Futebol feminino

Investimento e trabalho a longo prazo: O que está por trás do sucesso do Cruzeiro feminino

Diretora da Raposa revela importantes investimentos no futebol feminino e mira conquistas internacionais

A reformulação construída no futebol feminino do Cruzeiro pode ser vista nos resultados demonstrados durante campanha que resultou na liderança da primeira fase do Brasileirão Feminino de 2025.

As Cabulosas colhem os frutos de um investimento crescente em conjunto com o planejamento e o trabalho a longo prazo, que atingiu o seu maior direcionamento durante os processos de SAF da equipe mineira.

Em conversa com a Trivela, a diretora de futebol feminino, Bárbara Fonseca, revelou o planejamento da estruturação do departamento ao longo dos anos e a ideia.

Bárbara Fonseca, diretora de futebol feminino do Cruzeiro (Foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)
Bárbara Fonseca, diretora de futebol feminino do Cruzeiro (Foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)

Até chegar 2022, quando o Cruzeiro foi vendido à Sociedade Anônima de Futebol de Ronaldo Fenômeno, diferentes caminhos foram traçados dentro do clube, com a reativação do departamento de futebol feminino, em 2019, que esbarrava na falta de interesse por parte dos dirigentes no desenvolvimento da modalidade.

Departamento esse que teve o seu projeto iniciado com Kin Saito, agora na Federação Paulista de Futebol (FPF), passando por Ronaldo Fenômeno e, especialmente, Bárbara Fonseca, até chegar na gestão de Pedro Lourenço, atual dono da SAF.

— A gente chega em 2019 e o futebol feminino é visto para cumprir obrigatoriedade, então no Cruzeiro não foi diferente. Esse foi o cenário que a gente se deparou e que, de uma maneira, naquela situação, a gente consegue subir para a primeira divisão, chega a ser finalista e conquista o Campeonato Mineiro — relembra a diretora de futebol feminino, Bárbara Fonseca.  

Só que, naquele ano, acontece uma crise financeira, metodológica e obviamente impactou o futebol feminino, que estava ali no seu primeiro ano, tentando conquistar o seu espaço. Foi quem mais sofreu porque teve que abrir mão das categorias de base. Então as coisas foram se desenhando de uma maneira muito mais difícil. Tudo que a gente estabeleceu como meta, a gente precisou revisitar.

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Cruzeiro é campeão do Campeonato Mineiro Feminino de 2019 (Foto: Vinnicius Silva / Cruzeiro)

De acordo com a dirigente, os primeiros passos sob o comando da equipe de Ronaldo marcaram o início da reestruturação do departamento e implementação do planejamento, com integração do futebol feminino na estrutura disponibilizada pelo clube, vinculado à mudança cultural de entender a modalidade.

— Em 2022, ele chega com uma equipe de liderança e que entendia o futebol feminino como investimento. A gente começou a usar todas as estruturas, começou a contar com todos os departamentos como suporte para a nossa modalidade, além de ter atenção a um planejamento metodológico, podendo deixar todo mundo na mesma página — explica Bárbara.

Contudo, apesar do novo momento, os planos esbarraram nas dívidas do clube e na busca por recursos na tentativa de estabilizar as finanças, o que teria impedido o clube de avançar nas estratégias definidas para o período.

— Mas tinha um porém na era Ronaldo, que era a cautela com os investimentos porque de fato tinha uma dívida para pagar e com muita necessidade de entrada de recursos imediatos. Então não tinha tanto dinheiro disponível para a gente avançar da forma que precisávamos — afirma a diretora.

Ex-jogador Ronaldo Nazário, o Fenômeno, é o dono da SAF do Cruzeiro
Ex-jogador Ronaldo Nazário, o Fenômeno, é o dono da SAF do Cruzeiro – Foto: Icon Sport

A chegada de Pedro Lourenço, após a venda da SAF de Ronaldo, inclusive, trouxeram questionamentos sobre o olhar para o futebol feminino. Isso porque, em uma declaração inicial, o gestor teria anunciado que não fariam grandes investimentos, mas utilizariam a base financeira que o clube já tinha.

Entretanto, as coisas foram diferentes.

A chegada de Pedro Lourenço, após a venda da SAF de Ronaldo, inclusive, trouxe questionamentos sobre o olhar para o futebol feminino. Isso porque, em uma declaração inicial, o gestor teria anunciado que não faria grandes investimentos, mas utilizaria a base financeira que o clube já tinha.

