Itália

Obrigado, lenda: 10 razões que tornam Buffon um personagem ímpar na história do futebol

Buffon se aposenta aos 45 anos, depois de uma reta final de carreira dedicada ao amor pelo futebol e que engrandeceu um dos maiores goleiros da história

Quando se pensa nos atributos primordiais que um goleiro deveria ter, o primeiro nome a vir à mente costuma ser o de Gianluigi Buffon. O italiano elevou o patamar técnico da posição e pode ser considerado o mais completo da história na missão de proteger sua meta. “Excelência” é uma palavra inerente à trajetória de Gigi. E ser um arqueiro excelente por quase três décadas é um feito incomparável do veterano. É absurdo pensar que Buffon manteve um nível tão alto, de maneira tão regular, por tanto tempo. Só não é irreal porque somos todos testemunhas oculares, agraciados com a chance de ver uma lenda por anos a fio. Até que a merecida aposentadoria viesse, aos 45 anos. Gigi não precisava provar mais nada a ninguém, mas ainda assim estendeu sua carreira um pouco mais, por amor ao futebol. Nesta quarta, confirmou que pendurou as luvas.

A posição de goleiro contou com diversas revoluções ao longo das décadas. Alguns dos goleiros mais lendários são, inescapavelmente, revolucionários. Lev Yashin simbolizou a conquista da “terceira dimensão”, do goleiro que passou a dominar a área, sem se limitar sob os paus. Manuel Neuer, por sua vez, explorou uma nova fronteira com sua missão além da área. Buffon não chegou a virar parâmetro pelo jogo com os pés, como tão exigido no futebol atual. Sua revolução esteve em fazer todo e qualquer goleiro olhá-lo como destino. Não dava para ser tão bom sem pensar nos atributos de Gigi. O italiano é uma pedra angular da posição. É régua. Um craque que só não vestiu a camisa 10 porque o número 1 lhe caía tão bem.

Buffon compartilhou com outros gigantes a discussão sobre quem é o melhor de seu tempo. E o italiano atravessou diferentes eras, graças à sua forma impecável, da adolescência à maturidade. Se de início o garoto dialogava com figuras como Peter Schmeichel e Oliver Kahn, o final da trajetória guardou comparações com Thibaut Courtois e Gianluigi Donnarumma. Talvez Neuer seja mesmo o contemporâneo com quem Buffon possua uma maior disputa sobre o lugar na história do futebol. Iker Casillas, Petr Cech e Edwin van der Sar foram seus concorrentes íntimos também pelos prêmios de melhor goleiro durante anos. Isso sem contar outros gigantes do período que tiveram picos mais curtos. Fato é que não existe debate sem a presença de Gigi.

Buffon tinha um dom para jogar como goleiro. E isso não se nega, para quem despontou logo na adolescência, para fazer milagres contra um poderoso Milan em plena estreia. Gigi combinava múltiplas virtudes. Seu grande mérito, contudo, não está apenas nesse talento inato – pelo contrário, é a maneira como ele trabalhou para evoluir sua capacidade. Se os goleiros são aqueles que mais costumam ralar nos treinamentos, Gigi também foi parâmetro nisso. Sua dedicação por 28 anos como profissional é ímpar.

E nada disso seria possível sem a paixão de Buffon pelo futebol. O goleiro deu inúmeras provas de que é um doente pela bola. Isso levou, inclusive, a postergar o fim de sua carreira o máximo possível. Sorte a nossa, que pudemos acompanhá-lo um pouco mais. O adeus ao Parma, mesmo sem conseguir o acesso aguardado depois de duas temporadas na Serie B, é uma declaração desse amor. “Isso é tudo, pessoal! Vocês me deram tudo. Eu dei tudo a vocês. Nós fizemos isso juntos”, declarou o camisa 1, na confirmação de sua aposentadoria. Suscinto, mas não precisava dizer mais nada. A história fala por si.

Em forma de homenagem, abaixo preparamos um texto com dez motivos que fazem de Buffon um dos maiores goleiros da história.

(Ap Photo/Vincenzo Lombardi)

– A precocidade como um fenômeno

O esporte faz parte da vida de Buffon desde que o italiano se conhece por gente. Sua mãe foi campeã nacional no arremesso de peso, enquanto suas irmãs jogaram vôlei profissionalmente. Entre tios e primos, há mesmo um ex-goleiro da seleção, Lorenzo Buffon, nome importante de Milan e Internazionale, bem como presente na Copa de 1962 com a seleção da Itália. Gigi teve ótimas influências e foi arrebatado pela Copa do Mundo realizada na própria Itália, em 1990. Foi quando se apaixonou pela posição de goleiro e tomou Thomas N'Kono, paredão na campanha surpreendente de Camarões, como seu ídolo.

