Brasileirão Série A

Tite e Felipão se reencontram depois de 11 anos para um Flamengo x Atlético-MG de arrepiar

Jogo entre Flamengo e Atlético-MG, crucial na na briga pelo título, será novo capítulo na confusa relação entre Felipão e Tite

Flamengo e Atlético Mineiro farão duelo decisivo nesta quarta-feira (29), pela 36ª rodada do Campeonato Brasileiro. Separados por apenas três pontos, Rubro-Negro e Galo lutam pelo título e, a depender do resultado, deixarão claras as prioridades nas últimas duas jornadas da liga nacional. O crescimento das duas equipes na reta final é inegável e passa muito pelo trabalho de dois treinadores consagrados: Tite e Felipão.

São dois dos últimos quatro treinadores da Seleção Brasileira, é impossível negar o lastro que os dois nomes têm no futebol nacional. Agora, eles se encontram em um confronto que não é considerado uma final, na teoria, mas, na prática, tem cara de decisão. Além do protagonismo dos atletas, muito qualificados, já que Flamengo e Atlético-MG possuem dois dos melhores elencos do Brasil, os olhos deverão estar, também, nas áreas técnicas.

Tite deixa o ambiente leve para pavimentar volta por cima

Quando chegou, Tite teve a humildade de reconhecer que o Flamengo precisaria de tempo para retomar o melhor futebol. O objetivo inicial ficou claro rapidamente e vai muito além das quatro linhas. Adenor e sua comissão técnica desembarcaram no Rio de Janeiro, acima de tudo, para reintegrar o clube e dar confiança aos atletas.

Por enquanto, a missão está sendo cumprida. Nesse aspecto, Tite e Felipão bebem da mesma fonte: além dos treinos, a gestão de grupo, com o lado mais paizão, é fundamental. A partir daí, com elenco focado, confiante e na mesma página, a comissão técnica pôde aprimorar a parte física e tática.

Tite durante treino com a equipe profissional no Ninho do Urubu (Foto: Marcelo Cortes/Flamengo)

A melhora é nítida em alguns atletas, como é o caso de Matheuzinho, que retomou a condição de titular, e, em especial, Everton Cebolinha. O trabalho de Tite com o atacante foi fundamental, já que os dois trabalharam juntos na Seleção Brasileira. Entender as necessidades e polir o elenco foi a primeira missão dada ao treinador, e ele está cumprindo com maestria.

Flamengo de Tite é forte, especialmente no Maracanã

Em números, o Flamengo é um dos melhores times do Brasileirão depois da chegada de Tite. Dos nove jogos sob a batuta do treinador, o Rubro-Negro venceu seis, empatou um e perdeu dois, ou seja, 19 pontos de 27 possíveis. O ataque voltou a ser eficiente, tendo Pedro e Cebolinha como protagonistas, mas a grande volta por cima é do sistema defensivo.

Tão criticada em 2023, a defesa do Flamengo está cada vez mais sólida e sofreu apenas seis gols nos nove jogos de Tite. O curioso é que desse número, a meta de Rossi só foi vazada em três partidas, contra Grêmio, Santos e, mais recentemente, Fluminense. São seis compromissos sem sofrer tentos, algo inimaginável nos trabalhos de Vítor Pereira e, principalmente, Sampaoli.

O Rubro-Negro já era o melhor visitante do Brasileirão, mas, com Tite, o Maracanã também se tornou uma fortaleza da equipe. Dos nove jogos disputados com o treinador, quatro foram no estádio, e o Flamengo está invicto: são três vitórias e um empate. Nesta quarta-feira, diante do Atlético-MG, a torcida promete nova festa de arrepiar para apoiar a equipe.

O péssimo início e a recuperação de Felipão no Atlético

Então aposentado dos gramados, Felipão surpreendeu ao chegar no Atlético na 11ª rodada do Campeonato Brasileiro, recebendo o time na 4ª posição. No entanto, um início desastroso, com nove jogos sem vencer, colocou em cheque o ano do clube e o trabalho do treinador. O Galo caiu para o 13° lugar e não dava sinais de que conseguiria melhorar a ponto de brigar por algo. A virada dessa fase começou na rodada 18, contra o São Paulo, quando o treinador conseguiu sua primeira vitória no comando do Alvinegro.

Nós estávamos em uma situação tão ruim que entendíamos que 45/50 pontos era o máximo que íamos conseguir – disse Felipão.

De lá pra cá, o Atlético só perdeu três partidas, até por isso é hoje o time com o melhor desempenho no returno do Brasileirão, o que o levou a essa decisão contra o Flamengo, na briga não só pelo G4 como também pelo título.

— Fomos galgando posições, melhorando para conseguir os pontos necessários e hoje estamos em uma posição privilegiada. Deram chance para a gente sonhar com algo diferente e vamos buscar isso. Temos um jogo importante na quarta-feira, que pode decidir muita coisa — completou o treinador.

Essa evolução de resultados do time do Atlético passa muito por algumas mudanças de Felipão. Primeiro com ele entendendo que a dupla Hulk e Paulinho não podia ser distanciada, como ele fez quando chegou, e então reaproximando os dois, que hoje dão show nos jogos e somam 57 gols na temporada, sendo 31 no Brasileirão. Além disso, Scolari adicionou mais um volante ao time para melhorar a postura defensiva – não à toa, hoje é a melhor defesa do campeonato. Por fim, o treinador achou uma escalação que une o que ele gosta com o que Coudet pensa de futebol, já que foi o argentino que montou o elenco do Galo em 2023.

