Alemanha

Transferência cancelada na Alemanha reflete a barreira menor entre futebol e questões sociais

Clube alemão estava prestes a acertar com atacante, mas desistiu com repercussão negativa entre torcedores por causa de postagens dele nas redes sociais

O atacante Shon Weissman estava com a transferência do espanhol Granada para o Fortuna Düsseldorf em vias de ser concretizada, mas a equipe da segunda divisão da Alemanha declinou do acordo por causa de postagens do atleta nas redes sociais.

Weissman é israelense e se posicionou sobre o conflito entre o país natal e a Palestina nas mídias sociais. As publicações incluíam frases como “apagar a Faixa de Gaza” do mapa e “lançar 200 toneladas de bombas” no território palestino, segundo o “Bild”. Além disso, foi acusado de curtir postagens que diziam “não haver inocentes” em Gaza.

Esses conteúdos já teriam sido apagados pelo jogador. De acordo com o jornal alemão, ele declarou ter cometido um erro ao agir no calor do momento. Ainda assim, reforçam como a barreira entre futebol e questões sociais está menor e assuntos alheios aos gramados ganham mais importância.

Torcidas e times estão cada vez mais atentos a temas de relevância social e o impacto que isso pode causar na equipe.

Düsseldorf previa resistência e projetava pronunciamento com o atleta

As informações do “Bild” eram de Düsseldorf e Weissman planejavam a divulgação de um comunicado em conjunto com pedido de desculpas pelas postagens quando a transação fosse confirmada. Ele já havia sido alvo de protestos no Granada pelo mesmo motivo.

No entanto, os planos mudaram dada a pressão popular. As notícias de que a negociação com o centroavante de 29 anos estava prestes a ser concluída começaram a surgir na segunda-feira (4). Desde então, torcedores se mobilizaram para tentar impedir a transferência.

O clube usou a página no X, antigo Twitter, para fazer breve pronunciamento. “Tweet informativo”, iniciou a mensagem. “Nós analisamos Shon Weissman intensamente, mas, no final, decidimos não contratá-lo”, concluiu.

Nos comentários, um torcedor celebrou o acordo frustrado também pelo aspecto esportivo. “Além dos componentes políticos e sociais: de uma perspectiva esportiva, essa teria sido a primeira transferência que eu não consegui entender. É melhor bater na porta de Pejcinovic (atualmente no Wolfsburg) novamente”, disse.

Shon Weissman, revelado no israelense Maccabi Haifa, passou por Valladolid e Salernitana na Europa além do Granada. Registrou quatro gols e duas assistências na temporada 2024/25 entre jogos da segunda divisão da Espanha e da Copa do Rei.

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Atacante se defendeu e pediu que ‘contexto completo’ fosse considerado

Weissman recorreu ao Instagram para se defender das críticas. “É possível e necessário nos posicionarmos contra os danos causados a pessoas inocentes de ambos os lados, mas não permitirei que me retratem como alguém que promove o ódio”, disse.

Shon Weissman, atacante do Granada
Shon Weissman, atacante do Granada (Foto: Imago)

O jogador afirmou “lamentar” que o “contexto completo” não seja levado em consideração e que, no fim, “uma pessoa sempre estará ao lado de seu país”. Sua conta na rede social agora está privada, mas a “Gazzetta dello Sport” divulgou o comunicado:

“Sou filho de uma nação que ainda lamenta os horrores de 7 de outubro. Aquele dia sombrio, quando famílias inteiras foram assassinadas, sequestradas e brutalizadas, permanece uma ferida aberta para mim como pessoa, como membro da família israelense e como atleta que representa meu país. É possível e necessário nos posicionarmos contra os danos causados a pessoas inocentes de ambos os lados, mas não permitirei que me retratem como alguém que promove o ódio. Se isso é difícil para alguns aceitarem, recomendo que se analise novamente o que aconteceu em 7 de outubro. Embora eu me renda a todas as críticas, lamento a ideia de que o contexto completo não esteja sendo considerado. Em um momento de dor nacional e pessoal, permaneço fiel aos valores da humanidade, do espírito esportivo e do respeito mútuo. No fim das contas, uma pessoa sempre estará ao lado de seu país, não importa o que aconteça. Nenhum estrangeiro pode realmente entender o que estamos passando. Lealdade não está em debate, especialmente quando nosso povo ainda está enterrando seus mortos. Sou profundamente grato pelo apoio que recebi das pessoas que realmente me conhecem e continuarei a carregar com orgulho a bandeira israelense onde quer que eu jogue.”

A data de 7 de outubro mencionada se refere ao ano de 2023, quando o grupo Hamas lançou ataques contra Israel no que especialistas definiram como “atentado surpresa”. Cerca de 1.200 pessoas, dentre elas civis, morreram.

Khalil al-Hayya, um dos líderes da organização islâmica, disse à “BBC” em 2024 que a ofensiva foi uma maneira de “disparar um alarme para o mundo” e chamar a atenção à causa defendida pela Palestina, e não visava atacar civis, e sim os soldados adversários.

Guerra afetou o campo outras vezes na Alemanha

O caso de Weissman não é único na Alemanha. Anwar El Ghazi, atacante holandês com raízes em Marrocos, teve o contrato com o Mainz cancelado em novembro de 2023 por publicações feitas sobre a guerra nas redes sociais. Ele teria feito uma postagem com os dizeres “do rio ao mar”, um slogan pró-Palestina.

El Ghazi processou o clube e, em julho de 2024, o Tribunal da Alemanha decidiu em favor do jogador.

Foto: (IconSport) - Anwar El Ghazi pelo Mainz 05
Anwar El Ghazi pelo Mainz 05 (Foto: Icon Sport)

Noussair Mazraoui, lateral-direito do Manchester United, precisou se pronunciar ao divulgar conteúdos pró-Palestina nas redes sociais também em 2023. Na época, o marroquino defendia o Bayern de Munique, que não tomou nenhuma sanção contra o atleta.

“Mazraoui nos garantiu que, como uma pessoa amante da paz, rejeita o terror e a guerra e nunca teve a intenção de causar qualquer irritação com suas postagens”, afirmou o CEO do clube, Jan-Christian Dreesen. O jogador reforçou condenar “terrorismo e organizações terroristas”.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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