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Saldo positivo? Um balanço da passagem de Ronaldo como dono da SAF do Cruzeiro

Ídolo do futebol mundial, Ronaldo Nazário assumiu a administração do Cruzeiro em 2022, ficando cerca de dois anos e quatro meses a frente do clube que o revelou

Acabou a passagem de Ronaldo Nazário como dono da SAF do Cruzeiro, clube que o revelou para o mundo do futebol, ainda na primeira metade dos anos 1990. O ex-atacante, um dos maiores nomes da história do esporte, acertou a venda do clube celeste para o empresário mineiro Pedro Lourenço, conhecido como Pedrinho BH. Foram cerca de dois anos e quatro meses à frente da Raposa, um período muito intenso, que teve alegrias, alívio, mas também frustrações.

Isso se reflete na discrepância de sentimentos vindos dos cruzeirenses. A maioria tem gratidão pelo ex-atacante, enquanto outra parte celebrou sua saída. Ainda assim, dentre os gratos, podemos dizer que uma fatia considerável gostou da venda do clube para alguém com maior poder de investimento.

Esse poder de investimento é, inclusive, um dos principais motivos da venda do Cruzeiro. Ronaldo entendeu que não tinha capacidade financeira para seguir elevando o patamar do time e que isso resultaria em pelo menos mais dois anos apertados, algo perigoso, dado o perfil muito competitivo do Campeonato Brasileiro. Com Pedrinho, passa a existir a possibilidade de acelerar processos dentro do clube, ainda que a ideia seja manter o modelo administrativo voltado ao saneamento e independência financeira da Raposa.

Outro ponto que pesou foi o aumento dos tons das críticas da torcida a Ronaldo. Na última semana faixas de protesto, “boneco de Judas” representando o gestor e até mesmo a queima de um mosaico com a foto do Fenômeno fizeram com que ele se chateasse e pensasse em deixar o comando do Cruzeiro, e também do Valladolid, clube no qual é frequentemente alvo manifestações contrárias, em busca de mais tranquilidade.

Pensando em todas essas nuances, a Trivela decidiu fazer um balanço da passagem de Ronaldo como dono da SAF do Cruzeiro, comentando alguns dos pontos chaves do trabalho do Fenômeno e sua equipe à frente da Raposa. Confira:

Os acertos de Ronaldo na gestão do Cruzeiro

Objetivos esportivos

Se separarmos os três pilares de uma gestão como a proposta por Ronaldo e sua equipe como: objetivos esportivos, reestruturação financeira e relação com a torcida, podemos dizer que o primeiro deles foi cumprido, o que foi fundamental para que o clube conseguisse se reerguer de uma crise sem precedentes.

Ronaldo assumiu um Cruzeiro que vinha de dois anos na Série B, competição na qual passou mais perto de cair para a Série C do que de voltar para a Série A, sem perspectivas, com TransferBan e com dívidas na casa do bilhão. Ainda assim, mesmo que a duras penas, abrindo mão de ídolos, como Fábio, e jovens promessas, a exemplo de Thiago e Vitor Roque, este último que viria a sair da Raposa em negociação polêmica, montou um time competitivo para a segunda divisão e subiu como campeão em 2022, sem muitas dificuldades.

De volta à Série A, em 2023, as coisas se dificultaram, como era esperado, e o Cruzeiro passou por maus bocados para se manter na primeira divisão. Apesar disso, o objetivo foi alcançado já no final do ano e, de quebra, a Raposa voltou a uma competição internacional, se classificando para a Copa Sul-Americana de 2024. Apesar dos pesares, o que era preciso foi conquistado.

Nas outras competições, nada a destacar. Campanhas esperadas nas Copas do Brasil de 2022 e 2023, vexame na de 2024. No Mineiro, duas finais em três possíveis e nenhum título. Na Copa Sul-Americana, um começo bem ruim, mas que ainda mantém chances de classificação para os mata-matas.

