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A cabeçada de Zidane que decidiu a Copa de 2006

Quatro gols em finais de Copa do Mundo, feito inédito. Primeiro jogador na história a ser eleito por quatro vezes o Melhor do Mundo na premiação da Fifa. Dois títulos mundiais protagonizados por ele, que fez a França igualar Argentina e Uruguai em número de conquistas e, além disso, deixou os Bleus a apenas uma taça de chegar ao nível de Itália e Alemanha. Diante de tamanho brilho nos Mundiais, a discussão interminável não é mais sobre o melhor da história, Pelé ou Maradona. A dúvida é: Zinedine Zidane forma uma santíssima trindade com o Rei e El Dios?

VÍDEO: Quinze minutos impressionantes da genialidade de Zidane

Você deve ter percebido que as últimas linhas são apenas fruto da imaginação. Sem dúvidas, Zidane foi um dos melhores jogadores da história. No entanto, se o craque francês tivesse faturado a Copa de 2006, sua lenda seria ainda mais irrefutável. O camisa 10 que jogava de smoking, tal a elegância no trato com a bola, se aposentaria no topo do mundo. Bicampeão do torneio mais importante do futebol, com atuações monstruosas. Não aconteceu. Por culpa de uma cabeçada, e não aquela que acertou em cheio o peito de Marco Materazzi. Mas outra, desferida aos 13 minutos do primeiro tempo da prorrogação, exatamente cinco minutos antes do ato de fúria. As pontas dos dedos de Buffon mudaram o curso da história.

Diante dos rumos da decisão em Berlim, aquele lance acabou sendo esquecido por muita gente. A expulsão de Zidane é apontada como fatal à França, da mesma forma como maculou o desempenho impecável do camisa 10 até então. O fato é que, se a cabeçada de Zizou estufasse as redes, como acontecera duas vezes oito anos antes, tudo seria diferente. O passado que conhecemos não seria o futuro do gênio. O tal efeito borboleta. Pode até ser que a Itália conseguisse empatar o jogo por 2 a 2, ganhasse também nos pênaltis. Mas, daquele momento em diante, o jogo estaria nas mãos da França. Nos pés de Zidane.

Por mais que seja uma defesa espetacular, Buffon fez outras mais difíceis ao longo de sua carreira – eu, particularmente, me espanto a cada vez que vejo uma contra o Paraguai, em amistoso de 1998. Nenhuma delas, porém, foi tão importante quanto a de Berlim, uma das mais importantes da história do futebol. Afinal, poucas decidiram uma final de Copa, como aquela. O goleiro não espalmou apenas a cabeçada, mas também a desvantagem que seria difícil de reverter nos 17 minutos restantes. Ele espalmou a taça dos braços de Zidane. Ressaltou o excelente Mundial que fez sob as traves.

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As virtudes de Buffon são inúmeras. Todas resumidas naquele lance. Quando Zidane recebeu a bola na intermediária, o goleiro já estava atento no que o meia fazia. A concentração essencial, que seus companheiros de Azzurra não tiveram. Enquanto os quatro defensores se preocupavam com Malouda e Trezeguet na área, os quatro meio-campistas cercavam Zizou, mas se desligaram depois do passe a Sagnol. Sem ser acompanhado por Pirlo, Zidane passou nas costas de Gattuso e estava sozinho, na marca do pênalti, para dar o golpe. Buffon, no lugar exato para salvar. Graças a seu senso de posicionamento perfeito, o camisa 1 nunca precisou de defesas espalhafatosas para ser espetacular. No segundo em que a testa do camisa 10 tocava a bola, o goleiro aterrissava um passo à sua direita. Para voar. A elasticidade e o tempo de reação o permitiram desviar a bola sobre o travessão.

As atitudes de Buffon e Zidane após o lance são emblemáticas. Por centímetros, o francês urrava de frustração. Por segundos, o italiano vibrava de alívio. Aquela bola dourada também poderia fazer a Bola de Ouro tocar as luvas do italiano. O prêmio acabou ficando em boas mãos, mas o segundo colocado na ocasião tinha seus méritos. A Azzurra era tetra muito por conta dele. Que, em um lance, mostrou porque é não apenas o maior goleiro da história da Itália (com a bênção de Dino Zoff), mas um dos melhores de todos os tempos. Buffon completa 37 anos nesta quarta, e o presente é de todos que ainda podem observar uma lenda.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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