Vaga na Copa do Mundo ensina lição importante na busca de seleções por sua própria tradição
Colunista da Trivela, Tim Vickery faz análise importante sobre a última Data Fifa de 2025
Com o risco de ficar fora de mais uma Copa do Mundo, é impressionante lembrar que o último mata-mata que a Itália participou foi na final vencida em 2006.
Com uma retrospectiva recente tão ruim, acho que tem muitos motivos para o futebol italiano olhar para dentro para identificar os seus problemas. Mas isso não tem sido a reação de Gennaro Gattuso, técnico da seleção. Esse pensa que tem vagas demais para a África, prejudicando a Europa.
Esse argumento se chama “o apelo à tradição”. Já se usou muito aqui, no futebol brasileiro, por pessoas que pensavam que era um absurdo ter time grande na segunda divisão. Reconhecendo todo o seu prestígio, tudo que tinha feito historicamente, esses times grandes de tantas conquistas (as Itálias do futebol do Brasil) deveriam ter lugar cativo na primeira divisão. A tradição exige.
Além do crime contra o conceito de mérito, o argumento tem um defeito óbvio. A tradição não é uma coisa estática. Ela se faz todo dia.

Um exemplo fácil. Era 1972 e o Brasil organizava um torneio para comemorar 150 anos de independência, e também para ajudar a campanha de João Havelange na sua tentativa de virar o presidente da Fifa. O Brasil convidou o mundo, mas muitas nações rejeitaram a oferta — inclusive a Holanda. Nas páginas da revista “Placar”, nenhum lamento. “Entre nós,” fala a revista, “não vai fazer falta nenhuma.”
Claro! Não tem tradição! Mas dois anos mais tarde, a Holanda venceu Uruguai e Argentina com facilidade e eliminou o Brasil com um time até hoje lembrado com um dos mais revolucionários na história do futebol. E a partir de aí, a Holanda tem uma tradição para se orgulhar.
Para a irritação de Gattuso, a sua Itália ainda vai ter que ralar se quiser classificar para a Copa do ano que vem, enquanto a República Democrática do Congo também tem uma chance. No caso dos africanos, isso é bem merecido depois de vencer Camarões e a Nigéria. Agora vem os play-offs intercontinentais em março, oferecendo ao país a possibilidade de ir para a sua primeira Copa desde 1974, quando ainda se chamava Zaire.
A sua participação mais de 50 anos atrás ainda é uma marca significativa na história do jogo. O então Zaire se tornou o primeiro país da África subsaariana a jogar numa Copa do Mundo. As lembranças não são boas. Somente perdeu para a Escócia por 2 a 0, e no terceiro jogo vendeu caro a derrota de 3 a 0 para o Brasil. Mas no meio houve a Iugoslávia, e uma goleada lastimável: 9 a 0.

O que aconteceu? Os jogadores africanos não eram tão ruins assim. Mostravam lampejos da habilidade. Mas parecia que nunca tinham visto um cruzamento nas suas vidas. Mais uma bola alta na área, mais um gol da Iugoslávia.
O Zaire enfrentou um time de uma escola de futebol que não conhecia, que não soube combater. Culpa deles? Nem um pouco. Como aprender a jogar contra esse tipo de futebol se nunca antes foi possível ir para uma Copa do Mundo?
Conclusão — ao Zaire, faltou a tradição porque ninguém antes abriu a porta para eles. A África tinha sido barrada do baile — e, do lado de fora, não tinha como aprender como se comportar na festa.
Outros tempos, felizmente. Hoje tem muito mais intercâmbio. O RD Congo tem jogadores ganhando a vida fora, tem jogadores que cresceram fora — e a televisão fez o melhor futebol, e estilos diferentes, acessível para todos.
Não vai sofrer um choque como os seus conterrâneos de cinco décadas atrás. Pode ir para a América do Norte, — para os playoffs e, quem sabe, depois para a Copa também — confiante na sua capacidade de escrever um novo e glorioso capítulo na construção da sua própria tradição.



