Europa

Há 40 anos, Dinamo Tbilisi levantava Recopa Europeia com uma das gerações mais talentosas do futebol soviético

Uma das bases da seleção soviética no início dos anos 1980, o Dinamo apresentava um jogo vistoso e passou por adversários de peso até bater o Carl Zeiss Jena na final

Se apesar de sua força o futebol soviético levantou poucos títulos em competições europeias de clubes, a conquista da Recopa de 1981 pelo Dinamo Tbilisi foi sem dúvida um desses pontos altos. Completando exatos 40 anos nesta quinta-feira, a vitória por 2 a 1 de virada diante do Carl Zeiss Jena (outra equipe do bloco socialista) na final disputada em Düsseldorf, na Alemanha Ocidental, eternizou uma excelente safra de talentos que juntava doses generosas de habilidade à disciplina tática tradicional do futebol do país. Era a coroação de um grande esquadrão em plena era de ouro de conquistas da equipe mais representativa da Geórgia.

Os “brasileiros” da União Soviética

Quarto colocado no ranking histórico de pontos do campeonato soviético (atrás apenas da dupla moscovita Spartak e Dynamo e do Dynamo Kiev), o Dinamo Tbilisi é um dos poucos clubes que nunca foram rebaixados no certame do antigo país. Além de ter revelado desde os anos 1930 muitos nomes lendários do futebol da União Soviética, tornou-se bandeira de um estilo de futebol próprio de sua região, baseado na técnica, na habilidade individual e no improviso, rendendo comparações ao jogo sul-americano, em especial ao brasileiro.

Embora tenha se estabelecido como a principal força da república do Cáucaso, durante muito tempo teve de se contentar em assistir ao título tomar o rumo de Moscou ou Kiev. Em suas 51 participações na elite, terminou cinco vezes como vice e nada menos que 13 vezes em terceiro lugar. Até sua primeira conquista, em 1964, era conhecido no país como o “campeão sem coroa”, o que impedia maior consagração a gigantes do futebol local como os atacantes Boris Paichadze (apelidado o “Caruso do futebol”) e Avtandil “Basa” Gogoberidze.

Chivadze, Gutsaev e Kipiani

Treinado por Gavriil Kachalin, técnico da seleção em três Mundiais, o time de 1964 pôs fim a essa histórica seca conduzido pelo talento de Slava Metreveli e Mikheil Meskhi. Após as 32 rodadas regulares, o Dinamo terminou com os mesmos 46 pontos do Torpedo Moscou, sendo necessário um jogo extra em Tashkent (Uzbequistão). Nele, os georgianos levaram a taça ao golearem por 4 a 1 na prorrogação. Pelos anos seguintes, o clube ainda revelaria nomes de seleção como Murtaz Khurtsilava, Kakhi Asatiani, Revaz Dzodzuashvili e os irmãos Levan e Givi Nodia.

O título de 1964, no entanto, não significou a classificação para a Copa dos Campeões: na época, o país mandava apenas o vencedor da copa nacional para representa-lo na Recopa. Só no ano seguinte é que o detentor da liga passaria a disputar o principal torneio de clubes do continente. Outro detalhe é que, como o calendário soviético era anual (e não de agosto a maio como na maioria dos países europeus), os representantes do país tinham que esperar vários meses (até o segundo semestre do ano seguinte) para enfim entrar nas copas continentais.

Com isso, a estreia internacional só viria na década seguinte. Os dois terceiros lugares seguidos nas edições de 1971 e 1972 do campeonato soviético levaram o clube a disputar a Copa da Uefa em 1972/73 e 1973/74. Mas o auge teria início em 1976, ano particularmente emblemático por abarcar três movimentos decisivos para o pontapé inicial da chamada “era de ouro” do Dinamo no âmbito nacional e também continental, com sete participações seguidas nas copas europeias, entre 1976/77 e 1982/83, colhendo vitórias históricas.