Organização financeira e redução da dívida

Mais um dos pilares que foi alcançado e que só não foi colocado em primeiro lugar na lista porque adiantaria menos se o clube não tivesse conseguido, por exemplo, voltar à Série A. Mas o trabalho administrativo da gestão de Ronaldo, setor liderado pelo CEO Gabriel Lima, foi muito bom. Folha salarial equilibrada — um dos grandes desafios dos clubes no futebol mundial —, contas rigorosamente em dia, gastos controlados e a aprovação da Recuperação Judicial, uma ferramenta já conhecida, mas viabilizada pela chegada da nova gestão, que trouxe consigo uma lufada de credibilidade que não existia no Cruzeiro, fizeram com que os problemas financeiros da Raposa, uma grande bola de neve, fossem controlados.

É claro, o Cruzeiro ainda está longe de poder competir financeiramente com alguns de seus adversários, precisa seguir pagando os acordos firmados judicialmente, de forma rigorosa, por bons anos e arcar com salários de jogadores que já deixaram o clube e que poderiam estar sendo reinvestidos em atletas para o elenco. Ainda assim, as negociações permitiram que as dívidas se tornassem pagáveis e fizeram com que o time pudesse se reestruturar e oferecer melhores condições de subsistência. Além disso, o reset promovido faz com que a curva seja de um crescimento controlado, que facilita a pavimentação de um caminho de auto sustentabilidade, definido num planejamento extenso, voltado para o futuro.

Isso se refletiu na permanência de Gabriel Lima e de sua equipe na liderança do setor administrativo do Cruzeiro mesmo com a venda para Pedro Lourenço, que tratou como indispensável a continuidade do dirigente. Lima é visto como peça chave para o sucesso do clube à longo prazo.

Melhorias estruturais

Outro ponto que precisa ser destacado são as melhorias estruturais no Cruzeiro. Desde que Ronaldo chegou ao clube, as Tocas da Raposa, centros de treinamento do time estrelado, receberam melhorias ininterruptas, perceptíveis a cada visita da imprensa aos locais. Grandes, menores, trocas de gramado dos campos, reformulação de espaços, construção de novas estruturas, modernização, um ganho considerável.

Bem, alguns mais desconfiados podem argumentar que as Tocas passaram para o controle da SAF após a primeira venda e que suas valorizações fazem sentido do ponto de vista empresarial, mas é inegável que melhores estruturas refletem diretamente no desempenho esportivo.

Valorização de outras categorias

Outro grande acerto foi na valorização de outras categorias além do futebol masculino. Após a chegada da SAF, houve reformulação nas categorias de base do clube e no futebol feminino. A base inchada foi saneada e os contratos vigentes foram revistos, além de haver uma maior integração com o time principal. O mesmo aconteceu no feminino, que recebeu melhores estruturas e passou a treinar nas Tocas.

No caso das Cabulosas é até estranho tecer o próximo elogio, porque isso deveria ser uma obrigação de todos os clubes, mas como não é, é preciso falar que o Cruzeiro oferece condições de trabalho semelhantes para homens, mulheres e jovens, algo que é raro no futebol brasileiro. É visível e vocal a satisfação das jogadoras e este trabalho profissional, tanto com o feminino, quanto na base, já rende resultados esportivos positivos e melhoria no desempenho.

Os erros de Ronaldo na gestão do Cruzeiro

Departamento de futebol

Ao assumir a SAF do Cruzeiro, Pedrinho BH decidiu manter Gabriel Lima como CEO do clube, dando autonomia para ele seguir o processo de reorganização financeira da Raposa, mas, por outro lado, trocou todo o departamento de futebol, o que é sintomático. Este foi um dos setores que mais receberam críticas de torcida e imprensa no período, em especial pelo pouco investimento feito e a ideia de trabalhar “na conta do chá”, algo muito arriscado no futebol brasileiro.

Após um trabalho bem feito em 2022, o departamento de futebol liderado por Paulo André e Pedro Martins seguiu a linha de contratações baratas e apostas e quase todo o projeto do Cruzeiro ruiu por isso. O elenco modesto de 2023 não caiu por detalhes e apesar da ressalva do objetivo conquistado, é preciso levar em conta como se chegou até ele. Numa liga tão imprevisível como o Campeonato Brasileiro, terminar a competição somente quatro pontos acima da zona de rebaixamento não pode ser tratado como um risco calculado, pois qualquer mero deslize ou falta de sorte pode significar uma queda.