A carreira de Buffon nas categorias de base começou meses depois, em 1991, quando se juntou ao Parma. Entretanto, o garoto de 13 anos não era goleiro de início: atuava em diferentes posições na linha, especialmente como meio-campista e líbero. Até que o destino armou das suas, quando outros goleiros da base gialloblù se lesionaram. Gigi foi escolhido para atuar sob os paus porque tinha boa estatura e atributos favoráveis à posição. Foi quando se confirmou o fenômeno, que decolou nas equipes juvenis do clube.

“Como todas as crianças, eu não comecei a jogar como goleiro. Eu gostava de marcar gols. No fim das contas, tudo se resume a isso. Então, a partir dos seis ou sete anos, eu joguei como meio-campista, até como líbero. E, para ser honesto, gostava muito. Mas parece que o destino fez eu me tornar goleiro. Meu pai sugeriu que eu mudasse e tentasse jogar no gol. Eu sempre gostei de estar no coração das ações, tentando experimentar diferentes situações e desafios. Por um ano, eu decidi tentar jogar no gol, depois disso eu voltaria para a linha. Eu penso que em cinco ou seis meses eu me tornei um goleiro muito bom e tinha talento”, contou Buffon, em entrevista ao site da Uefa, em 2015.

Buffon integrou o elenco principal do Parma pela primeira vez na pré-temporada de 1995/96, quando tinha 17 anos. Uma lesão sofrida pelo titular da posição, Luca Bucci, abriu espaço para a promessa. O técnico Nevio Scala logo percebeu um extraclasse à sua frente, pelas coisas extraordinárias que o novato fazia durante os treinos. Sua estreia aconteceu em 19 de novembro de 1995, num famoso duelo contra o poderoso Milan, recente tricampeão nacional e também vencedor da Champions em 1993/94. Gigi arrebentou no empate por 0 a 0, colecionando milagres contra uma linha de ataque que reunia George Weah (prestes a levar a Bola de Ouro) e Roberto Baggio. O início da história do camisa 1 era desde já impressionante.

“Buffon fez uma partida extraordinária, mas não comemorou. Mesmo depois do jogo, ele agradeceu ao técnico e ao clube pela confiança depositada. Isso foi sua força. Era como se ele tivesse feito a coisa mais normal no mundo. Talvez como se ele não tivesse percebido o que tinha feito. Ele tinha grandes qualidades técnicas, mas, acima disso, uma incrível força interna”, relembrou o técnico Nevio Scala, em entrevista ao Goal.com. O novato ainda não se tornou goleiro titular de imediato, com alguns problemas de indisciplina, mas estava claro como sua ascensão era apenas uma questão de tempo. Depois de alguns meses de aprimoramento, virou o dono da meta gialloblù.

A titularidade de Buffon veio na temporada 1996/97, quando o Parma alcançou um honroso vice-campeonato na Serie A. Seria um ano de transformação para o jovem, também em âmbito internacional. Gigi tinha um longo histórico nas seleções de base desde 1993, com direito a vices no Europeu Sub-16 e no Europeu Sub-19. Já em 1996, o camisa 1 conquistou o Europeu Sub-21 e também esteve presente nos Jogos Olímpicos. Seu alto nível na Serie A o levou a estrear pela seleção adulta em outubro de 1997. Foi logo decisivo nas Eliminatórias para a Copa de 1998, com grande atuação na repescagem diante da Rússia, mesmo num gramado destruído pela neve.

Reserva na Copa do Mundo de 1998, Buffon se firmava entre os melhores goleiros do mundo com apenas 20 anos. Sorte do Parma, que aproveitava o talento de seu prodígio em tempos muito competitivos. A temporada de 1998/99 foi bastante prolífica ao jovem, com as conquistas da Copa da Itália e da Copa da Uefa, além da Supercopa Italiana. Foi também em 1999 que Gigi ganhou pela primeira vez o prêmio de melhor arqueiro da Serie A, assim como terminou indicado à Bola de Ouro – mesmo sem receber votos. Ficava claro como o italiano estava pronto a fazer história.

