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Jogadores da seleção brasileira esvaziaram manifestação que ensaiaram e tornaram tudo um grande nada

Jogadores criticaram organização da Copa América, mas direcionaram críticas à Conmebol, sem citar a CBF e Rogério Caboclo, e alegaram que "nunca diriam não à Seleção Brasileira"

Os jogadores da seleção brasileira divulgaram um comunicado em suas redes sociais após o jogo contra o Paraguai, vencido pelo Brasil por 2 a 0. Havia expectativa sobre o que seria dito por jogadores e pelo técnico brasileiros, já que eles haviam indicado que só falariam sobre o assunto Copa América depois desta partida. A nota saiu, mas sem qualquer crítica à CBF, ou mesmo a Rogério Caboclo. Aliás, nem foram citados.

Antes da divulgação do comunicado, o zagueiro Marquinhos deu entrevista na saída de campo. “A gente sabe de todo o contexto da Copa América. Então, a gente discutiu muito nesses dias, interna e externamente. A gente vê tudo que as pessoas falam sem saber das verdades. Em momento algum a gente negou vestir essa camisa, porque isso aqui é nosso sonho de criança, então é o maior orgulho estar vestindo essa camisa. A gente fez o que a gente tinha que fazer nesses dois jogos, que eram nosso foco no momento. A partir de agora, a gente vai ver o que será decidido. Existe uma hierarquia. Somos cientes do nosso papel importante, mas em momento nenhum negamos vestir essa camisa”, disse o zagueiro.

Importante apontar que a informação não era de que os jogadores se recusariam a vestir a camisa, e, sim, que estavam insatisfeitos e articulavam, coletivamente, não jogar a Copa América. Algo que, aliás, os atletas da seleção brasileira, liderados por Neymar, falavam com os jogadores das outras seleções. Embora tenham admitido problemas, jogadores de outras seleções lembraram que nem todos são estrelas europeias e poderiam abrir mão do que poderiam receber pela competição, além de sofrer consequências com um possível boicote. Consequências que, para os brasileiros, seriam pequenas, ou nulas.

Os jogadores chegaram a propor que as datas reservadas à Copa América fossem usadas para jogar as Eliminatórias da Copa. Os jogos previstos para março foram adiados, o que fez com que os duelos da quinta e sexta rodadas não fossem disputados. Assim, seria preciso jogar rodadas duplas nas Datas Fifa de setembro e outubro, pelo menos, aumentando o número de jogos e o risco de problemas físicos para os próprios jogadores. A ideia não foi adiante, até porque precisaria de uma articulação complexa da Conmebol com todas as dez seleções sul-americanas. E, principalmente, não havia interesse nenhum em fazer isso, seja da CBF ou da Conmebol, que quer lucrar com a Copa América, um dos seus principais produtos.

“Mas quem falou que o momento era de não jogar?”

Já na sala de entrevistas coletivas, Marquinhos apareceu sentado ao lado de Tite e do coordenador de seleções, Juninho Paulista. Quando foi questionado sobre a possibilidade dos jogadores não atuarem na Copa América, ele rebateu.

“Mas quem falou que o momento era de não jogar (a Copa América)? A gente entende o trabalho de jornalistas e repórteres, mas eles têm que ter muito cuidado com as informações que passam, principalmente porque depois a gente é julgado por coisas que não são os fatos verdadeiros. Isso aqui é nosso sonho de criança, estar vestindo a camisa da seleção brasileira. Esse é o nosso orgulho, um dos maiores orgulhos para mim. Em momento algum a gente disse que se recusaria a vestir essa camisa. Temos que ter muito cuidado. A gente respeita muito o trabalho, mas eles não podem afirmar uma coisa assim, onde nem sabem se é verdade ou não”.

