Leste Europeu

Salenko e mais: os jogadores que cruzaram as fronteiras e jogaram por Rússia e Ucrânia

Nos primeiros anos após o fim da União Soviética, foi bastante comum que jogadores de um país servissem outra seleção, especialmente ucranianos com a camisa da Rússia

*Por Caio Brandão, texto publicado em fevereiro de 2022 e atualizado

Neste 29 de abril, completam-se 30 anos de uma efeméride carregada de curiosidades ao futebol. Trata-se da tarde em que Salenko, eternizado como artilheiro da Copa de 1994 e como maior goleador em um só jogo em Mundiais, estreou por uma seleção adulta. Não pela Rússia, a qual serviu no torneio dos EUA. Mas pela Ucrânia, terra de suas origens, no que foi o próprio jogo de estreia da seleção ucraniana – a contar, na ocasião, com outras figuras que acompanharam Salenko na seleção russa de 1994.

O próprio jogador mais premiado do antigo futebol soviético reflete a ligação entre as duas nações, pois Oleg (ou Oleh, na romanização oficial do cirílico ucraniano) Blokhin é um nativo da Ucrânia e também filho de pai russo. Inclusive, é visto como russo pelos próprios russos. O primoroso site Rusteam, a servir de fonte a essa matéria, contém perfis de todos os jogadores que defenderam as seleções da União Soviética, da CEI (a Comunidade dos Estados Independentes) e/ou da Rússia, com transcrições integrais de entrevistas ou reportagens dedicadas a eles na imprensa russa ou soviética. 

O avanço do Google Tradutor permite conhecer diversas declarações interessantes sobre como jogadores divididos entre os dois países sentem-se a respeito; no de Blokhin, por exemplo, consta a afirmação datada de 2002 de que “a Rússia foi e continuará sendo o país mais próximo de nós (…). Quando a União entrou em colapso, o futebol russo obteve objetivamente a melhor posição inicial. Muitos de nossos jogadores escolheram jogar pela seleção russa – e isso é um direito deles”.

E Salenko? No perfil dele, a declaração mais tocante sobre o tema, feita em 2005, é de que “sou uma pessoa que cresceu na União Soviética, e para mim a Rússia e a Ucrânia são igualmente valiosas. E eu visito São Petersburgo a cada dois meses. Eu tenho um filho crescendo lá do meu primeiro casamento. Posso dizer que tenho duas casas: Leningrado, onde nasci, e Kiev”. Sem nenhuma pretensão científica ou sociológica, são histórias que valem ser contadas.

Atualização em 29 de abril de 2022: no aniversário de trinta anos da partida, a declaração acima de Salenko já ganhou contornos dramáticos. Ainda em março, o atacante clamou pelo fim da guerra e detalhou que não ficou imune à polarização no seu círculo íntimo. Foi em vídeo que registrava ele permanecendo em Kiev e usando casaco do Dynamo, desabafando sobre o antigo hábito de considerar-se um homem “soviético” que “costumava dizer isso, mas tudo mudou agora. Antes, não havia nenhum exército a nos atacar. O pior de tudo é que tenho amigos na Rússia que dizem que esta ação militar é correta. Falei com pessoas de São Petersburgo, incluindo a minha ex-mulher, e eles acham que a Rússia está defendendo os ucranianos. Cortei relações com eles. Estou cansado de ouvir as asneiras deles quando crianças estão morrendo”.

Salenko e os ucranianos da seleção russa

Salenko estreou no futebol adulto em 1986, pelo Zenit de sua cidade-natal – na época, denominada Leningrado. Longe do patamar alcançado pelo patrocínio da Gazprom a partir de meados dos anos 2000, o clube tinha acabado de conquistar o que seria justamente seu único título soviético, e único campeonato nacional até vencer a liga russa de 2007. O clube dominante na URSS era o Dynamo Kiev, que reconheceu o talento dele ao incorpora-lo em 1989, quando Salenko já vinha jogando pelas seleções soviéticas juvenis; a foto esquerda abaixo, de Juha Tamminen, craque finlandês da fotografia esportiva, é de partida da URSS Sub-20 contra a Finlândia em agosto de 1988. A da direita já mostra ele em sua partida pela Ucrânia.

Em 1989, foi a vez de Salenko ser artilheiro do Mundial Sub-20 – embora visto como craque de um jogo só com o tempo, ele é até hoje o único a ser tanto artilheiro de um Mundial de Juniores como de uma Copa do Mundo. Assim, ele tinha expectativa de ir à Copa de 1990, mas precisou contentar-se com a dobradinha do Campeonato Soviético (a isolar o Dynamo como maior campeão do país, um troféu à frente do Spartak Moscou) com a Copa da URSS, em cuja final ele anotou três gols nos 3 a 1 sobre o Lokomotiv Moscou. 

O calendário do futebol soviético era diferenciado do resto da Europa, e com isso o título na liga de 1990, assegurado ao fim do ano, classificou o Dynamo para a Liga dos Campeões de 1991/92 mesmo. E, em meio ao torneio europeu, veio a dissolução da URSS. Ainda como um clube soviético, o Dynamo eliminou os finlandeses do HJK e um embalado Brondby para então juntar-se à fase de grupos. 

Em tempos enxutos, onde só os campeões nacionais disputavam a Copa dos Campeões e onde o mapa europeu tinha muito menos países, a fase de grupos já servia de semifinal. Eram dois, e os líderes travariam a decisão em jogo único. O Dynamo teve pela frente Benfica, Sparta Praga e Barcelona, e fez seus dois primeiros jogos ainda em 1991. Salenko começou a entrar no radar da Europa Ocidental ao marcar em Kiev o único gol na vitória sobre os portugueses, então de poderio muito mais acentuado (os lisboetas haviam sido vices em 1988 e em 1990). 

Num arroubo nacionalista com a independência, o clube chegou mesmo a deixar de lado o tradicional uniforme branco para vestir um nas cores do novo país. Por ocasião do primeiro duelo contra o Barcelona, o jornal catalão Mundo Deportivo teceu um perfil mostrando um Dynamo auriazul no qual Salenko era apontado como destaque principal – e que “só não jogou com a seleção adulta por causa de sua díscola e imprevisível personalidade”. De fato, ele não chegou a defender a seleção principal da URSS e não seria considerado pela da CEI (que servia de transição entre a equipe soviética e as futuras seleções independentes) para a Eurocopa que se avizinhava em 1992. 

