Genial nos clubes, genioso na Azzurra: A história de Roberto Mancini como jogador da seleção italiana
Mancini escreveu uma linda história na Sampdoria e na Lazio, mas acumulou problemas na seleção da Itália

Roberto Mancini é o grande responsável pela transformação da seleção italiana nos últimos três anos. De um time destroçado pela frustração na repescagem da Copa do Mundo de 2018, sem qualquer qualidade coletiva e com jogadores irritados com o então treinador, a Azzurra virou desde então uma máquina de jogar futebol. A renovação passa pelas novas peças que começaram a compor o elenco, parte de um excelente trabalho de formação, mas também pelo comandante que tira o melhor dessa geração. Se já era vitorioso em suas passagens à frente de Internazionale e Manchester City, ainda assim Mancini apresenta o futebol mais vistoso de sua carreira na casamata. E para fazer jus à sua história como um atacante que acariciava a bola, mas acabou sendo menor que poderia com a camisa da Nazionale.
Roberto Mancini foi um dos melhores jogadores do Campeonato Italiano entre os anos 1980 e 1990. E isso não é pouco, considerando a quantidade de craques que perambulavam no Calcio ao longo daquele período. O atacante conseguiu escrever capítulos gloriosos em mais de um lugar, afinal. Sua relação mais íntima ocorreu na Sampdoria, estrelando o esquadrão de Vujadin Boskov ao lado de Gianluca Vialli. Depois de surgir no Bologna, o garoto nascido em Jesi virou uma estrela no Estádio Marassi. Disputou 15 edições da Serie A com o clube, acumulou gols importantes, levou o histórico Scudetto de 1990/91. E não parou nisso, também com os outros feitos de uma Samp copeira. O camisa 10 acumulou ainda quatro títulos da Copa da Itália e um da Recopa Europeia, além de ter sido vice da Champions em 1991/92.
Mesmo aos 32 anos, Mancini foi eleito o melhor jogador do Campeonato Italiano em 1996/97. Aquela seria a sua despedida da Sampdoria, antes de mudar de cores. O veterano estrelaria um projeto endinheirado da Lazio, numa coleção de craques biancoceleste. Não deixaria por menos na ocasião, com seus golaços valendo a ascensão do time sob as ordens de Sven-Göran Eriksson – que havia sido seu treinador na Samp. Já não era mais protagonista quando os laziali faturaram o Scudetto em 1999/00, mas ainda servia de referência técnica da equipe. Também acumularia mais uma Recopa Europeia e outras duas Copas da Itália. Após um breve período aposentado, como assistente de Eriksson, teria uma opaca passagem como atleta do Leicester. Foi a deixa para que assumisse de vez a prancheta e já levasse a Fiorentina ao título da Coppa em 2001.
Pelo currículo e até mesmo pela longevidade da carreira, Roberto Mancini era jogador para defender a seleção italiana durante pelo menos umas quatro Copas do Mundo. Só esteve presente em um Mundial, quando sequer entrou em campo. Também não faria muito mais em Eurocopas, com uma participação, embora ainda tenha começado como titular e marcado um gol. De qualquer maneira, as 36 partidas pela Azzurra parecem muito aquém do futebol do cracaço.

Ao longo da carreira, Mancini foi usado geralmente como meia ou segundo atacante, aproveitando sua excepcional qualidade técnica. Isso não o impedia, porém, de por vezes jogar mais próximo do gol. O fantasista também possuía uma precisão enorme em seus arremates. A habilidade refinada do craque ficava mais evidente por seus toques plásticos na bola, em especial os de calcanhar, e também pela variedade de dribles curtos que conseguia executar. Ainda assim, primava pela visão de jogo e pelos passes açucarados que servia aos companheiros. Além de ótimo com a bola nos pés, era muito inteligente na execução das jogadas e mesmo na leitura das partidas.
Mancini ganhou sua primeira convocação para a seleção italiana em maio de 1984. A Azzurra passou longe da classificação para a Eurocopa e acabou fazendo uma turnê pelos Estados Unidos na época. Campeão mundial em 1982, Enzo Bearzot era o treinador e aproveitou para injetar sangue novo. A presença de Mancini era mais que justificada: depois de estourar no Bologna às vésperas do Mundial da Espanha, o garoto de 19 anos vinha de uma temporada muito consistente em seu segundo ano na Sampdoria. Anotou oito gols pela Serie A e virava destaque de uma equipe em pleno crescimento. Além disso, foi um dos melhores jogadores da Azzurra no Campeonato Europeu Sub-21, quando o time dirigido por Azeglio Vicini caiu na semifinal diante da Inglaterra.
Mancini entrou no segundo tempo dos jogos contra os Estados Unidos e o Canadá. Porém, esse início pela Itália seria abruptamente interrompido. O garoto de 19 anos resolveu desfrutar a noitada em Nova York e retornou à concentração apenas às cinco da manhã. Durante o café da manhã, Bearzot o esperava. O treinador deu uma bronca homérica na promessa e jurou que sua história na Nazionale havia acabado ali. “Vivi a pior confusão da minha vida. Bearzot me xingou de todos os nomes possíveis, dizendo que não dormiu de preocupação. Afirmou que eu agi feito um idiota e que nunca mais me convocaria. Eu não seria chamado nem se marcasse 40 gols no campeonato”, recontou o craque tempos depois, em trecho reproduzido pelo site The Athletic.
O futebol de Mancini, de fato, amadureceu nos próximos dois anos. O atacante ganhava protagonismo numa Sampdoria que passou a mirar títulos e boas campanhas no Calcio. Nada que o tenha levado de volta para a seleção. O craque seguiu como um luxo na equipe sub-21 e também disputou o Europeu da categoria em 1986. Deu o troco na semifinal contra a Inglaterra, mas perdeu a decisão para a Espanha nos pênaltis. Mas, de longe, viu os compatriotas disputarem o Mundial de 1986.