Em 2024, mesmo com as promessas de investimento maior feitas pelo próprio Ronaldo, o clube seguiu gastando pouco, atuando mal, e isso resultou em prejuízo milionário pela eliminação na primeira fase da Copa do Brasil e início ruim na Copa Sul-Americana.

Além disso, os erros na escolha de atletas e blindagem de certos jogadores, os equívocos e economia na contratação de técnicos — e subsequentes demissões sistemáticas destes profissionais —, além de promessas vazias e análises descoladas da realidade fizeram com que o cruzeirense jamais tivesse plena confiança em anos tranquilos na Série A.

Relação com a torcida do Cruzeiro

Este ponto, apesar de ser um pilar importantíssimo na construção de um projeto de futebol, entra em segundo lugar por ser intimamente ligado ao primeiro, afinal, um time forte, bom, competitivo, alegra a torcida automaticamente. Mas após 2022, quando houve grande sinergia entre cruzeirenses e diretoria, e um programa de sócios com mais de 70 mil membros adimplentes, jamais se viu uma relação tranquila entre gestão e arquibancadas.

O torcedor do Cruzeiro se sentiu excluído da vida do clube em diversas oportunidades, sendo tratado como um mero consumidor. Primeiro com a saída de Fábio, depois com a mudança arbitrária do Raposão e do Raposinho, mascotes do clube que se tornaram piada Brasil afora, antes do projeto ser reformulado, de entrevistas minimamente controversas, como as já citadas de Pedro Martins, e aquela que Gabriel Lima afirmou que o time celeste poderia mandar jogos na Arena MRV, então recém-inaugurado estádio do arquirrival Atlético-MG, entre outros pontos.

Outro ponto importante é que apesar das promessas e pesquisas para uma reformulação do programa de sócio-torcedor do clube, nada foi feito após a Série B, o que resultou numa queda vertiginosa das adesões, que hoje estão na casa dos 46 mil. O desempenho esportivo fraco também não ajudou, o que fez a torcida ter problemas com jogadores e dirigentes. Mesmo com boa média de público no período, não eram raros os protestos dos cruzeirenses.

E, pessoalmente, Ronaldo também comprou briga com quase todos os torcedores da Raposa quando creditou a fase ruim do time em 2023, já lutando contra o rebaixamento, aos cruzeirenses e imprensa, recusando-se a assumir os erros da gestão. Na ocasião, após uma derrota para o Flamengo, no Mineirão, que resultou em muitos protestos nas arquibancadas, o gestor irritou a torcida ao conceder uma pequena entrevista no pós-jogo tecendo duras críticas à Nação Azul.

Naquele momento, Ronaldo cruzou uma linha na qual jamais conseguiu dar um passo atrás e retornar. Até os mais vocais defensores de sua figura e da SAF se irritaram com suas postura e as críticas foram quase unânimes, apenas comparadas àquelas sofridas no desligamento do goleiro Fábio, ainda na chegada da nova gestão. Se o Fenômeno buscava uma espécie de “conscientização” para que o torcedor cruzeirense abraçasse o discurso de “apoio incondicional”, historicamente distante da exigente torcida do clube, o que se viu foi uma quebra de confiança quase que total com o ex-jogador.

Ronaldo ainda tentou arrefecer a guerra ao fim da temporada, publicando uma carta aberta com alguns parágrafos de exaltação e poucas linhas de “desculpas”, a qual parte da torcida resolveu abraçar, pela alegria da permanência, mas é evidente que após aquele fatídico 19 de outubro de 2023 as coisas jamais seriam as mesmas.

Mas nem só de erros com a torcida viveu a SAF. A Caravana do Cruzeiro, projeto que leva o clube para o interior, se tornou um grande sucesso e é algo que seguirá sendo aproveitado.

Relação Cruzeiro x Mineirão

Outro ponto polêmico, principalmente por não depender apenas do clube, mas também do Governo Estadual e Minas Arena, administradora do Mineirão. Em 2023, o Cruzeiro, insatisfeito com as condições oferecidas para que o clube atuasse no estádio, passou a mandar jogos em outras praças por Minas Gerais e até mesmo no Espírito Santo.