O Dynamo seria o lanterna em seu grupo, um pouco por fatores extracampo. Para além da independência, o rigoroso inverno, que tradicionalmente suspendia o futebol nas estepes, fez a equipe perder embalo e só voltar a jogar oficialmente na retomada da Liga dos Campeões, já em 4 de março de 1992, como destacado trinta anos depois pelo Mundo Deportivo; o próprio campeonato ucraniano inaugural começaria dali a dois dias. Mas Salenko repercutiu entre os espanhóis: na rodada final, o Barça concorria apenas contra o Sparta Praga – e vencia por um 2 a 1 perigoso o Benfica. Um empate catalão combinado com eventual vitória tchecoslovaca em Kiev daria a classificação ao Sparta. Mas, a oito minutos do fim, o atacante tranquilizou os futuros campeões, assinalando o único gol do duelo entre ucranianos e tchecos.

Exatamente 14 dias depois daquele 15 de abril de 1992, era a vez de ele vestir a camisa da Ucrânia. A partida se deu em Uzhhorod, na fronteira ucraniana com a Hungria, cuja seleção foi a convidada para a ocasião. Com uma camisa curiosa com detalhes vermelhos a apelidando de “romena”, a Ucrânia alinhou como dupla de ataque ninguém menos que os últimos artilheiros do Mundial Sub-20: Salenko e Serhiy Shcherbakov. Na mesma data, em preparação à Eurocopa, a seleção da CEI travou em Moscou amistoso contra a Inglaterra, e muitos potenciais convocáveis à estreia ucraniana ficaram de fora. A falta de recursos da nascente federação limitou os convocados a quem atuasse na liga ucraniana mesmo – dentre os ucranianos não ocupados com a CEI, o artilheiro Oleh Protasov, já no futebol grego, seria o principal desfalque por esse contexto.

Dentre os convocados, estiveram o lateral Ilya Tsymbalar e o zagueiro Yuri Nikiforov, ambos do Chornomorets Odessa, que dali a um mês faturaria a primeira Copa da Ucrânia (Tsymbalar, inclusive, fez o único gol da final). Eles eram nativos da própria Odessa, em região ocidental da Ucrânia. Mas acompanhariam Salenko na Copa de 1994 pela Rússia. O zagueiro tinha já certa experiência: campeão europeu sub-16 em 1987 e sub-18 em 1988 com as seleções juvenis soviéticas, defendera a sub-20 nos dois anos finais do país. Estreara na seleção adulta quando ela já havia se convertido na da CEI – precisamente na estreia da equipe da comunidade, um simbólico 1 a 0 sobre os EUA em 25 de janeiro daquele 1992. Fez ainda outros três jogos pela CEI entre janeiro e fevereiro, mas não convencera o treinador Antoliy Byshovets por um lugar na Eurocopa. 

O perfil que o Mundo Deportivo traçou em março de 1992 sobre um Dynamo Kiev que se vestia com as cores ucranianas. Além de Salenko (na parte central inferior), destaca-se também Tsveiba, no perfil superior mais à direita

Em uma tarde de sol em Uzhhorod, os estreantes ucranianos começaram melhores: seu capitão Yuriy Shelepnytskyi (outro do Chornomorets) acertou a trave e houve reclamação de um pênalti em Schcherbakov não assinalado. O primeiro tempo terminou sem gols. Mas, no segundo, a Hungria soube prevalecer a partir de dois contra-ataques, a render gols de István Sallói aos 16 minutos e de József Kiprich aos 25. O mesmo Kiprich liquidou ao converter um pênalti já aos 39. Restou aos novatos um golzinho de honra no minuto final, tento de Ivan Hetsko, raro nome presente que já havia defendido a seleção adulta da URSS.

Em paralelo, já se desenrolava um primeiro campeonato ucraniano, concentrado apenas no primeiro semestre de 1992 para a segunda edição já se adequar ao calendário da Europa Ocidental. A fórmula daquele torneio inaugural foi dividir vinte clubes em dois grupos e agendar uma final em jogo único entre os líderes, em 21 de junho de 1992. O perfil de Salenko no Rusteam contém declarações dele de que o contraste de nível de jogo entre a Liga dos Campeões e os jogos domésticos faziam os jogadores do Dynamo serem mais intensos nos próprios treinos do que nos duelos oficiais contra seus compatriotas. Mesmo nesse ritmo, o todo-poderoso liderou com folga seu grupo: 30 pontos contra 23 (a vitória na época só valia dois pontos) do Dnipro Dnipropetrovsk, recém-campeão soviético em 1988.

A outra chave foi naturalmente mais equilibrada, com três pontos separando o Tavriya Simferopol do terceiro colocado Chornomorets Odessa; o segundo foi o Shakhtar Donetsk. E na decisão, deu zebra contra o Dynamo: 1 a 0 para o Tavriya. Em ironia histórica, o primeiro campeão ucraniano foi justamente um clube da separatista Crimeia – e que terminou extinto com a anexação em 2014, proibido pela UEFA de disputar torneios oficiais russos enquanto a federação ucraniana criou um clube homônimo, em outra cidade.

Seis dias depois daquele revés inesperado do Dynamo, a seleção ucraniana fez uma segunda partida, a promover inclusive a estreia de Serhiy Rebrov. Mas sem Salenko. Ao Rusteam, o atacante creditara aquela derrota para a Hungria, em partes, à desordem de a seleção ucraniana ter contado com três técnicos diferentes na ocasião. Seu litígio para sair do Dynamo diante da atenção que despertara no Ocidente (ficaria seis meses parado na indefinição de um acerto com o Tottenham, inviabilizado pelas normas inglesas exigirem que ele tivesse um mínimo de partidas pela seleção adulta) teria pesado para que não fosse considerado. Nikiforov e Tsymbalar, sim, estiveram no 0 a 0 contra os EUA no interior de Nova Jersey em 27 de junho de 1992, novamente sem os ucranianos presentes na Eurocopa. E também em revanche contra a Hungria já em 26 de agosto, embora os magiares vencessem de novo, por 2 a 1, em Nyíregyháza. 

