Leste Europeu

Força dos tempos soviéticos, o Dinamo Minsk reconquista o título em Belarus após 19 anos

O Dinamo Minsk amargou frequentes vices durante a hegemonia do Bate Borisov, mas aproveita a alternância maior dos últimos anos para voltar ao topo após quase duas décadas

O Campeonato Belarusso por muito tempo foi dominado pelo Bate Borisov. A equipe sustentou a maior hegemonia da Europa durante seu auge, com 13 troféus consecutivos a partir de 2006. Desde 2018, o topo da tabela começou a variar. O Dinamo Brest foi o responsável por quebrar a dinastia, com um troféu inédito. Depois, o Shakhtyor Soligorsk emendou um tri, mas teve seu caneco de 2022 impugnado por um caso anterior de manipulação de resultados. Assim, o cenário para a temporada de 2023 parecia aberto. E a consagração veio para uma velha potência local, o Dinamo Minsk. Os alviazuis eram a força belarussa nos tempos soviéticos e conquistaram a própria Top League em 1982. O Dinamo seguiu como um bicho-papão após a independência, mas entrou em declínio e não levava a taça desde 2004. O hiato de 19 anos se encerrou neste domingo.

O Dinamo Minsk chegou ao seu oitavo título no Campeonato Belarusso, abaixo apenas dos 15 troféus do Bate Borisov. O clube da capital foi pentacampeão nas cinco primeiras edições da liga após o fim da União Soviética, enquanto chegou a enfrentar um jejum de sete anos até comemorar o caneco de 2004. De qualquer maneira, nada se compara com a seca recente. Durante os anos imbatíveis do Bate Borisov, o Dinamo chegou a amargar seis vices, contra também seis vices do Shakhtyor Soligorsk. E os últimos tempos nem indicavam tanto essa crescente, já que os alviazuis não ocupavam sequer a segunda colocação desde 2017.

A potência soviética

O Dinamo Minsk surgiu em 1927, dentro da estrutura esportiva da União Soviética. Como comum ao redor do país, os alviazuis estavam ligados ao Ministério do Interior, algo de praxe a todos os “Dinamo”. No entanto, nas repúblicas menores da URSS, as equipes mais importantes concentravam os investimentos locais e eram tratadas como uma espécie de seleção regional. Assim, a representatividade do Dinamo Minsk era enorme aos belarussos. A primeira aparição dos alviazuis na Top League aconteceu em 1940. A partir de então, o Dinamo totalizou 33 temporadas na primeira divisão, décimo clube com mais participações no campeonato – e, além das equipes russas e ucranianas, só abaixo do Dinamo Tbilisi. Mais do que isso, nenhum outro representante de Belarus alcançou a elite até o fim do torneio em 1991.

Ao longo dessa história, o Dinamo Minsk chegou quatro vezes ao pódio do Campeonato Soviético. Teve um período relevante entre os anos 1950 e 1960, duas vezes na terceira colocação. Já o ápice ocorreu no início da década de 1980. O título dos alviazuis em 1982 é o maior momento do futebol belarusso antes do fim da União Soviética. A grande estrela do Dinamo era o meio-campista Sergei Aleinikov, considerado o melhor jogador nascido em Belarus no século passado. Permaneceu quase uma década no clube, antes de se transferir à Juventus em 1989. Também seria uma figura importante na seleção soviética, presente em duas Copas do Mundo e em duas Euros. Sergei Borovsky, Aleksandr Prokopenko, Sergey Gotsmanov e Andrei Zygmantovich eram outros destaques daquele time que defenderam a seleção soviética nas competições internacionais. Já o técnico russo Eduard Malofeyev se projetou depois para uma breve passagem à frente da URSS nos anos 1980.

Aquele time do Dinamo Minsk ainda foi terceiro colocado na Top League de 1983. Também fez barulho nas competições continentais. Alcançou primeiro as quartas de final da Champions, eliminado pelo Dinamo Bucareste em 1983/84. Na sequência da década de 1980, a equipe foi quadrifinalista da Copa da Uefa e da Recopa Europeia, deixando pelo caminho adversários de peso como o Sporting e a Real Sociedad. No entanto, no final da década, o Dinamo perdeu forças – especialmente quando seus destaques puderam se transferir a clubes de outros países, como ocorreu com Aleinikov. Em 1990, na penúltima edição do Campeonato Soviético, os alviazuis beiraram o rebaixamento.

O recomeço em Belarus

Depois do fim da União Soviética, o Dinamo Minsk naturalmente se tornou o time a ser batido no recém-criado Campeonato Belarusso. As conquistas se sucediam e os alviazuis levaram seis das sete primeiras edições da liga. Todavia, num processo também comum a antigas repúblicas soviéticas, os times apadrinhados pela máquina estatal entraram em declínio com o passar dos anos. Tinham mais dificuldades para sustentar suas fortunas. Passaram a ser desafiados por forças em ascensão, tantas vezes com investimentos de magnatas ou de prefeituras. Assim, a alternância no Campeonato Belarusso se tornou grande a partir de 1998, com sete campeões diferentes em oito edições até 2005.