– Os atributos perfeitos

É curiosa a ocasião que rendeu a Buffon o apelido de Superman. O goleiraço sempre foi um fã confesso do Homem de Aço e usava a camisa do super-herói por baixo do seu uniforme do Parma. A confirmação de Gigi como Super-Homem, inclusive, aconteceu num desafio enorme: Ronaldo era o melhor do mundo quando, num jogo pela Internazionale, perdeu um pênalti defendido pelo arqueiro. Durante a comemoração, o italiano exibiu sua inseparável camiseta do personagem da D.C. e passou a carregar a comparação ao longo das décadas. Com motivos, aliás.

Buffon foi um goleiro que se acostumou a voar entre os postes. Poucos na história da posição atingiram um nível de agilidade tão grande. O tempo de reação do italiano proporcionou inúmeros milagres. Foram vários e vários momentos em que o gol parecia certo, até que Gigi botasse no bolso a palavra “impossível” e concretizasse aquilo que os olhos não acreditavam. A impulsão e a elasticidade também auxiliavam Buffon a proteger o retângulo às suas costas em cada centímetro, mesmo que não tivesse a maior envergadura. Possuía uma explosão e um atleticismo trabalhados com o tempo, em duras sessões de treinamento, que não se perderam mesmo com o peso da idade.

Se Buffon durou tanto tempo em alto nível, seus atributos técnicos também são uma explicação. Mesmo com tantas defesas incríveis, o camisa 1 não era espalhafatoso por recurso. Contorcia seu corpo no ar só mesmo em necessidade. Porque a sobriedade também é uma marca de Gigi. Sempre foi um goleiro com ótimo senso de posicionamento, que também facilitava as defesas por sua colocação. Mantinha a calma e o alto nível de concentração, unindo isso a uma bem-vinda agressividade de tempos em tempos. Tinha coragem para fazer as suas intervenções.

E a liderança de Buffon sempre foi outra característica marcante, natural para o seu jogo. A voz de comando de Gigi sempre imperou dentro da área. Quando preciso, ele estaria lá pelo time e transmitia a sua confiança. Contagiava, por uma vibração que se repetia entre grandes defesas e gols dos companheiros. Tal postura marcou os times vitoriosos pelos quais o veterano passou. Mais do que isso, intimidou gerações diferentes de atacantes que o enfrentaram. O camisa 1 teve a honra de vencer duelos particulares com basicamente todos os melhores da história que foram seus contemporâneos nesses 28 anos como profissional.

Obviamente, nem tudo em Buffon era impecável. O goleiro não era um exímio pegador de pênaltis. Também não fazia um trabalho tão constante na saída com os pés, embora tenha melhorado neste aspecto nos últimos anos de carreira. E se as falhas são inerentes a qualquer goleiro, os créditos de Buffon costumavam ser bem maiores que dos outros nesse tipo de ocasião. “Às vezes até o Super-Homem é apenas Clark Kent. Gigi, sempre o nosso super-herói”, escreveu numa faixa a torcida da Juventus, num raríssimo momento de oscilação do arqueiro. Sua resposta nunca demorava a vir.

Buffon contra o Parma, seu ex-time (Foto: Getty Images)

– A ascensão em alto nível e os percalços

Ainda nos tempos de Parma, Buffon lidou com momentos duros em sua carreira. O goleiro deveria ser titular na Euro 2000, treinado pelo igualmente lendário Dino Zoff. Sofreu uma fratura na mão às vésperas da estreia e acabou cortado da campanha que rendeu o vice-campeonato à Azzurra. Após sua recuperação, o arqueiro causou controvérsia quando apareceu com a camisa 88 na meta dos gialloblù. Acabou associado com o movimento fascista, pela ligação do número com o nazismo, embora justificasse que sua referência era a de “ter bolas, determinação”. Antes disso, já tinha usado uma camisa com slogan fascista, que rendeu inclusive sanções disciplinares. Diante das acusações, admitiu os erros e a “estupidez” em ambos os episódios. Seriam casos isolados e lamentados pelo veterano anos depois.

Lidar com o sucesso nem sempre foi simples para Buffon. Como ele mesmo viria a reconhecer, sua vontade de ser destemido em campo o fez perder outras coisas de vista. Gigi ganhou o rótulo de goleiro mais caro da história em 2001, contratado pela Juventus com a faraônica etiqueta de 100 bilhões de liras – o equivalente na época a €52 milhões. O novato ocupou a lacuna de Angelo Peruzzi e Edwin van der Sar no clube, ao passo que também reconquistou a titularidade na seleção. Colecionava prêmios individuais, com destaque àquele que o nomeou como melhor jogador da Uefa em 2002/03. Já em 2004, aos 26 anos, chegou a ser eleito por Pelé na célebre lista de 125 maiores futebolistas dos 100 anos da Fifa. Mas nem o reconhecimento e nem os títulos afastavam o arqueiro de suas frustrações. De seu medo de falhar.