O surgimento de uma potência

Um desses momentos decisivos foi a inauguração, em setembro de 1976, do imponente Estádio Lenin Dinamo (hoje rebatizado Boris Paichadze, em homenagem ao velho ídolo), com capacidade superior a 70 mil lugares. Outro foi a promoção de Nodar Akhalkatsi, jovem técnico (38 anos) das categorias de base, para o comando do time principal após a saída do veterano Mikhail Yakushin, 66 anos, ex-treinador do Dínamo de Moscou e da seleção soviética. A mudança arejou conceitos de futebol ofensivo praticados pela equipe e resultou em títulos.

O primeiro deles veio também naquele ano: a conquista inédita da Copa da União Soviética. Após deixar pelo caminho Metalurh Zaporizhya, Zenit Leningrado, Karpaty Lviv e Shakhtar Donetsk, a equipe de Akhalkatsi derrotou com facilidade o Ararat Yerevan por 3 a 0 na decisão disputada no Estádio Central Lenin, em Moscou. O triunfo também era histórico por encerrar uma tradição de derrotas na final do torneio, com cinco vice-campeonatos – todos eles diante de clubes da capital – acumulados desde a primeira edição, em 1936, até a de 1970.

Chivadze com a taça

No ano seguinte, a equipe chegou ao vice-campeonato soviético, atrás apenas de um Dynamo Kiev muito dominante, que só perdeu um jogo e teve, disparado, o ataque mais positivo e a defesa menos vazada (só sofreu 12 gols em seus 30 jogos). E em setembro o Dinamo Tbilisi arrancaria um excelente resultado ao despachar a Inter de Milão de Giacinto Facchetti, Gabriele Oriali e Alessandro Altobelli logo na primeira rodada da Copa da Uefa com uma surpreendente vitória no San Siro por 1 a 0 seguida por um empate sem gols na Geórgia.

Já em 1978, as posições se inverteram: os georgianos levantariam o segundo título de sua história, superando os ucranianos por quatro pontos e somando 17 vitórias, oito empates e cinco derrotas, além de liderarem praticamente de ponta a ponta a competição durante toda a temporada. E também em setembro derrubariam mais um italiano na etapa inicial da Copa da Uefa, desta vez o Napoli. Após se impor em Tbilisi com um convincente 2 a 0, o Dinamo chegou a abrir a contagem no San Paolo, antes de Giuseppe Savoldi empatar de pênalti.

Mas o resultado que teve maior repercussão naquele fim dos anos 1970 aconteceria na Copa dos Campeões de 1979/80, para a qual o clube se classificou através do título soviético de 1978. De novo na primeira fase, o time enfrentaria o poderoso Liverpool, dirigido por Bob Paisley e liderado em campo pela dupla escocesa Graeme Souness e Kenny Dalglish. Depois de se sagrar bicampeão europeu em 1977 e 1978 e ver o Nottingham Forest ameaçar sua hegemonia, o Red Army estava disposto a recuperá-la. Mas o Dinamo tinha outros planos.

Em Anfield, o time da casa conseguiu vencer por 2 a 1, num jogo com todos os tentos anotados no primeiro tempo. Mas ainda assim parecia um resultado um tanto apertado para ser defendido na Geórgia, especialmente pelo gol sofrido como mandante. Mas ninguém na Europa imaginava o que aconteceria na partida de volta. O Liverpool segurou o 0 a 0 até os nove minutos da etapa final, quando Vladimir Gutsaev escorou cruzamento da direita para abrir o placar. Aos 29, uma arrancada sensacional de Giorgi Chilaya terminou no gol de Ramaz Shengelia.

Com 2 a 0 contra, os Reds ainda buscariam descontar o placar e levar o jogo para a prorrogação, mas quem marcou foi o Dinamo, de pênalti, com o líbero Aleksandr Chivadze aos 35 minutos. Era o gol que selava a vitória categórica por 3 a 0 e a classificação dos soviéticos. Um resultado que levaria um resignado Bob Paisley a admitir que seu time havia sido inteiramente superado na partida. O Dinamo seria eliminado na etapa seguinte pelo Hamburgo de Kevin Keegan, futuro finalista. Mas mostrava ser uma equipe para se ficar de olho.

