Eurocopa

O renascimento da Azzurra: Mancini recuperou o orgulho, redefiniu a identidade e redescobriu a paixão da seleção

Mancini assumiu uma Itália com o espírito em frangalhos após a repescagem da Copa de 2018 e moldou a seleção em diversos aspectos rumo ao sucesso

Quando a Itália perdeu sua chance de se classificar à Copa do Mundo de 2018, a hecatombe era clara para muita gente. Não parecia um mero problema de geração, de que faltaram jogadores para levar a Azzurra à Rússia. O elefante na sala era um só: Giampiero Ventura, um treinador limitado e que perdeu a confiança de seus jogadores rumo à queda contra a Suécia. Assim, a reconstrução da seleção após o primeiro Mundial ausente em 60 anos não dependia de uma limpa no elenco ou mesmo de uma mudança de filosofia na formação de talentos no país. A solução poderia ser mais simples, antes de mais nada, com a nomeação de um treinador capaz. Quase quatro anos depois daquele desastre, a escolha se prova cirúrgica. Roberto Mancini não apenas foi o melhor técnico da Euro. Ele foi o responsável pelo renascimento da Azzurra para conquistar a taça que não vinha desde 1968.

A escolha de Mancini se respaldava em sua história. Foi um dos maiores atacantes do futebol italiano nos anos 1980 e 1990, defendeu a seleção como jogador – ainda que sua trajetória com a Azzurra não fosse exatamente feliz ou à altura de seu talento. Como treinador, iniciou eras vitoriosas à frente de Internazionale e Manchester City, encerrando tabus. Não havia emendado bons trabalhos após sair do Estádio Etihad e por vezes era criticado como um comandante ortodoxo, por não tirar o máximo dos talentos que tinha à disposição nos nerazzurri e nos celestes. Porém, currículo e experiência eram duas virtudes inegáveis de Mancini, até considerando o conhecimento de quem atuou sob as ordens de mestres do futebol ofensivo como Vujadin Boskov e Arrigo Sacchi. E ele mesmo se reinventaria.

Quando chegou, Mancini prometeu mais do que recuperar o prestígio da Itália ou que classificar a seleção à Euro 2020. Ele queria uma nova forma de pensar o jogo, de sentir o jogo. Com os destaques à disposição, estava claro que era possível fazer mais. Não era uma problema de falta de jogadores, mas de falta de orientação para aplicar um melhor futebol. E, mais do que deixar o fracasso de Ventura para trás, Mancini estava disposto a quebrar paradigmas dentro da própria seleção italiana. Nada de futebol pragmático ou defensivismo. Seu objetivo era praticar um estilo que valorizasse a qualidade técnica e buscasse o ataque. Um rompimento dentro da Azzurra e, de certa maneira, algo além do que tinha conseguido ao longo da carreira como treinador.

Chiellini comemora com Mancini (Foto: Imago / One Football)

Em sua apresentação, Mancini declarava: “Eu irei pensar naqueles que jogam bem – e isso não acontece sempre, porque há vezes em que você não consegue – e que vencem porque são melhores. Nós iremos tentar e temos que ter os jogadores mais técnicos possíveis para jogar o melhor futebol que nós podemos”. Ficava claro como havia motivação e crença para um novo caminho. Meticuloso em todos os detalhes desde os tempos de jogador, quando já tinha virado assistente da Samp e até um dos responsáveis pela escolha dos técnicos, ele cuidaria da Azzurra em diferentes aspectos.

Mancini precisaria lidar com a perda de lideranças. O desastre na repescagem da Copa encerrou as histórias de Gianluigi Buffon, Andrea Barzagli e Daniele De Rossi na seleção de maneira frustrante. Porém, o treinador ainda teria outros veteranos para se escorar, em especial Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci – além do próprio De Rossi, que se tornou assistente técnico após pendurar as chuteiras meses depois. Mais importante do que ter essas influências positivas nos corredores, Mancini precisou redescobrir a paixão ao redor da Azzurra. Fazer com que os jogadores curtissem defender a Nazionale e não viessem apenas por obrigação. Diante do desânimo com Ventura, em que houve um rompimento do grupo com o treinador, havia a necessidade de encontrar algo que levasse os atletas mais leves a cada convocação. E nada melhor do que a bola para isso. Para tanto, Mancini também se cercou de uma comissão técnica composta por velhos amigos e jogadores históricos em sua passagem pela Sampdoria, vencedores do Scudetto numa campanha ainda hoje celebrada pelos italianos.