Buffon precisou vencer a depressão justo no auge da carreira. A derrota na final da Champions League em 2002/03 desencadeou um quadro de ansiedade para o goleiro. Segundo o próprio Buffon, suas pernas chegaram a tremer incontrolavelmente quando saiu para um treino com a Juventus. Estava desgastado pela rotina e pela pressão, numa crise que se estendeu por sete meses. Teve o apoio de psicólogos, por mais que tenha recusado o uso de medicamentos. Deu sua volta por cima também com a ajuda da arte: despertou a partir de um quadro de Marc Chagall, chamado The Walk.

“É quase uma imagem infantil. Um homem e uma mulher estão em um parque, fazendo um piquenique, mas tudo é mágico. A mulher está voando em direção aos céus, como um anjo, e o homem está no chão, segurando sua mão, sorrindo. É como o sonho de uma criança. A imagem transmitirá algo de outro mundo. Dará a você o sentimento de uma criança. O sentimento de felicidade na simplicidade”, rememorou Buffon, em carta a si mesmo publicada pelo Player's Tribune. “É isso que você tirará de lição da sua depressão. Não se lembrar de que você é especial, mas se lembrar de que você é igual a todo mundo. Você não pode compreender isso agora, aos 17 anos, mas prometo que a verdadeira coragem é mostrar fraqueza e não ter vergonha. Você merece o presente da vida, Gigi. Como todos os outros. Lembre-se disso”.

– O símbolo da Azzurra tetracampeã

Buffon superou a depressão não apenas para se tornar uma melhor versão de si mesmo, mas também para se tornar um goleiro ainda mais implacável. Mesmo o fardo que carregou não impactou em seu nível de desempenho com a Juventus. Pelo contrário, um dos grandes momentos do clube veio em 2004/05 e 2005/06, com a conquista do bicampeonato da Serie A – depois impugnado pelo Calciopoli. O imbróglio, todavia, não reduz a qualidade de Gigi no ápice de sua forma. Naquele momento, chegou a ganhar seis prêmios consecutivos de melhor goleiro da Serie A, também votado como melhor do mundo pela IFFHS quatro vezes em cinco anos. A Copa de 2006 seria sua.

Buffon ainda ficou em xeque às vésperas do Mundial, investigado por um possível envolvimento com o Calciopoli. Embora tenha admitido que fizesse apostas esportivas em outras ligas, seria inocentado das acusações pessoais por manipulação de resultados. E sua resposta veio em plena forma no Mundial da Alemanha. Buffon passou 453 minutos da competição sem ser vazado, da fase de grupos à final. Contava com uma defesa fortíssima, claro, mas a excelência de sempre estava presente no maior dos momentos. Suas defesas também foram constantes, 40 no total.

Ao longo daquela Copa, Buffon recebeu o prêmio de melhor em campo contra a Austrália e realizou um milagre contra Lukas Podolski na épica semifinal contra a Alemanha. Sua consagração definitiva, no entanto, se deuna final. Uma cabeçada de Zinédine Zidane, não a mais famosa, poderia ter definido a parada a favor da França na prorrogação dentro do Estádio Olímpico de Berlim. O gol da vitória não aconteceu porque Buffon voou para desviar a bola com a ponta dos dedos e manteve a situação sob controle. Foi o Superman de toda a Itália. Aquela intervenção valeu mais do que qualquer pênalti, com a sorte prevalecendo a favor da Azzurra na marca da cal. O Mundial era seu.

A partir de então, a contribuição de Buffon à seleção da Itália seria apenas complementar. A eternidade estava garantida ao goleiro. Suas novas aparições na Copa do Mundo guardariam frustrações. As quedas precoces em 2010 e em 2014 impediram o goleiro de construir uma aura maior no torneio, especialmente pela lesão que sofreu no Mundial da África do Sul. Um pouco mais felizes seriam as participações na Eurocopa, mesmo sem levar o título continental. Esteve entre os melhores da posição em 2008, antes de liderar a Azzurra rumo à final em 2012, com o troféu perdido para a Espanha de Iker Casillas. Já a Euro 2016 foi seu último grande torneio com os italianos. Sem saber, bastante especial.