Antes do início daquela campanha europeia, o Dinamo já havia garantido sua presença na Recopa de 1980/81 ao conquistar pela segunda vez a Copa da União Soviética. Levantado novamente no Estádio Central Lenin, o título veio nos pênaltis diante de seu homônimo moscovita após empate sem gols no tempo normal, em agosto de 1979. Seria o passaporte para a grande glória do clube no âmbito europeu e uma das maiores do futebol soviético. E que viria a coroar uma excelente geração de talentos locais reunida pelo clube, uma de suas melhores da história.

Unidos pela qualidade técnica comum a todos, um sexteto de muito talento ponteava a equipe. Havia a classe do líbero Aleksandr Chivadze, que gostava de se projetar ao ataque; a versatilidade de Tengiz Sulakvelidze, que atuava com igual desenvoltura na lateral-direita ou no meio-campo; o dinamismo e o ímpeto do armador Vitaly Daraselia; a elegância e a visão de jogo do ponta-de-lança David Kipiani; e a velocidade e o drible dos atacantes Vladimir Gutsaev e Ramaz Shengelia. Todos eles nomes frequentes na forte seleção soviética de então.

A Recopa daquela temporada

Embora uma competição sempre propensa às surpresas, a Recopa tinha alguns favoritos claros naquela edição. O Valencia, atual campeão, lutaria pelo bi mantendo seu astro argentino Mario Kempes e contratando o uruguaio Fernando Morena para se juntar a uma base que incluía nomes de seleção espanhola como o zagueiro Miguel Tendillo e o meia Enrique Saura. Outro clube que despontava como candidato sério à taça era a Roma, que vira sua crescente competitividade dar um salto ainda maior com a chegada do brasileiro Falcão.

Antigos campeões europeus, Benfica, Celtic e Feyenoord também apareciam no rol de possíveis vencedores, assim como o bom time do Monaco. A Alemanha Ocidental entrava com o Fortuna Düsseldorf disposto a provar que sua chegada à final do mesmo torneio dois anos antes (perdida apenas na prorrogação para o Barcelona) não tinha sido uma irrepetível obra do acaso. Corriam por fora nomes tradicionais em seus países, como o Malmö (vice da Copa dos Campeões há duas temporadas), o Dínamo de Zagreb, o Sparta Praga e o Legia Varsóvia.

Representante inglês ao conquistar a FA Cup, o West Ham disputaria o torneio mesmo estando na segunda divisão nacional. Curiosamente, era o único participante além do Valencia a já ter levantado a Recopa, em 1965. Mas o que despertava curiosidade ainda maior era a participação de outra equipe que disputava divisão inferior em seu país: o Castilla, clube filial do Real Madrid e indicado para o torneio após ter sido vice-campeão da Copa do Rei, numa temporada em que os merengues haviam feito a dobradinha nacional.

Gutsaev e Kipiani com a taça

O Dinamo Tbilisi teria pela frente na primeira fase um adversário bem menos pesado do que todos os citados: era o pequeno Kastoria, primeiro clube “do interior” da Grécia a vencer a copa nacional, goleando o Iraklis por 5 a 2 numa final surpreendente, a única de sua história. E que deu trabalho no primeiro confronto da Recopa, disputado no Estádio Kaftanzoglio, em Salônica. O empate em 0 a 0 persistiu até o fim. E persistiria na primeira etapa do jogo de volta, em Tbilisi, mas Shengelia e Gutsaev dariam a vitória ao Dinamo por 2 a 0 no segundo tempo.

Aquela primeira fase já deixou nomes bem cotados pelo caminho: O Celtic caiu nos gols fora de casa diante do romeno Politechnica Timisoara. O Valencia superou o Monaco. O Benfica passou pelo Dinamo de Zagreb. O Legia Varsóvia caiu diante do búlgaro Slavia Sofia. O West Ham levou a melhor no inusitado duelo com o Castilla com direito a goleada na prorrogação, mesmo jogando com portões fechados em Upton Park. Mas a surpresa foi a queda da Roma para o Carl Zeiss Jena, com os alemães-orientais revertendo um 3 a 0 na Itália com um 4 a 0 em casa.

