite.
O “The Guardian” alertou que o fato da versão mais antiga da política de 2025 ter se referido a um limite de 33,3°C várias vezes demonstrou que a liga de fato alterou grande parte dessa política de transparência em algum momento desde a ratificação do novo CBA em 2024.
Outra mudança entre a versão antiga e a nova da política de temperatura da liga dos Estados Unidos é o intervalo em que os médicos e árbitros são orientados a medir a temperatura em caso de atraso.
A política anterior previa que a temperatura de bulbo úmido (WBGT) — temperatura mais baixa que pode ser alcançada somente pela evaporação de água — deveria ser medida a cada 30 minutos após o início do atraso, enquanto a nova política reduz esse intervalo pela metade, para 15 minutos. A liga utilizou o último intervalo em Kansas City.
Em nota, a NWSL declarou que “a liga pretende realizar as partidas conforme o cronograma sempre que possível com segurança. Embora as previsões oriente o planejamento, nos baseamos principalmente em dados meteorológicos em tempo real, no local, para tomar decisões informadas, de acordo com nossas políticas e protocolos de clima inclemente. Com base nessas informações, a liga decidiu adiar a partida de sábado.”
Já o Orlando Pride e o Kansas City não se pronunciaram sobre o adiamento da partida.
A liga já havia sido criticada pela forma como lidou com questões relevantes para a saúde dos jogadores este ano. Entre os momentos que chamaram atenção, estava a partida em que Savy King desmaiou em campo durante o jogo entre Angel City e Utah Royals no dia 9 de maio.
Durante o incidente, a equipe médica ressuscitou a jogadora e a levou para um hospital, onde a atleta iniciou o processo de recuperação completa. A liga não encerrou nem adiou a partida, e a Associação de Jogadores logo condenou a decisão de continuar o jogo.
Outro episódio aconteceu na semana anterior ao jogo em Kansas City, quando o Seattle Reign jogou no Providence Park, em Portland. Na ocasião a técnica Laura Harvey disse que várias jogadoras sofreram queimaduras nos pés por causa do gramado quente.
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Calor também virou preocupação no Mundial de Clubes
As altas temperaturas se tornaram um grande problema para os Estados Unidos, que recebeu o Mundial de Clubes e se organiza para sediar a Copa do Mundo de 2026.
No Mundial de Clubes, equipes, principalmente europeias, criticaram a organização do torneio e ao calor excessivo que vêm acontecendo nas cidades palco da competição.
A competição ocorreu durante verão norte-americano, onde alguns jogos foram realizados com os termômetros marcando 37 °C, com a sensação térmica ultrapassando os 40 °C. Dentre os estados mais quentes que receberam partidas do Mundial estão Flórida, Califórnia, Carolina do Norte e Tennessee.
As altas temperaturas fizeram com que jogadores reclamassem sobre as condições dos jogos, e até mesmo tomassem algumas atitudes durante as partidas. No duelo entre Borussia Dortmund e Mamelodi Sundowns, em Cincinnati (Ohio), os termômetros marcaram os 32 °C, e os atletas suplentes do Dortmund permaneceram nos vestiários do TQL Stadium enquanto a partida acontecia.

Fifa tem plano para lidar com o calor extremo na Copa de 2026
A Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, México e Canadá deve passar por mudanças para amenizar as altas temperaturas durante as partidas. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que durante a competição do próximo ano estádios fechados com ar-condicionado serão utilizados o máximo possível durante as partidas realizadas no período da manhã.
Segundo o jornal “The Guardian”, Infantino informou que seria feito um melhor uso dos locais com ar-condicionado nas cidades de Atlanta, Dallas, Houston e Vancouver.
Para a Copa do Mundo de 2026 serão 16 sedes: 11 nos EUA, duas no Canadá e três no México. Dos locais citados, Vancouver tem as temperaturas médias mais baixas em junho e julho entre os locais fechados.
— O calor é definitivamente um problema no mundo todo. Lembro que foi o mesmo nas Olimpíadas de Paris e em outros jogos de futebol. Mas temos estádios cobertos nos Estados Unidos e um no Canadá, em Vancouver, e com certeza usaremos esses estádios mais durante o dia — declarou o dirigente.
Entretanto, a Fifa também precisará se programar para o fuso horário do Pacífico, vivido nos três países-sede. A condição pode trazer efeitos durante a realização e cobertura do Mundial.



