Campeonato Brasileiro Feminino

Em reestreia de Kleiton Lima pelo Santos, jogadoras protestam contra assédio

Kleiton Lima foi alvo de denúncias de assédio moral e sexual pelo elenco das Sereias da Vila na temporada passada

Na reestreia de Kleiton Lima à frente do Santos, em jogo válido pela quinta rodada do Brasileiro Feminino nesta sexta-feira (12), todas as jogadoras do Corinthians fizeram um protesto antes do apito inicial do clássico, colocando as mãos sobre a boca e os ouvidos. A manifestação acontece justamente na semana em que o treinador foi readmitido pelo clube da Baixada, sete meses após ter saído por ser alvo de denúncias anônimas de assédio moral e sexual.

A Trivela apurou que a organização do protesto ganhou força após a coletiva de apresentação de Kleiton, na última terça-feira (9), na qual a coordenadora Thaís Picarte usou o lugar de fala “como mulher” para garantir que os argumentos das denúncias foram “frágeis e trouxeram uma mancha ao Santos Futebol Clube”.

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Durante o pré-jogo do Clássico Alvinegro, o perfil oficial do Cruzeiro feminino também publicou um vídeo em protesto (assista abaixo). Mais cedo, atletas de Palmeiras e Avaí/Kindermann fizeram uma manifestação parecida durante a execução do hino nacional.

As Brabas venceram as Sereias por 3 a 1, com gols de Vic Albuquerque e Tamires. Ketlen balançou a rede pelo lado das Sereias. Com o resultado, o Corinthians segue com 100% de aproveitamento, na liderança absoluta da tabela com 15 ponyos. Enquanto isso, o Santos vai se aproximando da zona de rebaixamento da competição, com 4 pontos — o Flamengo é o primeiro time na zona da degola.

Atletas alegam “manipulação” do Santos

Na última quarta-feira (10), a reportagem da Trivela mostrou detalhes sobre o retorno de Kleiton, que havia sido pautado meses antes da demissão de seu antecessor, Bruno Silva, no início deste mês.

Atletas envolvidas nas denúncias, e contatadas pela reportagem, alegam ter sido silenciadas pela diretoria. Segundo os relatos, não houve respaldo para quem denunciou assédio sexual ou moral. Pelo contrário, elas analisam as atitudes da coordenação, conduzidas por Aline Xavi e Gallo, como “manipulação”.

— Eles nos silenciaram e agora estão nos desrespeitando com o retorno dele — afirmou uma das jogadoras entrevistadas, que denunciou o treinador por assédio sexual na ouvidoria do clube.

Corinthians e América-MG já protestaram no Brasileirão

Na goleada das Brabas do Timão sobre o América-MG por 4 a 1, no dia 21 de março, as atletas protagonizaram o primeiro protesto da temporada contra a violência de gênero.

— Antes do jogo de hoje, os dois times ajoelharam no gramado, com o punho erguido, em solidariedade à Ariane Falavinia, fisioterapeuta da Ferroviária, vitima de assédio na última partida da equipe no Campeonato Brasileiro, e também a todas as atletas que denunciaram abusos nesta semana, em matéria publicada pelo ge — informou a assessoria do clube no mês passado.

Em março, o ge publicou um levantamento feito com 209 jogadoras, em anonimato, de clubes das três divisões do Brasileiro, no qual 52,1% delas relatam terem sofrido algum tipo de assédio no futebol, seja sexual ou moral.

Acolhimento em casos de assédio

Segundo a Cartilha de Apuração de Assédio Sexual da Controladoria-Geral da União, os crimes desta natureza são de difícil comprovação, por envolverem pessoas em condição de vulnerabilidade e, muitas vezes, apenas o relato da vítima.

— Nos delitos de natureza sexual a palavra da ofendida, dada a clandestinidade da infração, assume preponderante importância, por ser a principal se não a única prova de que dispõe a acusação para demonstrar a responsabilidade do acusado — diz o trecho do TJSP RT 671/305-6.

Principalmente no assédio vertical descendente (praticado por superior contra subordinada) é comum que a vítima sofra retaliações no ambiente de trabalho em razão de sua denúncia.

O acolhimento das vítimas se faz necessário desde o primeiro momento, a fim de passar segurança e demonstrar que o trabalho correcional será conduzido de forma séria e respeitosa. Por fim, como diz a cartilha da CGU, a “investigação do assédio não pode ser mais traumática do que o assédio em si”.

Foto de Livia Camillo

Livia Camillo

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.
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