As oitavas de final reservariam outro adversário fácil ao Dinamo Tbilisi, o irlandês Waterford, que havia passado pelo Hibernians de Malta na etapa anterior. Nele, o nome mais conhecido era o veterano meio-campo Tommy Jackson, ex-Everton, Nottingham Forest e Manchester United, que acumulava funções de jogador e técnico. Muito pouco para encarar os soviéticos, que venceram ambas as partidas. Na Irlanda, vitória por 1 a 0 com gol de Shengelia. Já na partida de volta, uma tranquila goleada por 4 a 0 confirmou a passagem às quartas.

A hora dos grandes confrontos

Com o torneio afunilando, a surpresa das oitavas foi de novo protagonizada pelo Carl Zeiss Jena, derrubando o Valencia com um 3 a 1 na Alemanha Oriental e segurando uma derrota pelo placar mínimo na Espanha. Nas quartas, a equipe teria pela frente um oponente de menor peso, o galês Newport County. Já o Dinamo Tbilisi pegaria o West Ham, que mesclava a experiência do capitão Billy Bonds, do lateral Frank Lampard (o pai do futuro ídolo do Chelsea) e do maestro do meio-campo Trevor Brooking à juventude do zagueiro Alvin Martin e do ponta Paul Allen, de apenas 18 anos.

Seria a partir desta fase, disputada em março de 1981 (e, portanto, já dentro da temporada anual de 1981 do futebol soviético), que o Dinamo estabilizaria a formação que se consagraria como a titular na conquista. Sob as traves, o bom goleiro Otar Gabelia, com passagem pela seleção soviética. A defesa era liderada pelo líbero e capitão Aleksandr Chivadze posicionado atrás de uma linha de três jogadores composta por Tamaz Kostava pelo lado direito, Giorgi Tavadze pelo lado esquerdo e Nodar Khizanishvili pelo centro.

O meio-campo também tinha sua linha de três: Zaur Svanadze atuava pelo lado direito com Tengiz Sulakvelidze ao centro e Vitaly Daraselia mais à esquerda. Mais adiante, no ataque, a terceira linha de três sofria uma alteração: o homem de centro era recuado, posicionando-se atrás da dupla de frente. David Kipiani, cérebro da equipe, municiava Vladimir Gutsaev e Ramaz Shengelia, pontas que também sabiam finalizar. Kipiani, porém, não se prendia a aquele setor e podia ser visto por todo o campo, inclusive buscando a bola desde a defesa para criar jogadas.

Dinamo Tbilisi na Copa de 82

Apesar da estrutura aparentemente rígida, o futebol apresentado pela equipe era muito fluente. Como um atarantado West Ham poderia testemunhar nos 4 a 1 da partida de ida das quartas de final em Upton Park, na noite de 4 de março de 1981. Os londrinos, com seu jogo direto de lançamentos longos buscando as pontas, até pressionaram na primeira metade da etapa inicial, empurrados por sua torcida. Mas o Dinamo se mostrou muito resiliente e aos poucos foi se preparando para contragolpear. E aos 24 minutos, enfim mostraria a que veio.

Quando a retaguarda do Dinamo afastou mais um cruzamento para a área e, com três passes, iniciou o contra-ataque, Chivadze ultrapassou a linha divisória, arrancou com bola dominada e, da intermediária, disparou um petardo indefensável para o goleiro Phil Parkes. Aquele gol não chegou a desanimar a torcida e o time do West Ham, que seguiu pressionando em busca do empate. Mas aos 31, quando Ray Stewart se atrapalhou para afastar um chutão vindo da defesa soviética e Gutsaev aproveitou para marcar o segundo, veio o abalo.

