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Tottenham busca em Ange Postecoglou o ambiente saudável que tinha com Pochettino

Tottenham anunciou a contratação do australiano Ange Postecoglou com contrato de quatro anos e em oposição ao que fez nos últimos anos com Mourinho e Conte

O Tottenham anunciou a contratação de Ange Postecoglou, técnico australiano que estava no Celtic, em um contrato longo, de quatro temporadas. É um padrão bastante diferente do que vimos nos últimos anos no clube e, por isso, é preciso dar uns passos atrás para entender o que levou os Spurs a escolherem Postecoglou como seu treinador em um projeto, aparentemente, de longo prazo.

A começar pela saída de Mauricio Pochettino, em 2019. Ele deixou o cargo meses depois de levar os Spurs à final da Champions League, o auge da sua passagem por White Hart Lane, que vinha desde 2014. A frustração da derrota se somou a uma sensação que o time não atingia o que podia. O péssimo início de temporada em 2019/20 e a sede por títulos que não aconteciam desde 2008 levou o clube a demitir Pochettino em busca da glória. Uma glória que, sabemos hoje, não aconteceu.

Em busca do Santo Graal ou a taça tão desejada

Era novembro de 2019. O Tottenham achou que tinha uma fórmula para chegar às taças: José Mourinho. O treinador português já não vivia o seu auge, é verdade, e vinha de um trabalho contestado no Manchester United (que talvez tenha sido mais valorizado posteriormente, com os técnicos que vieram depois dele). Mesmo assim, Mourinho tinha um padrão claro na sua carreira: sempre conquistava ao menos alguma taça.

Foi essa a aposta. Uma esperança, na verdade. Mourinho traz alguma turbulência, inegavelmente, mas é fato também que ele é vencedor. Bom, como já sabemos a essa altura, não aconteceu. O clube teve alguns bons momentos com Mourinho, mas na chance de ganhar um título (que era bem difícil, é bom dizer), Mourinho foi demitido dias antes da final da Copa da Liga da temporada 2020/21.

O Tottenham perderia do Manchester City a final que não era mesmo favorito. Mas Mourinho ficou com a mágoa, tanto que falou sobre isso dois anos depois, já na Roma. O português afirmou que o Tottenham “é o único clube na minha carreira que ainda não tenho um grande sentimento”. Acusou o clube de não dar a ele a chance de ser campeão por lá, o que, bem, é verdade em certo aspecto.

Ryan Mason dirigiu o Tottenham naquela final de Copa da Liga, mas quem assumiu o time a partir da temporada seguinte, 2021/22, foi Nuno Espírito Santo. Mas nem pai, nem filho, nem espírito santo o salvou de uma demissão bastante veloz: foram apenas 17 jogos do português no cargo antes de receber o bilhete azul. O bom trabalho no Wolverhampton não o permitiu ter muito lastro para ficar mais tempo, diante de resultados muito ruins naquele início de temporada.

Em busca do Santo Graal 2, o inimigo agora é outro (ou não)

Foi então que o Tottenham dobrou a aposta no medalhão. Depois de Mourinho, resolveu levar outro nome de peso, badalado, que chacoalharia o vestiário:  Antonio Conte. O técnico vinha de um trabalho excelente na Inter, com um título italiano muito desejado pelo clube. Assim como Mourinho, Conte não costuma deixar um ambiente de muita tranquilidade ao seu redor. A aposta era, novamente, a capacidade inegável do técnico de conseguir bons resultados na esperança que chegasse um título.

Embora o impacto inicial tenha sido bom – curiosamente, assim como Mourinho -, logo as coisas desandaram. Conte pegou ainda mais pesado com o elenco do que Mourinho e, depois de um empate com o Southampton, então lanterna da Premier League, depois de abrir vantagem por 3 a 1, Conte detonou seus jogadores os chamando de egoístas. Bom, não duraria muito mais. A contratação, concretizada no dia 2 de novembro de 2021, teve um fim no dia 26 de março de 2023, após 509 dias e 76 jogos no cargo. E sem títulos, assim como Mourinho.

O clube, então, parece ter largado mão da Premier League. Primeiro, escolheu o auxiliar de Conte, Cristian Stellini, para ser o técnico interino até o final da temporada. Um desastre que, honestamente, não era muito difícil de prever que aconteceria. Foram apenas quatro jogos no cargo. Veio então outro interino, este, ao menos, do próprio clube, o técnico da base, Ryan Mason. Com ele, foram outros seis jogos, sem muito sucesso também. O time terminou em oitavo lugar na Premier League e fora de qualquer competição europeia. Um resultado terrível.

Assim, voltamos à situação que o Tottenham precisava de um técnico. Só que a fórmula de treinadores consagrados que tinham um histórico importante de vitórias, sucessos e títulos não funcionou. Mais do que isso: há nos Spurs um sentimento que se perdeu o senso de unidade que havia nos tempos de… Mauricio Pochettino. Veja, essa foi uma opção feita pelo clube, que achava que precisava de uma força motriz diferente.

