Premier League

Postecoglou parece ter a visão certa para o que o Tottenham precisa

O técnico australiano não quer ganhar apenas um título pelo Tottenham, mas competir todos anos para ser campeão

O Tottenham fez tudo que um clube com grandes ambições deveria fazer. Contratou e desenvolveu jogadores sob o comando de um técnico jovem e promissor, se estabeleceu na Champions League, chegou à final de uma, e construiu um novo estádio para melhorar sua situação financeira de forma sustentável. Mas faltou um detalhe importante: ganhar alguma coisa.

Ao fim do ciclo de Mauricio Pochettino, e em busca do primeiro título desde 2008, a visão se voltou ao curto prazo, com José Mourinho e Antonio Conte, dois fracassos de diferentes naturezas. Esse processo deixou o Tottenham sem Champions League, sem vaga em competições europeias após 13 anos, sem técnico e sem sua principal referência – Harry Kane.

O momento perfeito para começar um novo projeto, por outro lado, em cima de uma página quase em branco e parece exatamente isso que o técnico Ange Postecoglou pretende fazer.

Por que ele escolheu o Tottenham?

Ange Postecoglou não é um técnico novo. Tem 58 anos, treinou a seleção australiana e teve sucesso no Campeonato Japonês antes de chegar à Europa para treinar o Celtic. Na Escócia, foi dominante. Conquistou cinco dos seis títulos nacionais que disputou em duas temporadas, reformulando o time quase da noite para o dia, após os Bhoys perderem a hegemonia – e a chance de ganhar o Escocês dez vezes seguidas – para o Rangers.

Terá uma missão parecida no norte de Londres, embora mais profunda e mais difícil.

– Acho que o fato de ser um dos maiores clubes do mundo, mas que não teve sucesso há muito tempo foi provavelmente o principal motivador para mim. Quando você encara um desafio como esse, você sabe que, se você conseguir implementar as coisas que quer e fazer tudo bem, você pode deixar uma marca no clube em que trabalha e é isso que eu tentei fazer em todos meus clubes.

– Essa foi a principal atração para mim. O fato de o clube não ter tido muito sucesso e que estava saindo de uma temporada especialmente ruim para os seus padrões e a oportunidade de criar alguma coisa. O desafio, para mim, é o mesmo em todo lugar e é fazer com que o time jogue o tipo de futebol que dá algo para os torcedores se empolgarem todas as semanas e trazer sucesso para o clube. Não há outro motivo para fazer o que eu faço. Não importa onde estive, eu quero levar sucesso para este clube jogando de uma certa maneira e isso nunca muda – disse, ao Talk Sport.

E qual o plano?

Logo nos primeiros meses da temporada, o Tottenham perdeu uma chance, talvez a mais real, de ser campeão, ao cair nos pênaltis para o Fulham na Copa da Liga Inglesa. O seu último título foi justamente nessa competição. Resta a Copa da Inglaterra, partindo do princípio de que a Premier League seria inviável. Postecoglou lamentou a eliminação, mas fez questão de dizer que não assinou com os Spurs para levantar um troféu. Quer construir uma base para disputá-los com frequência.

Exatamente do que o Tottenham precisa.

– Os torcedores têm que sentir o que eles querem sentir. Não direi que não deveriam ficar decepcionados, mas não estou neste cargo desesperado para vencer alguma coisa. Estou aqui porque quero ajudar o clube a ser campeão todos os anos e há uma diferença. Ganhar a Copa da Liga e terminar em 10º lugar não é o que eu penso que este clube é e isso não é desprezar a Copa da Liga porque eu quero vencer todos os jogos. Eu fiquei decepcionado naquela noite também, mas não é o objetivo final para mim.

– Não é sobre ganhar alguma coisa apenas por ganhar alguma coisa. É sobre construir algo e é isso que motivou a minha carreira inteira. Eu quero construir clubes com sucesso sustentável, com os torcedores entrando em cada temporada se sentindo bem sobre as perspectivas e vendo o time deles jogar um bom futebol – afirmou.

Sem desculpas

Antonio Conte saiu do Tottenham chutando o balde, com um discurso explosivo em que colocava parte da culpa dos problemas do clube nos jogadores, que, segundo ele, se contentavam com pouco e não assumiam responsabilidade. Ele não estava completamente errado, e Postecoglou quer criar um ambiente em que o elenco não tenha desculpas para não atuar no seu melhor.

Ele citou como exemplo o meia Yves Bissouma, que era um dos melhores jogadores do Brighton antes de ser vendido e teve dificuldades na primeira temporada em Londres. Está melhorando com Postecoglou, um dos destaques das rodadas iniciais da Premier League.

– Não sei se fiz algo específico com ele. Eu disse a todos os jogadores que é sobre eles agora. Você nunca começa em uma página em branco, mas você pode começar com uma oportunidade e tomar as rédeas da sua carreira. Me mostre o que pode fazer e seja o melhor que você pode ser. Eu tive sorte porque Bissouma estava aqui no primeiro dia em que eu cheguei.

– Muitos dos rapazes estavam com as seleções e eu meio que o agarrei. O jeito como estava treinando… naquele momento, as primeiras três ou quatro sessões, eu praticamente tinha apenas jovens. Eu disse: você pode ser um líder neste grupo. Eu já conhecia sua habilidade, e a maneira como ele estava treinando, eu vi que ele ganhou um impulso.

– Ele chegou atrasado na manhã seguinte, e eu disse: ser líder significa chegar na hora. E ele fez isso desde então. Então tem sempre uma lição para aprender, mas eu acho que com ele e todos os outros jogadores, é sobre criar um ambiente e um parâmetro para dizer: você não deveria ter desculpas. Não vou permitir que você tenha desculpas e não seja o melhor que pode ser. Neste contexto, o resto depende de mim – encerrou.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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