O futebol bem jogado se tornou o ponto focal da Itália de Mancini e a alegria em comum do plantel. Muitos de seus atletas se juntavam à seleção para desfrutar o jogo, não para cumprir um dever. O treinador se valeu de muitos talentos à disposição e em eclosão. Montou principalmente um meio-campo que sabia tocar a bola, contou com pontas incisivos, soltou os laterais para buscar mais. E replicou mecanismos bem estabelecidos nos clubes do país. A própria Serie A viveu um renascimento de ideias durante os últimos anos, com trabalhos excepcionais de vários treinadores, e que não se concentrou nos candidatos ao Scudetto. Aproveitar as peças de Napoli, Atalanta ou Sassuolo não é mera coincidência quando as três equipes tiveram momentos fantásticos de futebol ofensivo em tempos recentes. Além disso, Mancio deixou fluir as características dos jogadores. A seleção se adaptaria a eles, não o contrário, como adorava forçar Ventura.

“Eu gosto de futebol ofensivo. Eu sei que nós ganhamos quatro Copas do Mundo jogando do modo italiano, mas eu acho que nós podemos jogar de modo mais ofensivo hoje. Os dias de jogar um futebol defensivo e de contra-ataque acabaram”, diria Mancini, em fevereiro de 2020. “Nós estamos orgulhosos de termos religado o amor dos italianos pela seleção nacional e com uma Eurocopa em junho, nós iremos tentar fazer nossos torcedores felizes. O futebol é um fator de unidade, se a seleção italiana jogar bem e a Itália vencer, eles ficarão felizes”.

Àquela altura, a reconstrução já dava sinais de seus passos firmes. A Itália sobrou na campanha das Eliminatórias da Euro, emendava o início de sua sequência invicta e apresentava, além dos resultados, um futebol de muitos gols sem perder a consistência defensiva. Mais importante, o técnico incluía diversos jogadores jovens que poderiam elevar a ambição da Azzurra. A renovação italiana já tinha sido realizada através de um longo processo de integração das seleções de base e formação de talentos, só era preciso um treinador que a explorasse melhor. Foi o que Mancini conseguiu.

“Nós tentamos melhorar os muitos bons jogadores jovens italianos que a Serie A ofereceu e até aqui nós tivemos sucesso. Não é verdade que o futebol italiano sofre com falta de talentos, você precisa apenas ter coragem para deixá-los jogar. Eu prefiro um jogador menos disciplinado taticamente, como eu era, do que um mais regular, mas com menos talento”, apontaria o técnico, também em fevereiro de 2020. “Eu tenho certeza que a seleção italiana terá um grande futuro, mesmo depois da Eurocopa e da próxima Copa do Mundo no Catar. Na Itália, há e sempre haverá bons jogadores: minha comissão técnica e eu procuramos por jogadores jovens, talvez com pouca experiência, mas certamente com muito talento”.

Semanas depois, Mancini recebeu a notícia de que a Euro 2020 seria disputada apenas em 2021. O adiamento da competição continental, porém, era uma notícia menor diante do drama vivido pelos cidadãos italianos e exposto ao mundo durante o início da pandemia, quando o medo pelo desconhecido era evidente. Os jogadores da Azzurra ganharam um motivo a mais por jogar, diante da maneira como o país ficou marcado pela doença, mesmo que o pior a outras partes do mundo viesse depois. Mancini conseguiu construir um senso maior de unidade, assim como aproveitou o ano a mais para o desenvolvimento de seus talentos.

“Estou decepcionado por não jogarmos a Euro, mas, ao mesmo tempo, eu acho que pode ser uma ligeira vantagem para a Itália porque somos um time jovem e ter mais um ano de experiência pode ser útil para os rapazes”, afirmou, à RAI, em abril de 2020. “Acho que estamos entre os times capazes de vencer o troféu. Eu não gosto de colocar muitas regras para meus jogadores. Não é certo enjaular suas personalidades”.