Talvez tenha sido a versão mais vibrante de Buffon em toda a passagem pela seleção da Itália. A imagem do “menino” de 38 anos pendurado no travessão depois da vitória sobre a Bélgica é inesquecível, assim como das inúmeras vezes em que cantou o hino a plenos pulmões. Buffon se firmava como a personificação do orgulho e da identidade cultural italiana – enquanto ele mesmo preferia um título mais simples, de “zelador do povo italiano”. E ainda jogando em altíssimo nível. O duelo contra a Espanha nas oitavas de final está entre suas melhores atuações pela Azzurra, com milagres diante de Andrés Iniesta e Gerard Piqué. Ao apito final, todos pareciam dispostos a cumprimentar Buffon. A reverenciar a lenda.

É verdade que o ciclo final de Buffon com a Itália terminou de maneira bastante triste. O goleiro não apenas estava presente no fatídico jogo contra a Suécia, que culminou na eliminação da Azzurra na repescagem para a Copa de 2018, como também simbolizou a frustração. As lágrimas se tornaram incontroláveis em seu rosto diante do sonho destruído em disputar o sexto Mundial da carreira. Era a alma de uma seleção sem vida, que sucumbiu nos momentos decisivos. Foi a voz motivacional de sempre aos italianos, mas também o torcedor que sofreu dentro das quatro linhas quando nada dava certo. Teve até desesperadas subidas ao ataque, em vão.

Buffon ainda entrou em campo uma vez pela Itália, em março de 2018, num amistoso contra a Argentina. O último de seus 176 jogos pela Itália, recordista absoluto da seleção e também entre os goleiros no futebol de seleções. A sucessão estava delineada, com a ascensão de Gianluigi Donnarumma. O xará, sempre tratado com muito carinho por Gigi, foi um digno herdeiro na Euro 2020: conduziu a Itália ao título que não vencia desde 1968 e terminou eleito como o melhor da competição. Mostra como o legado de Buffon não esteve naquilo que realizou, mas também no que deixou como ensinamento.

Buffon contra o Vincenza, na Serie B (Foto: Getty Images)

– O respeito à torcida juventina

Buffon detém inúmeros recordes pela Juventus. Apenas Alessandro Del Piero disputou mais partidas pela Velha Senhora, o que não é demérito nenhum ao goleiro. O camisa 1 colecionou Scudetti, quase sempre como protagonista do clube. E, mesmo assim, não há troféu que equivalha ao seu gesto após o Calciopoli em 2006. Quando as perspectivas juventinas foram destruídas pelo rebaixamento, o craque reiterou seu compromisso com a torcida. Permaneceu em Turim para ser uma das principais peças (talvez a principal) na reconstrução dos bianconeri como um clube vitorioso dentro da Itália.

Buffon tinha 28 anos quando tudo aconteceu. Estava no ápice de sua forma e tinha acabado de conquistar a Copa do Mundo. Buscar um novo clube seria uma escolha fácil, porque não faltaria mercado. A maior parte de seus companheiros badalados fez isso. Foram poucos os que fincaram o pé e participaram da reconstrução. Del Piero e Pavel Nedved estavam em fases mais avançadas da carreira, enquanto David Trezeguet e Mauro Camoranesi não tinham o mesmo status de Buffon. Em termos de exemplo, sua permanência foi a mais significativa. Disputou 37 partidas pela segundona, sem se importar com o nível dos oponentes ou as condições dos estádios.

O comprometimento se tornou mais forte porque Buffon renovou seu contrato com a Juventus logo depois do acesso. Continuaria também num período de restabelecer as pretensões do clube. E isso sem deixar de ser considerado um dos melhores do mundo, ganhando o prêmio da IFFHS pela quarta vez em cinco anos em 2006/07. A partir de então, os torcedores juventinos passaram a venerar não somente seus constantes milagres na meta do clube. Respeitar a instituição acima de tudo, mesmo com o risco de ficar com o nome na lama em meio ao escândalo, caracteriza muito mais a sua idolatria.

(Foto: AP)

– A nova era de vitórias

O momento de maior indagação sobre Buffon aconteceu após a volta da Juventus para a Serie A. O veterano ainda recebeu o prêmio de melhor goleiro do campeonato em 2007/08, mas sua melhor fase parecia ficar para trás. Já não era espetacular como antes, num período em que a Velha Senhora ficava como coadjuvante na liga nacional. Foi normal cair na tentação de achar que a lenda tinha deixado seu auge para trás. As lesões se tornavam mais costumeiras e isso atravancou um pouco a sequência do craque. Não demoraria, porém, para que ele provasse aos céticos como estavam redondamente enganados.