O West Ham até conseguiu diminuir no início do segundo tempo, após um escanteio, numa bola que Gabelia se atrapalhou e não conseguiu segurar. Mas os londrinos sequer tiveram tempo de ensaiar a reação. Pouco depois da saída de bola, Shengelia apareceu no meio da defesa inglesa, servindo Svanadze com um passe por elevação. O meia dominou no peito e chutou na trave, mas o mesmo Shengelia pegou o rebote para ampliar. E os 22 minutos, um lançamento primoroso de Kipiani encontrou de novo Shengelia, que arrancou para anotar o quarto gol.

Além da técnica individual dos jogadores e das envolventes trocas de passes, chamava a atenção no Dinamo a facilidade de alterar o ritmo da partida, aumentando ou diminuindo sua velocidade conforme a necessidade. Era ainda um time letal nas finalizações, fosse dominando as ações ou contra-atacando. Como observou Craig McCracken num artigo relembrando a partida para o Guardian, a equipe combinava o estilo veloz e de toques rápidos dos times russos e ucranianos com o jogo baseado na habilidade e inspiração típico de georgianos e armênios.

Para o jogo da volta nem foi preciso tanto, dada a enorme vantagem obtida em Londres. O placar em branco persistiu até os minutos finais, quando o West Ham marcou pela única vez com Stuart Pearson e garantiu o triunfo por 1 a 0. Nada que ameaçasse a classificação do Dinamo, que teria outro confronto de peso nas semifinais diante do Feyenoord, vindo de eliminar com goleada um bom time do Slavia Sofia. Na outra “perna”, o Benfica despachara o Fortuna Düsseldorf e pegaria o Carl Zeiss Jena, que levou sufoco do Newport e contou com a sorte, mas chegou às semifinais.

Treinado pelo tcheco Václav Ježek, que levou a seleção de seu país ao surpreendente título da Eurocopa em 1976, o Feyenoord teria o desfalque do volante Jan Peters, da Oranje, na primeira partida, mas contava com alguns bons nomes, como o jovem goleiro Joop Hiele, o lateral-direito Ben Wijnstekers (também da Laranja), o zagueiro dinamarquês Ivan Nielsen, o meia René Notten, o atacante islandês Petur Petursson e o goleador Pierre Vermeulen. Entretanto, seria totalmente dominado e cairia por um placar elástico de 3 a 0 em Tbilisi.

Dinamo Tbilisi x Feyenoord – 1981

Atacando desde o pontapé inicial, os soviéticos foram parados algumas vezes pela bem executada linha de impedimento holandesa. Mas quando descobriram o mapa da mina pelo lado direito de seu ataque, com Kostava se juntando ao apoio, as chances começaram a aparecer. E o placar foi aberto logo aos 23 minutos quando um cruzamento de Gutsaev vindo daquele flanco encontrou Sulakvelidze sozinho no meio da área. O meia grandalhão nem precisou saltar muito antes de cabecear para o chão, pegando o goleiro Hiele no contrapé.

O Dinamo poderia ter ampliado quando Shengelia recebeu lançamento e deu um leve toque de cobertura na saída do goleiro, mas um defensor correu e salvou em cima da linha. O segundo gol, porém, viria de qualquer maneira. E acabou saindo após a falha bisonha de um defensor que se atrapalhou na hora de cortar um lançamento de Kipiani. Svanadze agradeceu o presente e cruzou para Gutsaev enviar às redes. O Dinamo seguia para o intervalo com uma confortável vantagem – e que poderia ter sido ainda maior, em virtude de seu domínio.

E ela seria logo ampliada na etapa final com um gol brilhante de Sulakvelidze, que recebeu de Kipiani na intermediária e entrou costurando pela defesa do Feyenoord antes de tocar na saída de Hiele. Se não fosse seu jovem arqueiro, aliás, a equipe de Roterdã poderia ter sofrido placar mais dilatado: ele deteve uma bela finalização de Chivadze e um chutaço de Daraselia, ambos de fora da área, além de sair aos pés de Shengelia numa jogada em que o atacante aproveitou um cochilo da defesa para arrancar sozinho até a área.