O Dinamo recuperou o troféu em 2004, o que era uma exceção. Logo se deu o reinado do Bate Borisov, com seus 13 troféus consecutivos. A hegemonia dos auriazuis se sustentou a partir de um trabalho de excelência nas categorias de base, garantido também pelo dinheiro das competições europeias que começou a entrar, com destaque na Champions. O Dinamo não perdeu seu status de clube da elite, mas nem sempre competia com os donos da liga. Ao menos, não despencou na tabela. A partir de 2005, foram sete vices alviazuis e 16 campanhas pelo menos entre os quatro primeiros. Somente três vezes ficaram abaixo do Top-4, com o ponto mais baixo na nona colocação de 2007 – mesmo assim, distantes dos riscos de rebaixamento.

O detalhe é que a seca se estendeu em diferentes âmbitos. O Dinamo Minsk nunca teve muito sucesso na Copa de Belarus. São somente três troféus na competição, o último deles em 2003, e só com um vice em 2013 desde então. Não que o Bate Borisov também arrasasse nesse certame, com apenas cinco troféus. Já nas competições continentais, o Dinamo Minsk teve um pouco mais de orgulho: participou duas vezes da fase de grupos da Liga Europa. Em 2014/15, teve o gosto de vencer a Fiorentina, mesmo sem se classificar aos mata-matas. Já em 2015/16, o Dinamo eliminou o Red Bull Salzburg na última etapa qualificatória e ainda derrotou o Viktoria Plzen na fase de grupos.

A campanha do título

A decadência recente do Bate Borisov abriu uma brecha para o Dinamo Minsk. Os alviazuis quase encerraram a hegemonia em 2017, ano do penúltimo troféu dos bichos-papões em sua sequência. As duas equipes terminaram com os mesmos 68 pontos, mas o Bate ficou com o caneco graças à vantagem no confronto direto. Já na última temporada, mesmo na quarta colocação, o Dinamo teve sua menor distância em relação aos campeões desde então. Foram apenas seis pontos abaixo do Shakhtyor Soligorsk, que depois teve o troféu cassado. Era um indicativo do que poderia acontecer na atual campanha.

O Campeonato Belarusso de 2023 terminou com punições pesadas aos casos de manipulação. O Shakhtyor teve 35 pontos deduzidos, o Energetik-BGU perdeu 23 pontos e o Belshinha Boburisk começou com menos 11. Outros concorrentes como o Bate Borisov e o Dinamo Brest também não estavam em suas melhores versões. Assim, o Dinamo Minsk sobrou. A equipe passou 26 das 27 rodadas realizadas até o momento na liderança. O Neman Grodno tentou perseguir, mas sem sucesso. Com seis pontos de vantagem, a festa pelo título alviazul aconteceu neste domingo, com a goleada por 4 a 0 sobre o Belshina.

Os números do Dinamo Minsk são impressionantes. O time conquistou 21 vitórias em 27 partidas, com só três derrotas. Anotou 71 gols e sofreu apenas 21, com sete vitórias com pelo menos quatro gols marcados – e duas delas com sete bolas nas redes. Já em casa, foram 11 triunfos em 13 compromissos, com o único revés exatamente diante do Bate Borisov. Mas, na quarta colocação, os antigos poderosos não foram uma ameaça real.

O técnico Vadim Skripchenko possui longa história no Campeonato Belarusso. Chegou a atuar pelo Dinamo nos anos 1990, embora tenha sido também assistente do Bate em parte da hegemonia. Esse é seu primeiro troféu como treinador principal. Em campo, o zagueiro Sergey Politevich é o capitão e um nome importante da seleção de Belarus. Também se destacam Vladislav Morozov e Dusan Bakic, respectivamente artilheiro e líder em assistências na campanha. Já o lateral Orinho, com passagens por Santos e Fluminense na Série A, é o representante brasileiro e um dos raros estrangeiros. Honra a história do Brasil no futebol de Belarus, com Renan Bressan entre os grandes ídolos da liga no passado e até convocado à seleção.

A conquista do Dinamo Minsk recoloca o time na Champions League depois de 19 anos. Estará nas preliminares da reformulada edição de 2024/25. Após o fim da União Soviética, os alviazuis participaram três vezes do torneio e não conseguiram uma classificação sequer nas fases qualificatórias. É ver se esse renascimento inspira o clube a algo a mais, quem sabe para resgatar seu passado imponente dos anos 1980. Atualmente os atalhos são maiores em busca de um lugar na Conference League, quem sabe para também voltar a uma fase de grupos continental após nove anos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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