Essa segunda partida contra a Hungria contou com um quarto homem que defenderia tanto Ucrânia como Rússia – embora Akhrik Tsveiba (convocado à Eurocopa 1992 e enfim livre), curiosamente, não fosse etnicamente nem ucraniano e nem russo. Com o calendário para a Copa de 1994 já planejado, a UEFA e a AFC não admitiram inclusões de última hora nas eliminatórias que não a da Rússia, vista como herdeira natural da URSS por mais que a seleção soviética houvesse sido mais ucraniana do que russa nos anos 1980. Com isso, os jogos inaugurais das demais seleções oriundas do antigo país não tinham na época chancela oficial exterior. Gradualmente, a Ucrânia começou a chamar antigas figuras carimbadas da seleção soviética, com Mykhaylychenko, Kuznetsov, Lytovchenko e Protasov enfim estreando pelo país natal independente. 

Inclusive, o primeiro jogo da Ucrânia a ter Mykhaylychenko (o bola de ouro de 1986, Igor Belanov) e Kuznetsov (no que foi a quarta partida do novo país) marcou também a estreia da novata seleção de Belarus, rendendo naquele 28 de outubro de 1992 um curioso duelo com antigos colegas deles nas seleções recém-extintas; os bielorrussos Aleynikov (ou Aleynikaw), Gotsmanov (ou Hatsmanaw) e Zygmantovich/Zyhmantovich haviam sido nomes recorrentes entre 1986 e 1992 em torneios por URSS/CEI, especialmente o primeiro.

Outros ucranianos, contudo, optaram, por diferentes razões, pela Rússia. O perfil de Nikiforov no Rusteam tem essa declaração de 2004, ao ser indagado sobre sentir-se mais russo ou ucraniano: “Para ser honesto, é difícil para mim responder a essa pergunta. Sempre disse que não sou russo nem ucraniano, venho da URSS”. Ele estreou como naturalizado russo em 8 de setembro de 1993, recém-incorporado pelo Spartak Moscou; ironicamente, contra a Hungria, agora vencida por 3 a 1 em plena Budapeste.

Não esquecido pelos espanhóis, Salenko acertou com o Logroñés para a temporada 1993/94 e fez por onde para estrear como russo em 17 de novembro de 1993, derrota de 1 a 0 em Atenas para a Grécia. Ele teceu uma declaração similar à de Nikiforov: “A seleção da Ucrânia era como se não existisse. (…) Eu nasci e cresci em São Petersburgo. (…) Eu pensava doze anos atrás que tínhamos uma outra seleção da URSS, servindo sob a bandeira da Rússia”. Aquela derrota para os gregos não complicou a classificação, mas teria desdobramentos para a Copa: boa parte dos astros que desbravavam os principais centros europeus estavam descontentes com o técnico Pavel Sadyrin, julgado por eles como antiquado, e exigiam sua saída. A federação bancou o treinador, ainda que isso desfalcasse severamente a Rússia em qualidade. O que incluiu alguns nativos da Ucrânia junto – chegaremos lá.

A Ucrânia em seu segundo jogo, contra os EUA: Tsymbalar é o antepenúltimo em pé e Nikiforov é o último agachado. O primeiro agachado não é Salenko, e sim outro artilheiro sub-20 da URSS, o trágico Shcherbakov

Tsymbalar, que chegara ao Spartak Moscou junto de Nikiforov, pôde nesse vácuo estrear pela Rússia em cima da hora: em 20 de abril de 1994, em amistoso pré-Copa com a Turquia (2 a 1). E a defenderia até 1999. Seu perfil no Rusteam não chega a conter maior debate de identificação nacional. Mas o de outros ucranianos da Rússia, sim. E vice-versa.

Um dos astros renegados à Copa de 1994 foi Andrey Kanchelskis, nativo de Kirovogrado, mas de origem lituana mesmo. Em 2003, preferia exaltar ter o passaporte britânico após anos de bons momentos por Manchester United, Everton e Rangers, segundo seu perfil no Rusteam. Exaltava a desnecessidade de visto possibilitada pela cidadania extra e Londres como lugar favorito na terra. As menções ucranianas foram nulas: comentou que em sua casa se falava apenas russo e indicou que considerava a Rússia como casa. 

Outra estrela que ficaria de fora dos EUA foi Igor Dobrovolskiy, cujo perfil, por sua vez, está com um texto de 2004 em que ele limita a mencionar a Ucrânia apenas como incidente no seu sotaque da língua russa, e onde chama Moscou de “pátria” e considera-se “russo”. Sua outra casa seria a Moldávia mesmo, onde crescera, embora tenha nascido na mesma Odessa de Nikiforov e Tsymbalar. 

Mesmo sem eles, a Rússia de 1994 teve uma considerável parcela de ucranianos para além dos nativos Nikiforov, Tsymbalar e do adotado Salenko – que, por sinal, só ganhou lugar a partir de uma estreia decepcionante de quem havia sido artilheiro da Liga dos Campeões de 1991-92, pelo Benfica: Sergey Yuran, por sinal nasceu na separatista Lugansk. E, em 1995, já antevia que “depois que comecei a jogar pela seleção russa, dificilmente devo voltar para a Ucrânia. Talvez eu vá para Portugal – tenho uma casa lá. Mas, provavelmente, eu vou me estabelecer em Moscou”.

A mesma Lugansk, diga-se, também é a cidade natal de dois dos principais expoentes da seleção russa: Viktor Onopko e Sergey Semak. Como os três nomes acima citados, eles nunca defenderam a Ucrânia. Mas, diferentemente de Kanchelskis e Dobrovolskiy, o zagueiro Onopko embarcou para a Copa de 1994. Membro da comissão técnica atual de Valeriy Karpin, chegou a ser o recordista de partidas da seleção (marca que hoje está com Sergey Ignashevich) que defendeu entre 1992 e 2004 após algumas partidas pela URSS e pela CEI. Embora no início da carreira o carequinha houvesse defendido tanto o Dynamo Kiev como o Shakhtar Donetsk, sua única menção à Ucrânia natal no clipping de reportagens em seu perfil no Rusteam foi algum gosto pela borscht, sopa típica da culinária ucraniana. Soa quase como um mineiro de Juiz de Fora mais identificado com a cultura carioca, mas sem abrir mão de um pão de queijo.

