Campeonato Brasileiro Feminino

Brasileirão Feminino tem hepta do Corinthians, novos recordes e recado antes da Copa

Confronto entre Corinthians e Cruzeiro mostrou duas potências do futebol feminino brasileiro

O Corinthians conquistou o título do Brasileirão Feminino e defendeu a hegemonia construída ao longo de sete anos ao vencer o Cruzeiro por 1 a 0 (somando 3 a 2 no agregado), consagrando mais um trabalho exemplar para o futebol de mulheres.

A final da edição reforçou a perspectiva sobre os rumos que podem ser tomados no futebol feminino do país: o investimento. A final entre Corinthians e Cruzeiro foi tudo o que se esperava das duas equipes com as melhores campanhas do torneio: um duelo extremamente disputado e equilibrado entre as equipes, que chegou ao jogo de volta com a decisão em aberto.

Para além da hegemonia, o time também defendeu o tabu de nunca ter sido derrotado na Neo Química Arena. Em 25 disputas, o time venceu 23 vezes e empatou nos outros dois confrontos.

O primeiro tempo foi equilibrado. O Cruzeiro soube suportar a pressão das donas da casa em um jogo que parou bastante por causa da faltas. Apesar da maior posse de bola do Corinthians e o maior volume ofensivo, as chances mais claras de gol foram das cabulosas, que aproveitaram o contra-ataque e as bolas paradas.

A melhor chance das Cabulosas aconteceu os 34 minutos. Em jogada iniciada na cobrança de falta de Byanca Brasil, Gaby Soares aproveitou a sobra na área e bateu de canhota, explodindo a bola no travessão.

E não demorou para as Brabas retribuírem. Aos 41 minutos, após a cobrança de escanteio, Andressa Alves ficou com a sobra e cruzou na segunda trave para Gabi Zanotti desviar de cabeça, passando muito perto do gol.

Mas a segunda etapa foi implacável para o Corinthians. O time voltou do intervalo determinado a decidir o jogo. Em quatro minutos de pura pressão, a finalização de Duda Sampaio na entrada da área resultou na defesa de Camila Rodrigues e, na sobra, a bola ficou viva para Thaís Ferreira mandar para a rede e marcar o único gol da partida.

As modificações dos dois times resultaram em um jogo ainda mais intenso e com boas chances para as duas equipes, mas que não foram convertidas em novos gols.

O peso da decisão é proporcional ao investimento no esporte, mas também em campanhas de incentivo para a modalidade, no desenvolvimento interno, com profissionais voltados para a evolução dentro dos clubes e para os torcedores, princípio básico da divulgação, mas que é ignorado por muitos clubes brasileiros.

Mas é importante lembrar que por trás do jogo em si, há também uma história dos clubes, em uma trajetória que traz pinceladas de otimismo e manda um recado para o país que sediará a Copa do Mundo de 2027: há um público sedento pela modalidade e apelo ao futebol feminino nacional (especialmente quando se oferece melhor estrutura).

As Brabas do Timão e as Cabulosas se destacaram dentro e fora de campo na temporada de 2025. Longe das quatro linhas, novos números de torcedores nos estádios foram alcançados, reforçados pelas tão conhecidas caravanas, no caso das partidas como visitantes.

Em Minas Gerais, o Cruzeiro estabeleceu um recorde de público em uma partida de futebol feminino durante o primeiro jogo da final, levando 19.165 torcedores e superando as expectativas do próprio clube, que esperava 18 mil espectadores.

Torcida do Cruzeiro bate recorde mineiro de público no Brasileirão Feminino (Foto:  Alê Torres / Staff Images Woman / CBF)
Torcida do Cruzeiro bate recorde mineiro de público no Brasileirão Feminino (Foto:  Alê Torres / Staff Images Woman / CBF)

O feito se repetiu na partida entre as Cabulosas e o Palmeiras, na rodada anterior, quando disputaram as semifinais, que reuniu 13.533 pessoas. O número é mais que o dobro da última grande marca do estado na modalidade, ocorrida na final do Campeonato Mineiro de 2022, que registrou 7.829 torcedores.

As partidas, inclusive, somaram os dois maiores públicos da Arena Independência em 2025, superando a partida entre América-MG e Cruzeiro, no futebol masculino, que teve 6.004 pessoas.

Mas foi no jogo de volta que a Neo Química Arena foi palco de mais um momento histórico do Campeonato Brasileiro Feminino no país por parte de um time que soma os maiores recordes da modalidade nacionalmente. O estádio recebeu 41.130 pessoas, com a maior renda da história do futebol de mulheres no Brasil, somando R$ 1.237.699,00.

Para o confronto, além da grande massa alvinegra, que se fez presente ao longos dos anos e que acompanhou a trajetória do time no processo para se tornar a grande potência, houve também o apoio celeste — time em ascensão –, com direito à caravana bancada pelo presidente do clube, Pedro Lourenço.

Pedrinho, como é conhecido no meio, ofereceu três ônibus para transportar os cruzeirenses até São Paulo, com o objetivo de marcar presença na grande decisão. Inicialmente, a proposta era oferecer um coletivo de 45 lugares para a Desorganizada Cabulosa. A alta a demanda fez com que o dirigente estendesse a ação para outros dois grupos: China Azul e Comando Rasta.

torcida-cruzeiro-feminino
Torcida do Cruzeiro apoia time durante o Brasileirão Feminino (Foto: Gustavo Martins/ Cruzeiro)

Os encontros entre Corinthians e Cruzeiro

Os finalistas da edição de 2025 do Campeonato Brasileiro Feminino tiveram trajetórias distintas, onde se enfrentaram na caminhada rumo à decisão, dando um spoiler do que poderia se esperar das duas melhores equipes do torneio.

