Mata-mata do Brasileirão Feminino começa com feitos inéditos e hegemonia em cheque
Cruzeiro desbancou Corinthians na primeira fase e time nordestino se classifica para o mata-mata pela primeira vez
O mata-mata do Brasileirão Feminino de 2025 começa neste final de semana após uma primeira fase que trouxe mudanças a serem observadas. Entre elas, a interrupção (até o momento) da dominância construída pela potência nacional da modalidade nos últimos anos, o Corinthians.
Desta vez, quem colhe os frutos dos investimentos feitos e de um trabalho a longo prazo de destaque é o Cruzeiro, que encerrou a primeira fase da competição na liderança e com apenas uma derrota, justamente contra as Brabas do Timão.
Essa é a primeira vez que o clube termina a primeira fase do Campeonato Brasileiro Feminino ocupando o 1º lugar, coroando o trabalho feito pela gestão e comissão técnica, que tem como treinador Jonas Urias desde 2023.
— No começo do campeonato, tinham vitórias, algumas delas mais choradas porque ele ainda estava buscando encontrar esse equilíbrio. É um time que tem consistência, tem ideia, tem plano de jogo. É um elenco em que o treinador pode rodar uma peça ou outra e a equipe não perde muito a identidade. Então, é uma equipe que está materializando aquele potencial que a gente já estava vendo desde a temporada passada– explica a jornalista e comentarista Amanda Viana.
Apesar da consistência na competição, a gerente de futebol feminino do Cruzeiro, Bárbara Fonseca, valoriza a disputa acirrada das equipes na competição e a valorização do campeonato com o fim da hegemonia do Corinthians.
— O tanto de construção que acontece de uma temporada para a outra. Muita coisa pode acontecer, ainda mais com os investimentos no futebol feminino. Quando você fala de uma hegemonia do Corinthians, isso não valorizava o produto [Campeonato Brasileiro]. Mas essa roda gigante começou a rodar e é muito natural que a gente consiga ter cada ver mais veloz essa dança das cadeiras dos clubes –, afirmou Bárbara.
O crescimento das Cabulosas, como é conhecida a equipe feminina do Cruzeiro, também acendeu um alerta na dirigente. Isso porque, em meio aos resultados positivos, Bárbara busca encontrar caminhos para permanecer entre os principais clubes no cenário nacional a longo prazo.
Para você se consolidar e permanecer no topo acho que é muito mais difícil do que chegar no topo. Isso passa pelas minhas preocupações porque nós subimos o sarrafo, mas como vamos nos manter aqui? É um grande desafio, muito mais do que chegar, ainda mais nesse cenário de maior competitividade. A gente tem tudo para viver grandes campeonatos daqui para frente — completa Bárbara.

Por outro lado, há um duelo extremamente concorrido contra o Corinthians. Apesar da equipe continuar com sua força e ser uma das favoritas ao título, desde que o mata-mata na segunda fase da competição passou a acontecer, essa foi apenas a segunda vez que as Brabas do Timão terminaram em segundo lugar na classificação do primeiro turno, a última vez foi em 2022.
— O fora do comum é o Corinthians ganhar essa quantidade de títulos dos últimos anos. É natural que a torcida cobre, mas é um processo natural. Qualquer treinador que assumisse depois do Arthur Elias passaria por isso em algum momento. Além disso, as outras equipes também estão crescendo, se reforçando. Mas o Corinthians, no âmbito esportivo, é forte e continua sendo competitivo — avaliou o jornalista e comentarista Rafael Alves.
Nordeste com conquista inédita no Brasileirão
Com um projeto de investimento no futebol feminino, o Bahia vive uma ascensão da modalidade no clube e passou a conquistar feitos inéditos, desde a implementação da SAF.
No Brasileirão de 2025, as Mulheres de Aço se classificaram para as quartas de final, tornando-se a primeira equipe do Nordeste a conseguir o feito no atual formato, destacando o trabalho do treinador Felipe Freitas.
Em 2024, o clube foi o campeão da Série A2 e, desde então, iniciou uma sequência de mudanças esperadas para uma equipe disposta, ao menos, a permanecer na elite nacional: se profissionalizou, trouxe novas jogadoras, ofereceu melhor estrutura e mudou a comissão técnica. O resultado rendeu ao Bahia uma lista com oito atletas convocadas para seleções nacionais e internacionais.
— Acho que a diferença entre Bahia e Sport está justamente na forma como o elenco foi montado, a forma como colocou experiência e qualidade dentro do grupo para que o Bahia tivesse, sim, esse potencial para que primeiro conseguisse a permanência. Foi um começo tão positivo que o Bahia começou a sonhar. O Bahia aproveitou as suas chances e montou uma equipe pensando na permanência sem sofrer –, avalia Amanda.