O volante Semak, por sua vez, contou que a fraqueza do representante de Lugansk na nascente liga ucraniana, o Zorya, eliminava qualquer interesse em defende-lo. Preferiu tentar a sorte em Moscou em 1992 em uma excursão do seu internato e defendeu diferentes equipes obscuras moscovitas até galgar ao CSKA em 1994. Em 1995, já fazia sua estreia pelas seleções de base da Rússia, e estreou em 1997 pela principal, que defenderia até 2010. Mas ele admitiu em 1996 uma vantagem natal que não vislumbrava na liga russa: “Às vezes é estranho ver um jogador evitando uma briga. Às vezes tenho a sensação de que as equipes russas não têm esse caráter ucraniano”. Ele acompanhou Onopko e Nikiforov na Copa de 2002 e seria o capitão russo na vistosa Eurocopa 2008.

Um dos dois duelos oficiais entre Rússia e Ucrânia no futebol adulto, ambos válidos pelas eliminatórias à Eurocopa 2000. Nascido na separatista Lugansk, Viktor Onopko é o capitão russo. O capitão ucraniano, Oleh Luzhnyy, também chegara a defender a URSS

A Copa de 1994 teve ainda Vladislav Ternavskiy, nascido na própria Kiev, mas sem que isso se refletisse em qualquer declaração sua como ucraniano no perfil ao Rusteam.  Sua única seleção foi a Rússia, pela qual estreou em cima da hora: estreou juntamente com Tsymbalar. Foram apenas oito jogos, até 1996.

Voltemos, então, ao curioso caso de Tsveiba, outro nascido em região separatista – mas a de Abecásia, cuja independência junto à Geórgia em 2008 seria reconhecida basicamente apenas pelos russos. Ele jamais defenderia a seleção georgiana, mas seu perfil no Rusteam não fundamenta isso por algum viés nacionalista; ao contrário, ele elogia craques da geração georgiana de ouro que o acolheram no Dínamo Tbilisi (da capital georgiana) após ser formado no Dínamo Sukhumi, clube da capital da Abecásia, rotulando Davit Kipiani e Kakhi Asatiani como alguns de seus mentores.

O perfil de Tsveiba menciona duas brincadeiras: a de que ele parecia ter criado uma fidelidade com a cadeia de Dínamos (ligados no futebol estatal à polícia secreta), pois passaria ainda pelos de Kiev e de Moscou, algo que ele, com humor, assegurou ter sido mera coincidência. Outra é de que enturmou-se tanto com os colegas que fez em Kiev que foi apelidado de “Tsveibenko”, com acréscimo de sufixo típico do povo ucraniano a seu sobrenome. Sua mudança para a capital ucraniana, em 1990, deveu-se a fatores políticos mais combinados com praticidade esportiva do que por alguma rivalidade abecásia com georgianos. É que a Geórgia declarou-se independente da URSS ainda em 1990, quase dois anos antes do fim soviético. Embora o movimento tardasse a ganhar reconhecimento, teve efeitos imediatos com o banimento do Dínamo Tbilisi dos torneios soviéticos – e quem atuasse em times georgianos também estaria fadado a não ser considerado à seleção classificada à Copa 1990.

“Em uma palavra, o futebol georgiano foi sacrificado por paixões e ambições políticas inflamadas. O triste resultado desse jogo é conhecido de todos”, declarou ele, em texto datado de 25 de dezembro de 1990, transcrito no perfil ao Rusteam. Tsveiba explicou que sabia que estava no radar das convocações do técnico Valeriy Lobanovskyi, que teria lhe dito que a chamada à Copa do Mundo dependeria “de qual time você vai jogar” e que “a seleção está interessada em você”. Ele, afinal,  estreou pela União Soviética em 22 de fevereiro de 1990, em amistoso pré-Copa contra a Costa Rica, e dois dias depois atuou nos 3 a 1 contra os EUA. “De volta dos Estados Unidos, Pasha [o colega de seleção Pavlo] Yakovenko me deu a notícia: a Geórgia vai se retirar do campeonato e realizará um torneio interno da república. A princípio, tomei essa informação como uma brincadeira ou algum tipo de erro ridículo. Mais tarde, no aeroporto, Lobanovskiy me confirmou essa notícia e deixou suas coordenadas. Não pensei por muito tempo – a transferência para o Dynamo Kiev significava um caminho direto para a Copa do Mundo. Em Tbilisi, (…) todo mundo entendeu que tive de concordar com a proposta de Lobanovskiy. E me despedi de todos os meus parceiros de maneira amigável e calorosa”.

Quem tentou dificultar era quem atuava longe do campo: “Várias autoridades, incluindo as bastante altas, começaram a me convidar para suas conversas ‘confidenciais’, prometendo todo tipo de benefícios, argumentando que até o final da temporada a Geórgia se tornaria membro efetiva da UEFA, e o Dínamo Tbilisi e outras equipes da república participariam dos torneios europeus. E assim por diante. Não sei ao certo as opiniões dos meus camaradas no Dínamo Tbilisi, então vou falar apenas por mim. Eu queria jogar em torneios sérios, já era um membro da seleção e minhas chances de jogar em partidas da Copa do Mundo eram bastante altas”. Ele fez uma terceira partida pela URSS já em 16 de maio (derrota de 3 a 2 para Israel) e então teve uma decepção: foi convocado à Copa do Mundo, sendo inclusive o único nativo de território georgiano no último Mundial dos soviéticos, mas uma lesão em dividida com Ivan Yaremchuk em treinamento e a precoce eliminação na fase de grupos impediram que ele entrasse em campo na Itália.

Tsveiba por URSS (1991), CEI (1992) e Rússia (1997). O abecásio ainda defendeu a Ucrânia por uma partida, a terceira do país

Tsveiba tornou-se figura carimbada no ciclo pós-Copa, participando ativamente da classificação à Eurocopa 1992 (onde o georgiano Kakhaber Tskhadadze foi aproveitado justamente por ter rumado a tempo ao Spartak Moscou) e da própria Euro, já com a camisa da CEI; inclusive, fora dele o primeiro gol daquela breve seleção, no simbólico 1-0 sobre os EUA em 25 de janeiro de 1992. A presença na Eurocopa inviabilizou que ele participasse das duas primeiras partidas da seleção ucraniana, mas ele acompanhou Nikiforov e Tsymbalar na terceira delas. Em 2 de setembro, a Geórgia, cuja seleção já vinha participando desde 27 de maio de 1990 de jogos ainda sem chancela da FIFA, teve sua primeira partida reconhecida como oficial pela entidade, em amistoso contra a Lituânia. Tsveiba, lesionado, estava inclusive relegado ao time B do Dynamo Kiev. Em 1993, rumou a uma equipe periférica russa, o KamAZ. E parecia encaminhar o fim de carreira ao acertar com o Gamba Osaka, atraído pela ideia de reencontrar antigos parceiros de URSS – o ucraniano Oleh Protasov e o bielorrusso Sergey Aleynikov (ou Syarhey Aleynikaw).