Anos depois, num encontro com Bearzot, Mancini perguntou sobre sua ausência nas convocações. E o treinador confessou que, caso o então craque ligasse pedindo desculpas, teria o convocado para a Copa. “Ele disse que não poderia fazer nada a respeito se eu não me desculpasse. Quis morrer quando ouvi isso”, rememorou. Em sua biografia, Bearzot ainda escreveu: “Mancini não se importava muito comigo como pessoa, mas eu me importava bastante com responsabilidades”. A mágoa soava mútua.
O exílio de Mancini se encerrou com a saída de Enzo Bearzot ao final da Copa do Mundo de 1986. A Itália fez uma campanha modesta até as oitavas de final e uma renovação de ares era necessária. O escolhido para substituí-lo foi Azeglio Vicini, então comandante do sub-21. Assim, ficaria mais fácil para que Mancini fizesse a ponte novamente ao time principal da Azzurra já no segundo semestre de 1986. Mesmo assim, nem tudo seria tão simples. Declarações duras contra os árbitros da Serie A fizeram com que o próprio presidente da federação italiana barrasse sua convocação. Foi Vicini quem comprou a briga por sua volta.
Mancini acabaria disputando parte das Eliminatórias para a Euro 1988. Com as palavras ficando para trás, assumiu a titularidade na reta final da preparação, nos meses anteriores ao torneio continental. A fase com a Samp era ainda mais espetacular naquele período, com direito à sua segunda conquista na Copa da Itália, e não à toa Vicini optou por começar aquela Eurocopa usando o entrosamento dos blucerchiati no ataque. Vialli e Mancini seriam os titulares na competição continental.
O primeiro gol da Itália na Euro 1988 foi de Mancini, aproveitando um cruzamento rasteiro dentro da área. O mais importante de seus míseros quatro tentos pela Azzurra, que não evitaria o empate por 1 a 1 contra a Alemanha Ocidental na abertura do torneio. O jovem de 23 anos teria uma comemoração raivosa, em resposta a todos os problemas que enfrentou e às críticas da imprensa sobre sua titularidade. Mas não que isso tenha garantido um grande torneio. Os italianos até se classificaram na chave, com vitórias sobre Espanha e Dinamarca na sequência. Mancini não só passou em branco, como ainda viu Alessandro Altobelli sair do banco em seu lugar para abrir o triunfo por 2 a 0 sobre os dinamarqueses. Na eliminação diante da União Soviética na semifinal, o atacante saiu no intervalo para que Altobelli entrasse.