Entretanto, as coisas mudaram

— Veio o Pedrinho com uma ideia diferente. Ele permanece com as questões ideológicas de que o futebol feminino é o Cruzeiro e para além disso inicia um investimento maior. A gente sai de R$ 8 milhões, que foi o investimento do ano passado aprovado ainda na era Ronaldo, para quase dobrar nesse ano, orçamento que passa a ser somente da equipe do Pedrinho — declara Bárbara.

Em 2025, o Cruzeiro faz a melhor campanha da história do futebol feminino do clube. Chegou à semifinal da Supercopa do Brasil, além de liderar o Campeonato Brasileiro, prestes a disputar as quartas de finais. Na última temporada, as Cabulosas ficaram na quinta colocação, com 24 pontos, 16 a menos que o líder Corinthians.

Nesse meio tempo, a folha salarial das atletas aumentou em 50%. E, seguindo a linha do planejamento prometidas por Pedro Lourenço, o clube manteve a base do elenco passado, com exceção da chegada dos importantes reforços Isa Haas e Letícia Ferreira.

— O mercado está muito competitivo e cada vez mais os clubes podem remunerar melhor as suas atletas porque passa a ser um produto rentável, passa a ter entrada de receita, venda de ativos, patrocinadores. Então, era necessário que a gente tivesse um escopo financeiro para ter uma equipe competitiva. Não teve sucateamento. Fechar a primeira fase do Brasileirão em primeiro lugar diz muito sobre como essa versão [de não investir] não condiz com a realidade — reforça Bárbara Fonseca.  

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A torcida do Cruzeiro marcou presença em Brasília para apoiar as Cabulosas nas quartas de final da Supercopa Feminina – Foto: Gustavo Martins/Cruzeiro

Apoio de Gabigol

A torcida fiel das Cabulosas conta com um dos seus apoiadores mais influentes: Gabigol. Desde que chegou ao Cruzeiro, o atacante se fez presente em treinos e partidas, reforçando um interesse na modalidade já demonstrado pelo jogador.

— É genuíno, surge da vontade dele. Acho que é mais quando a agenda dele disponibiliza essa possibilidade de ele nos acompanhar tanto nos treinos quanto nos jogos. Várias vezes, quando acabava o treino dele, ele sentava na beira do nosso campo — conta Bárbara. 

Antes de chegar ao Cruzeiro ele já falava do interesse no futebol feminino e me falou que esse interesse surgiu ainda quando jogava nas categorias de base do Santos, onde ele via as Sereias da Vila treinando. Ele consegue formar muitas opiniões somente com a presença. Mostra para a sociedade que é um produto para admirar. Ele está impactando para que essas questões culturais que a gente precisa avançar, no fortalecimento não só no futebol, mas em outras áreas — reforça a dirigente. 

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Gabigol prestigia as Cabulosas (Foto: Gustavo Martins/ Cruzeiro)

Em entrevista ao Cruzeiro Cast, ainda no mês de maio, Gabigol revelou que pensa em atuar como dirigente de futebol, com interesse em iniciar a sua trajetória no futebol feminino.

— Queria muito fazer isso. Se fosse possível, queria começar no feminino. Um CEO para contratar, fazer essa ligação (entre as áreas). Isso é algo que eu gostaria de fazer. Queria ter oportunidade de trabalhar com elas em algum momento– afirmou o jogador.

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Cenário internacional e parceria com Jonas Urias

Com os bons resultados e a atual liderança no Campeonato Brasileiro, o clube traça novas metas. Entre elas, o plano para a campanha internacional, que inclui uma vaga para Libertadores de 2026.

— Se eu pudesse escolher o melhor momento do Cruzeiro, por óbvio seria 2025, mas ainda está muito longe do que a gente planeja em poucos anos. A gente precisa alcançar um cenário internacional. Óbvio que, se a gente tem chance, a gente quer ser campeão brasileiro e conquistar a vaga na Libertadores. Enquanto for possível chegar, a gente vai tentar fazer, entregar o máximo. Nunca fizemos nenhuma promessa que não tivesse condição de ser cumprida. Se passar o próximo jogo e a gente não vencer, está tudo bem também — declarou Bárbara.  

No caminhar das conquistas, Bárbara aposta na parceria de longo prazo com o técnico Jonas Urias, iniciada em 2023, após o treinador deixar as categorias de base da seleção brasileira.

