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De olho em recorde, Christine Sinclair mostra seu cartão de visitas em Tóquio

Atacante canadense, maior goleadora do futebol feminino de seleções, abriu o placar no empate por 1 a 1 contra o Japão

A maior artilheira por seleções no futebol feminino apresentou suas credenciais nesta quarta-feira no Sapporo Dome, no primeiro dia de atividades dos Jogos Olímpicos de Tóquio: em sua partida de número 300 pelo Canadá, Christine Sinclair mostrou que ainda tem muito a oferecer ao esporte e a seu país ao abrir o placar no empate por 1 a 1 contra as anfitriãs japonesas.

Um gol de muito oportunismo, um gol com a cara de Sinclair: ela recebeu o cruzamento rasteiro da direita e bateu seco, de primeira, fora do alcance da goleira Sakiko Ikeda – mas a bola, teimosa, acertou a trave direita. Não por isso: ela correu e, de canhota, deu um toquinho para marcar seu gol de número 187 com a camisa da seleção, ampliando a vantagem para os 184 gols da já aposentada Abby Wambach.

Nascida em 12 de junho de 1983, a menina Christine veio ao mundo num lar de boleiros: seu pai, Bill, jogou pelo time da Universidade de British Columbia; os tios Bruce e Brian, irmãos de sua mãe, Sandra, deram um passo além e chegaram a se profissionalizar, jogando por times da NASL, North-American Soccer League, a mesma que buscou Pelé, Carlos Alberto Torres e Beckenbauer para tentar impulsionar o soccer nos Estados Unidos.

Assim, aos 4 anos ela já jogava bola num time de meninas de até 7. Também jogou basquete e beisebol, sendo destaque de um time de meninos, até entrar num time sub-14 de Burnaby, sua cidade natal, quando tinha 11. Aos 16, viu no estádio alguns jogos da Copa do Mundo de 1999, quando já era convocada para a seleção sub-18; no ano seguinte, estreou pela seleção principal do Canadá, jogando a Copa do Algarve, tradicional torneio amistoso em Portugal. Seu primeiro jogo foi uma derrota por 4 a 0 para a China; no segundo, abriu o placar contra a Noruega, mas o time levou a virada e perdeu por 2 a 1.

Sinclair foi a grande estrela da ascensão da seleção canadense, de saco de pancadas das vizinhas dos Estados Unidos a protagonista no cenário internacional. Em sua primeira Copa do Mundo, em 2003, marcou aos quatro minutos da estreia, contra a Alemanha. O time levou a virada e acabou tomando uma goleada de 4 a 1, mas venceu os jogos seguintes, contra Argentina e Japão, avançando aos mata-matas, e surpreendeu ao vencer a China, nas quartas de final, gol de Charmaine Gopper. Mesmo com as derrotas para Suécia, nas semifinais, e Estados Unidos, na decisão do terceiro lugar, a quarta posição mostrou que o Canadá tinha força para brigar além das fronteiras.

A essa altura, Sinclair já estava na Universidade de Portland, famosa por seu programa de futebol. Lá, ganhou dois títulos da NCAA, em 2002 e 2005, e se firmou como estrela de primeira grandeza. Sua primeira chance olímpica veio em 2008, em Pequim, quando o Canadá avançou em terceiro na fase de grupos e fez jogo duro contra os Estados Unidos nas quartas de final – ela marcou o gol na derrota por 2 a 1, definida apenas na prorrogação. Foi seu segundo gol naquela edição: o primeiro tinha sido ainda na fase de grupos, no empate por 1 a 1 com a China.

Para conhecer mais histórias dos Jogos de Pequim-2008, clique no player abaixo e ouça o episódio 32 do OlimpCast

Em Londres-2012, o Canadá de novo sofreu na fase de grupos e só passou em terceiro, mas desta vez, no mata-mata, superou a Grã-Bretanha por 2 a 0 – e Sinclair, reiterando seu gosto por fazer gols em anfitriãs, marcou o segundo gol. Nas semifinais, ela teve aquela que foi sua grande atuação olímpica: fez os três gols no empate por 3 a 3 contra os Estados Unidos. O jogo foi para a prorrogação e os pênaltis já pareciam certos quando Alex Morgan fez o gol decisivo das norte-americanas já nos acréscimos. Ironicamente, a medalha de bronze viria numa vitória por 1 a 0 sobre a França, gol de Diana Matheson, já nos acréscimos. Christine Sinclair terminou como artilheira do torneio, com seis gols.

No Rio-2016, Sinclair continuou a exibir seu talento. O Canadá agora venceu os três primeiros jogos da fase de grupos, contra Austrália, Zimbábue e Alemanha, e ela só não marcou no último. Nas quartas, novo 1 a 0 contra a França, mas nas semifinais as alemãs se vingaram e venceram por 2 a 0, no Mineirão. Restou buscar novamente o bronze, agora na Arena Corinthians, contra as donas de casa. Deanne Rose abriu o placar e, no segundo tempo, adivinhe: após bobeira de defesa, Sinclair aproveitou cruzamento e ampliou. Bia Zaneratto ainda descontou, mas a segunda medalha de bronze seguida estava garantida nos pescoços canadenses.

Dona de quatro títulos em ligas norte-americanas, dois com o Portland Timbers, que defende desde 2013 na atual NWSL, Sinclair ainda tem muita coisa a buscar. Em Tóquio, já cumpriu logo na estreia a missão de marcar gols no time da casa. Além da terceira medalha, tem a chance de buscar também a artilharia geral dos jogos: o desta quarta foi o 12º, empatada com Marta, que deixou dois contra a China. Acima delas, apenas Cristiane, com 14 gols e não convocada por Pia Sundhage. Ainda na primeira fase, o Canadá enfrenta no sábado o Chile e na outra terça a Grã-Bretanha. Chances para Christine Sinclair não faltarão – e ela não costuma desperdiçar.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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