Além da questão prática, Mancini mirava algo maior, pensando na solidariedade oferecida pelo povo italiano e na forma como a Eurocopa seria um alívio depois de tudo. “Gostei muito daqueles vídeos das pessoas confraternizando nas sacadas durante o confinamento. São a Itália mais autêntica, isso nos representa. É o que damos de melhor em circunstâncias difíceis, abraçamos, ajudamos e colocamos toda a nossa humanidade em jogo. Essas pessoas, depois de tanta dor e medo, mereciam ter a Eurocopa para se distrair e recomeçar. Espero uma Eurocopa de alto nível, com muita qualidade. Tentaremos ganhar um torneio de primeira. Mal posso esperar para ficar à frente do banco e ouvir o hino nacional. Depois de tudo o que nosso país está atravessando, será uma sensação imensa”, apontou, em março de 2020.

Mancini comemora em Wembley (Foto: Imago / One Football)

De fato, as previsões de Roberto Mancini naquele momento se cumpriram. A Itália aproveitou o amadurecimento dos jogadores em seus clubes e até as sequências de alguns talentos que, sofrendo com lesões, provavelmente se ausentariam com a Eurocopa realizada em 2020. Entre a Liga das Nações e as Eliminatórias da Copa, a Azzurra ampliou sua sequência invicta e afinou seu futebol ofensivo. Também criou um senso de unidade muito maior, não apenas para deixar para trás aqueles momentos de terror no início da pandemia, mas também para exibir uma alegria maior pelo novo momento. Esta seleção simboliza uma leveza e um companheirismo tremendos.

Basta vez pelo clima antes e depois das partidas. Há uma sensação de irmandade ao redor dos jogadores italianos. É um ambiente eufórico, bem diferente do que se notou em outras seleções mais tensas na Eurocopa. Não há sinais de vaidade, mesmo com disputas claras pela titularidade, mas sim uma noção de apoio irrestrito para que cada um dê seu melhor. As cantorias e as brincadeiras prevalecem, o que indica uma tranquilidade muito grande mesmo com a pressão pelos resultados. E isso costuma fazer uma diferença imensa dentro de uma competição internacional de tiro curto, em que a atmosfera nos vestiários impulsiona a arrancada. O capitão Chiellini definiria que a Azzurra chegou à final da Eurocopa “com a mente leve, curtindo o momento e uma faísca de loucura”. Tal divertimento, com o dedo do treinador: “Temos um grande líder aqui, com Roberto Mancini, que sabe como combinar todos os ingredientes”.

A Itália desfrutou da Eurocopa desde a abertura, contra a Turquia. O futebol vistoso resultou em uma grande atuação e estava claro como, independentemente do resultado final, a revitalização da seleção após o desastre de Ventura aconteceria já nesta competição. Pois os italianos deram mais motivos para acreditar. Seguiram jogando o fino contra a Suíça e mesmo com os reservas diante de Gales foram bem. Passaram aperto, mas provaram força contra a Áustria no final, a partir de seu banco de reservas. E no maior desafio até então, contra uma Bélgica mais tarimbada, a clara superioridade carimbou de vez a Azzurra como favorita.

Mas não foi apenas a vitória incontestável da Itália que empurrou o time naquele momento. Foi também a maneira como os italianos lidaram com a lesão gravíssima de Leonardo Spinazzola, um dos melhores jogadores do torneio. Não houve visão fatalista ou de desespero pela perda de uma arma tão importante nos jogos do time. Houve uma unidade ainda maior, para tranquilizar o companheiro e agradecê-lo por tudo o que tinha feito, enquanto os demais jogadores prometiam sua máxima luta para honrá-lo em campo. Para permitir que o lateral, mesmo de muletas, carregasse a taça.

A semifinal contra a Espanha exigiu uma Itália diferente, que precisou se defender e aproveitar as brechas no ataque para buscar a classificação. Não jogou tão bem, mas saiu com o empate e teve mais segurança nos pênaltis. Já a decisão levou a Azzurra a correr contra o relógio. O gol precoce da Inglaterra botava ainda mais pressão, além do Wembley lotado, e o primeiro tempo travado do ataque talvez pudesse conduzir ao desespero por aquilo que escapava de suas mãos. Os italianos, no entanto, se centraram em seu futebol e naquilo que deu certo em muitos momentos. Contaram também com um líder, Mancini, para isso.