A Minas Arena, por sua vez, marcou um extenso calendário de shows para o Mineirão, o que prejudicou os clubes mineiros, pela indisponibilidade de datas e gramados impraticáveis após o evento.

O Cruzeiro, principal interessado no estádio, foi o mais prejudicado. Tanto no rendimento dentro de seus domínios, que em parte da temporada eram “onde dava”, quanto na queda do programa de sócio-torcedor, visto que em boa parte do ano, o clube celeste não esteve no Mineirão, um estádio de maior capacidade, apelo, comodidade e contexto histórico com o clube. Os gramados tenebrosos ainda atrapalhavam o espetáculo.

Com o passar do ano, o Cruzeiro conseguiu acertar bases melhores com o Mineirão e hoje o estádio é a casa da Raposa, assim como foi nas maiores conquistas e alegrias da rica história celeste.

Mas a demora, que reforço, não era de responsabilidade exclusiva do clube, prejudicou muito o rendimento esportivo do time, que fez pífia campanha como mandante no ano, considerando todos os estádios em que jogou, e que conquistou apenas uma vitória no Gigante da Pampulha em todo ano, já em 25 de outubro, uma marca inimaginável para qualquer clube, mas em especial para o celeste, que sempre teve no Mineirão uma fortaleza. Isso poderia ter feito o Cruzeiro ser novamente rebaixado, destino comum de quem não consegue se impor em casa.

Transparência

Apesar de pregar transparência, a SAF do Cruzeiro não cumpriu com a promessa muitas vezes e alguns processos e práticas eram conduzidos sem que o torcedor soubesse bem o que estava acontecendo, principalmente aquelas que mais deram errado, ainda que “todo mundo tivesse avisado”. Decisões arbitrárias já citadas, como a mudança do Raposão e a saída de Fábio, que demorou a ter uma versão oficial do clube, a venda de Vitor Roque, que se provou um erro monumental, o papel de personagens dentro do clube, como Paulo André e Elias, explicados apenas em 2024, e, especialmente, a questão dos aportes financeiros.

Ronaldo acertou a compra do Cruzeiro por R$ 400 milhões, entrando com R$ 50 milhões no ato do acordo, e podendo complementar o valor de forma direta ou com receitas incrementais. Apesar disso, jamais foi divulgado algo acerca dos R$ 350 milhões restantes e nem se agora eles seriam de responsabilidade de Pedro Lourenço.

Além disso, os valores da atual venda e demais cláusulas contratuais e obrigações do comprador e do vendedor também não foram citados. Ademais, o balanço de 2023 da SAF também não foi publicado até o momento.

Na coletiva que oficializou a venda do Cruzeiro, realizada no dia 28 de abril, Ronaldo foi questionado sobre os aportes de responsabilidade de sua holding acordados no contrato de compra do Cruzeiro, em 2022. Além disso, foi perguntado sobre “quanto levou”, no sentido de lucro, com a venda para Pedrinho. Gabriel Lima afirmou que não iriam falar de valores e o Fenômeno, que se irritou com a pergunta, rebateu de forma ácida.

— Eu adoraria te responder isso. Mas realmente, não pode. Até porque, vejo alguma maneira de desqualificar o trabalho que foi feito. Como você pode valorizar o trabalho que eu fiz? Como você quantifica ter vencido a Série B depois de dois anos, com um orçamento de 40 milhões pro futebol? Aí tem que ver os gênios da matemática para quantificar isso também. Como você quantifica quintuplicar o faturamento de um clube a beira da falência? É muito fácil falar de números, ver um lucro financeiro, quando o trabalho não é reconhecido. Quanto vale a coragem que eu tive de pegar o Cruzeiro na segunda divisão com uma dívida de 1 bilhão e 200 milhões de reais. Eu fui o último a ser oferecido esse negócio, que pra mim foi uma oportunidade além da minha irresponsabilidade, eu só via potencial, porque o Cruzeiro é grande demais. Portanto, é bom todo mundo começar a pensar quanto pode valer cada coisa — declarou o Fenômeno, na ocasião.

Apesar da longa resposta, nada sobre os aportes foi falado.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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