Marquinhos também foi perguntado se o afastamento de Rogério Caboclo por 30 dias tinha influenciado na forma como os jogadores decidiram se manifestar em relação à Copa América. O zagueiro negou. “Não (influenciou). Penso que a gente sabe da gravidade do assunto. É um assunto muito delicado, então não cabe a nós julgar ou falar algo a mais. As pessoas que precisam julgar o caso já fizeram o que tinham que fazer. Vamos deixar isso para eles e focar no que a gente tem que fazer, que é jogar bola e ganhar os jogos importantes”

Segundo Marquinhos, a decisão de disputar a Copa América não tem qualquer cunho polítco. “Creio que cada um tem sua opinião. Todos têm liberdade de se expressarem politicamente. Não vem ao caso nesse momento, ainda mais com a camisa da seleção brasileira”, disse o jogador do PSG. “Se cada um quiser se expressar politicamente, que faça isso no momento em que estiver em sua casa, no seu momento pessoal.”

“Não sou hipócrita, não sou alienado”

Então foi a vez do técnico Tite responder às perguntas. Assim como Marquinhos, atribuiu culpa à imprensa, dizendo que “não deveriam colocar palavras na boca das outras pessoas sem ter o devido conhecimento”.

“Meu limite é da serenidade, da paz. Agradecer a todos do staff, comissão técnica, grande trabalho que conseguimos realizar. De estar em paz comigo mesmo, respeitar todos. De ter o mesmo cuidado… O Marquinhos (zagueiro) foi muito feliz. Não colocando, e essa, sim, eu repudio, não colocando palavras na boca das outras pessoas sem ter o devido conhecimento. Informação verdadeira é uma grande prevenção para a gente saber como são as coisas, mas precisa-se verdadeiramente saber da situação de cada um. Temos posições, nós somos, mas temos, agora temos, sim, a grandeza. E talvez o momento particular seja de externar, mas agora não. Agora tem uma seleção, um trabalho, um grupo todo muito importante.

Essa construção, que por vezes no bastidor, e, não por nada, mas que a mídia não tem acesso, o quanto é importante na construção do trabalho. Essa é a situação que eu pensei. Peguei minha energia toda e fiquei voltado para isso. Não sou hipócrita, não sou alienado e sei que as coisas acontecem. Mas sei dar prioridade. Prioridade é meu trabalho e a dignidade do meu trabalho.”

Vale lembrar que o técnico foi perguntado a respeito mais de uma vez, mas preferiu dizer que o posicionamento era unido entre jogadores e comissão técnica e era “claro e cristalino”, mas que não revelariam. Assim, com boas fontes, os jornalistas descobriram qual era o posicionamento dos jogadores e do técnico.

No final da coletiva, o coordenador de seleções, Juninho Paulista, também pediu a palavra para se manifestar. E foi na mesma linha.

“Tivemos duas semanas difíceis emocionalmente. Quero parabenizar Tite, a comissão, o pessoal de apoio, pelo suporte… O trabalho não foi fácil, mas foi de excelência. Estamos felizes de conquistar, de fazer história, de participar, eu comandar um grupo de profissionais tão competentes. Dizer isso é importante. Até para a entidade, em nome da entidade, a satisfação em tê-los, a satisfação com o trabalho é muito grande”, afirmou.

“A gente vai continuar nesse caminho. O foco principal sempre foi Copa do Mundo, e as eliminatórias já são Copa do Mundo. Estou também aqui para reiterar o manifesto dos atletas, que eles soltaram agora nas redes. É um manifesto que nos representa. São jogadores, comissão e a delegação de todos os profissionais que trabalham com maior afinco para que a CBF possa dar as melhores condições de trabalho”, disse ainda o coordenador de seleções.

O comunicado dos jogadores

A esperada manifestação dos jogadores, anunciada por eles mesmos e por Tite, saiu no começo da madrugada desta quarta-feira. Aliás, o comunicado surgiu via stories, o que é um tanto irônico, já que esse tipo de publicação dura apenas 24 horas. Veja o comunicado divulgado pelos jogadores em suas redes sociais:

“Quando nasce um brasileiro, nasce um torcedor. E para os mais de 200 milhões de torcedores escrevemos essa carta para expor nossa opinião quanto a realização da Copa América.

Somos um grupo coeso, porém com ideias distintas. Por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada tardiamente no Chile ou mesmo no Brasil.

