Inglaterra

To Dare is to Do: como Ange Postecoglou faz sistema do Tottenham funcionar mesmo com desfalques?

A mentalidade e o estilo de jogo de Ange Postecoglou fez o Tottenham dar um salto de qualidade apesar das adversidades da temporada

Com o final de temporada se aproximando, o Tottenham segue na briga por uma vaga na próxima Champions League. Na 5ª posição da Premier League com 47 pontos em 25 rodadas, os Spurs estão a dois pontos do Aston Villa, que fecha o G-4. Olhando assim, parece mais um ano típico do time do norte de Londres. Contudo, é inegável que a chegada de Ange Postecoglou foi um marco.

Após a polêmica saída de Antonio Conte em março de 2023 – quando o italiano chamou os jogadores de egoístas e disse que eles estavam “acostumados” em não ganhar títulos nos últimos 15 anos – o Tottenham foi à procura de um substituto. Pautado no lema “To Dare is to Do (ousar é fazer, em português), os Spurs recorreram ao técnico australiano, que não era tão conhecido na elite europeia.

Se o nome de Postecoglou já trazia dúvidas, a saída de Harry Kane para o Bayern de Munique no início da temporada preocupou ainda mais os torcedores. Entretanto, para calar a boca dos críticos, o treinador australiano superou todas as expectativas e chegou até mesmo a liderar a Premier League. E não só isso: com os Spurs apresentando um futebol agressivo e divertido de se ver.

Entretanto, como se tornou uma tendência na Europa em 2023/24, Ange sofreu com as várias lesões no Tottenham, o que minou sua campanha pela ponta da tabela. Mesmo assim, os Spurs continuaram fazendo o sistema do australiano funcionar em meio às adversidades (jogando até mesmo sem zagueiros de origem). E como Postecoglou atingiu esse feito? Isso é o que tentamos responder na Trivela.

Quem é Ange Postecoglou e o que ele pensa para o futebol?

Nascido na Grécia, mas criado na Austrália, Ange Postecoglou foi um lateral-esquerdo que construiu toda sua carreira como jogador no South Melbourne. Só que ela foi curta, já que ela precisou se aposentar aos 27 anos devido a uma grave lesão no joelho. Dali para frente, ele se especializou na função de treinador, começando como auxiliar até, aos 29, ser o técnico da equipe por onde atuou.

Ange rodou por todo o país e se tornou um dos principais treinadores da Oceania. Não à toa, chegou à seleção australiana, quando disputou a Copa do Mundo em 2014, no Brasil. Com um futebol pra frente, o treinador levou os Socceroos ao Mundial de 2018, na Rússia, mas deixou o cargo antes da competição. Pelas próximas três temporadas, ele comandou o Yokohama F-Marinos, sendo campeão japonês em 2019.

Dois anos depois, Ange Postecoglou teve sua primeira experiência europeia, quando assumiu o Celtic. Em duas temporadas, o técnico se tornou um xodó dos torcedores escoceses, já que levantou cinco títulos. O australiano também encantou o Tottenham, que decidiu apostar suas fichas no treinador de 58 anos, cujo perfil era bem diferente do antecessor Conte:

“A cada temporada, quero que meu time marque mais gols do que qualquer outro. Não estamos tão preocupados em manter o clean sheet (expressão que remete a não sofrer gols)”, disse Ange durante sua passagem pelo Yokohama F-Marinos.

O “Angeball” do Tottenham

Mesmo sem o maior artilheiro da história dos Spurs no elenco, Postecoglou não abriu mão de sua filosofia de jogo: pressão na saída de bola adversária; buscar a posse de bola sempre que possível; atacar com rotações; laterais que cortam para o meio para construir jogadas centrais. Esse são apenas alguns aperitivos do técnico australiano no Tottenham, que pode ser resumido em algumas estatísticas na Premier League:

  • 5º melhor ataque (52 gols)
  • 5ª maior posse de bola (média de 60,2% por jogo)
  • 5º em passes certos (média de 499 por partida)
  • 4º em finalizações (média de 15,8 por jogo)
  • 3º em dribles certos (média de 10,1 por partida)
  • 2º em desarmes (média de 20,2 por jogo)
  • 5º em interceptações (média de 9,3 por partida)

4-2-3-1 com laterais coringas

Os números são do SofaScore. E como isso funciona na prática? Bom, o “Angeball” – apelido carinhoso dado pela torcida do Tottenham ao estilo do treinador – saiu de um time defensivo com o italiano para um ofensivo. A estrutura tática do australiano nos Spurs baseia-se num 4-2-3-1, mas é importante ressaltar o papel dos laterais Pedro Porro e Destiny Udogie, que são peças fundamentais na transição para o ataque.

