Histórias Olímpicas

Geovani e Agüero: os astros de Brasil x Argentina em Olimpíadas

Seleções tiveram dois confrontos por mata-matas nos Jogos, mas só os albicelestes terminaram com o ouro depois de deixar o maior rival pelo caminho

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, com textos relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast OlimpCast.

Finalistas da Copa América, na noite deste sábado, no Maracanã, Argentina e Brasil já se encontraram em dezenas de confrontos decisivos ao longo de mais de um século de rivalidade. E não foi diferente nos Jogos Olímpicos: são dois confrontos em fase de mata-mata, com uma vitória para cada um. Quem riu melhor, como diz o ditado, foi quem riu por último: os argentinos, que deixaram o Brasil pelo caminho num dia iluminado de Sergio Kun Agüero antes de celebrar o bicampeonato em Pequim-2008. Vinte anos antes, também na Ásia, os canarinhos levaram a melhor num duelo de quartas de final, com um golaço de Geovani, mas um tropeço diante da União Soviética na decisão acabou com o sonho do então inédito ouro.

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Na Olimpíada de Seul, repetiu-se o regulamento adotado em Los Angeles-1984, quando os profissionais passaram a ser permitidos, desde que, no caso de europeus e sul-americanos, não tivessem disputado jogos de Copa do Mundo – incluídas as Eliminatórias. A regra já valia para o Pré-Olímpico de 1987, disputado na Bolívia.

O técnico Carlos Alberto Silva havia acabado de assumir o comando da seleção brasileira com uma missão espinhosa: renovar o time após a eliminação traumática nos pênaltis diante da França na Copa do Mundo de 1986. A classificação veio aos trancos e barrancos, num ano agitado: da Bolívia o time seguiu uma excursão pela Europa, onde ganhou o reforço de alguns veteranos, como o goleiro Carlos; depois, com Müller e Careca de volta, entre outros, fracassou na Copa América, levando 4 do Chile; e, por fim, com um time aos pedaços, desfalcado de última hora, que levou o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianapolis, na primeira aparição de Taffarel na seleção.

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Em tempos sem data Fifa, e em meio a um braço de ferro entre a CBF e os clubes por causa da Copa União, a preparação para a Olimpíada de Seul, que seria só em setembro, ficou em último plano. Carlos Alberto só conseguiu reunir o time em julho, com a chance de disputar um torneio amistoso celebrando o bicentenário da Austrália. E, desta vez, chamou uma novidade: o meia Geovani, do Vasco.

Não era uma novidade tão nova assim. O capixaba Geovani havia sido revelado jogando pela Desportiva Ferroviária e contratado pelo Vasco ainda em 1982, aos 18 anos. Ganhou a alcunha de “Pequeno Príncipe da Colina” enquanto se firmava como titular da equipe, e já em 1985, aos 21 anos, recebeu sua primeira chance na Seleção, convocado por Evaristo de Macedo para uma série de amistosos antes das Eliminatórias.

Geovani teve sua primeira chance entrando no segundo tempo numa vitória por 2 a 0 sobre o Uruguai, no Arruda, em Recife. Alguns dias depois, vestiu a camisa 8 na derrota por 1 a 0 para a Colômbia, em Bogotá, e voltou a sair do banco em mais um tropeço, 2 a 1 diante do Chile, em Santiago. O saldo dos amistosos foi péssimo: três vitórias e três derrotas em seis jogos. Evaristo foi demitido e boa parte de sua seleção, dispensada – Geovani entre eles. Telê Santana voltou às pressas com os veteranos de 1982, reforçados por alguns jovens, como Renato Gaúcho, Casagrande e Careca. Deu certo no curto prazo, com a classificação relativamente tranquila; mas, como já vimos, na Copa do Mundo não funcionou.

Geovani enfrentou problemas com lesões e com a balança, e seguiu fora do radar também com Carlos Alberto Silva, mas em 1988, aos 24 anos e no auge da forma, era um dos principais jogadores do país. Sua convocação para um torneio comemorativo pelo bicentenário da Austrália era natural, assim como a presença entre os titulares. O time estreou vencendo os donos da casa por 1 a 0 e depois segurou um empate sem gols com a Argentina principal, repleta de campeões do mundo dois anos antes, como Oscar Ruggeri, Sergio Batista, Ricardo Giusti e o técnico Carlos Bilardo.

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Geovani marcou seu primeiro gol pelo Brasil na vitória por 4 a 1 sobre a Arábia Saudita, no jogo seguinte, que deu ao Brasil o direito de enfrentar na decisão os donos da casa – que haviam surpreendido goleando a Argentina também por 4 a 1. O Brasil levou a melhor, 2 a 0, gols de Romário e Müller, o único que tinha experiência em Copa e não poderia ir à Coreia do Sul.