Todos os fatos recentes nos levam a acreditar em um processo inadequado em sua realização.

É importante frisar que em nenhum momento quisemos tornar essa discussão política. Somos conscientes da importância da nossa posição, acompanhamos o que é veiculado pela mídia mídia estamos presentes nas redes sociais. Nos manifestamos, também, para evitar que mais notícias falsas envolvendo nossos nomes circulem à revelia dos fatos verdadeiros.

Por fim, lembramos que somos trabalhadores, profissionais do futebol. Temos uma missão a cumprir com a histórica camisa verde amarela pentacampeã do mundo. Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à Seleção Brasileira.”

Como surgiu o assunto da insatisfação dos jogadores e comissão técnica

O assunto sobre a insatisfação dos jogadores com a Copa América surgiu de informações de dentro da própria seleção brasileira. Algo que foi confirmado por Tite na sua coletiva de imprensa, antes do jogo contra o Equador. Na sequência de eventos, primeiro a Conmebol anunciou que a Colômbia não seria sede da Copa América, em 20 de maio; depois, foi a vez de anunciar a suspensão da Copa América na Argentina, no dia 30 de maio. Era um domingo, e os jogadores da seleção brasileira já estavam reunidos na Granja Comary. O presidente da CBF, Rogério Caboclo, foi até o local para fazer fotos e acompanhar o treino da equipe.

Quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa América no dia seguinte, a decisão surpreendeu os jogadores e a comissão técnica. Ficaram insatisfeitos por não terem sido consultados e acreditavam, naquele momento, que a Copa América seria cancelada. Tite, técnico, e Juninho, coordenador da seleção, se reuniram com o presidente Rogério Caboclo para expressarem sua opinião a respeito desse processo. Depois, foi a vez dos jogadores solicitarem uma reunião com o dirigente máximo da CBF e compartilharem também suas opiniões. Uma sequência que foi contada inclusive pelo técnico Tite, na coletiva pré-jogo contra o Equador.

“Temos uma opinião muito clara e fomos lealmente, numa sequência cronológica, eu e Juninho, externando ao presidente [Rogério Caboclo] qual a nossa opinião. Depois, pedimos aos atletas para focarem apenas no jogo contra o Equador. Na sequência, solicitaram uma conversa direta com o presidente. Foi uma conversa muito clara, direta. A partir daí, a posição dos atletas também ficou clara. Temos uma posição, mas não vamos externar isso agora. Temos uma prioridade agora de jogar bem e ganhar o jogo contra o Equador. Entendemos que, depois dessa Data Fifa, as situações vão ficar claras.”

Depois do jogo contra o Equador, Casemiro, capitão da seleção brasileira na partida, deu entrevista no pós-jogo ao repórter Eric Faria, ainda na saída de campo. Na fala, o jogador não quis dizer qual era o posicionamento, mas repetiu que “todo mundo sabia” qual era. Mesmo quando o repórter o questionou, dizendo que não sabia, o volante repetiu que todos sabiam.

“Não podemos falar do assunto. Todo mundo já sabe nosso posicionamento”, falou Casemiro, antes de ser interpelado pelo repórter Eric Faria, respondendo que ele não sabia qual o posicionamento. “Nosso posicionamento todo mundo sabe. Nosso posicionamento todo mundo sabe. Acho que estar mais claro é impossível, o Tite deixou claro qual o nosso posicionamento e o que nós pensamos da Copa América. Existe respeito, existem hierarquias que temos que respeitar. Claro que queremos dar a nossa opinião, rolaram muitas coisas. Mas, existe respeito e… infelizmente…”

O comunicado dos jogadores critica a Conmebol pela condução da organização da Copa América. A CBF de Rogério Caboclo não foi citada, nem o seu presidente afastado temporariamente. Também não quiseram esclarecer a insatisfação, dizendo apenas um genérico “por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional”.