Quando o Tottenham tem a bola, os laterais deixam as extremidades do campo e ficam à frente dos volante, gerando uma espécie de 2-2-3-3. A ideia de Ange é usar o centro de campo para gerar superioridade numérica, para encontrar espaços na marcação adversária e avançar com a posse através dos passes. Porro e Udogie podem fazer esse movimento também graças ao goleiro Vicario, que tem uma boa saída com os pés e consegue trabalhar com os zagueiros.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - A saída de bola do Tottenham de Ange Postecoglou é feita num 2-2-3-3, com os laterais se juntando a Maddison na frente dos volantes
Foto: (Reprodução/homecrowd) – A saída de bola do Tottenham de Ange Postecoglou é feita num 2-2-3-3, com os laterais se juntando a Maddison na frente dos volantes

Mesmo pressionados pelo meio, os Spurs têm a chance de mandar a bola para o segundo terço de campo em uma situação de três contra um, já que os laterais se posicionam perto de James Maddison. Aliás, o camisa 10 do Tottenham também é um dos segredos de Postecoglou, já que ele tem a capacidade de mandar a bola para o ataque por trás da defesa adversária, assim como pode apoiar os volantes para fazer um lançamento de seu próprio campo.

Adaptação é a chave

Outro fato importante sobre o treinador australiano é que ele se adapta ao adversário. Se o rival abafa a saída do Tottenham com três ou quatro atletas, o time de Ange Postecoglou fica no desenho do 2-2-3-3. Por outro lado, se a pressão do oponente é feita com dois jogadores, um dos volantes dos Spurs (Sarr ou Bissouma) pula uma linha para ser opção de passe mais perto da lateral. Ou seja, um 2-1-4-3, mas com Maddison ou Porro voltando à frente dos zagueiros.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - O Tottenham se adapta ao adversário. Dependendo da marcação do rival, Ange Postecoglou adianta um de seus volantes para ser opção de passe. Nesse caso, um dos laterais ou Maddison se aproxima dos zagueiros para construir a jogada
Foto: (Reprodução/homecrowd) – O Tottenham se adapta ao adversário. Dependendo da marcação do rival, Ange Postecoglou adianta um de seus volantes para ser opção de passe. Nesse caso, um dos laterais ou Maddison se aproxima dos zagueiros para construir a jogada

Já mais perto do último terço, o Tottenham também conta com a habilidade de seus pontas. Kulusevski, na direita, e Son, na esquerda, causam imprevisibilidade na defesa adversária por terem a capacidade do drible para chegar perto da linha de fundo, ou cortarem para o meio para buscar o passe vertical ou finalização. Com os laterais e Maddison perto dos três atacantes, eles esperam pelo passe nas costas de seus marcadores.

O capitão dos Spurs também traz versatilidade ao setor ofensivo, pois ele pode atuar tanto na função pelo meio, entre os zagueiros, quanto pela ponta-esquerda, sua posição de origem. Com isso, Son pode trocar de posição com Richarlison. Perto do gol adversário, Ange monta uma espécie de 2-2-1-5, com os laterais se aproximando da grande área adversária para causar uma sobrecarga na defesa rival.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - O Tottenham de Ange Postecoglou reforça sua linha de ataque perto do gol adversário para gerar superioridade numérica
Foto: (Reprodução/homecrowd) – O Tottenham de Ange Postecoglou reforça sua linha de ataque perto do gol adversário para gerar superioridade numérica

Sem a bola, o Tottenham sufoca o adversário

A partir do momento que o Tottenham perde a bola em seu campo de ataque, a ordem de Postecoglou é sufocar o adversário. Mantendo o mesmo desenho de quando ataca, os Spurs tentam recuperar a posse o mais rápido possível para criar uma nova chance de gol. Isso ajuda a explicar o alto número de roubadas de bola nesta Premier League, já que a pressão é quase inabalável

Em uma situação próxima a seu próprio gol, Porro e Udogie retornam as suas posições de origem na lateral, para montar a parede com quatro defensores. Os dois volantes recebem o apoio de Kulusevski e Richarlison para povoar o meio-campo, enquanto Maddison e Son se posicionam próximos aos zagueiros adversários para tentar cortar o passe e partir em contra-ataque.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - O Tottenham de Ange Postecoglou se defende com duas linhas de quatro
Foto: (Reprodução/homecrowd) – O Tottenham de Ange Postecoglou se defende com duas linhas de quatro

Ange precisa de tempo

Com o Tottenham em processo de reformulação e mudança de identidade – já que José Mourinho antecedeu Antonio Conte, Ange vai precisar de tempo no Tottenham. Oscilações serão normais, principalmente com tantos desfalques. Mesmo assim, é fato que Postecoglou já mudou a mentalidade dos Spurs, que podem colher os frutos em um futuro próximo. Resta aguardar cenas dos próximos capítulos.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Formado em Jornalismo pela Unesp, é apaixonado por esportes, acima de tudo futebol. Ama escrever sobre o que acontece dentro e fora de campo. Após passar por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia, se juntou à equipe da Trivela com muita vontade de continuar crescendo.
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