Tal processo passou por uma mudança na própria maneira como Buffon se portava em campo e na vida particular. O goleiro alterou sua rotina de treinamentos e a alimentação, abrindo mão de prazeres como o vinho para adotar uma dieta mais restritiva. O seu corpo pedia isso. Se a explosão não era a mesma de anos antes, ele passaria a compensar com um trabalho técnico ainda mais aguçado, e sem perder a aptidão para realizar defesas impressionantes. Gigi se tornava um exemplo ainda mais forte do que um goleiro deveria ser. Porque, afinal, protagonizou a Juve que novamente dominou a Serie A – como nunca tinha acontecido antes na história do campeonato.

A carreira de Buffon pode ser dividida em duas fases principais, com um antes e um depois de 2011. O goleiro já tinha se consolidado como um dos melhores da história em sua juventude, em especial pelo troféu na Copa de 2006. Entretanto, a versão mais vitoriosa e mais firme do camisa 1 aconteceu na última década. Não seria fácil encadear sete títulos consecutivos com a Juventus, entre mudanças de treinadores e mesmo de destaques no ataque. Ao lado da inseparável defesa formada por Andrea Barzagli, Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci, Buffon foi um dos pilares dessa sequência de taças. A mentalidade vitoriosa dos juventinos partia de seu próprio gol, por algo visível na postura de Gigi e no seu empenho para manter o ritmo.

Nestes sete títulos consecutivos, Buffon terminou eleito como o melhor goleiro da Serie A em cinco deles. O veterano foi votado como o melhor de sua posição 13 vezes na história do Campeonato Italiano, um número fabuloso, mesmo se levando em conta a maneira como sua trajetória durou. A conquista de 2011/12 é importante demais não apenas por iniciar a série, mas também pelos números superlativos da Juve. Gigi liderou uma defesa que sofreu apenas 20 gols, numa campanha invicta e que ainda o alçou como capitão diante da saída de Alessandro Del Piero. A partir de então, a visão de que o goleiro estava de volta ao seu auge imperou enquanto ele continuou em Turim. Arrebentou em cada uma daquelas sete taças. Chegou a bater inclusive o recorde de invencibilidade do futebol italiano, com 974 minutos sem sofrer gols em 2016. Só um dos tantos exemplos de onde sua grandeza o levou.

Jogadores do Barcelona cumprimentam Allegri e Buffon (Foto: AP)

– Azar da Champions e da Bola de Ouro por não tê-lo

A grande lacuna na carreira de Buffon é a Champions League. Para quem disputou 132 partidas na história do torneio, atrás apenas de Casillas entre os goleiros, a Orelhuda bem que poderia estar na estante de Gigi. Oportunidades não faltaram. Foram três campanhas até a decisão, com três derrotas pela Juventus. Entretanto, esse é o típico caso no qual a competição perde mais por não ter um determinado craque como campeão, não o contrário. Não é a ausência da Champions em seu currículo que diminui Buffon. Afinal, ainda assim ele aparece entre os goleiros mais fantásticos da história do torneio – talvez o mais. Fechou o gol em tantos mata-matas. Faltou mesmo o sucesso na decisão, mas não por sua culpa.

Uma prova disso é que algumas das maiores defesas da carreira de Buffon aconteceram exatamente nas finais da Champions. Segundo as palavras do goleiro em sua autobiografia, a intervenção mais difícil que fez aconteceu diante de Pippo Inzaghi, no duelo contra o Milan em 2002/03. O arqueiro foi capaz de segurar o empate, mas acabou vencido por Dida nos pênaltis, mesmo pegando duas cobranças. Já em 2015, Buffon também realizou uma defesa fabulosa num chute desviado de Daniel Alves, mas acabou derrotado pelo Barcelona. Gigi só não teve mesmo vez em 2017, na goleada emplacada pelo Real Madrid.

Buffon já declarou como a ausência da Champions motivou a continuação de sua carreira por tanto tempo. Era um sonho que o inspirava. Mas que, no fim das contas, não aparece exatamente como um problema dentro de sua trajetória. “Na vida, ganhei muita coisa, mas eu também perdi outros títulos. Estou feliz por ter lutado por eles, mas, pessoalmente, eu tive sucesso também com o afeto das pessoas. E para saber quanto valho não preciso de por exemplo oito títulos de Champions League. Mesmo sem vencê-los, eu sei quão forte eu sou”, analisou o veterano, há pouco mais de um ano.

