Alemanha

Como seriedade e trabalho duro levaram o desacreditado Eric Dier ao Bayern

Eric Dier, desacreditado no Tottenham, virou titular no gigante Bayern de Munique

A janela de transferências europeia de janeiro não reservou contratações bombásticas. Trocas pontuais, pouco dinheiro investido e movimentos se aproveitando de vindas de graça. Uma dessas mudanças sem custos e nada badalada, mas muito criticada, foi a do zagueiro e volante Eric Dier, trocando o Tottenham após quase uma década na Inglaterra para ir ao Bayern de Munique.

O jogador inglês, não tão técnico e questionado por seus últimos anos no norte de Londres, chegou com muita desconfiança, especialmente nas redes sociais, que creditaram sua ida apenas a uma indicação do então ex-colega Harry Kane. Hoje, quase três meses após sua chegada, Dier aproveitou a má fase de Dayot Upamecano e Kim Min-jae, e já soma 11 atuações com a camisa dos Bávaros (nove como titular) e dá para se considerar dono da posição ao lado de Matthijs de Ligt.

Isso que o defensor chegou à Alemanha após jogar apenas 196 minutos em quatro partidas nos seis meses anteriores sob comando de Ange Postecoglou, que assumiu os Spurs logo no início da temporada e preferiu usar os laterais Emerson Royal e Ben Davies como zagueiros centrais ao invés de Eric. Era, definitivamente, o fim de um ciclo.

Estar pronto para se tornar titular em um clube de alta exigência como o Bayern aos 30 anos mostra como o desacreditado Dier se manteve focado mesmo sem jogar nos meses anteriores, lutou e trabalhou, apesar de suas limitações técnicas. Uma entrevista do inglês aosite The Athletic conta um pouco desse processo de resiliência do zagueiro dos Bávaros.

— Estando aqui agora [na Alemanha], o que mais me orgulha de mim mesmo é que simplesmente perseverei. Treinei forte todos os dias. Tentei ficar o mais em forma possível. E é pura fé cega. Porque você não sabe se vai a algum lugar em janeiro, para onde vai ou o que vai acontecer. Você não vê a luz no fim do túnel.

— De repente, eu estava aqui. Foi uma sensação ótima quando cheguei, que durante seis meses me comportei daquela maneira. Fiquei muito orgulhoso por ter me comportado dessa maneira. Foi o que abriu a porta para vir aqui. E é também por isso que, quando cheguei, estava pronto para jogar.

É não foi apenas a má fase dos outros zagueiros. Dier, quando jogou, fez boas atuações e merece ser titular na zaga. Seus números, especialmente nos aspectos de construção de jogo, são ótimos, como a eficácia de 91% no passe (66,5 por partida na Bundesliga) e de 56% nos lançamentos (3,7 em média), segundo o SofaScore. No entanto, em gols sofridos quando esteve em campo são 15, o que mostra também como o time de Thomas Tuchel ainda é frágil defensivamente.

Dier, inclusive, cumpriu cláusula do contrato e já teve o vínculo renovado até o meio de 2025, pois ao término do empréstimo em junho desse ano, será passe livre e poderá assinar em definitivo com os Bávaros.

 

Apesar da fragilidade, dá para dizer que o clube da Baviera melhorou coletivamente, principalmente após vencer a Lazio por 3 a 0 (com Dier como titular) e avançar às quartas de final da Champions League. Na sequência, somou duas boas vitórias no Campeonato Alemão (8 a 1 no Mainz e 5 a 2 no Darmstadt), mas perdeu para o Borussia Dortmund, em casa, e o título já está nas mãos do Bayer Leverkusen, 13 pontos a frente do Bayern de Munique, que enfrenta o Heidenheim, fora de casa neste sábado (6), pela 28ª rodada da Bundesliga.

As quartas da Champions, contra o Arsenal, prometem um confronto equilibrado, levemente mais favorável aos ingleses, mas quem sabe o time alemão não faça outro grande jogo, como contra a Lazio. Vale citar que Tuchel anunciou que deixará Munique ao término da temporada, a ver se um surpreendente título europeu poderá mudar essa realidade.

— Só de jogar aqui contra a Lazio na Liga dos Campeões foi um dia muito, muito especial para mim. Jogar novamente na Liga dos Campeões, pelo Bayern. E agora trata-se de fazer mais do que isso – destacou Dier, que voltará a experimentar a quartas de final de Champions após cinco anos.

Outros trechos da entrevista de Dier

A dificuldade de lidar com a reserva em seis meses

— Foram os seis meses mais desafiadores da minha carreira. Realmente não é uma posição agradável de se estar. Tentei manter a calma e analisar de forma prática. Entendi que estava muito claro que havia um novo treinador e que ele queria começar algo novo. Entendi qual era a minha situação contratual, que só me restava um ano. O clube queria começar algo novo. Eu entendi isso. Então não levei isso de uma forma muito pessoal.

Chegou a reclamar com Postecoglou sobre a reserva?

— Isso não sou eu. E eu estava mental e fisicamente em ótima forma. Senti que sempre treinei bem no Tottenham. Então me senti pronto. Estava apenas esperando por essa oportunidade. Estou muito orgulhoso de mim mesmo por ter feito isso e da maneira como me comportei durante esses seis meses. Nunca falei com ele [Postecoglou] nenhuma vez. Eu não sou alguém que iria bater na porta do treinador [e cobra sobre ser escalado]. Se for falar com eles sobre como posso melhorar — ‘O que você quer que eu melhore?’ — faz todo o sentido ir falar com eles. Mas nunca falei com um técnico e perguntei: ‘Por que não estou jogando?’. Para mim, é apenas uma conversa inútil. Você tenta entender da melhor forma possível o que o técnico quer dos jogadores na sua posição. E então você tenta executar o melhor que pode no treinamento. E então, com sorte, ser escolhido para jogar.

Carinho pelo Tottenham e partida de despedida

— Ao falar com Daniel [Levy, presidente do Tottenham], eles planejam algo para nós [Dier e Kane] lá. Não sei, mas ele me disse que isso estava em andamento. Vejo isso com muito carinho. Passei momentos incríveis lá com pessoas incríveis, jogadores incríveis, grandes dirigentes. Jogar na Premier League, jogar pela Inglaterra, fazer amigos para a vida toda fora do futebol. Joguei em um clube de futebol fantástico. Obviamente, em um período de nove anos, haverá altos e baixos. Você olha para certas situações com arrependimento, olha para certas situações com decepção. Você olha para trás, para certas situações em que é muito fácil analisar. Olho para trás com muito carinho.

Kane e Dier nos tempos de Tottenham (Foto: Icon Sport)

Relações com jogadores vencedores no Bayern

— É ótimo que eles sejam meus companheiros de equipe agora. Você ganha confiança por estar perto de jogadores assim. Você aprende estando perto de jogadores assim. Você vê o que eles fazem todos os dias. Obviamente, para um jogador como eu que não ganhou, é fantástico estar num balneário e num clube onde se pode aprender muito sobre isso.

Aprender a falar alemão

— É uma língua muito difícil. Eles constroem suas frases de uma maneira completamente diferente da nossa. Falar outras línguas me deu essa confiança e não tenho vergonha de apenas experimentar. Quando acho que posso dizer algo, vou em frente.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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