Futebol feminino

‘E essa bunda aí?’: Kleiton Lima volta ao Santos, mas denúncias estão longe de acabar

Trivela apurou que retorno foi pautado antes de demissão do antecessor; clima após denúncias foi de silenciamento

“E essa bunda aí? Não falou que ia perder?”

Esse é o trecho de uma denúncia contra Kleiton Lima, feita por uma ex-jogadora do Santos à ouvidoria do clube. Ela está entre as 19 atletas que relataram comportamentos inadequados e acusaram o treinador de assédio por meio de cartas anônimas escritas à mão. Este relato não está nas cartas, mas foi levado diretamente ao departamento de compliance da equipe alvinegra. Ela guarda o protocolo de atendimento até hoje.

— Depois do treino, estava conversando com o analista de desempenho, de costas para o campo, quando senti alguém encostar na minha bunda. Olhei para trás e a única pessoa próxima era o Kleiton. Ele falou para mim: ‘E essa bunda aí? Não falou que ia perder? — contou à Trivela sob a condição de anonimato.

Em meio ao bom momento da equipe masculina, atual vice-campeã paulista, os bastidores do time feminino do Santos são tensos. De acordo com o apurado pela Trivela, o retorno de Kleiton Lima foi pautado antes mesmo da demissão de seu antecessor, Bruno Silva, no início do mês.

A decisão polêmica da diretoria, que recontratou Kleiton Lima sete meses após o mesmo deixar o clube, acusado de assédio sexual e moral por parte do elenco de 2023, começou há alguns meses. Sob a condição de terem suas identidades preservadas, jogadoras e pessoas ligadas ao time da Baixada Santista contaram que membros do departamento de futebol feminino teriam preparado o terreno para a volta do ex-treinador.

O retorno de Lima aconteceu apesar da apreensão de novatas e remanescentes do elenco, que temiam consequências negativas para o clima do vestiário. As Sereias encararam a readmissão como um desrespeito.

Procurado, o Santos ainda não respondeu aos questionamentos até a publicação deste texto.

Silenciadas

A Trivela apurou que, após as 19 cartas serem divulgadas pelo ge, em setembro do ano passado, as jogadoras teriam sido proibidas pela diretoria de falarem sobre o assunto fora do circuito interno do clube. Por medo, elas permaneceram em silêncio e confiaram no processo de auditoria interna, constantemente tratado pelos superiores como o meio correto para realizar denúncias. Três delas relataram casos de assédio moral ou sexual à ouvidoria.

Desde que o assunto começou a circular pelos corredores do clube, a posição oficial do Santos, em contato com as jogadoras, foi para elas realizarem qualquer denúncia através do canal oficial da ouvidoria. Além disso, ameaças veladas, como possíveis dispensas por justa causa, foram citadas em alguns dos depoimentos à reportagem.

Atletas envolvidas no episódio, contatadas pela reportagem, confirmam as informações repassadas pelo departamento responsável pela modalidade. Segundo os relatos, não houve respaldo para quem denunciou assédio sexual ou moral. Pelo contrário, elas analisam as atitudes da coordenação, conduzidas por Aline Xavi e Gallo, como “manipulação”.

– Eles nos silenciaram e agora estão nos desrespeitando com o retorno dele — afirmou a atleta, que alega ter sido uma das vítimas de assédio sexual de Kleiton.

Ela também apontou que as orientações repassadas por funcionários não eram as únicas fontes de informação. De acordo com o relato, as atletas eram “constantemente bombardeadas com informações” que induziram a não realização do boletim.

Cartazes foram espalhados por todo o CT Rei Pelé, logo após os comentários que envolviam o tema “assédio” serem tema constante de conversas entre jogadoras e membros da comissão. Em entrevista à Trivela no ano passado, Luiza Garutti, ex-psicóloga do Santos, contou que seus relatórios sobre a angústia de algumas atletas chegaram a ser ignorados pela diretoria.

Por medo de retaliações ou por confiar no papel da ouvidoria, as jogadoras utilizaram apenas o canal oficial 0800 para suas queixas.

Jogadoras alegam não ter sido ouvidas pelo clube

Ao contrário do que disse a coordenadora do futebol feminino, Thaís Picarte, durante a coletiva da última terça-feira (9), as atletas alegam não terem sido ouvidas por ela ou pela auditoria do Santos, após a entrega das cartas anônimas. Jogadoras do antigo plantel se posicionaram massivamente pelas redes sociais.

Vale ressaltar que, ao fim da temporada passada, praticamente todo o elenco foi reformulado para essa temporada, apesar dos bons resultados alcançados. Apenas as atletas que tratavam de lesão e mais veteranas do Santos tiveram os contratos renovados.

Ex-atletas do Santos alegam não ter sido procuradas pelo Santos ou pela diretora de futebol feminino, Thaís Picarte (Montagem: Trivela)

Boletim de Ocorrência foi determinante

No entanto, segundo apuração da Trivela, a inexistência de um BO foi um fator determinante para que os depoimentos em cartas e na ouvidoria fossem desconsiderados. Alexandre Gallo, diretor de futebol do Santos, comunicou na coletiva de apresentação de Kleiton Lima, realizada na última terça-feira (9), que a investigação, em cooperação com a Polícia Civil, indeferiu as acusações.

— O compliance do clube é bastante atuante e indeferiu qualquer situação negativa em relação a você. A gente fica bastante tranquilo em relação a isso, sobre seu caráter, conduta e família. O Santos está feliz que você está de volta com a gente — disse Gallo.

Vale lembrar que o técnico Kleiton Lima chegou a processar uma das jogadoras, que denunciou assédio sexual por carta anônima, por calúnia e difamação.

Acolhimento em casos de assédio

Segundo a “Cartilha de Apuração de Assédio Sexual da Controladoria-Geral da União”, os crimes desta natureza são de difícil comprovação, por envolverem pessoas em condição de vulnerabilidade e, muitas vezes, apenas o relato da vítima.

— Nos delitos de natureza sexual a palavra da ofendida, dada a clandestinidade da infração, assume preponderante importância, por ser a principal se não a única prova de que dispõe a acusação para demonstrar a responsabilidade do acusado — diz o trecho do TJSP RT 671/305-6.

Principalmente no assédio vertical descendente (praticado por superior contra subordinada) é comum que a vítima sofra retaliações no ambiente de trabalho em razão de sua denúncia.

O acolhimento das vítimas se faz necessário desde o primeiro momento, a fim de passar segurança e demonstrar que o trabalho correcional vai ser conduzido de forma séria e respeitosa. Por fim, como diz a cartilha da CGU, a “investigação do assédio não pode ser mais traumática do que o assédio em si”.

Foto de Livia Camillo

Livia Camillo

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.
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