Ele rotulou os três anos no Japão como uma experiência incrível, embora reconhecesse que ficou de fora do radar de convocações de qualquer seleção. Até que uma transferência ao Alania Vladikavkaz em 1997 (no auge do time da Ossétia do Norte, campeão russo em 1995 e vice em 1996) despertasse interesse de sua quarta seleção. O caráter ainda oficioso das partidas da Ucrânia em 1992 propiciou que um já grisalho Tsveiba jogasse em nove partidas pela Rússia, tudo entre julho e outubro de 1997. Mas precisou novamente ver a Copa do Mundo à distância, dessa vez pela eliminação na repescagem contra a Itália, a marcar sua despedida de jogos de seleções – enquanto um tal Gianluigi Buffon começava do outro lado.

Depois de Tsveiba, um último caso de jogador da seleção ucraniana a “virar a casaca” foi o de Andrey Karyaka, ou Andriy. Nascido em Dnipropetrovsk, de fora das áreas separatistas, ele já estava no CSKA Kiev quando jogou parte de um amistoso juvenil da Ucrânia, contra os búlgaros em 18 de agosto de 1999. A partida não foi considerada oficial. E sua boa fase no Krylya Sovetov Samara, para onde se transferiu em 2000, iniciou uma disputa entre os dois países pela promessa. Recusou uma convocação da seleção adulta da Ucrânia em maio de 2001, para em 15 de agosto de 2001 estrear como russo – um 0 a 0 com a Grécia. “No caso dele, os formadores ucranianos, como dizem, cometeram um erro, perdendo um talentoso jogador de futebol bem debaixo do nariz”, avaliou o Rusteam. Apesar da briga por ele, Karyaka não iria à Copa de 2002, apenas à Eurocopa 2004. E fez seu último jogo pela Rússia ainda em 2005.

A Rússia ainda abrigou diversos outros nativos da Ucrânia na seleção principal. Sergey Podpalyy (1992), Vladimir Lebed (1995), Artyom Bezrodnyy (1999), Gennadiy Nizhegorodov (2000), Yevgeniy Aldonin (2002), Viktor Budyanskiy (2007), Roman Neustädter (2016) e Anton Shvets (2018). Nenhum vingou para ir a uma Copa do Mundo – Aldonin (2004) e Neustädter (2016) cavaram lugares em Eurocopas. Enquanto o primeiro nasceu precisamente na separatista Crimeia, com seu perfil no Rusteam tendo declaração sua de que não foi “nada difícil” deixar a Ucrânia, o outro tampouco se identifica como ucraniano étnico; embora nascido em Dnipropetrovsk, é descendente de alemães do Volga por parte de pai (tendo inicialmente optando em jogar pela Alemanha, sem se firmar com Joachim Löw) e tem mãe russa. Declarou ao Rusteam que apenas o russo é falado em casa e aceitou o passaporte mesmo que para tanto precisasse renunciar à cidadania alemã.

O perfil de Lebed, por sua vez, justificou que a própria Ucrânia não o convocava e que “afinal, ao mesmo tempo, Tsymbalar e Nikiforov também não foram convocados à seleção ucraniana e escolheram o que lhes foi oferecido”. Shvets é o único nascido já na Ucrânia independente, em 1993, filho de um ucraniano com uma georgiana – inclusive, foi formado no Dínamo Tbilisi. Ao Rusteam, justificou que apenas a Geórgia lhe sondou a nível seleção, “mas sempre sonhei em jogar apenas pela Rússia”.

Onopko (como capitão) e Nikiforov em 2002, Semak como capitão na Eurocopa 2008

Considerando treinadores, Anatoliy Byshovets foi outro ucraniano da seleção russa. Técnico campeão olímpico com a URSS (a defendera como jogador na Copa de 1970) sobre o Brasil em 1988 e comandante da CEI na Eurocopa 1992, foi requisitado após o insucesso da Rússia em classificar-se à Copa de 1998. E calhou de ser ele o técnico dos russos justamente no primeiro duelo entre os dois países, em 5 de setembro de 1998, já pelas eliminatórias à Eurocopa 2000. Kanchelskis, Onopko e Semak eram outros a enfrentar a terra natal, e Onopko inclusive marcou o último gol na derrota russa em Kiev por 3 a 2. Apenas ele e Semak também estariam na revanche; aqueles 3 a 2 marcaram justamente a despedida de Kanchelskis da seleção russa. E uma péssima série inicial de resultados custou o cargo de Byshovets (a ser demitido após uma derrota por 5 a 1 para o Brasil). 

Já o lado adversário também teve seus russos naqueles dois únicos duelos. O que nos leva ao próximo tópico.

- - Continua após o recado - -

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Via inversa: os russos da seleção ucraniana

Se Salenko, Tsymbalar, Nikiforov, Tsveiba e Karyaka defenderam primeiramente a Ucrânia e depois a Rússia, houve quem fez o contrário – mais por melhores chances de aparecer no futebol de seleções do que por identificação étnica. Aleksey Bakharev, natural da região da antiga Stalingrado (hoje Volgogrado), fez diversas partidas pelas seleções russas de base entre 1994 e 1998 – participando nos referidos anos da Eurocopa Sub-18 e da Eurocopa Sub-21, respectivamente, além do Torneio de Toulon de 1996. Em 18 de novembro de 1998, então, teve uma estreia para esquecer pela seleção principal: Brasil 5 a 1, em Fortaleza. 