Na volta, no De Kuip, o Dinamo teve logo de saída um gol de Shengelia absurdamente anulado por impedimento inexistente. Para piorar, pouco antes do intervalo sofreu um gol de Karel Bouwens num escanteio, em uma saída em falso de Gabelia. E aos 11 da etapa final, René Notten cavou e converteu um pênalti para deixar o Feyenoord próximo do empate no agregado. O Dinamo ainda teria outros dois gols anulados por impedimento em lances duvidosos e reclamaria de dois pênaltis não marcados, mas superaria a pressão e avançaria à final com a derrota por 2 a 0.

Na outra semifinal, o Carl Zeiss Jena escreveria uma história semelhante para chegar à decisão: venceria outro gigante da Europa Ocidental, o Benfica, por 2 a 0 em casa na primeira partida com gols logo no início do jogo. Mas na volta sofreria um gol do atacante Reinaldo na etapa final e teria de suportar – e superar – a pressão dos lisboetas. Com isso, a Recopa assistiria a sua segunda final entre países do bloco socialista, depois da de 1975 em que o Dynamo Kiev, inspirado por Oleg Blokhin, derrotou o Ferencváros por 3 a 0 na Basileia.

Além de três veteranos da Alemanha Oriental da Copa de 1974 (o líbero Rüdiger Schnuphase, o zagueiro e capitão Lothar Kurbjuweit e o atacante Eberhard Vogel), o Carl Zeiss ainda contava com o experiente goleiro Hans-Ulrich Grapenthin (campeão olímpico com a seleção em Montreal, em 1976) e nomes mais jovens que também vinham sendo chamados, como o lateral Gert Brauer, os meias Andreas Krause e Lutz Lindemann e os atacantes Andreas Bielau e Jürgen Raab. E chegava com a credencial de ter eliminado Roma, Valencia e Benfica.

A decisão

Disputada em 13 de maio de 1981 no Rheinstadion, em Düsseldorf, a final teve público pequeno: oficialmente, apenas 4.750 pessoas. E os primeiros 45 minutos de bola rolando deixaram bem nítida a diferença de estilo entre as equipes. Fisicamente mais forte, o Carl Zeiss Jena se fechava em bloco esperando o adversário em seu próprio campo para sair em contra-ataques sempre por meio da bola longa, buscando as pontas. Já o Dinamo fazia jus à reputação dos georgianos: mais técnico, baseava seu jogo na troca de passes e não raro recorria a jogadas de efeito.

O Dinamo também evitava recorrer às esticadas: Kipiani e Sulakvelidze eram dos poucos a tentarem lançamentos, e ainda assim muito conscientes, sem simplesmente rifar a bola. Até nos escanteios os georgianos evitavam alçar a bola à área, preferindo as cobranças curtas e as aproximações. Se a estratégia alemã-oriental fez com que a defesa soviética passasse algum desconforto na primeira metade da etapa inicial, na segunda o Dinamo colocou de vez a bola no chão e passou a ocupar o campo do Carl Zeiss e controlar as ações.

Nessa fase, a equipe de Nodar Akhalkatsi criou suas duas melhores chances do primeiro tempo. Uma delas, ironicamente, numa bola levantada na área em cobrança de falta pela ponta direita que Chivadze cabeceou para o chão e obrigou Grapenthin a fazer ótima defesa. A outra, também após um tiro livre, veio num excelente chute de Daraselia de fora da área. No entanto, apesar de movimentado, o jogo seguiu para o intervalo com o placar em branco. E na etapa final, logo na saída de bola, quem começou assustando foi o Carl Zeiss Jena.

O ponteiro Andreas Bielau desceu pela direita e cruzou para Jürgen Raab emendar de peixinho na pequena área, mas sua cabeçada quicou no gramado e subiu além da meta. O Dinamo tentou responder, mas os alemães-orientais voltaram a ameaçar antes dos cinco minutos numa jogada individual do capitão Lothar Kurbjuweit, que iludiu três marcadores e chutou forte para defesa de Gabelia. A primeira chance do Dinamo veio aos dez, com Gutsaev driblando dois defensores antes de ter sua finalização desviada para escanteio.