Pensamentos dos jogadores e do treinador demorou para se alinhar, mas deu certo (Foto: PGG/Icon Sport)

A escolha do Atlético por Felipão foi muito debatida na época, não só por ele estar saindo da aposentadoria para assumir o clube, mas também por ele ter um pensamento de jogo completamente diferente de Coudet, seu antecessor no cargo. Essa questão refletiu muito no campo, com o péssimo início, mas foi se ajeitando aos poucos. O próprio Scolari sempre faz questão de falar que o elenco foi montado por e para Chacho, e em como ele teve que se adaptar aos jogadores e vice-versa, que isso levou tempo e ainda está em processo.

— A mudança foi só de resultado, pois a convicção sempre foi a mesma. A gente sabe que quando tem essa mudança de treinador, tem todo o processo de entendimento. Tem o período de adaptação, mas a diferença foi quando os resultados começaram a vir. O trabalho foi o mesmo. Ele manteve a convicção e nós mantivemos a convicção nele — disse Igor Gomes sobre o trabalho de Felipão.

Procurando aproveitar a ótima fase, Felipão terá ainda a missão de vencer Tite pela primeira vez. Antes amigos próximos, os dois cortaram relações há mais de 10 anos, mesmo tempo que não se encontram na beira do campo. Ao todo, foram seis confrontos dos times dos dois, com quatro vitórias para o atual técnico do Flamengo e dois empates. Na Seleção, Tite tem mais jogos e melhor aproveitamento, mas Scolari tem uma Copa do Mundo na conta, a última conquistada pelo Brasil, inclusive, que dá um peso considerável para o atual treinador do Atlético na disputa entre eles.

Veja como o Atlético-MG mudou da água para o vinho com Felipão

Os primeiros jogos de Felipão no Atlético
9 jogos
4 empates
5 derrotas
14,8% de aproveitamento
7 gols marcados – 0,7 p/jogo
12 gols sofridos – 1,3 p/jogo
13° colocado no Brasileirão

O Atlético a partir da primeira vitória de Felipão
19 jogos
12 vitórias
4 empates
3 derrotas
70,1% de aproveitamento
27 gols marcados – 1,4 p/jogo
9 gols sofridos – 0,4 p/jogo
4° colocado no Brasileirão

Relação entre os dois já foi boa, mas não é mais

Tite e Felipão já foram grandes amigos um dia. Eles se conheceram na década de 1970, quando Adenor Bachi era aluno e Scolari professor de Educação Física em Caxias do Sul. As conversas era frequentes, até porque, os dois experimentaram sucesso na carreira e eram renomados no futebol brasileiro. Até na festa de aniversário de Matheus Bachi, filho e, atualmente, auxiliar do Flamengo, Luiz Felipe foi. Tudo mudou em 2010.

Na ocasião, o Corinthians, de Tite, lutava pelo título brasileiro com o Fluminense, que enfrentaria o Palmeiras de Felipão na penúltima rodada do Brasileirão. O Timão precisava que o Verdão vencesse para buscar o título, mas a equipe de Scolari perdeu em jogo que, na opinião do ex-amigo, faltou empenho. Desde então, a relação nunca mais foi a mesma, como o irmão de Adenor, Miro Bachi, contou ao UOL.

— Cada um tem um diagnóstico para o rompimento. O meu irmão acha que na hora em que ele poderia ajudar ganhando do Fluminense, não ajudou. Eles tinham uma relação muito forte e ele esperava outra postura. Essa é a visão do meu irmão. O Felipe, claro, acha que isso não aconteceu e pensa que meu irmão foi ingrato. Assim que a relação se rompeu. Eu não sei se vão reatar, mas tenho certeza que lá no íntimo ambos gostariam. O Felipão é muito orgulhoso, meu irmão também é. O Tite é um cara que diz: “eu perdoo, mas não esqueço”. São pessoas do bem, mas não sei se vão reatar por isso. No fundo, sei que gostariam. Eu gostaria também. Confesso que não gosto do Felipe, dessa coisa da malandragem, mas eu gostaria que reatassem — disse.

Tite e Felipão se abraçam antes de Corinthians e Palmeiras em 2012 (Foto: Alex Silva)

Depois do ocorrido, a dupla participou de diversos encontros polêmicos. Em campo, Tite soltou o já conhecido “fala muito” para Felipão em confronto vencido pelo Corinthians, diante do Palmeiras. Fora das quatro linhas, os dois preferiram se manter afastados, cada um no seu canto, incluindo quando foram treinadores da Seleção Brasileira.

Apesar de quente no início dos anos 2010, os problemas entre os dois esfriaram nos últimos anos. Afinal, como profissionais de futebol, eles não se encontram há mais de dez anos. O último confronto entre Tite e Felipão foi em 2012, quando o Timão venceu o Verdão por 2 a 1, pelo Campeonato Brasileiro, em ano que o Palmeiras seria rebaixado. No geral, são seis enfrentamentos, com quatro vitórias para Adenor e dois empates.

Foto de Guilherme Xavier

Guilherme Xavier

É repórter na cobertura do Flamengo há três anos, com passagens por Lance e Coluna do Fla. Fã de Charlie Brown Jr e enxadrista. Viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida!
Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick se formou em Jornalismo na PUC Minas em 2021. Antes da Trivela, passou por Esporte News Mundo, EstrelaBet e Hoje em Dia.
Botão Voltar ao topo