Como escreveu a jornalista Marília Ruiz, Casemiro e Marquinhos esvaziaram algo que eles mesmos ensaiaram e que chegou ao conhecimento do público porque os jornalistas estão lá para apurarem as informações, e o fizeram com precisão. Não terem se manifestado antes, quando tinham o tal posicionamento claro e cristalino, como dizia Tite, foi uma oportunidade perdida de eles impedirem qualquer direcionamento que não fosse o que eles queriam. Foram eles que criaram expectativa para se manifestarem dali a cinco dias.

https://twitter.com/mariliaruiz/status/1402459348878737411

Jogar a Copa América é uma decisão política, querendo os jogadores ou não

Os próprios jogadores contaram no comunicado que acompanham o que é veiculado na mídia e estão presentes em redes sociais. Sabiam o que estava sendo falado. Tanto que Casemiro fez questão de dizer que “todo mundo sabia” o posicionamento dos jogadores. Se eles quisessem dizer que nunca cogitaram não disputar a Copa América, tinham esse espaço. Eles fizeram o contrário disso ao aumentar a pressão.

Com tudo isso, nos dá a impressão de que os jogadores e comissão técnica queriam é aumentar a fervura sobre o presidente da CBF, Rogério Caboclo, que acabou afastado. Uma vez cumprido esse objetivo, o resto pareceu não ser o bastante para uma manifestação que fosse além. Como disse Bruno Bonsanti no podcast Trivela #351, os jogadores não quiseram se comprometer com ninguém.

Se os jogadores da seleção brasileira, com o peso e tamanho que têm, não conseguem se comprometer nem mesmo em se manifestar de forma firme contra a realização da Copa América em um país devastado por uma pandemia, a ponto de decidirem por não jogá-la, como poderiam pedir que outras seleções o fizessem? Os jogadores pareceram não estarem dispostos a se comprometer e irem até o fim por algo, porque isso necessariamente desagradaria alguém. Então, eles tiveram que escolher quem iam desagradar.

Há um outro elemento nisso tudo: as implicações do possível boicote. Houve uma repercussão política forte, que chegou até à CPI que acontece em Brasília. Mais do que isso: gerou uma insatisfação entre os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, que foram desde memes chamando Tite e os jogadores de “comunistas” até críticas duras de Flavio Bolsonaro, senador e filho do presidente. É inevitável que isso tenha chegado aos jogadores e é muito provável que esta situação tenha causado incômodo.

Ao decidirem participar da Copa América, como foi divulgado na segunda-feira, houve um alívio dentro do governo federal. O que, a essa altura, também era previsível e os jogadores também sabiam que aconteceria. Todos os jogadores, assessorados por dezenas de pessoas, fizeram os cálculos e decidiram jogar a Copa América, o que é uma decisão política em si também, querendo os jogadores ou não.

É compreensível que os atletas não queiram ter um posicionamento político, especialmente quando a questão é politizada de forma partidária. Mas isso se torna impossível no momento em que o presidente do Brasil é o principal fiador da Copa América. É impossível quando o presidente da CBF, acusado de assédio sexual e moral, é afastado e foi o principal articulador para que a Conmebol chegasse até o presidente do Brasil e pedisse ajuda ao governo brasileiro. A política é parte da vida, e é impossível que você não tome uma atitude política. Não se posicionar é sempre um posicionamento político também. A omissão conta tanto quanto a ação.

Resta saber como os jogadores vão reagir quando forem questionados, em coletivas de imprensa ou em entrevistas pós-jogo. A articulação por uma “nota de repúdio”, algo que virou comum na nossa República, foi bastante vazia. Para dizerem todos juntos, disseram muito pouco. Uma insatisfação genérica, meio “contra tudo que está aí”..

Os jogadores usaram um discurso de hierarquia, mas estavam insatisfeitos, e dá para dizer que dificilmente externariam a mesma opinião caso Rogério Caboclo não tivesse sido afastado. Mas isso, claro, é algo que não saberemos, por enquanto. O trabalho de jornalistas será continuar perguntando aos jogadores e ao técnico sobre o assunto, mesmo que eles não gostem. Porque se for para falar só o que gostam, eles têm assessoria de imprensa.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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