Ainda em 1998, Bakharev rumou ao emergente Shakhtar Donetsk, que enfim conquistou na temporada 2001/02 o seu primeiro título ucraniano. O feito não bastou para que ele fosse reconsiderado pela Rússia, mas despertou interesse da Ucrânia em naturaliza-lo. Limitou-se a uma derrota amistosa para o Irã (1 a 0) em 21 de agosto de 2002.

Seu perfil no Rusteam tem uma queixa de 2003 sobre a má sorte: “[o então treinador Leonid] Buryak me ligou cinco vezes para jogar pela seleção ucraniana, e no final eu concordei. Eles fizeram a papelada, fizeram tudo, [o então presidente Leonid] Kuchma deu o aval… e então aconteceu que as federações internacionais de futebol não me permitiam jogar pela seleção ucraniana. Diziam que Bakharev jogara pela equipe juvenil da Rússia. E tudo é um beco sem saída. Acontece que esperei, esperei por um convite da Rússia – pela Ucrânia não esperei, mas também não poderei jogar. (…) Eu tive e ainda tenho esse desejo. Sou um russo simples e quero jogar pelo meu país”. 

Bakharev detalhou mais em 2006: “A história da cidadania foi barulhenta, mas eu nunca entendi. Fui jogador da seleção russa, mas os dirigentes ucranianos prometeram resolver tudo através da FIFA. ‘Ok’, respondi, ‘tentem’. Até joguei uma partida pela Ucrânia – contra o Irã, um amistoso. Eu chego ao próximo treino (…) e eles me mandam: ‘Acontece que você não tem o direito de jogar’”. Curiosamente, ele estreara pela Rússia substituindo alguém de trajetória similar, a de outro russo que adotaria por motivos práticos a Ucrânia após ter estreado ali pela seleção russa. O perfil do siberiano Sergey Kormiltsev explicaria em 2007 que: “Nasci em Barnaul e vivi na Rússia quase toda a minha vida”. Ao longo dos anos 90 ele só defendeu equipes russas de escalão inferior, não hesitando em rumar ao onipotente Dynamo Kiev no fim de 1998. 

Sob recomendação do lendário Valeriy Lobanovskyi, Kormiltsev aceitou tornar-se ucraniano em 1999. E estava no banco na revanche da Rússia pelo segundo turno das eliminatórias à Eurocopa 2000, embora não entrasse em campo para duelar contra Semak e Onopko. Em 9 de outubro de 1999, o contexto era diferente, com o substituto do ucraniano Byshovets à frente da Rússia, Oleg Romantsev, impulsionando uma grande reação nas eliminatórias. As duas nações fizeram um duelo direto na rodada final, em Moscou, com os ucranianos tendo vantagem do empate. A 15 minutos do fim, Valeriy Karpin abriu o placar, mas Shevchenko conseguiu tempo de igualar faltando dois. Se vencesse, a Rússia, que soubera vencer a França em Paris, se classificaria diretamente, mas o empate a tirou até da repescagem (onde Sheva e colegas cairiam para a Eslovênia). Romantsev declararia que a vontade geral dele e dos comandados era a de ser fuzilados.

Kormiltsev enfim estreou em 26 de abril de 2000 pela Ucrânia, onde “a dupla cidadania é proibida”, admitindo que precisou renunciar ao passaporte russo. Já havia voltado a Barnaul e dizia que “não me arrependo de ter jogado pela seleção [ucraniana]. Dificuldades surgiriam mais tarde, de natureza mundana. Quando recebi um passaporte ucraniano, não entrei em detalhes. Assinei os documentos e pronto. Mas devolver a cidadania russa não foi tão fácil. Agora eu tenho uma autorização de residência. Na vida cotidiana, isso cria certos inconvenientes – para obter direitos, para se registrar… meus filhos são russos, minha esposa é russa, eu moro aqui – e meu passaporte é ucraniano. (…) Quando eu morava em Kiev, não sentia nada disso. Em todos os anos, nunca ouvi uma censura de que sou russo”.

Kalitvintsev, russo étnico que defendeu a Ucrânia como jogador e treinador

Aleksandr Gorshkov, por sua vez, é outro proveniente da separatista Lugansk. Estreou pela Rússia em outros amistosos pouco promissores de 1998 (derrota de 3 a 1 para a Polônia no dia 27 de maio, 1 a 1 com a Geórgia três dias depois). Sem ser novamente lembrado, aceitou chamados ucranianos nas eliminatórias à Eurocopa 2004, entrando em campo sob vista grossa da FIFA nos duelos contra Espanha (2 a 2), Armênia (4 a 3), Irlanda do Norte (0 a 0) e novamente Espanha (derrota de 2 a 1) entre março e setembro de 2003. É o nome mais recente a conseguir defender os dois países, mas seu perfil no Rusteam é silente a respeito.

Outros nascidos em território russo a jogar pela Ucrânia foram, por ordem cronológica de estreia, Serhiy Kandaurov (1992), Vikor Leonenko (1992), Dmytro Topchiyev (1992), Tymerlan Huseynov (1993), Dmytro Tyapushkin (1994), Yuri Kalitvintsev (1995), Serhiy Yesin (1996), Andriy Nesmachnyi (2000), Maksym Levytskyi (2000), Artem Yashkin (2000), Serhiy Serebrennikov (2001), Serhiy Snytko (2001), Oleksandr Aliyev (2008) e o nome provavelmente mais célebre, Andriy Yarmolenko (2009), filho de ucranianos nascido na velha Leningrado – como Salenko. Deles, apenas Nesmachnyi pôde ir a uma Copa do Mundo, no elenco estreante de 2006, enquanto Yarmolenko teve presença cativas nas Eurocopas seguintes.

Já para os ucranianos, o nome de Kalitvintsev tem ressonância também especial, e não apenas por ter participado do triunfo ucraniano por 3 a 2 no primeiro turno das eliminatórias à Eurocopa 2000: ele também defenderia a Ucrânia como treinador, nas seleções sub-17, sub-20 e ocasionalmente como interino da principal. Vale a menção ainda a Leonid Tkachenko e Anatoliy Konkov, técnicos dos primórdios da seleção ucraniana ambos nascidos em áreas separatistas (respectivamente na Crimeia e Lugansk).