O Bahia é o sexto time a garantir a classificação no ano em que sobe. Não é à toa. É um projeto que está sendo feito aos poucos. O clube já tem reconhecido a integração do futebol de mulheres com a realidade do futebol dos homens. O Bahia finca um espaço no futebol brasileiro no qual ele coloca em definitivo o Nordeste de fato entre os grandes times, claro, se o projeto for respeitado e aumentado — afirma Rafael Alves.
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Mudanças no G-8 ativam curiosidade para retorno
- Ferroviária: novo técnico e reforço no elenco
A Ferroviária passou por um processo de autoavaliação durante a pausa do Campeonato Brasileiro. Após terminar a primeira fase, as Guerreiras Grenás se despediram da técnica Jéssica Lima, treinadora mais longeva no futebol feminino, com quem trabalhavam desde 2022 e estava prestes a completar 100 jogos com o clube.
Jéssica conquistou o título do Paulistão, em 2023, e chegou a ocupar a liderança do Brasileirão nesta edição durante as duas primeiras rodadas, mas passou a oscilar na competição encerrando a primeira fase na sexta colocação.
Para o lugar da técnica, a Locomotiva anunciou o retorno de Léo Mendes após 15 anos. O treinador assumiu o comando da equipe feminina pela primeira vez em 2014, ano de destaque em que as Guerreiras Grenás conquistaram a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro.
No ano seguinte, Mendes também fez parte da campanha do título da Libertadores. O técnico acumula passagem pela equipe masculina do clube, com experiência nas categorias de base e como técnico interino do elenco principal.

Além das mudanças no comando da equipe, a Ferroviária também investiu em reforços. O clube anunciou a contratação da atacante Sissi, de 27 anos, que estava no Braga, de Portugal. O contrato segue até 2027.
A jogadora teve a sua formação na base do Flamengo, com passagens pelo São José, Vitória das Tabocas, Taubaté e 3B, e acumula experiência no futebol internacional, onde também defendeu o clube português Famalicão e o Changchun Dazhong, da China.
Outro reforço anunciado pela Locomotiva foi a volante Kaylane Melo. A jogadora de 22 anos atuava pelo Flamengo desde 2020 e teve passagens pelas categorias sub-17 e sub-20 do Vasco. Sem oportunidade de entrar em campo pelo rubro-negro nesta temporada, Kaylane firmou acordo com a Ferroviária até dezembro de 2026.
— A Ferroviária está na geografia do time feminino e, de certo modo, acho até que ela é subestimada em algumas situações. A Ferroviária sai de uma primeira metade em uma disputa acirrada com o Cruzeiro, com seis vitórias em sete jogos, para na reta final da primeira fase ter apenas uma vitória. A expectativa que se tinha era de que teríamos uma Ferroviária para bater de frente com o Corinthians e, por uma série de fatores, a equipe teve uma sequência muito ruim — comenta Rafael Alves.
- São Paulo: Sem Dudinha e possível saída do técnico
O São Paulo retornará ao Brasileirão com o elenco modificado e precisando entrar no mercado em busca de reforços antes do esperado. Uma das joias do futebol feminino nacional, Dudinha – que ganhou ainda mais destaque nos amistosos da seleção e resultou na convocação para a Copa América – foi anunciada pelo San Diego Wave, da Califórnia, e disputará a National Women’s Soccer League (NWSL), a principal liga dos Estados Unidos.
Outra atleta que deve deixar o time é a zagueira Kaká (também convocada para a Copa América), com uma proposta do exterior, de acordo com o Lance!. Contudo, o São Paulo informou que tem interesse em manter a jogadora no elenco. O vínculo entre Kaká e o tricolor paulista segue até o final deste ano.