No primeiro duelo, na última rodada da primeira fase, deu Corinthians. Na vitória por 4 a 2, as Brabas encerraram o período de invencibilidade das celestes e registraram a única derrota das adversárias na competição.

A briga apertada pela primeira colocação se deu ao longo de toda a fase de grupos. Enquanto o Corinthians ocupou a vice-liderança com 34 pontos, o Cruzeiro esteve à frente com 36.

Com relação ao desempenho dos técnicos na temporada, os números também são próximos. Lucas Piccinato, das Brabas do Timão, somou 81,3% de aproveitamento ao longo dos 75 jogos, com 57 vitórias, 12 empates e 6 derrotas, enquanto Jonas Urias obteve 69,1% (54 partidas, com 34 vitórias, 10 empates e 10 derrotas).

cruzeiro-corinthians-jogo-ida-final-brasileirao-feminino
Cruzeiro e Corinthians durante jogo de ida da final do Campeonato Brasileiro de 2025 (Foto:  Alê Torres / Staff Images Woman / CBF)

A competitividade foi mantida pelas alvinegras, veteranas nas finais e detentoras de seis títulos nacionais, mas que viu uma disputa acirrada pelo título da competição.

Do outro lado, Urias deu uma nova cara ao Cruzeiro, mostrando a evolução do seu trabalho ao longo dos dois anos no comando do time, com os melhores frutos sendo colhidos após o investimento e trabalho a longo prazo.

Mas uma grande semelhança entre as equipes. Os clubes se destacam em um roteiro que vai além do campo, trazendo consigo o exemplo de como o futebol de mulheres tem apelo no Brasil. Ambos reforçam uma bandeira carregada ao longo dos últimos anos pelas Brabas do Timão, que acumularam recordes de público e títulos em toda a América do Sul.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

A campanha histórica do Cruzeiro

A campanha das celestes foi resultado de um projeto criado em 2019, com a diretora de futebol feminino Kin Saito, e reformulado após o clube se tornar SAF, passando pela gestão de Ronaldo até chegar em Pedro Lourenço, que deu continuidade a uma reestruturação do departamento.

O processo passou por mudanças necessárias para se adaptar aos momentos vividos pelo clube para que, seis anos depois, pudesse colher os frutos do que um dia ainda era sonho, especialmente para quem sempre acreditou na modalidade na celeste.

Foi, de fato, um ano coroado para as Cabulosas. Chegaram à semifinal da Supercopa do Brasil, fizeram o melhor primeiro turno do Brasileirão (superando a última temporada, onde ficaram na quinta colocação) e garantiram a vaga na Libertadores de 2026.

departamento-futebol-feminino-cruzeiro
Cruzeiro faz arte em homenagem ao Departamento de Futebol Feminino das Cabulosas (Foto: Foto: Gustavo Martins/ Cruzeiro)

Vaga esta sonhada pela gestão, que hoje é liderada pela diretora de futebol feminino do clube, Bárbara Fonseca, em uma parceria duradoura com o técnico Jonas Urias, além da comissão técnica e dos profissionais que fizeram parte da trajetória.

Nesse meio tempo, a folha salarial das atletas aumentou em 50%, além de ter aumentado expressivamente o investimento na modalidade, com R$ 15 milhões, valor que é o dobro em relação ao ano anterior.

E, seguindo a linha do planejamento prometidas por Pedro Lourenço, o clube manteve a base do elenco passado, com exceção da chegada dos importantes reforços Isa Haas e Letícia Ferreira.

— O mercado está muito competitivo e cada vez mais os clubes podem remunerar melhor as suas atletas porque passa a ser um produto rentável, passa a ter entrada de receita, venda de ativos, patrocinadores. Então, era necessário que a gente tivesse um escopo financeiro para ter uma equipe competitiva. Não teve sucateamento. Fechar a primeira fase do Brasileirão em primeiro lugar diz muito sobre como essa versão [de não investir] não condiz com a realidade — afirmou Bárbara Fonseca em matéria para a Trivela.  

Brasileirão Feminino de 2025 e aumento da competitividade

Durante o Brasileirão Feminino, houve também uma pincelada de otimismo ao mostrar que, diferente de edições anteriores, foi possível notar a evolução de parte dos clubes. O Bahia, por exemplo, vive uma crescente na modalidade e passou a conquistar feitos inéditos, desde a implementação da SAF.

Nesta edição do torneio, as Mulheres de Aço se classificaram para as quartas de final, tornando-se a primeira equipe do Nordeste a conseguir o feito no atual formato.

Já o São Paulo trouxe um elenco com peças que se destacaram ao longo do torneio. Dudinha, por exemplo, não apenas se destacou durante as convocações pela seleção brasileira como recebeu uma proposta do San Diego Wave, dos Estados Unidos, e foi transferida para a NWSL antes mesmo do fim da competição nacional.

As Palestrinas tiveram Amanda Gutierrez, artilheira do Brasileirão a seu favor, e provocaram disputas acirradas com as próprias Cabulosas. Já a Ferroviária, referência na modalidade, precisou passar por mudanças ao longo do processo para se recuperar.

Por fim, o Flamengo escalou a tabela e viu a melhora de jogo com a chegada de Rosana Augusto. Em resumo: O Campeonato Brasileiro de 2025 teve, de fato, um novo nível de competitividade.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo