Inglaterra

Dono do Manchester United entra na mira de federação após fala anti-imigratória

Torcedores e até primeiro-ministro do Reino Unido repudiaram declaração do bilionário, coproprietário dos Red Devils

A Federação Inglesa de Futebol informou que analisará se Jim Ratcliffe, coproprietário do Manchester United, infringiu as regras da entidade ao dizer que o Reino Unido foi “colonizado” por imigrantes.

Segundo o “The Guardian”, ainda não se tem como confirmar se a entidade fará alguma investigação formal. Ao jornal, o diretor-executivo da FA, Mark Bullingham, comentou que os dizeres são “uma questão na qual nossa equipe jurídica e de regulamentação está trabalhando”.

A declaração do bilionário, que reside em Mônaco – país considerado paraíso fiscal – desde 2020, aconteceu durante uma entrevista à “Sky News” nesta quarta-feira (11) e causou indignação no futebol inglês. Ratcliffe, que coleciona episódios polêmicos na condução do gigante inglês, criticou pessoas que recebem auxílio estatal e imigrantes.

— Não dá para ter uma economia com 9 milhões de pessoas recebendo benefícios sociais e um fluxo enorme de imigrantes. O Reino Unido está sendo colonizado por imigrantes, não é mesmo? A população do Reino Unido era de 58 milhões em 2020, agora é de 70 milhões. Isso representa 12 milhões de pessoas –, afirmou.

Dados do Escritório Nacional de Estatísticas (ONS) indicam que a afirmação de Ratcliffe está incorreta já que, em 2020, ONS (órgão do país que mede índices sociais, entre outros) estimou que a população do Reino Unido era de 67 milhões em 2020 e que a última vez que esteve perto de 58 milhões foi em 2000.

Em resposta às alegações, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, rebateu a fala do dirigente dos Red Devils, definindo como “ofensiva e errada” e que a Grã-Bretanha é um país orgulhoso, tolerante e diverso”. O mandatário disse ainda que o proprietário do Manchester United deveria pedir desculpas.

Nest aquinta-feira (12), após a repercussão negativa, Ratcliffe disse estar arrependido por sua “escolha de palavras ter ofendido algumas pessoas no Reino Unido e na Europa”.

Jim Ratcliffe, co-proprietário do Manchester United (Foto: Imago)
Jim Ratcliffe, coproprietário do Manchester United (Foto: Imago)

Manchester United se posiciona publicamente

O Manchester United, por sua vez, se pronunciou nesta quinta-feira (12) mas não mencionou o caso diretamente e nem Ratcliffe. Em comunicado, o clube declarou que “orgulha-se de ser um clube inclusivo e acolhedor, que reflete a história e o legado de Manchester; uma cidade que qualquer pessoa pode chamar de lar”.

— Mantemo-nos profundamente comprometidos com os princípios e o espírito dessa campanha. Eles refletem-se nas nossas políticas, mas também na nossa cultura, e são reforçados pela nossa adesão ao Padrão Avançado de Igualdade, Diversidade e Inclusão da Premier League –, escreveu o clube em uma publicação nas suas redes sociais.

A equipe de Old Trafford listou as campanhas que participa de inclusão e que incorpora “a igualdade, a diversidade e a inclusão” em tudo o que faz.

— Ao longo desta temporada, participamos em eventos e iniciativas nos nossos jogos masculinos e femininos, abordando temas como saúde mental, inclusão LGBTQ+, a campanha “Não há espaço para o racismo”, o combate à violência contra mulheres e meninas e os cânticos homofóbicos –, mencionou o clube.

Por fim, o United destacou que “nas próximas semanas e meses” apoiará “outras iniciativas nessas áreas”.

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Repercussão após fala

Organizações de futebol se uniram a políticos e outras figuras públicas para condenar os comentários de Ratcliffe e o tom utilizado. Uma declaração da organização “Show Racism the Red Card” (“Mostre um cartão vermelho ao racismo”, em tradução livre) pediu que o poder da instituição Manchester United seja usada para combater as mazelas sociais e não amplificá-las.

— Esse tipo de linguagem ecoa narrativas que historicamente têm sido usadas para estigmatizar comunidades migrantes, alimentar a divisão e legitimar a hostilidade contra grupos minoritários. A influência do clube deve ser usada para combater o racismo, e não para amplificar inadvertidamente narrativas que minam a harmonia da comunidade –, alertou.

Já a organização antidiscriminação “Kick it Out” (“Chute isso para fora”, em tradução livre” descreveu as palavras de Ratcliffe como “vergonhosas” e reforçou os números imprecisos mencionados pelo dirigente ao se referir ao número populacional.

— Além dos números imprecisos mencionados, vale lembrar que o Manchester United tem uma torcida diversificada e joga em uma cidade cuja história cultural foi enriquecida por imigrantes. Esse tipo de linguagem e liderança não tem lugar no futebol inglês, e acreditamos que a maioria dos torcedores compartilha dessa opinião –, pontuou.

Torcida do Manchester United durante protesto (Foto: Imago)
Torcida do Manchester United durante protesto (Foto: Imago)

O “Clube de Torcedores Muçulmanos do Manchester United” também criticou Ratcliffe e reforçou que o clube é formado pela diversidade e se solidarizou com as comunidades destacando que exigem uma liderança que demonstre união ao invés de divisão.

— O Manchester United é um clube global construído sobre a diversidade de jogadores, funcionários e torcedores de todas as origens, crenças. A força do nosso clube, e do nosso país, reside nessa diversidade. Nos solidarizamos com todas as comunidades que rejeitam o racismo, o antissemitismo, a islamofobia e o ódio em todas as suas formas, e exigimos uma liderança que una em vez de dividir –, declarou.

Por fim, o grupo de torcedores do United, “The 1958”, criticou a intervenção de Ratcliffe e sua decisão de comentar “sobre assuntos do nosso país enquanto vive em Mônaco para evitar o pagamento de impostos”.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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