Depois de alguns amistosos, Geovani chegou a Seul com a camisa 8 às costas e a faixa de capitão no braço, com a missão de ser o cérebro de um time que, depois de um ano e meio de preparação aos trancos e barrancos, parecia ter dado liga: 4 a 0 na Nigéria, 3 a 0 no Austrália e 2 a 1 na Iugoslávia, assegurando o primeiro lugar na chave.

Já a Argentina, treinada por Carlos Pachamé, escudeiro de Bilardo desde os tempos de jogadores no Estudiantes, começou mal. O time tinha alguns jogadores que depois iriam mais longe na seleção, como Pedro Monzon, Néstor Fabbri e Hugo Perez, e no gol estava Luis Islas, reserva de Pumpido no time campeão mundial em 1986. Mas a coisa demorou a andar: na estreia, 1 a 1 com os Estados Unidos, depois derrota por 2 a 1 para a União Soviética. Nos dois jogos, a equipe só marcou de pênalti, com Alfaro Moreno, atacante do Independiente. A classificação para os mata-matas saiu só com vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Sul – Alfaro Moreno abriu o placar, Noh Soo-Jin empatou para os anfitriões e Fabbri marcou o gol que selou a Argentina com o segundo lugar do Grupo C.

O clássico foi disputado na noite de segunda-feira, 25 de setembro, no estádio Dongdaemon, em Seul. Carlos Alberto mexeu no time, armando um meio-campo com três jogadores cuja principal característica era a marcação: o já veterano Andrade, do Flamengo, e os raçudos Ademir, do Cruzeiro, e Milton, do Coritiba; com apoio dos laterais Luis Carlos Winck e Jorginho, este improvisado na esquerda, Geovani tinha liberdade para criar e deixar a dupla Bebeto e Romário, juntos como titulares pela primeira vez nos Jogos, em condição de marcar.

O Brasil dominava o jogo, mas não conseguia transformar a superioridade em gol, graças especialmente a um dia inspirado de Islas. Chegou até a marcar com Romário, de cabeça, aos 15 do segundo tempo, mas o árbitro anulou alegando carga do Baixinho sobre o defensor. A Argentina, por sua vez, poucas vezes conseguia superar o paredão no meio-campo e ameaçar a zaga montava por André Cruz e Aloisio. Aos 20 minutos do segundo tempo, Carlos Alberto trocou Milton por Careca, meia-atacante do Cruzeiro com força na chegada à área e boa altura para o cabeceio, e que tinha sido titular em todos os jogos anteriores.

E é com Careca que o gol começa. O camisa 10 cruza, a defesa tira e a bola volta ao meio-campo. Aloisio toca para Geovani, que, sem marcação, mas de muito longe, resolve arriscar de pé direito. A bola sai baixa, em curva, mas sem muita força; Islas, traído por um passo à esquerda, cai mal e dá um tapinha para dentro do gol. Um frangaço de almanaque. Abaixo, o lance do gol. Neste link, dá para ver a íntegra do jogo.

A Argentina não teve competência para buscar o empate, e o Brasil avançou às semifinais, onde derrotou a Alemanha Ocidental nos pênaltis numa atuação iluminada de Taffarel. O ouro, porém, não veio – o Brasil perdeu para a União Soviética por 2 a 1, na prorrogação, e Geovani nem sequer jogou a decisão, suspenso pelo segundo cartão amarelo, que levou justamente ao cometer o pênalti defendido pelo camisa 1 nos minutos finais.

No ano seguinte, com a Seleção sob o comando de Sebastião Lazaroni, que durante um bom tempo fora seu treinador no Vasco, Geovani ainda teve algumas chances e fez parte do elenco que ganhou a Copa América, mas perdeu espaço e não teve chance de ir à Copa do Mundo. Acabou negociado com o Bologna, onde ficou dois anos, e voltou para mais duas passagens pelo Vasco, a tempo de ganhar os Estaduais em 1992 e 1993. Aposentou-se em 2002, depois de jogar por vários clubes do Espírito Santo, onde se elegeu depois deputado e vive até hoje, bastante ativo nas redes sociais.

Enquanto isso, em Buenos Aires

O pequeno Sergio Agüero era um bebê de três meses quando Geovani acertou o chute que tirou a Argentina dos Jogos de Seul. Naquele tempo, o país já acumulava um jejum de 36 anos sem uma medalha de ouro olímpica, mas vivia na ressaca do Mundial conquistado sob o comando de Maradona dois anos antes.