Gutsaev marca na final

O Carl Zeiss Jena acabou abrindo o placar aos 18, num contra-ataque: após uma troca de passes que começou com uma bela ajeitada de Vogel com o peito, Raab desceu pelo lado esquerdo da área e centrou da linha de fundo. Nem Chivadze, nem Khizanishvili conseguiram cortar, e a bola sobrou para Gerhard Hoppe bater com estilo, sem chances para Gabelia. Em desvantagem, o Dinamo voltou a ocupar em bloco o campo do adversário e ainda concederia dois contra-ataques perigosos ao adversário, mas não demoraria a empataria a partida.

Aos 22 minutos, Shengelia fez linda jogada individual puxando um ataque pelo meio e passando por dois defensores antes de abrir na direita para Gutsaev, que disparou um chute forte, rasteiro e cruzado, que passou entre Grapenthin e a trave. Logo em seguida veio a primeira alteração no Dinamo: Svanadze deixou o campo substituído pelo meia Nugzar Kakilashvili, jogador mais agudo para atuar no mesmo lado direito. Com o desfecho imprevisível após o merecido empate dos soviéticos, o jogo se tornou mais franco nos 15 minutos finais.

O Dinamo teve ótima chance em jogada de Gutsaev pelo lado esquerdo que terminou num chute forte de Kakilashvili passando ao lado da meta. O Carl Zeiss respondeu com uma finalização de longa distância de Vogel, bem defendida por Gabelia. E, nesse lá-e-cá, a quatro minutos do fim os soviéticos chegariam à vitória por 2 a 1, num gol de pura arte. Daraselia recebeu passe de Kipiani na intermediária pelo lado esquerdo, arrancou rumo à área e entortou dois defensores, antes de chutar forte, quase à queima-roupa, sem chance para Grapenthin.

Era um desfecho de campanha perfeito para sublinhar a qualidade técnica daquela equipe. Ainda que nos minutos finais o Dinamo já se permitisse até alguns chutões na defesa para rechaçar a pressão alemã-oriental, o time poderia ter até ampliado a contagem. Houve a maravilhosa jogada de Shengelia arrancando num contra-ataque pela direita, mas encerrada com um passe curto demais do atacante ao entrar na área. E houve ainda um petardo de Chivadze em cobrança de falta. Mas na conquista já estava encaminhada. E foi merecida.

Na temporada seguinte o Dinamo chegaria perto do bi na Recopa. Nas primeiras fases superaria os austríacos do Grazer AK, o Bastia e o Legia Varsóvia, antes de cair na semifinal para o Standard de Liège com duas derrotas por 1 a 0. Em parte, por falta de pernas: entre as duas partidas decisivas, vários jogadores da equipe tiveram de viajar à Argentina onde a seleção soviética enfrentaria a Albiceleste num amistoso. Em junho, quatro jogadores do time (Chivadze, Sulakvelidze, Daraselia e Shengelia) figurariam na forte equipe nacional no Mundial da Espanha.

Ausência sentida, Kipiani ficou de fora após fraturar a perna em abril numa partida contra o Kuban Krasnodar. Seria a lesão que encerraria sua carreira aos 30 anos de idade. Como se não bastasse, aquele ano de 1982 se encerraria com outra tragédia envolvendo um atleta do clube: o acidente automobilístico que mataria aos 25 anos o meia Vitaly Daraselia, autor do gol do título da Recopa. O abalo foi imediato: presença certa entre os quatro primeiros da liga soviética desde 1976, o Dinamo despencaria para o 16º lugar em 1983, logo acima da zona de descenso.

Pelo resto da década, o time viveria numa espécie de limbo, do qual só sairia rapidamente com a participação na Copa da Uefa de 1987/88, fruto de um quinto lugar na liga em 1986. Mas nada que se comparasse a seu período glorioso anterior. O clube também perdeu espaço na seleção e as novas gerações não vingaram. Sua última participação no campeonato soviético terminaria num discreto 11º lugar em 1989. No ano seguinte, a federação da Geórgia se estabeleceria como independente da União Soviética, transferindo o Dinamo para outra realidade.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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