Eurocopa

Uma das histórias mais legais da Euro 2020 é de Vialli, o amigo inseparável de Mancini que desfruta o torneio após vencer um câncer

Craque em campo e grande parceiro de Mancini, Vialli é um personagem importante da Itália na Euro, de volta à Inglaterra onde também fez história

É bom compartilhar com o amigo de uma vida os grandes momentos de sua história. Roberto Mancini e Gianluca Vialli tiveram a sorte de fazer isso juntos, como dois personagens fantásticos do futebol italiano, dentro e fora de campo. Nos tempos em que formavam uma azeitada dupla de ataque eram os “Gêmeos do Gol”. Elevaram a Sampdoria a um patamar inédito e jamais repetido. Ganharam Serie A, Copa da Itália e Recopa Europeia, botaram os genoveses em final de Champions. Tão amigos que o próprio presidente da Samp batizou seus cães de “Luca” e “Roby”. Pela seleção, não tiveram a mesma sorte na Euro 1988 ou na Copa de 1990. Mas, juntos, voltaram ao comando técnico para uma final de Eurocopa. E a presença da carequinha de Vialli é mais legal que o saudosismo ou romantismo pelos tempos áureos em si. Há uma linda história de superação, de quem venceu um câncer no pâncreas recentemente.

Vialli se dedicou ao futebol por paixão, acima de tudo. Afinal, a história do ex-atacante se distancia do enredo comum a tantos garotos, que veem na bola a única chance na vida. O italiano de Cremona é filho de um milionário. Cresceu numa família abastada, que vivia num castelo, e poderia ter outro tipo de ocupação se assim quisesse. Vialli, porém, preferiu mesmo o esporte. Foi defender a camisa do clube de sua cidade, a Cremonese, que na época disputava a terceira divisão do Campeonato Italiano. O jovem talento participou de alguns jogos do acesso à Serie B e seria um dos destaques na promoção do time à Serie A. Porém, quando a primeira divisão surgiu em seu caminho, um projeto tentador demais à sua carreira o fez se mudar para Gênova.

Vialli e Mancini já se conheciam da seleção sub-21, até se unirem em definitivo a partir de 1984, quando Gianluca chegou à Sampdoria e Roberto era um dos principais do time, após ser contatado junto ao Bologna dois anos antes. Não demorou para que os atacantes se entendessem por telepatia e empilhassem gols no Marassi. Aquele esquadrão dos blucerchiati reunia outros tantos bons jogadores (alguns deles com ampla história no futebol inglês, a exemplo de Trevor Francis, Graeme Souness e Liam Brady) e tinha uma mente brilhante por trás, sob as ordens de Vujadin Boskov. Ainda assim, a dose maior de qualidade vinha da dupla de frente. Mancini gostava de preparar as jogadas, Vialli contribuía com sua veia goleadora. Era um centroavante dinâmico, inteligente, preciso nos arremates e com uma predileção pelos gols acrobáticos. Não à toa, o entrosamento se reproduziu na seleção.

Reproduziu-se, mas não igual. A Euro 1988 não guardou boas lembranças quando os dois atuaram juntos no ataque titular, com a eliminação na semifinal, por mais que Vialli tenha sido um dos melhores do torneio. Mancini perdeu a vaga depois disso e viu a Copa de 1990 do banco de reservas. Vialli sofreu inúmeros problemas físicos, de uma lesão no joelho a uma bronquite, e não conseguiu oferecer seu melhor à Azzurra no Mundial. A volta por cima aconteceu na Serie A de 1990/91, quando os Gêmeos do Gol atingiram seu ápice para levar o Scudetto da Sampdoria. Teriam ainda uma final em Wembley, contra o Barcelona, mas o golaço de Ronald Koeman encerrou o sonho dos genoveses. E encerrou a parceria em campo, com a despedida de Vialli.

A Juventus contratou Vialli como um reforço de peso à sua reconstrução e, por lá, o atacante seria parceiro de outros craques – em especial, de Roberto Baggio e Alessandro del Piero. Também ganhou a idolatria dos bianconeri. Foi um dos destaques do time no Scudetto 1994/95, encerrando um incomum jejum da Velha Senhora na Serie A que perdurou por nove anos. O matador seria o artilheiro dos bianconeri na campanha e ainda colecionou golaços. Faria mais ao levar também a Copa da Uefa e, principalmente, a Champions. Seus gols na semifinal contra o Nantes teriam peso de ouro. E, de novo, a final continental marcou sua despedida. Arrumou as malas para a Inglaterra, para o Chelsea.

Londres, assim, também se tornou uma casa de Vialli. O atacante teria momentos felizes em Stamford Bridge, em tempos nos quais o Chelsea não era a potência de hoje em dia, mas contava com uma forte equipe cheia de estrangeiros – com destaque aos compatriotas Gianfranco Zola e Roberto Di Matteo. Vialli ainda jogou duas temporadas em ótimo nível com os Blues e, em tempos nos quais o clube dava o posto de técnico aos seus atletas, virou o comandante em meados de 1998. Teria sucesso na jornada dupla, com títulos faturados por Recopa Europeia, Supercopa da Uefa, Copa da Inglaterra e Copa da Liga – além de levar os londrinos à Champions depois de quatro décadas.