Pochettino, então, seria uma escolha interessante para o cargo, certo? Porém, foi um pouco tarde. Já desde a demissão de Graham Potter que o Chelsea tem o nome de Pochettino como um dos seus alvos. A rigor, tudo parecia estar fechado com o técnico muitas semanas antes dele ser anunciado oficialmente, no último dia 29 de maio. O Tottenham precisaria ir atrás de outro nome.

Em busca da paz interior

Como recriar aquele ambiente em que tudo parecia funcionar de forma mais harmônica, como na época de Pochettino? O candidato teria que levar um pouco daquele estilo de volta. O nome de Postecoglou surgiu após a tentativa por Arne Slot não funcionar. O neerlandês preferiu ficar mesmo no Feyenoord, campeão da Eredivisie.

Aos 57 anos, Postecoglou vem de dois bons anos trabalhando no Celtic, onde conquistou por duas vezes a liga do país. No primeiro ano, conquistou o Campeonato Escocês, retomando o posto tomado pelo Rangers na temporada anterior, e ainda ficou com a taça da Copa da Liga Escocesa. Na segunda temporada, encerrada há pouco, fez a tríplice coroa nacional, com os títulos da liga, da Copa da Escócia e da Copa da Liga.

Antes do Celtic, Postecoglou também foi técnico da seleção australiana de 2013 até 2017. Levou os Socceroos à Copa do Mundo de 2014 e também ao título da Copa da Ásia, em 2015, quando o torneio foi sediado na Austrália. Depois de deixar a seleção australiana, comandou o Yokohama F. Marinos, no Japão.

Essa sua passagem pelo clube japonês influenciou seu trabalho no Celtic em seguida: com ele, chegaram quatro jogadores japoneses no elenco, e com sucesso, como o atacante Kyogo Furuhashi, autor de 34 gols em 50 jogos pelos Bhoys nesta temporada (e incrivelmente, ficou fora da Copa, né, Hajime Moriyasu? Mas isso é assunto para outro texto).

“Estilo de jogo rápido e ofensivo”

“Ange traz uma mentalidade positiva e um estilo de jogo rápido e ofensivo. Ele tem um forte histórico de desenvolver jogadores e um entendimento da importância da ligação com as categorias de base, tudo que é importante para o nosso clube. Estamos empolgados em ter Ange conosco para nos prepararmos para a temporada adiante”, afirmou o presidente do Tottennham, Daniel Levy.

O relacionamento de Postecoglou com o Celtic é excelente e a forma como ele saiu mostra isso. “Eles (a diretoria) queriam eu estendesse meu tempo no Celtic e enquanto eu sou muito respeitoso e entendo a posição deles, uma nova oportunidade apareceu para mim e é uma que quero explorar”, afirmou o técnico ao deixar o clube escocês.

“Foi uma honra ter sido chamado para ser o técnico do Chelsea e durante meus dois anos eu dei tudo que eu tinha para entregar sucesso aos nossos torcedores. Culminou na tríplice coroa no fim de semana, meus jogadores e minha comissão técnica foram brilhantes nessa jornada”, continuou o treinador.

“Nossos torcedores foram magníficos para mim e agradeço a eles pelo modo como eles me abraçaram durante os últimos dois anos. Minha ambição sempre foi dar aos nossos torcedores um time que eles possam se orgulhar, um time que as pessoas falem a respeito e acho que conseguimos isso”, continuou Postecoglou. “O Celtic é um clube de futebol fenomenal e muito, muito mais – e eu sempre serei um torcedor desta grande instituição”.

Tá, mas Ange Postecoglou é uma boa escolha?

Resumidamente, sim. O técnico tem todas as condições de construir um novo ambiente no Tottenham, talvez algo que se assemelhe, em algum ponto, ao que Mauricio Pochettino construiu. Só que os dirigentes dos Spurs devem ter a consciência que esse tipo de ambiente desejado não se cria da noite para o dia. Para criar uma sinergia da forma como aconteceu com Pochettino, um dos pontos cruciais é justamente o tempo de trabalho e dar as condições ao técnico de exercer da melhor forma. Não é uma combinação simples, ainda mais em uma Premier League extremamente competitiva.

Com Manchester City dominante e outros clubes como Manchester United, Arsenal, Chelsea e agora também o Newcastle na ferrenha briga pelo top 4, a missão não será simples e não será uma grande surpresa se os melhores resultados não forem atingidos logo no primeiro ano. Se o clube ofereceu quatro anos, é porque, em teoria, acredita que o treinador pode exercer um trabalho a médio prazo, ao menos. Precisará de estrutura e confiança para isso, especialmente se não puder fazer grandes investimentos no mercado, como tem sido praxe. Mais ainda se perder Harry Kane, uma possibilidade que parece bastante provável.

É uma ótima oportunidade para Postecoglou mostrar o seu trabalho na principal liga do mundo, depois de um ótimo trabalho pelo Celtic. É também uma aposta do Tottenham que foge do que fez nos últimos anos, com técnicos que trazem turbulência em busca de resultados mais rápidos. A questão é justamente ver qual será o tamanho da paciência. Para o bem do clube, ,é bom que seja grande.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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