Mancini se tornou ainda mais implacável na Sampdoria depois da Euro 1988, quando o desempenho dos genoveses se elevou e a equipe passou não apenas a conquistar títulos nas copas, mas também a esboçar seu sucesso na Serie A. Entretanto, o atacante seria titular apenas no primeiro amistoso preparatório da Itália rumo à Copa de 1990. Perdeu a posição para Giuseppe Giannini, entrando em conflito com Azeglio Vicini, antes de fazer as pazes nos meses anteriores ao Mundial.
Mancini ainda entrou em campo durante mais dois jogos da preparação, mas sua influência na equipe que disputaria a Copa era mínima. No fim das contas, acabou incluído na lista final de Azeglio Vicini, sem entrar em campo durante um minuto sequer. Se aquela campanha ainda contou com uma boa jornada da Azzurra rumo às semifinais, seria particularmente frustrante também ao amigo Vialli. O centroavante até começou como titular, mas se lesionou e seria preterido por Totò Schillaci na linha de frente. Quando voltou no lugar de Roberto Baggio para a semifinal, não evitaria a derrota para a Argentina. Mancini ainda sairia daquela Copa dando declarações duras contra Vicini, dizendo que até “um cego teria percebido como uma marcação individual sobre Maradona teria nos classificado, mas não Vicini”. O gênio intempestivo só era relevado pela genialidade em campo.
Após a Copa de 1990, a resposta de Mancini e Vialli na Sampdoria veio da melhor maneira possível, com grandes atuações que renderam o Scudetto de 1990/91. Mas não que as coisas fossem bem na seleção italiana. Mancini até recuperou seu espaço no ciclo posterior com o desafeto Azeglio Vicini, sem contribuir muito na campanha pelas Eliminatórias da Euro 1992. A Azzurra pegou a União Soviética e acabou perdendo a classificação. Empates contra Noruega e Hungria se provaram custosos demais. Assim, em tempos nos quais o torneio continental ainda se limitava a oito times na fase final, a Itália não conseguiu se classificar. O consolo poderia ter vindo na decisão da Champions de 1992, quando a Sampdoria perdeu o título para o Barcelona dentro de Wembley, com o célebre gol de falta anotado por Ronald Koeman no triunfo por 1 a 0.
A parceria de Mancini com Vialli se desfez em 1992, quando o companheiro aceitou uma suntuosa proposta da Juventus. Desta maneira, o protagonismo do fantasista se tornou ainda maior na Sampdoria, assumindo mais as responsabilidades ofensivas e registrando seus maiores números de gols. Arrigo Sacchi ainda dava um voto de confiança a Mancini, que participou da qualificação da Itália para a Copa do Mundo de 1994. O treinador preferia jogadores mais obedientes do ponto de vista tático e, até por isso, usava o veterano como centroavante. O atacante chegou a formar dupla com Roberto Baggio e disputou cinco partidas pelas Eliminatórias, duas delas como titular. Anotou dois gols contra Malta e um contra a Estônia, em campo também quando a Azzurra carimbou sua classificação diante de Portugal na rodada final. O problema viria depois.

Nos amistosos preparatórios em março de 1994, Mancini ainda estaria no 11 inicial durante uma derrota para a Alemanha. Todavia, Sacchi quebrou a promessa de mantê-lo em campo durante os 90 minutos e, diante dos gritos da torcida em Stuttgart, botou Gianfranco Zola no intervalo. Mancini ficou enfurecido e, no aeroporto em Milão, confrontou o treinador. Deixou o orgulho pesar e disse que Sacchi não precisava mais convocá-lo. Considerando a postura do comandante, que não tinha intocáveis em seu elenco, aquilo representava o fim. Assim, Mancini perdeu a chance de disputar mais um Mundial e de longe veria os companheiros alcançarem a final. Poderia ter sido útil naquela caminhada, não apenas por seu talento, como também pela forma que exibia na Sampdoria. Tempos depois, admitiu o enorme erro, afirmando que as lesões e o próprio desgaste físico ao longo da competição nos Estados Unidos teriam aberto espaço a ele no time.
A partir de então, Mancini não seria mais convocado para a seleção italiana. O craque se aproximava dos 30 anos e, mesmo rendendo bem na Samp ou na Lazio, seria ignorado pelos comandantes da Azzurra. A nova chance aconteceria apenas em 2018, já no papel de treinador. A semifinal contra a Espanha representará exatamente seu 36° duelo à frente da equipe, igualando a marca estabelecida como atacante. E com um rendimento absurdo, quebrando o recorde de invencibilidade de Vittorio Pozzo. Se dentro de campo Mancini marcou poucos gols pela Itália, seu time enche os olhos pela sede ofensiva.
As coincidências sobre Mancini neste período à frente da seleção não param por aí. O compromisso na fase final da Eurocopa acontece em Wembley, o estádio onde disputou seu jogo mais importante com a Sampdoria. O velho amigo Vialli estará ao seu lado – assim como Alberigo Evani, Attilio Lombardo, Fausto Pari, Giulio Nuciari, Fausto Salsano e Massimo Battara, todos eles seus antigos companheiros na Samp durante as décadas de 1980 e 1990. Está cercado dos homens com quem viveu o ápice de sua carreira, disposto a escrever uma nova história na Azzurra. A Eurocopa serve de elo com o que viveu na Alemanha Ocidental 31 anos depois. E, mesmo se conquistar o título continental, a Copa de 2022 ainda deverá ter um gosto especial ao lendário craque que não viveu o Mundial dentro de campo.