Se não foi a melhor partida da Itália na Eurocopa, o segundo tempo apresentou uma Azzurra que tinha mais recursos que os ingleses e que manteve sua ofensividade como característica primordial. Os lançamentos de Bonucci e as arrancadas de Federico Chiesa seriam fundamentais nessa reação. Assim como as mexidas de Mancini. Deixou o ataque mais leve com Domenico Berardi, deu mais altura ao meio-campo com Bryan Cristante. Os dois seriam personagens nessa reação que rendeu o empate e quase valeu a virada no tempo normal. E mesmo que a Inglaterra tenha vivido momentos maiores de domínio na prorrogação, a Itália também criou chances suficientes para evitar os pênaltis. Na marca da cal, ainda assim, contou com um gigante para vencer.

A Itália campeã da Eurocopa funcionou de muitas maneiras. Teve um goleiro decisivo em Gianluigi Donnarumma. Valeu-se da vivência de sua dupla de zaga, mas também da capacidade técnica acima da média de ambos, com atuações monstruosas de Bonucci e Chiellini para chegarem à taça que tanto faltava em suas trajetórias pela seleção. Ainda deu passe livre aos laterais no apoio, em especial Spinazzola, responsável direto pelo crescimento do time durante a competição. O meio-campo foi engenhoso e o coração desta proposta ofensiva. Jorginho, Nicolò Barella e Marco Verratti são jogadores acima da média e não estiveram sozinhos, acompanhados por Manuel Locatelli, Matteo Pessina e Bryan Cristante na rotação. E se no ataque Ciro Immobile não funcionou tanto, os pontas incisivos trataram de definir, com Lorenzo Insigne e Federico Chiesa anotando gols importantes, além do próprio Berardi. Individualidades que sobressaíram, antes de tudo, graças ao coletivo bem amarrado.

Mancini e Vialli se abraça (Foto: Imago / One Football)

A comemoração em Wembley rendeu uma porção de imagens marcantes. De Rossi, cuja irritação com Ventura foi compartilhada por muitos compatriotas, aparecia em transe e carregava Spinazzola em suas costas para celebrar com a torcida. Mas talvez o ato mais belo veio no abraço emotivo entre Mancini e Vialli, os velhos amigos que lideraram a squadra azzurra ao sucesso. Conquistaram o título que não haviam conseguido com a seleção como jogadores, triunfaram no mesmo Wembley em que perderam a final da Champions de 1992 com a Samp. Mancini de alma lavada, por uma história que parecia ter uma dívida com os azzurri. Vialli de vida nova, após se recuperar de um câncer no pâncreas e virar talismã do grupo.

A impressão é de que esta Itália não para por aqui. Reconquistar títulos não é simples, mas há uma equipe capaz de fazer bons papéis nos grandes torneios e deixar sua marca numa Copa do Mundo – como não acontece no país desde 2006. Há bons jogadores jovens em crescimento, alguns dos reservas tendem a firmar suas carreiras, gente que sequer foi convocada tem chance de acrescentar. E há um treinador como Mancini, que sai desta Euro 2020 como o melhor comandante do futebol de seleções. Quebrou um longo jejum, como fez com Inter e Manchester City, mas apresentando o melhor futebol de sua história na casamata – e à frente de uma seleção, o que é mais difícil sem um regime de treinos tão regular. Os 34 jogos de invencibilidade não devem parar por aí. Num time que pode sofrer perdas pontuais, a Copa de 2022 já aparece no horizonte. E o Mundial representa mais ao técnico, considerando sua decepção de sequer ter entrado em campo em 1990. Não esconde o lamento do passado, mas o transforma em motivação.

Roberto Mancini recuperou o futebol da Azzurra, com um estilo que a seleção nunca teve. Rejuvenesceu o elenco para apresentar o talento nascente no país e para referendar as novas ideias implantadas nos clubes. Mais importante, reencontrou um motivo para seus jogadores sorrirem, num grupo exemplar em sua união. Em conjunto, ri o restante da Itália e agradece pela leveza de como esses campeões se marcam na história. Inspiram novos tempos, dentro de campo e também fora dele.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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