— A gente teve muitas mudanças de treinadores durante esse período. E o Jonas é, de fato, o melhor treinador que o Cruzeiro feminino já teve. Ele é capaz de provocar os maiores sonhos das atletas, mas cobrar e fazer elas entregarem 100% nos dias bons ou ruins. Quando isso tudo se conecta com o resultado, fica mais fácil. Mas, se amanhã o resultado não vier, é porque é do esporte — declara Bárbara.

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Técnico Jonas Urias e diretora do departamento de futebol feminino do Cruzeiro, Bárbara Fonseca (Foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)

Jonas, inclusive, chegava no Cruzeiro em alta após ser campeão sul-americano invicto com a Seleção Brasileira Sub-20 e terceiro colocado no Mundial Sub-20, mas também em um momento de mudanças no setor, com a saída de Kin Saito por motivos pessoais.

— É muito difícil fazer futebol e eu precisava honrar o trabalho da Kim, a decisão do Jonas [Urias] em vir para o Cruzeiro. Naquele momento, ele era um treinador assediado por outros clubes, numa certeza de projetos muito mais validados. A grande virada de chave foi quando conseguimos trazer alguns profissionais para atuarem com a gente e isso faz com que a gente comece de fato fazer o sucesso ser palpável –, revelou a gestora. 

Categorias de Base e estádio exclusivo

Olhando para o futuro e com atenção no desenvolvimento de atletas, o Cruzeiro retoma a criação das categorias de base do futebol feminino. Para iniciar o processo, o clube anunciou Keyla Monadjemi como nova coordenadora da base.

A profissional terá como responsabilidade auxiliar na análise de estrutura e na captação de recursos e de atletas. A aposta em Keyla vem do histórico vitorioso na equipe feminina de vôlei do Minas Tênis Clube, onde esteve por onze anos.

— A gente fez a contratação da Keyla [Monadjemi], ela vem do vôlei. Antecipamos um pouco a contratação dela, frente ao planejamento que temos de fato de iniciar o projeto de base, que passa pelo início de agosto, início de setembro, para que ela pudesse ser introduzida a essas especificidades do futebol– explica Bárbara. 

Ainda em fase inicial, o trabalho de construção também vai passar pela junção entre diretoria e comissão técnica da equipe profissional. Segundo a dirigente, o projeto está na fase de captação de patrocínios e, consequentemente, recursos.

— Estamos finalizando a parte documental de projetos, porque a base vai ser praticamente financiada por projetos incentivados. Estamos na fase final para poder liberarmos a verba através de patrocínios indiretos, de empresas que aportaram verbas nos projetos, para que a gente comece a contratar a comissão técnica, profissionalize as categorias de base e conecte com a nossa metodologia. Isso vai passar por um trabalho do Jonas junto com a comissão técnica da equipe principal — explica.  

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Cabulosas durante treinamento (Foto: Gustavo Martins/ Cruzeiro)

De acordo com Bárbara Fonseca, com os processos burocráticos encaminhados, a ideia é que, até o final do ano, as equipes estejam montadas e passem a disputar competições estaduais.

— A ideia é esse ano disputar uma competição de base da federação mineira, que é o que o calendário permite nesse momento, e aí para o ano que vem já pensarmos em todas as categorias de base que existirem no Brasil. 

Ainda no quesito estrutural, o clube mineiro tem reformado a Toca da Raposa 1 e pretende iniciar novas obras na Toca da Raposa 2. O espaço já recebe o elenco feminino profissional, além das equipes de base masculina (sub-14 a 17). Agora, a formação de base das mulheres também será executada no local.

— A gente pensa na sustentabilidade do Cruzeiro no todo, não só no feminino. Então a gente não faz essa divisão do masculino, feminino e base. A gente pega o Cruzeiro no todo e a gente quer um Cruzeiro autossustentável no todo. Não separando feminino, base, funcional masculino, nada. A gente quer um Cruzeiro todo autossustentável para ter o Cruzeiro– afirmou o vice-presidente Pedro Junio, ao ge.

Com o destaque das bases e especialmente os resultados positivos e inéditos da equipe feminina, há também a intenção para que a Toca da Raposa 1 receba parte dos jogos do feminino e do sub-20 masculino. 

— Sobre o estádio, a gente sempre sonhou em ter uma casa para o sub-20 e para o feminino. A gente já teve algumas conversas com alguns estádios, a gente está tentando viabilizar também a Toca 1 para a gente crescer. A gente está viabilizando também alguns projetos para ver se será viável ou não, mas, inevitavelmente, ano que vem o feminino e o sub-20 vão ter uma casa para mandar seus jogos, vai ser importante — concluiu Pedro.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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