A reformulação no elenco deve contar com a baixa de cinco jogadoras, que teriam saídas encaminhadas para clubes da primeira divisão dos Estados Unidos. Há também possível transferência para a Europa, como o caso da atacante Day Silva, que, segundo o Lance!, recebeu uma proposta da Juventus.
Outro alvo do mercado foi o técnico Thiago Viana, que entrou na mira do Palmeiras para a próxima temporada. O Verdão busca um novo comandante, já que a atual treinadora Camilla Orlando assumiu a seleção brasileira sub-20 e deixará o clube paulista ao fim de 2025.
Em meio ao agitado momento de negociações, o São Paulo disputa a terceira colocação da The Women’s Cup. O duelo será contra o Pachuca, do México, na próxima quinta-feira (24), às 17h.
- Palmeiras: Camilla Orlando rumo à seleção sub-20 e busca por técnico do São Paulo
Apesar da pausa no Brasileirão devido à Copa América, o elenco do Palmeiras não teve férias. As palestrinas participaram da disputa da The Women’s Cup, onde garantiram vaga na final após vencer o Pachuca, do México.
Fora dos gramados, o Verdão já se movimenta no mercado com a iminente saída de Camilla Orlando, em busca de novas opções para o cargo. Em meio aos torneios e planos para a próxima temporada, o clube anunciou a lateral-esquerda Emilly Assis, de 23 anos.
A jogadora retorna ao Brasil após passagem pelo Madrid CFF, da Espanha, e soma passagens nas categorias principais da Chapecoense, São Paulo, Botafogo, Atlético-MG e Red Bull Bragantino.
Pela seleção brasileira, atuou na categoria sub-17, onde chegou a disputar o Mundial ainda em 2018. A lateral também foi convocada por Arthur Elias para um período de treinos na Seleção principal antes dos Jogos de Paris, em 2024, mas não embarcou com a canarinha para as olimpíadas.
- Flamengo se recupera com Rosana Augusto
O Flamengo iniciou a campanha no Brasileirão com oscilações, mas viu os resultados melhorarem com a chegada de Rosana Augusto para o comando da equipe no mês de abril, substituindo Maurício Salgado.
Rosana se tornou a primeira mulher a se tornar técnica da equipe feminina rubro-negra e, na época em que assumiu, o clube ocupava a nona colocação no campeonato.
Com a treinadora, o Flamengo emendou um período importante de invencibilidade, onde somou sete vitórias e dois empates, até chegar a derrota para o Corinthians na última rodada antes do intervalo do torneio para a Copa América.
Os resultados fizeram com que a equipe rubro-negra conseguisse a classificação para o mata-mata de forma antecipada, com três rodadas de antecedência, e encerrando a primeira fase do torneio na quinta colocação. O feito já superou a temporada de 2024, onde as Meninas da Gávea ficaram fora da fase eliminatória.
— Se você falasse do Flamengo em março ou em abril, mas esse Flamengo da Rosana não é exagero falar é postulante ao título. Acho que em um grau abaixo, mas é um time que pode entrar forte — avalia Rafael Alves.

- Red Bull Bragantino reforça elenco em busca de recuperação
A primeira fase de resultados extremamente divididos no Campeonato Brasileiro rendeu ao RB Bragantino o investimento em reforços no intervalo do Brasileirão durante a Copa América.
Até o momento, o Massa Bruta já anunciou a contratação da atacante argentina Martina Del Trecco, de 23 anos, que estava no DUX Logroño, da Espanha; a meio-campista Laurinha, que pertence à Ferroviária; e a atacante Gaby Santos, que estava no Palmeiras.
A equipe somou cinco empates, cinco vitórias e cinco derrotas na primeira fase da competição, ocupando a oitava colocação. No retorno do torneio, enfrentará o atual líder do campeonato, o Cruzeiro.
Para esta temporada, o técnico Humberto Simão — que está no clube desde 2023 –, pode conquistar outro feito inédito, caso avance às semifinais da competição. Isso porque, em 2024, o Bragantino chegou à fase de mata-mata pela primeira vez.
Depois da ascensão, a queda…
Para 2025, a CBF implementou um novo regulamento, onde apenas dois clubes são rebaixados e quatro sobem de divisão. A alteração aconteceu como plano da entidade para que, em 2027 (ano da Copa do Mundo Feminina no Brasil), vinte equipes estejam disputando a Série A1. Sport e 3B conquistaram acesso em 2024, mas não conseguiram permanecer na elite nacional.
— Eu não acho que estamos prontos para ter vinte clubes na elite nacional porque a gente precisaria ter garantia de que todos eles tivessem o cuidado com o futebol feminino, que realmente tivesse uma estrutura legal para as jogadoras. A gente tem sempre ao menos quatro equipes no campeonato que competem menos no sentido de nível. Não falo nem de vontade, de empenho, até porque eu não acho que falte isso em nenhuma equipe. Mas eu acho que falta fiscalização por parte da CBF. Não adianta você querer aumentar o número de times na sua principal competição se você não está tornando ela ideal para ser vista ou jogada — reforça Amanda.