Bônus 1: uma Rússia “internacional” como nunca em sua primeira Copa

A Rússia de 1994 ainda teve outros nascidos fora das fronteiras criadas no fim de 1991. Não só: os russos étnicos nascidos na Federação Russa chegavam a ser minoria entre os titulares. Atual técnico do país, Valeriy Karpin nasceu perto, bem perto; sua cidade natal na Estônia fica na fronteira, separada da “Mãe Rússia” apenas por um rio, e é habitada basicamente por russos – a ponto de seus estudos infantis da língua estoniana terem pouca praticidade no cotidiano local, tornando-se ele mais fluente até mesmo em espanhol após anos brilhando em La Liga. Foi dele, aliás, o primeiro gol da seleção russa pós-CEI. Tais dados constam no perfil dele no Rusteam, enquanto que o de Sergey Gorlukovich não contém nenhum “debate” sobre ele sentir-se russo ou bielorrusso. 

Omari Tetradze vinha da Geórgia, mas segundo o Rusteam ele se identifica etnicamente mais como grego mesmo e, de coração, como “russo, claro”, embora admitisse que seu fenótipo típico do Cáucaso não o livrasse de algumas revistas policiais (“mas tudo acontece de forma civilizada”) em entrevista que dera em 2008; o sobrenome de sufixo georgiano dos mais típicos era adotado de uma avó, pois nascera como Osipov de sobrenome; escolhera o “Tetradze” por sugestão do pai quando entrara nos juvenis do Dínamo Tbilisi, como forma de ser aceito em tempos de nacionalismo regional mais inflamado, e só não voltava atrás na decisão (algo que lhe ocorrera quando passara a outro Dínamo, o de Moscou) pelas dificuldades burocráticas que lhe viriam. Mas lamentava a guerra ocorrida naquele ano: “foi doloroso e injurioso que dois povos irmãos, unidos por laços seculares, fossem separados pela guerra. Minha esposa e filhas também estavam visitando Tbilisi naquela época, é fácil adivinhar o que experimentei…”.

Se os nomes acima jamais chegaram a defender a seleção da terra natal, Andrey Pyatnitskiy participou da estreia internacional seu Uzbequistão (contra o Tadjiquistão, também estreante na ocasião, em um 2 a 2 em Dushanbe) após certa bagagem em tempos soviéticos: estreara pela URSS adulta em um 3 a 0 sobre Israel pouco após a Copa de 1990 e figurou em alguns amistosos pela CEI no primeiro semestre de 1992, embora também esquecessem dele para a Eurocopa. Quanto à seleção uzbeque, ele ainda reapareceu em um 1 a 1 na capital Tashkent contra o Cazaquistão em 10 de outubro de 1992, “já jogando pelo Spartak. Mas, graças a Deus, as partidas não foram oficiais na FIFA. A federação confirmou isso”, em declarações dadas ainda em 1993, em nota onde chegou a ponto de dizer que “é assustador pensar que talvez eu não pudesse jogar pela Rússia”. É o que consta no perfil dele, pelo menos.

Pyatnitskiy, à esquerda: do Uzbequistão para esse jogo contra o Brasil na Copa 1994. O outro jogador na imagem é o ucraniano Tsymbalar


Pyatnitskiy estreou pela sua quarta seleção em 28 de julho de 1993, em derrota de 3 a 1 em Caen para a França, o que não freava sua empolgação pela chances reais de ir a uma Copa do Mundo: “Quando nos tornamos campeões do Campeonato Europeu de Juniores, Kolyvanov, Shalimov, Dobrovolskiy e eu jogamos no mesmo time. Agora, mal posso esperar para jogar com eles novamente”. Era uma referência ao título soviético na Euro Sub-21 de 1990. No fim das contas, os três jogadores que ele citou estiveram entre os astros rebelados contra o treinador Pavel Sadyrin e não iriam aos EUA. Pyatnitskiy foi e se tornou o primeiro nativo do Uzbequistão a participar de um mundial, ainda que limitado à estreia contra o Brasil. Em 2002, explicou que nascera em Tashkent pouco após seus pais, naturais da região russa da Udmúrtia, chegarem àquela cidade para trabalharem em esforços de reconstrução de um terremoto. Mas, embora os pais tenham criado raízes por lá a ponto de recusarem voltar à Rússia, o jogador admitiria que não sabe falar uzbeque, embora entenda razoavelmente essa língua. 

Curiosamente, em seu último jogo pela Rússia, contra as Ilhas Faroe, Pyatnitskiy esteve na mesma seleção de Mukhsin Mukhamadiev – que o havia enfrentado anos antes naquele Uzbequistão x Tadjiquistão. Gancho para a faixa bônus abaixo.

Bônus 2: quem mais defendeu a Rússia (ou a Ucrânia) e outra seleção ex-soviética?

O caráter não-oficial das primeiras partidas das outras repúblicas propiciou que número considerável de outros jogadores defendessem mais de um país oriundo da velha URSS. Aqueles que terminaram adotando a Rússia costumavam justificar a debilidade da seleção originária, como o tal Mukhamadiev: em 17 de junho de 1992, ele defendeu seu Tadjiquistão contra o Uzbequistão, partida que marcou a estreia das duas seleções, um 2 a 2 em Dushanbe no qual ele até marcou os dois primeiros gols tadjiques. Mas seria também sua única partida pela terra natal; em 1995, fez uma aparição como russo – curiosamente, deixando também um gol, em 3 a 0 sobre as Ilhas Faroe pelas eliminatórias à Eurocopa.

Segundo o Rusteam, ele explicou em 2009 que o ineditismo e a aura de clássico com “um rival de longa data” como o Uzbequistão o fez aceitar aquela convocação de 1992 para “um jogo muito interessante” de “estádio cheio”. Mas que logo a seleção tadjique praticamente deu uma pausa na existência: “Era muito difícil para ela financeiramente. Não havia fundos para pagar a viagem de todos aqueles que jogavam em diferentes países. Quando comecei a jogar pelo Spartak Moscou, já recebi uma oferta para jogar pela seleção russa. Paralelamente, foi recebida uma oferta do Tadjiquistão. Eu tive que decidir. Escolhi o time russo. Naquela época eu jogava no Spartak, tinha cidadania russa e havia mais perspectivas aqui (…) A Rússia é minha casa, moro aqui há muito tempo. O Tadjiquistão é a minha pátria. Seja qual for o país em que moro, sempre digo que sou do Tadjiquistão”. E criticou o preconceito enraizado entre os russos contra seu povo, das piadinhas naturalizadas na televisão até atos para além das injúrias.