Logo cedo, mostrou talento para o futebol, e chegou aos 9 anos às escolinhas do Independiente. Evoluiu rápido – rápido demais: em 5 de junho de 2003, pouco mais de um mês depois de completar 15 anos, fez sua primeira partida como profissional defendendo o Rojo diante do San Lorenzo, quebrando um recorde que pertencia desde 1976 a Diego Maradona. Mas o pequeno Kun, apelido extraído de um desenho animado, demorou a se firmar: só em 2005 é que passou a ser titular com frequência, a despeito dos pedidos da torcida. No mesmo ano, figurou como coadjuvante na Argentina campeã mundial sub-20, na Holanda – ainda que tenha sofrida a falta que Messi cobrou para marcar o gol do título contra a Nigéria.

Como a maioria das revelações sul-americanas dos últimos anos, seu tempo em casa foi curto: em 2006, assim que completou 18 anos, transferiu-se para o Atlético de Madrid. Como jogador do clube, foi protagonista de nova conquista da Argentina no Mundial Sub-20 de 2007, no Canadá, agora como artilheiro e Bola de Ouro do torneio. Assim, colocou-se como nome certo para os Jogos de Pequim.

O ídolo vira sogro

Agüero comemora com Riquelme a medalha de ouro da Argentina (Imago / OneFootball)

Quando chegou à China, em agosto de 2008, Agüero já era não só uma estrela em alta como o genro de Maradona, namorado de Gianinna, filha caçula do craque. E o Pibe foi, naquela ocasião, um torcedor símbolo da albiceleste, presente nos jogos de futebol e também nas arenas de basquete e de tênis. A Argentina já havia sido campeã em Atenas-2004, o que tirava o peso do jejum de medalhas, e o time, com Riquelme como um dos “veteranos” acima de 23 anos, parecia caminhar tranquilo para mais uma medalha.

O melhor: sem depender de individualidades. Tanto que, na primeira fase, foram três vitórias em jogos relativamente truncados, e quase sem repetir autores de gols: no 2 a 1 contra a Costa do Marfim, Messi e Acosta marcaram; Lavezzi definiu o 1 a 0 sobre a Austrália; e abriu caminho para o 2 a 0 sobre a Sérvia, completado por Buonanotte. Agüero não disputou o último jogo, depois de ser substituído na segunda etapa nas partidas anteriores.

Nas quartas, outro jogo duro: Agüero voltou ao time no duelo contra a Holanda, e saiu durante a prorrogação, quando a partida estava 1 a 1, gols de Messi e Bakkal. Di María marcou o gol da classificação. Vinte anos depois, um novo confronto contra o Brasil estava selado.

Um Brasil que buscava ansiosamente seu ouro ainda inédito. Depois daquela noite em Seul, os canarinhos ganharam duas Copas, mas voltaram a fracassar em Olimpíadas, em Atlanta-1996 e Sydney-2000, e nem sequer haviam estado presentes em Atenas. A importância era tanta que estava em Pequim o técnico da seleção principal, Dunga, enquanto a Argentina tinha o comando de Sergio Batista, responsável pelas seleções de base. Liderado por um Ronaldinho Gaúcho já fora do auge, o time brasileiro tinha passado por Bélgica (1 a 0), Nova Zelândia (5 a 0) e China (3 a 0), e nas quartas também precisou da prorrogação para superar Camarões por 2 a 0.

Até então zerado em Pequim, Kun desabrochou no maior clássico. Depois de um primeiro tempo equilibrado, com mais chances da Argentina, marcou duas vezes em seis minutos na etapa final: aos 7, de barriga, após cruzamento da esquerda; e aos 13, de pé direito, completando passe da direita. De quebra, ainda sofreu o pênalti que Riquelme cobrou para selar o 3 a 0.

O ouro veio com sabor de vingança, na vitória por 1 a 0 sobre a Nigéria, gol de Di María. No pódio, o sogro Maradona foi um dos responsáveis pela entrega de medalhas. Meses depois, se tornaria também chefe, ao assumir o comando da seleção principal após a queda de Alfio Basile. Mas, de lá para cá, seja sob Maradona ou com os seus sucessores, e não foram poucos, Agüero vive um paradoxo: jamais ficou de fora da seleção, mas nunca se firmou como titular absoluto. Seu currículo de 101 partidas tem apenas 11 jogos completos – em 51 deles foi titular e acabou substituído, enquanto nas outras 39 entrou apenas no segundo tempo. A média é de pouco mais de 55 minutos por jogo – e mesmo assim são 41 gols marcados.

Ídolo imortal no Manchester City e de malas prontas para o Barcelona, aos 33 anos, o Kun sabe que ainda tem muita história para fazer. E quem sabe contra o Brasil, no Maracanã em que não conseguiu festejar em 2014, não haja mais um capítulo pronto a ser escrito?

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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