Alemanha

Como recusa do Werder Bremen em jogar nos EUA reflete o forte posicionamento de alemães

Clubes e torcedores do país constantemente se mobilizam e se unem para preservar cultura local e combater preconceitos e discriminações

De tempos em tempos há causos do futebol que evidenciam como o esporte não está à margem de situações sociais. Muitas dos episódios recentes em relação a isso tiveram o futebol alemão no centro das discussões.

Determinados aspectos culturais na Alemanha são tão fortes que times, torcedores e instituições do país podem tratar até como inegociáveis. O Werder Bremen, por exemplo, é clube com orientação política mais voltada à esquerda e negou proposta para realizar amistosos nos Estados Unidos.

A justificativa falava das ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE, na sigla em inglês).

Werder Bremen explica decisão: ‘Não condiz com nossos valores

O Bremen havia colocado em pauta a possibilidade de passar uma semana entre Minnesota e Detroit em maio de 2026 e jogar dois amistosos neste período, contudo, a ideia não evoluiu.

“Em Minnesota, duas pessoas foram mortas pelas autoridades”, disse um porta-voz do clube, segundo o “The Athletic”. A fala faz menção às mortes de Alex Pretti e Renee Good, cidadãos dos EUA.

Jogar em uma cidade em que há agitação e pessoas estão sendo baleadas não condiz com nossos valores. Isso não vai acontecer conosco — dizia o texto.

Houve ainda preocupação acerca de vistos aos atletas. “Não se sabe com quais jogadores você pode entrar nos Estados Unidos com o endurecimento das condições de entrada, que exige, dentre outras coisas, uma revisão dos perfis nas redes sociais ao longo dos últimos cinco anos”, complementou.

Antes disso, em novembro de 2024, o alviverde alemão se uniu ao manifesto iniciado pelo St. Pauli e abandonou o X, antigo Twitter, sob a alegação de que Elon Musk — proprietário da rede — fomentava discursos de ódio na plataforma com o “pretexto de liberdade de expressão”.

O Werder Bremen toma uma posição clara. Os verde-brancos se orgulham de apoiar a diversidade, liberdade e democracia, bem como a coesão e a solidariedade na sociedade — explicou o time em comunicado.

Tais valores do clube são refletidos nas arquibancadas. Torcedores costumam usar as tribunas para reforçar posições contrárias ao racismo, homofobia e sexismo.

Aliás, alemães endossam diversos tipos de posicionamento das arquibancadas. Entre novembro e dezembro de 2025, estádios do país testemunharam a união entre torcidas para preservar a cultura local e contrariar propostas de mudanças na entrada às arenas. A medida funcionou.

Outra ferramenta de auxílio em protestos de torcedores comumente usada na Alemanha é a mídia social. O Fortuna Düsseldorf, por exemplo, desistiu da contratação do atacante Shon Weissman devido à pressão popular.

O jogador é israelense e se posicionou sobre o conflito entre o país natal e a Palestina nas redes sociais. As publicações incluíam frases como “apagar a Faixa de Gaza” do mapa e “lançar 200 toneladas de bombas” no território palestino, segundo o “Bild”. Além disso, ele foi acusado de curtir postagens que diziam “não haver inocentes” em Gaza.

Shon Weissman em ação no Granada
Shon Weissman em ação no futebol espanhol (Foto: Imago)

Estas e tantas outras ocasiões cujo posicionamento dos clubes e o apelo popular entram em cena na tomada de decisões parecem cada vez mais particularidade do futebol alemão se comparadas ao restante da Europa.

Na Inglaterra, o Arsenal foi criticado pela própria torcida na postura adotada no caso Thomas Partey. O meio-campista era jogador dos Gunners quando começou a ser investigado em seis acusações de violência sexual entre 2021 e 2022.

Na época, o nome do jogador não podia ser revelado por questões legais do sistema jurídico do país, mas Partey teve o direito ao anonimato rompido com a acusação formal por parte da polícia local após autorização do “Crown Prosecution Service” (Serviço de Promotoria da Coroa, CPS) no ano passado.

O contrato com o Arsenal terminou em 30 de junho de 2025. Ao considerar o período desde que fora revelada a investigação, ele esteve em campo 108 vezes. O clube inglês se pronunciou depois da formalização da denúncia e afirmou que não comentaria o caso “devido aos processos legais em andamento”.

Barcelona aponta para Thomas Partey, e deve aproveitar fim de contrato de ganês para contratá-lo a custo zero
Thomas Partey pelo Arsenal (Foto: Imago)

Sir Jim Ratcliffe, coproprietário do Manchester United, recebeu apenas uma advertência da Federação Inglesa (FA) por declaração anti-imigratória, segundo a “BBC Sport”. O empresário opinou que “não dá para ter uma economia com 9 milhões de pessoas recebendo benefícios sociais e um fluxo enorme de imigrantes”.

— O Reino Unido está sendo colonizado por imigrantes, não é mesmo? A população do Reino Unido era de 58 milhões em 2020, agora é de 70 milhões. Isso representa 12 milhões de pessoas — disse ele.

Foi apenas um dos episódios controversos que envolveram o nome do britânico.

Nos últimos dias, técnicos de futebol têm se pronunciado sobre sobre a acusação de racismo feita por Vinicius Junior contra Gianluca Prestianni durante Benfica x Real Madrid.

A maioria declara apoio ao brasileiro, no entanto, José Mourinho sugeriu que o comportamento de Vini ao comemorar o golaço que anotou teria “motivado” o incidente. Além disso, nas arquibancadas, torcedores do Benfica foram gravados imitando um macaco.

Prestianni negou a acusação e afirmou se tratar de “interpretação errada” do que teria sido dito. O argentino recebeu apoio do clube.

— O clube lamenta a campanha de difamação de que o jogador tem sido vítima — escreveu a instituição em nota.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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