O último ano de Vialli no Chelsea seria apenas como treinador, ao pendurar as chuteiras de sua condecorada carreira como craque em 1999. Passaria mais alguns meses por lá e também trabalharia brevemente no Watford. A vida à beira de campo, entretanto, não o atraiu tanto. Vialli também era um cara acima da média além dos gramados e atuou por anos como comentarista, na Sky Italia e na BBC. Mais do que isso, escreveu um livro com o amigo jornalista Gabriele Marcotti sobre as diferenças entre o futebol inglês e o italiano. Já seu passo mais ousado foi como empresário, fundando uma companhia para auxiliar clubes na mobilização de torcedores para financiar seus projetos. Daria certo, tanto é que o crescimento do Norwich nas últimas temporadas foi possível com o apoio da companhia.

Mancini e Vialli pela seleção (Foto: Imago / One Football)

Já em 2018, Vialli revelou sua maior batalha. Estava com um câncer no pâncreas, que mudava seu olhar sobre a vida e aumentava sua gana por seguir em frente. Durante as sessões de quimioterapia, ele perdeu 16 quilos. Começou a usar camadas extras de roupa para não perceberem seu emagrecimento e as filhas chegaram até a desenhar sobrancelhas, quando os pelos do corpo caíram por conta dos medicamentos. O veterano tentou evitar ao máximo que as pessoas ao redor se sentissem abatidas por ele. Queria protegê-las. Não queria que tivessem pena dele ou que suas relações mudassem.

“Já faz um ano e estou voltando a ter um físico de monstro. Estou bem, agora muito bem. Embora eu não tenha certeza sobre quando este jogo irá terminar. Eu costumava usar um suéter por baixo de minha camiseta, assim ninguém percebia nada durante o tratamento. Continuava sendo a pessoa que todos conheciam. Espero que minha história possa inspirar outras pessoas, que vivem momentos cruciais de suas vidas. E espero que meu livro seja para se manter ao lado da cama. As pessoas podem ler um ou dois capítulos antes de caírem no sono, ou durante a manhã, assim que acordarem”, contou na época ao Corriere dello Sport, quando lançou um livro para falar sobre tal luta. Contava como a meditação e as leituras o ajudaram a lidar com a situação.

“Gostaria que alguém olhasse para mim e dissesse: ‘Muito obrigado por não desistir’. Uma frase essencial que surgiu durante o meu tratamento, pendurada em um post-it amarelo na parede, era a seguinte: ‘Somos produtos dos nossos pensamentos’. O importante não é vencer. É pensar como um vencedor. A vida é composta de 10% do que acontece conosco e 90% sobre como lidamos com isso. Espero que minha história possa ajudar outras pessoas a lidarem com o que está acontecendo da maneira correta. Como técnico, minha preocupação é criar uma cultura: um ambiente de trabalho multiplicado pelos valores”, complementava.

Mesmo sabendo que o amigo enfrentava a doença, Mancini convidou Vialli para se tornar chefe de delegação da seleção italiana, em novembro de 2019. Reencontrou-se não apenas com seu “gêmeo”, mas com outros tantos companheiros de Sampdoria que compõem a comissão técnica da Azzurra. “Trabalhar com Roberto e com o resto da comissão técnica é emocionante. Ele me disse que nós estávamos ficando velhos, mas, para mim, trabalhar juntos aqui nos mantêm todos jovens”, diria Vialli.

O entrosamento dos Gêmeos do Gol se torna mais notável na beirada do campo, pela seleção italiana. Já em abril de 2020, nessa onda de notícias positivas e motivação pelo trabalho, o veterano teve uma vitória maior: recebeu o diagnóstico de que tinha superado o câncer. Após o sucesso do tratamento em 2018, o italiano sofreu uma recaída, mas a empreitada de 17 meses chegou ao fim no começo da pandemia. Aos 57 anos, Vialli também oferece uma grande lição de vida nos vestiários da Itália durante a Euro 2020. “Não acredite em ninguém que te diga que o futebol é uma guerra. É um esporte, um jogo, e você disputa com seus amigos”, seria uma lição de Vialli e um lema para esta Itália.

Nesta Eurocopa, aliás, Vialli é até mesmo uma espécie de talismã – e não apenas pelas memórias que suscita ao lado de Mancini, cada vez que são filmados juntos. Antes da estreia contra a Turquia, o ônibus da Azzurra partiu sem Vialli do CT e precisou voltar para buscá-lo. Virou superstição, depois da grande vitória sobre os turcos. Desde então, antes de todo santo jogo, os italianos brincam que esqueceram Vialli e o veterano sobe por último no ônibus. Acaba sendo um dos mais festejados, numa prova de carinho dos jogadores com a lenda presente nos corredores da seleção.

O ritual se repetiu pela última vez neste sábado, antes que a Itália deixasse Coverciano para rumar à Inglaterra. Vialli retorna à cidade que o acolheu tão bem, ao estádio onde viveu sua memória mais forte ao lado de Mancini. Em busca de um novo desfecho, em busca de um final feliz a esta Azzurra já histórica. A vitória principal, de qualquer maneira, Vialli já conseguiu. E certamente é um motivo para os jogadores se doarem um pouco mais. É um personagem histórico do Calcio, que merece e recebe aplausos – de italianos, também de ingleses.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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