E se a Champions League era atingível, a falta da Bola de Ouro é cercada de outros fatores, mas também seria factível que o italiano vencesse. Sua história é digna do prêmio e, no fim, não ter um goleiro do calibre de Gigi entre os ganhadores é problema maior da France Football – que tantas vezes trata a posição com menos prestígio. Por quase duas décadas, Buffon frequentou assiduamente a lista de finalistas ao troféu, como natural por sua qualidade. Era um nome constante especialmente nas décadas de 2000 e 2010, durante as melhores fases com a Juventus.

Buffon chegou mais perto de ganhar a Bola de Ouro em 2006. Jogou tanto quanto Fabio Cannavaro na Copa do Mundo e tinha argumentos a seu favor, mas ficou atrás do capitão da Itália. Outro momento no qual o veterano passou perto da condecoração aconteceu em 2017. Não competiu com a pontuação de Cristiano Ronaldo, mas o quarto lugar foi bastante honroso e correspondia à maneira como liderou a Juve até a final da Champions. Gigi inspirou mesmo a criação dos prêmios específicos aos goleiros da Fifa e da France Football. Contudo, não teria tempo suficiente para vencê-los.

– A regularidade absurda

A carreira de Buffon é recheada de números respeitabilíssimos. Entre clube e seleção, o italiano superou as mil partidas como profissional. É dono de diversos recordes, sobretudo o de aparições na Serie A. E isso corresponde não apenas a uma carreira longa, mas também à maneira como Gigi manteve seu nível intacto durante tantos anos. Os momentos de baixa do craque foram praticamente inexistentes. Superou os 30 jogos por competições oficiais em 19 temporadas. Esteve ativo em quatro décadas distintas. Sempre pareceu confortável para exibir o seu máximo, mesmo que o declínio físico também se tornasse natural.

A partir do momento em que se estabeleceu como titular do Parma, Buffon se manteve entre os goleiros da primeira prateleira. Conseguiu fazer isso na Juventus em diferentes momentos, mesmo lidando com seus problemas. Até os momentos que não eram os melhores de Buffon já eram amplamente superiores em relação aos demais. O patamar que o italiano se colocou é muito alto, especialmente pela forma como não se afetou por turbulências. Tal padrão de excelência por mais de duas décadas é raríssimo na história do futebol. Se fosse para comparar com outras posições, seria parecido ao que conseguiram Lionel Messi e Cristiano Ronaldo por cerca de 15 anos.

Basta olhar para aqueles que acompanharam Buffon ao longo do percurso. Van der Sar teve uma carreira longa, mas não tão linear assim. Casillas estourou muito cedo no Real Madrid, mas perdeu fôlego na reta final. Cech teve um auge considerável no Chelsea, mas também acabou perdendo visibilidade nos últimos anos. Mesmo Neuer viu as lesões atrapalharem seu caminho nos últimos tempos e tornarem intermitentes suas melhores temporadas, ainda que tenha sido decisivo ao Bayern. Gigi basicamente não teve “temporadas ruins” em toda a sua trajetória.

Um momento de questionamento sobre Buffon aconteceu apenas durante sua passagem pelo Paris Saint-Germain. Acaba sendo um asterisco em sua biografia, mas numa decisão que dá para entender e se respeitar. Os parisienses pareciam oferecer condições para o veterano conquistar a Champions. No final das contas, ele rendeu abaixo do esperado e chegou a falhar na competição continental, apesar da conquista da Ligue 1. Não foi exatamente mal, mas não conseguiu ser totalmente Buffon. O contrato cumprido por apenas um ano indica também como não era o ambiente mais feliz.

Gianluigi Buffon, da Juventus
Gianluigi Buffon, da Juventus (Imago/OneFootball)

– A lealdade aos seus companheiros

A volta de Buffon à Juventus em 2019 foi emblemática. O goleiro, afinal, aceitou ter um papel de coadjuvante no clube em que era lenda. Estava ali para auxiliar os antigos companheiros em novas conquistas e também a transição no gol com a presença de Wojciech Szczesny. Gigi sequer aceitou a camisa 1 e não criou qualquer tipo de caso por ficar no banco de reservas. Parecia mais do que satisfeito em viver o ambiente da Velha Senhora e continuar fazendo o que tanto amava. Podia não mais ser parte da seleção, mas sua contribuição nos bastidores sempre existiria.

“Eu gosto do sentimento de pertencimento, por isso fiquei 10 anos no Parma e depois 17 na Juve. Gosto de trabalhar em um grupo de pessoas afinado, com quem me encontro bem e convivo. Ao final, você se sente parte integrante desse contexto e eu decidi permanecer nele para sempre. Certamente que se perdeu este senso de pertencimento. O futebol partiu para o lado do negócio. Ele pode ser mais bonito para quem vê ou para quem pratica. Para mim, estar todos estes anos no Parma e na Juventus é gratificante, belíssimo, porque nesses momentos você pode sentir-se próximo do mundo inteiro”, declarou Buffon, ainda em 2017, numa fala que representa bem seu sentimento.