Outro presente pelo estreante Tadjiquistão foi Sergey Mandreko, que já tinha algum cartaz: duas aparições pela União Soviética no pré-olímpico aos Jogos de Barcelona e quatro amistosos com a natimorta seleção da CEI (embora terminasse de fora da Eurocopa 1992). Suas origens étnicas são ucranianas, mas aceitaria chamado da Rússia. Embora se limitasse a uma derrota de 3 a 0 em Klagenfurt para a Áustria (onde morava, como destacado jogador do Rapid Viena), já após a Copa de 1994, em 17 de agosto. Foi uma adoção fugaz; já em 1995, se reafirmou como ucraniano, ], nada mais me conecta – meus pais agora moram na região de Kirovogrado [centro-sul da Ucrânia]. E com a Rússia, exceto pela convocação única para a equipe nacional, quase não há relações”.

Do lado adversário, além de Pyatnitskiy um adolescente Valeriy Kechinov defendia o Uzbequistão natal, pelo qual esteve em três jogos, todos naquele 1992. Segundo o Rusteam, “tinha uma ideia vaga do meu futuro, não pensava na perspectiva de jogar apenas na Ásia, tinha orgulho de representar a seleção”. Ainda em 1993, ele já era chamado de “traidor” pelos jornais uzbeques, mas por forçar uma saída do Pakhtakor Tashkent rumo ao Spartak Moscou, em imbróglio que durou três meses até a FIFA apoiar Kechinov. Que não escondia à imprensa em 1995 a sorte de suas partidas como uzbeque não serem registradas pela FIFA; pudera estrear pela Rússia ainda em 1994, embora já após a Copa, em 3 a 0 sobre San Marino em 11 de outubro. Foram doze partidas até um 1 a 1 com a Grécia em 18 de fevereiro de 1998, mas lesões e entreveros públicos com o técnico Oleg Romantsev o impediram de firmar-se, a ponto de em 2001 ele até declarar algum arrependimento, ciente das chances crescentes do Uzbequistão de ir a uma Copa naquela época: “Se fosse possível voltar no tempo, eu concordaria em mudar de cidadania”.

E houve gente na via inversa. Vladislav Lemish, presente na segunda partida da Rússia pós-URSS (2 a 0 sobre o México, em 16 de agosto de 1992), defendeu já em 1994 o Azerbaijão natal, em amistoso contra a Turquia. Ou quem fosse e voltasse: descendente de alemães, Vladimir Niederhaus (ou Nidergaus, em outras romanizações da grafia em cirílico) defendeu o Cazaquistão natal por quatro vezes (com um gol marcado) entre 1992 e 2000. Com os cazaques ainda fora da oficialidade, sua estadia entre 1992 e 1997 no Rotor Volgogrado foi reconhecida com duas partidas pela Rússia, já após a Copa de 1994: em 8 de julho, esteve em jogo não-oficial contra o Resto do Mundo (2 a 1) e em 17 de agosto foi derrotado por 3 a 0 pela Áustria. E só. Outro tadjique, Rashid Rakhimov acompanhou Mukhamadiev nos primórdios da seleção de sua terra. E daria ao Rusteam um depoimento similar ao justificar a troca pela Rússia, com vistas à Copa dos EUA:

“Esta é a minha própria decisão. O futebol tadjique agora está em decadência, e é improvável que eu termine de jogar antes de seu renascimento. Quanto tempo mais eu tenho? Três ou quatro anos… a seleção do Tadjiquistão durante este tempo não poderá realmente se classificar para a fase final da Copa do Mundo. E o sonho de jogar pela seleção da URSS nunca se tornará realidade. Portanto, todas as esperanças são apenas pela equipe russa. Minha atuação nos EUA, se acontecer, seria um réquiem para o time do Pamir [Dushanbe], que estava em pé de igualdade com os melhores do campeonato da URSS, aquele momento feliz em que jogamos juntos com russos, ucranianos, georgianos, armênios, lituanos, cazaques…”

Do dominante Spartak Moscou da nascente liga russa, Rakhimov estreou pela Rússia contra os próprios EUA, em 29 de janeiro de 1994 (1 a 1), mas, embora também aparecesse em um 0 a 0 contra a Irlanda ainda em 23 de março, não seria lembrado ao Mundial. Ele até acompanhou Niederhaus naqueles jogos contra o Resto do Mundo e a Áustria e fez então uma última partida em 3 de agosto de 1995, derrota de 2 a 1 para a Eslováquia. Em 1996, fora da Eurocopa e já com 31 anos, reapareceu por uma segunda e última vez pelo Tadjiquistão. Dez anos depois, admitiu: “é difícil para mim dizer a que país eu pertenço. Mesmo apesar do fato de eu ter a cidadania russa. Passei por tanta coisa: estagnação, perestroika, capitalismo selvagem russo e Europa próspera…”. 

Curiosamente, aquela partida contra a Áustria teve, além de Rakhimov, ainda Sergey Mandreko em sua única aparição pela Rússia após jogos ocasionais pela URSS entre 1990 e 1991… e igual presença de Nikiforov, Onopko, Ternavskiy, Tetradze, Tsymbalar, Niederhaus e de um russo de origem azeri, Ramiz Mamedov.

Por fim, também houve quem defendesse a Ucrânia e outra seleção pós-soviética que não a Rússia. Foi o caso do zagueiro Andriy Khomyn, titular em um punhado de amistosos entre 1993 e 1994 e então do jogo em 1995 contra a Itália em Kiev pelas eliminatórias à Eurocopa 1996. Em 1998, já estava no futebol do Turcomenistão quando ele e outros ucranianos foram aproveitados pela fraca seleção local. Sem que a FIFA intervisse, Khomyn disputou duas partidas e até marcou um gol, mas faleceu precocemente em acidente automobilístico já no ano seguinte

Karpin, Ledyakhov, Nikiforov, Salenko e Cherchesov; Korneyev, Ternavskiy, Khlestov, Tsymbalar, Tetradze e Onopko antes dos 6-1 que consagraram Salenko em 1994. Apenas ele e mais quatro (Ledyakhov, Khlestov, Korneyev e o osseta Cherchesov) nasceram dentro de território russo

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