Futebol feminino

Cruzeiro abre as portas do feminino, um projeto que precisa ser referência no Brasil

O Cruzeiro Feminino saiu do zero para um projeto referência em profissionalismo, integração e cuidado com suas atletas; imprensa conheceu mais do projeto nessa quarta (7)

O Cruzeiro abriu as portas do Toca da Raposa 2, Centro de Treinamento do clube, nessa quarta (7), para que a imprensa pudesse acompanhar o treinamento de seu time feminino. Além disso, a diretora de futebol, Kin Saito, e a coordenadora de futebol, Bárbara Fonseca, fizeram pronunciamento e apresentaram o projeto do clube, antes de concederem entrevista coletiva. Quem também respondeu perguntas dos jornalistas foi o treinador da equipe, Jonas Urias, e as atletas Camila Ambrózio e Byanca Brasil.

O dia começou com a possibilidade dos jornalistas acompanharem parte do treinamento das meninas. Elas fizeram um trabalho de bolas paradas, ofensivas e defensivas. Chamou a atenção a entrega das garotas, que celebravam e lamentavam cada lance como se fosse num jogo oficial. Foram cerca de 30 minutos de trabalho em frente aos olhares da imprensa.

Em seguida, todos foram chamados à sala de imprensa do Cruzeiro, onde Kin Saito e Bárbara Fonseca fizeram uma apresentação, mostrando a trajetória do futebol feminino desde a chegada da SAF ao clube celeste. Dentre os destaques, podemos citar a evolução esportiva da equipe, que saiu da Série A2 do Brasileirão, em 2022, para estar entre as oito melhores da edição em 2024.

O projeto do Cruzeiro Feminino

Além disso, depois de precisar contratar 28 atletas no início do projeto, o Cruzeiro pôde manter 20 jogadoras do elenco de 2023 para 2024, se reforçando com mais seis atletas, algumas delas estrangeiras.

Outro fato comemorado foi a estruturação do departamento feminino, que passou de oito profissionais para 18, com psicóloga, fisiologista e aparatos tecnológicos de ponta. A integração das meninas com outras modalidades, como profissional e base, também é algo que mudou. Antes da reformulação, as meninas utilizavam uma estrutura externa terceirizada para treinar e hoje os trabalhos se dividem, meio a meio, entre Toca da Raposa I e Toca da Raposa II.

— Nosso objetivo é ir além das metas, solidificar a credibilidade desportiva do projeto, consolidar o Cruzeiro no cenário estadual e reapresentar as Cabulosas no cenário nacional. A cada ano o orçamento foi ampliado desde a chegada da SAF. Isso impacta a folha (de pagamento) de atletas, comissão técnica e investimentos de ordem operacional, logística, rotina. Mais investimento a cada ano — contou Kin Saito.

Bárbara Fonseca acredita que o projeto do futebol feminino do Cruzeiro é diferenciado pelas vivências de quem está à frente da SAF, caso de Ronaldo Nazário, Gabriel Lima e Pedro Martins. Segundo ela, pela trajetória do trio, dentro e fora do Brasil, um feminino forte e profissional é algo natural.

Cruzeiro Feminino terá categoria de base

Outra revelação importante foi a confirmação que o Cruzeiro terá uma categoria de base do futebol feminino. Que o projeto já existe, mas que depende de alguns fatores ainda em andamento para começar, de fato. Kin prometeu novas informações em breve. Mas foi confirmado que Jonas Urias, que concedeu entrevista exclusiva para a Trivela, irá participar da montagem da equipe.

Onde o Cruzeiro vai jogar em 2024?

Kin Saito contou que, assim como em 2023, o Cruzeiro seguirá jogando em diversas praças em 2024, sem uma casa fixa. Segundo ela, num mundo ideal, o time atuaria em algum estádio, com uma taxa média de público presente em todas as ocasiões, mas essa não é a realidade. Então a ideia é levar a equipe para diversas localidades.

O Profissionalismo do Cruzeiro Feminino

Após a coletiva de Bárbara e Kin, foi a vez do treinador da equipe, Jonas Urias — que concedeu entrevista exclusiva para a Trivela —, e as atletas Camila Ambrózio e Byanca Brasil, responderem. Apesar da timidez de Camila, o trio parecia muito entrosado e o respeito, carinho e admiração entre as partes era visível, algo bonito de se presenciar.

Jonas Urias contou que além de entregar resultados cada vez melhores, pretende colocar as Cabulosas para jogar com a identidade do Cruzeiro. Que o mesmo estilo definido por Ronaldo para o masculino, um time ofensivo, intenso, que busca o jogo, será cobrado no feminino. De acordo com o treinador, a ideia é que quem veja as meninas atuarem reconheça o DNA da Raposa no jogo delas, que seja algo que se diferencia do comum.