Buffon totalizou 29 partidas nesse novo momento pela Juventus, mais frequente na Copa da Itália e na Serie A. Teve tempo de abocanhar alguns recordes de longevidade e de levar pela última vez o Campeonato Italiano. Mais significativo, entretanto, era o exemplo dado por uma lenda viva a todos em Turim. Os torcedores poderiam se orgulhar daquele senhor acima dos 40 anos que continuou feliz por ser parte do clube. Os demais colegas tinham um espelho inoxidável para se inspirar a cada atividade. Uma pena que a própria administração do clube não tenha criado um ambiente saudável nestes últimos meses.

“Gostaria de resumir este dia incomum para mim, cheio de emoções, mas que eu trato com calma, felicidade e uma sensação de saciedade. É a conclusão de uma belíssima jornada, que tive a sorte de compartilhar com pessoas que realmente se importavam comigo. Eu senti isso, dia após dia, e por causa desse amor eu lutei, tentando fazer o meu melhor. Sábado será meu último jogo pela Juventus. Eu acho que esta é a melhor maneira de acabar essa aventura maravilhosa, com dois títulos que são realmente importantes, próximo do presidente Andrea e de toda a torcida da Juventus”, declarou Buffon, na época.

Buffon com a camisa do Parma (divulgação/Parma)

– O amor pela bola até no ato final

Buffon recebeu diferentes propostas depois de sair da Juventus, inclusive de times da Premier League. Entretanto, seguia interessado em escrever uma bela história. E teve a grandeza de reatar seus laços com o Parma, para um último ato, logo depois do rebaixamento dos gialloblù. Sua volta ao clube em 2021/22 é bastante simbólica, não apenas pela idolatria, mas pela forma como insistia em demonstrar seu amor pelo futebol. Tinha vontade de viver tudo aquilo uma vez mais, mesmo que a Serie B se apresentasse como um desafio longe do glamour. A rotina apreciada por Gigi não era a dos holofotes ou do dinheiro, mas de se esfolar na grama e ser feliz com uma bola. Queria também que seus filhos o vissem jogando pelo Parma, não apenas ouvissem suas histórias.

“Eu acho que, na minha idade, você precisa avaliar a situação a cada mês, a cada semana. Porque é importante para atletas que atuam em alto nível fazer o seu melhor, lutar pelo melhor, permanecer no topo. Você tem que estar fisicamente bem, porque não quer resultados ruins que custem seu orgulho. Sou Buffon e é este que quero ser até o último minuto. E quando eu não for mais o mesmo, eu irei”, filosofou, no momento em que deixava a Juventus e se preparava à próxima jornada.

Nem tudo acontece como o roteiro de um filme. Assim como foi em relação à Champions ou à Eurocopa, Buffon não conseguiu conquistar o acesso na Serie B com o Parma. O clube teve problemas de organização e não foi competitivo o suficiente, num campeonato geralmente equilibrado. Gigi, ainda assim, proporcionou momentos de encanto. Em certas partidas, conseguiu ser o goleiraço histórico. Temeu os riscos da temporada tortuosa em 2021/22, mas se recuperou. Só não aconteceu o salto inspirado pelo multicampeão para que ele atingisse a promoção. O time caiu nos playoffs de acesso da Serie B em 2022/23, por mais que Buffon tenha brilhado na Copa da Itália. Por fim, a lenda decidiu antecipar o fim de seu contrato e se negou a aceitar propostas da Arábia Saudita. Chegou a hora de um descanso merecido, conviver mais com a família. De ver o futebol por outro ângulo – porque certamente ele nunca se afastará. O futebol vive em Buffon.

“Não me dá medo a vida sem o futebol porque amo a vida. Em consequência, não posso ter medo de fechar um parênteses. Devo muito ao futebol, porque me permitiu viver emoções incríveis e penso que esse é o único valor inestimável que te dá esta vida: sentir determinadas vibrações em certas partidas, em certos estádios. O meu futuro sei que será bonito. Eu não sei como será, porque estou muito concentrado no presente. Se você quer fazer bem uma coisa, não pode pensar demais em outra e no que vai fazer. Ao final, quando terminar, pensarei no que virá”, afirmou Buffon, em 2017. Pode pensar, aproveitar e ter orgulho.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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