Há uma distância de nível da Série A2 para a Série A1. Então, não adianta uma equipe subir de divisão e achar que com o mesmo elenco que ela conseguiu sucesso na Série A2 ela vai conseguir sucesso na Série A1, porque há uma diferença de nível, na série de jogos de exigências dentro dos jogos, a questão das viagens também pesa muito e isso é um desafio para as equipes do Norte e Nordeste porque a maioria dos jogos está no Sul e Sudeste.
No caso das Leoas da Ilha, a equipe chegou a contratar 12 reforços durante o Brasileirão, mas foi derrotada em 12 dos 15 jogos, empatando as outras três partidas, encerrando o ciclo como a única equipe a não vencer na competição.
— No início da temporada a gente já olhava e falava: o Sport é um grande favorito a ser rebaixado, olhando para o elenco, mas eu confesso que me surpreendi com a forma com que o Sport conseguiu competir nesse campeonato. Vendeu caro alguns jogos, claro que existiram algumas goleadas, mas conseguiu empates contra equipes mais poderosas do que ele no momento. É lógico que quando a gente olha para times que sobem de divisão, o ideal seria que você conseguisse permanecer e não ser aquele time ioiô, e isso acaba sendo frequente, infelizmente — esclarece Amanda.
O rebaixamento custou o cargo da treinadora Regiane Santos, que estava à frente da equipe rubro-negra há três anos. A treinadora assumiu o clube pernambucano em 2022, quando as Leoas disputavam a Série A3. Durante o período, Regi conquistou dois acessos (2022 e 2024) e três títulos estaduais (2022, 2023 e 2024).

Já o 3B vive uma realidade diferente. Considerado pelo presidente Bosco Brasil como uma equipe amadora, o time cogitou não participar da Série A1 devido às dificuldades apresentadas para desenvolver a equipe feminina.
— Nosso time é um clube amador, eu não assino carteira, o meu contrato é durante o campeonato. Na verdade, nós não íamos entrar por todas essas dificuldades. Botamos um time em cima da hora, nos apresentamos depois de todo mundo, inclusive, nós desistimos da Supercopa e o meu pensamento era brigar para não cair. Infelizmente não aconteceu, mas a realidade do futebol feminino é essa hoje. Todas as jogadoras fazem um contrato longos, assinam carteira. Infelizmente, o 3B, sendo um clube amador, não pode brigar no mesmo nível que o time de camisa — afirmou Bosco em entrevista ao “ge”.
Para além das dificuldades estruturais e de investimento, a ausência de projeto também influenciou nos resultados em campo. O 3B viu o comando da equipe mudar em um curto espaço de tempo.
O técnico Roberto Neves, que havia começado no Brasileiro, foi dispensado no início do mês de abril. Em seguida, Paulo Morgado foi contratado para suceder Neves, mas chegou a ser demitido vinte dias depois. Ao fim da temporada, o próprio presidente assumiu como treinador do 3B.
— Diferentemente do Sport, vimos o 3B buscar algumas peças com experiência em Série A1, mas isso não foi o suficiente para tornar o elenco competitivo e equilibrado. Investimento abaixo da média dos outros competidores, falta de profundidade e maior nível do elenco (nível consistente de impactos, além da instabilidade no comando técnico explicam um pouco esse cenário –, descreve Amanda.
O que esperar da volta do Brasileirão Feminino

O Brasileirão teve uma pausa para a disputa da Copa América e retorna neste fim de semana para a disputa do mata-mata que consagrará a campeão da edição 2025.
E é exatamente neste cenário que as apostas pelo que pode acontecer na fase decisiva da competição seguem incertas. Ao longo do intervalo da competição Sport, Ferroviária, Palmeiras e São Paulo registraram mudanças não apenas no comando das equipes, mas também no elenco.
O retorno da competição, por todas as mudanças nos elencos, mostra um cenário ainda imprevisível. A fase de mata-mata, logo após um intervalo extenso, deixa a aposta pelo título ainda em aberto e, caberá à postura das equipes após retorno, uma pista de quem serão as campeãs do Brasileirão nesta temporada.
— Essa disputa acirrada, eu sinto que ela já vem dos últimos anos. No ano passado, eu já via um Brasileirão mais equilibrado na faixa dos oito primeiros colocados, e sinto que isso se manteve para esse ano. Esse equilíbrio entre as equipes, especialmente a partir do 12º colocado para cima, não me surpreende. Acho que tem sido um padrão que a gente já está vendo nos últimos anos — declara Amanda Viana.
Quartas de final do Campeonato Brasileiro Feminino
Jogos de ida
Sábado, 9 de agosto
15h30 – Ferroviária x São Paulo – Fonte Luminosa
18h – Bahia x Corinthians – Batistão (Aracaju)
Domingo, 10 de agosto
10h30 – Red Bull Bragantino x Cruzeiro – Canindé (São Paulo)
10h30 – Flamengo x Palmeiras – Volta Redonda
Jogos de volta
Sexta, 15 de agosto
21h – Corinthians x Bahia – Pacaembu
Sábado, 16 de agosto
16h – São Paulo x Ferroviária – Morumbis
Domingo, 17 de agosto
10h30 – Cruzeiro x Red Bull Bragantino – Independência (Belo Horizonte)
10h30 – Palmeiras x Flamengo – Arena Barueri



