Eliminatórias da Copa

‘Sentimento grande de desilusão’: Como Itália lida com crise histórica e nova repescagem

Seleção tetracampeã do mundo não consegue evoluir, e torcedores sofrem por ver Azzurra 'parar no tempo'

Uma das principais seleções do futebol mundial flerta com a possibilidade de ter um “hat-trick” nada agradável e ficar fora da Copa do Mundo pela terceira vez seguida. Era um cenário quase inimaginável para a Itália, mas resultado de anos de problemas que ultrapassam as performances dentro das quatro linhas.

Há um sentimento grande de desilusão — afirma Fabio Larosa, jornalista do site “Calcio d’Angolo”, à Trivela.

Quem viu a conquista da Eurocopa 2020 com vitória sobre a Inglaterra nos pênaltis poderia ter pensado que ali renasceria a tetracampeã mundial, porém, o troféu foi mais um “título de oportunidade” do que prenúncio de dias melhores na opinião de Larosa.

Segundo ele, o contexto da Covid afetou significativamente o torneio — tanto que só pôde ser disputado em 2021. “Estádios vazios ou meio vazios, calendários estranhos, times sem a condição física ideal. A Itália surfou a onda certa na hora certa”, pondera.

Passados quatro anos do título, fica difícil rebater essa análise. Os italianos tiveram desempenho ruim nas Eliminatórias para a Copa de 2022 e precisaram encarar a repescagem, na qual acabaram derrotados pela Macedônia do Norte. Conclusão: fora do Mundial pela segunda vez consecutiva.

Isso porque, em 2018, já haviam passado por situação similar ao cair para a Suécia no playoff.

Estar ausente de dois mundiais era um recorde desagradável, contudo, o número pode ser mais negativo ainda. Ao perder por 4 a 1 de virada para a Noruega — em pleno San Siro –, a Azzurra se colocou novamente na traumática repescagem.

Se os comandados por Gattuso não correrem atrás do prejuízo e superarem os problemas antigos, vão assistir mais uma Copa de casa em 2026.

Muda o técnico, mas nada muda: Itália em dificuldades para engrenar

Quais são esses problemas? Larosa resume tudo à falta de evolução. Para começar, a Itália sofre com instabilidade no cargo de treinador desde a saída de Roberto Mancini, que ocupou o posto de 2018 a 2023.

— Muitos técnicos diferentes em um curto tempo, e muitos deles sem a experiência internacional que se espera de uma seleção de ponta — afirma o jornalista.

O sucessor imediato de Mancini foi Luciano Spalletti, responsável por comandar a equipe durante a Euro 2024, que terminou após eliminação para a Suíça nas oitavas. Ele ficou na vaga até junho deste ano.

Spalletti saiu contrariado e visivelmente chateado após perder por 3 a 0 para a Noruega nestas Eliminatórias e deu lugar a Gennaro Gattuso.

O atual treinador ajudou a Itália a se reanimar no qualificatório para a Copa 2026, contudo, não evitou outra repescagem.

— Cada vez que um treinador chega, o projeto todo é reiniciado. Novas ideias, novas táticas, novas “visões” que nunca duravam o suficiente para se tornar algo real. Zero continuidade e zero identidade — diz Larosa.

Gennaro Gattuso, técnico da seleção italiana (Foto: Imago)

Isso reflete em outro alerta na Azzurra, que é a dificuldade em se desenvolver. “A Itália simplesmente não tem os recursos e investimentos necessários para competir no topo mais”, declara ele.

Para exemplificar a situação, vale destacar como os italianos, de certa forma, “pararam no tempo”. Após a conquista da Euro 2020 e consequente ausência na Copa de 2022, a palavra de ordem na seleção era renovação.

Mancini considerou isso crucial para a melhora do plantel e chegou a fazer apelo aos clubes, com o pedido para lançar joias na Serie A e ajudá-las a evoluir em alto nível.

No futebol italiano, é comum que as promessas disputem jogos pelo Primavera — uma espécie de sub-21 — e apareçam relativamente tarde no principal cenário do esporte no país. “O desenvolvimento de jovens é lento e subfinanciado”, opina Fabio Larosa.

— As pessoas se entusiasmam com Pio Esposito como se fosse um talento geracional. Talvez ele seja bom, mas estreou na Serie A aos 20 anos, enquanto Lamine Yamal já era uma estrela com 17. Isso diz tudo. O futebol italiano acorda tarde, reage tarde, investe tarde.

Enquanto países como Espanha, França, Brasil, Argentina e Inglaterra têm na revelação de talentos o ponto forte de suas ligas, a Itália busca veteranos para agregar valor à primeira divisão.

A questão é que a estratégia pode ser ruim para a seleção a longo prazo.

— Ao invés de promover jovens italianos, os clubes continuam contratando estrangeiros em final de carreira. Modric, Vardy, Matic… Parece uma casa para aposentados às vezes. Ótimos jogadores, claro, mas isso não ajuda o sistema a crescer.

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Como a seleção italiana pode sair da incômoda crise?

A única maneira de melhorar a situação é promover uma “reformulação séria, dolorosa e honesta”, na visão do jornalista. Porém, o contexto político dificulta as coisas. “O sistema é conduzido por pessoas que preferem manter as coisas como estão do que correr o risco de perder a influência. Até que isso mude, nada mudará”, afirma.

Enquanto isso, quem sofre são os torcedores italianos, historicamente apaixonados por futebol. Larosa diz que estar fora das duas últimas Copas fez com que os fãs rompessem com a seleção o vínculo emocional tão característico do país.

Aquele vínculo que os fazia proclamar a plenos pulmões o hino da nação antes das partidas, por exemplo, ou expor bandeiras e declarar o amor pela Azzurra nas ruas das cidades. O que sobrou foi a falta de entusiasmo.

Torcedores da Itália desapontados na Euro 2024
Torcedores da Itália desapontados na Euro 2024 (Foto: Imago)

— Não é raiva, é algo mais silencioso. Como ‘me acorde quando as coisas funcionarem de novo’. Os italianos amam muito futebol, mas agora há uma distância, um esgotamento emocional — explica o jornalista.

Um revés como esse, de não ter seus principais apoiadores ao seu lado mais, pode ser tão doloroso para os jogadores quanto perder a repescagem do Mundial uma terceira vez seguida.

A boa notícia para Gattuso e companhia é que a solução é de conhecimento geral — e até simples. No entanto, tudo depende da Data Fifa de março, quando acontecerrá o playoff por vaga na Copa de 2026.

— Se a Azzurra conseguir reconstruir as coisas da maneira correta — identidade real, projeto real e investimento na juventude — o amor vai voltar imediatamente. Mas, no momento, todos estão presos entre a frustração e a resignação, esperando um reinício que ainda não está no horizonte — conclui Fabio Larosa.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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