Urias ainda contou que seu dia a dia no Cruzeiro tem sido de aprendizado diário. Segundo ele, treinar um clube é muito diferente de treinar uma seleção, onde passou os últimos quatro anos. Ele comandou o sub-20 do Brasil.

E mais que tudo que foi dito, o treinador afirmou que seu grande objetivo é que o Cruzeiro Feminino seja um lugar de amor. Ele espera que quem fique ou deixe o clube ao final do ano veja 2024 como uma experiência positiva, que valeu a pena.

Entre batalhas e conquistas: Jonas Urias abre jogo sobre o projeto do Cruzeiro Feminino

Jogadoras costumam duvidar do que é apresentado à elas

Em determinado momento de sua coletiva, Bárbara Fonseca fez uma revelação impressionante. Segundo ela, quando as garotas são procuradas pelo Cruzeiro e escutam o projeto, costumam duvidar do que lhes é falado, pois não é comum na vida das jogadoras de futebol um projeto que as trata de forma respeitosa e profissional.

Essa situação foi confirmada pela própria Byanca Brasil, que contou que “ficou com o pé atrás” ao ser convidada a participar do projeto celeste. Ela não acreditou que um clube pudesse oferecer tudo aquilo para uma jogadora e se impressionou com a transparência que foi passada acerca daquilo que a Raposa não poderia dar. A atacante hoje está totalmente integrada ao Cruzeiro e costuma servir como ponte na contratação de novas atletas para a equipe. A camisa 10 ressaltou que tudo que lhe foi prometido foi cumprido.

Byanca ressaltou, ainda, que a estrutura oferecida pelo Cruzeiro é primordial na evolução das atletas. Segundo ela, nunca esteve tão bem fisicamente.

Apesar de o Cruzeiro ter suas armas no mercado, o clube sofre com o calendário reduzido do futebol mineiro, bem mais reduzido que o paulista, por exemplo, e trabalha dentro de uma responsabilidade financeira, sem entrar nos leilões que acontecem também no feminino.

Byanca Brasil esbanjou carisma na coletiva, mas falou sério quando preciso, trazendo algumas experiências ruins que passou noutros clubes
Byanca Brasil esbanjou carisma na coletiva, mas falou sério quando preciso, trazendo algumas experiências ruins que passou noutros clubes – Foto: Gustavo Martins

Liberdade de ser quem é X preconceito

Byanca Brasil ainda celebrou a liberdade de ser quem ela é no Cruzeiro. Ativista dos direitos LGBTQIAP+, a jogadora ficou marcada pelas tranças na cor do arco-íris que utilizou na final do Campeonato Mineiro de 2023 e por celebrar seu gol levantando a bandeira da causa, que foi colocada na bandeirinha de escanteio. Segundo ela, a atitude foi “liberada” por Kin Saito, mesmo com o risco da advertência por cartão amarelo.

Ainda assim, Byanca afirmou que o preconceito sofrido é diário e vem de muito tempo, em toda sua trajetória, não só de rivais, mas dos próprios torcedores dos clubes que defendeu, incluindo do Cruzeiro. A jogadora fez um pedido, dizendo que antes de criticar, que assistam, acompanhem, para aí sim o fazer, algo que não acontece atualmente. As críticas normalmente vem de quem não conhece, não acompanha, e, mesmo assim, ataca.

— Sim, a gente sofre preconceito, desde dentro da família… mas a gente vem numa crescente, se está havendo esse preconceito da torcida adversário ou não, é porque eles estão começando a olhar. Primeiro olhar, dar essa audiência, pra depois cobrar alguma coisa — disse Brasil.

— Não sofri (preconceito) diretamente (por trabalhar com o futebol feminino), mas presenciei ataques à modalidade inúmeras vezes. Procuro sempre ser assim, uma pessoa que vai contra-atacar, com unhas e dentes, que as pessoas que tem preconceito não imaginam a grandeza dessas mulheres. É o preconceito estrutural — acrescentou Jonas Urias.

Mas apesar das experiências ruins existirem, Byanca já se sente parte da Nação Azul, assim como Camila Ambrózio, que ressaltam o amor e o carinho que recebem dos cruzeirenses. Para Camila, “ser Cabulosa é ser amada”.

— Nunca me senti tanto em casa e tão reconhecida num clube. A torcida sente isso. A camisa é minha armadura. Me sinto bem e almejo fazer história no Cruzeiro. Quero ganhar títulos e inspirar as meninas que virão para a base — afirmou Byanca Brasil.

Foto de Maic Costa

Maic CostaSetorista

Maic Costa é mineiro, formado em Jornalismo na UFOP, em 2019. Passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas, antes de se tornar setorista do Cruzeiro na Trivela.
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