Eurocopa

A abertura da Euro 2020 foi um excelente cartão de visitas ao trabalho construído por Roberto Mancini na Itália

Treinador realiza uma renovação de nomes e ideias na Azzurra, que rendeu uma ótima estreia contra a Turquia

O hino da Itália não tocava numa grande competição do futebol de seleções desde 2016. A ausência na Copa do Mundo de 2018 doeu, assim como a pandemia ampliou a espera. Nesta sexta-feira, os italianos puderam cantar a plenos pulmões seu belo hino antes da abertura da Euro 2020. E a vitória por 3 a 0 sobre a Turquia serviu como um excelente cartão de visitas a quem ainda não tinha percebido a qualidade do trabalho desenvolvido por Roberto Mancini neste triênio. O treinador chegou com uma ideia de jogo diferente, mais pautada na ofensividade, e contou com uma ótima fornada de jovens talentos. Isso permitiu que a Azzurra viesse de um ciclo muito consistente, sem perder desde setembro de 2018. Ainda assim, esta contundente estreia no Estádio Olímpico serve de confirmação ao que vem sendo realizado e respalda ainda mais Mancini.

Como jogador, Roberto Mancini disputou uma Eurocopa pela seleção italiana, em tempos nos quais formava uma azeitada dupla de ataque na Sampdoria com Gianluca Vialli. Os dois eram titulares na linha de frente de Azeglio Vicini durante a Euro 1988 e o próprio Mancini anotou o primeiro gol daquela edição do torneio, abrindo o placar no empate por 1 a 1 contra a Alemanha Ocidental na estreia. A Itália passou de fase, mas parou nas semifinais diante da União Soviética. Então, demoraria exatamente 33 anos e um dia para que o veterano, com Vialli aparecendo ao seu lado no banco como seu coordenador técnico, se reencontrasse com a Eurocopa.

Mancini viveu muita coisa nestas mais de três décadas. Consagrou-se na Sampdoria e também na Lazio, disputou Copa do Mundo, aposentou-se como um dos melhores atacantes do Calcio. Como treinador, deu passos firmes e construiu também sua trajetória vitoriosa. Quebrou jejuns e iniciou dinastias, cada qual com sua própria característica, na Internazionale e no Manchester City. Virou um dos comandantes mais importantes do futebol italiano, mesmo que seus trabalhos ao longo da última década não tenham sido tão bons. De qualquer maneira, chegou com uma história respeitável (tanto dentro quanto fora de campo) para dirigir a Itália depois da hecatombe na repescagem de 2017. E de fato escreve um novo capítulo à Azzurra.

Roberto Mancini empreendeu uma renovação mais do que necessária no elenco, e contou com bom material humano para isso. A qualidade da nova safra do futebol italiano não era tão reconhecida quanto merecia, mas rende frutos e garante um grupo bem recheado de jogadores. Tão importante quanto, Mancini também renovou ideias. Segundo suas próprias palavras, a proposta não era ver uma Itália defensiva e reativa, como manda a tradição da seleção. Virou um time que procura bem mais o ataque e aproveita seus talentos em campo. Tenta deixar para trás as decepções, que contemplavam também duas quedas em fase de grupos de Copas do Mundo.

O ciclo preparatório da Itália já tinha sido bom o suficiente. A única derrota que aconteceu desde o segundo semestre de 2018, contra Portugal, foi a que impediu o time de disputar as finais da Liga dos Nações de 2018/19. A partir de então, a Azzurra sobrou nas Eliminatórias da Euro e na Liga das Nações de 2020/21, garantindo uma vaga no Final Four. Obviamente, o time não amassou todos os adversários e teve suas atuações mornas no período – algo normal, até pensando nas dificuldades para se treinar uma seleção, sobretudo durante a pandemia. Mas havia um claro padrão de jogo mais agressivo, que não perdia a segurança atrás e rendia muito mais fluidez na frente. O grande teste, então, ocorreu nesta sexta de estreia na Euro 2020.

A Turquia era um adversário que merecia respeito. Esteve muito aquém do esperado, mas vinha de boas atuações contra adversários de peso no último ciclo e conta com bons valores, especialmente na defesa. A Itália, entretanto, reduziu essas expectativas sobre os turcos a pó. Foi uma senhora atuação dos italianos, apresentando seus muitos recursos e dominando do início a fim. A superioridade da Azzurra no Estádio Olímpico foi inquestionável, com muito volume e insistência nas jogadas ofensivas. Dá até para dizer que os gols foram um pouco “achados” pela maneira como saíram, considerando os erros dos adversários. Ainda assim, não se nega que os italianos os procuraram muito. Terminaram o jogo com 24 finalizações, contra apenas uma da Turquia. Os tentos saíram naturalmente.

Fica até difícil de destacar algum jogador da Itália, individualmente. Ciro Immobile foi o mais preponderante, com um gol e uma assistência. Domenico Berardi e Lorenzo Insigne participaram muito nas pontas. Jorginho fez um grande papel ao ditar o ritmo no meio, assim como Manuel Locatelli. Leonardo Spinazzola garantiu fluidez pela esquerda e Giovanni Di Lorenzo entrou bem na direita. Mesmo pouco exigido, Giorgio Chiellini foi preciso quando teve que aparecer. No fim, o destaque foi mesmo o sistema que permitiu aos italianos funcionarem tão bem coletivamente. Méritos de Mancini dentro disso.

O terceiro gol da Itália, em especial, marca essa qualidade. O lance nasceu de um erro do goleiro Ugurcan Çakir na saída de bola, que permitiu a recuperação rápida dos italianos. Mesmo assim, sobrou precisão para construir um ataque tão rápido e tão envolvente, sem sequer dar tempo para que a defesa turca reagisse. Foram quatro jogadores participando, três deles pegando e passando com extrema agilidade. Insigne providenciou a cereja do bolo, ao se infiltrar na esquerda e dar um tapa com curva que saiu do alcance do arqueiro. Talvez o grande retrato desta estreia soberana da Azzurra no Estádio Olímpico de Roma.

Ainda é cedo para cravar qualquer afirmação mais incisiva sobre a Itália, e uma competição como a Eurocopa guarda suas armadilhas. Mas dá para dizer que uma nova impressão fica sobre a Azzurra desde já, por algo construído continuamente há três anos. A Euro 2016 teria seu papel para resgatar os brios dos italianos, mas de outra forma, com uma equipe limitada e combativa sob as ordens de Antonio Conte. Mancini consegue tirar mais de um grupo de qualidade superior e, de certa forma, reflete um espírito que se vive também na Serie A. Num momento de renascimento do Calcio, com várias equipes muito bem montadas para buscar o gol e ênfase ofensiva, a seleção parece se aproveitar desse ambiente. Começa sob aplausos nesta Euro, não só pelo resultado, mas também pela maneira como ele foi estabelecido.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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