Histórias Olímpicas

Gottfried Fuchs: o goleador esquecido da Alemanha que conseguiu driblar o nazismo e escapar da morte

Autor de dez gols num só jogo durante as Olimpíadas de 1912, Fuchs foi perseguido por ser judeu

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, com textos relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast OlimpCast.

Quando se pensa em goleadores alemães, imediatamente vêm à mente os nomes de Miroslav Klose, maior artilheiro da história das Copas do Mundo; ou de Gerd Müller, que ocupou esse posto durante 32 anos. Mas há um outro nome, cujos registros foram quase apagados pelo tempo: Gottfried Fuchs, o maior goleador em uma só partida com a seleção da Alemanha. Seu grande drible, no entanto, se deu fora de campo, ao fugir do regime nazista para evitar a morte num campo de concentração.

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Nascido em Karlsruhe, em 1889, Gottfried Fuchs começou a jogar no Dussedorfer, ainda na adolescência, e tinha 17 anos quando vestiu pela primeira vez a camisa do Karlsruher, time de sua cidade marcado pela forte presença de jogadores vindos de famílias judias – como o próprio fundador do clube, Walther Bensemann, um dos pioneiros do futebol alemão. Lá, formou um ataque que ficou conhecido como o melhor “tridente central” do país, ao lado de Fritz Forderer e Julius Hirsch, este também judeu.

Com eles, o time venceu a liga regional sul, em 1910, e depois conquistou o título alemão com uma vitória por 1 a 0 sobre o Holstein Kiel. Bons resultados e atuações se repetiram nos anos seguintes, com mais dois títulos regionais, e os três foram então convocados para defender a seleção da Alemanha em amistosos e, depois, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, disputados no verão europeu.

A estreia contra a vizinha Áustria começou promissora: com um gol de Adolf Jäger, aos 35 minutos, os alemães terminaram o primeiro tempo na frente. Mas, na etapa final, a coisa se complicou: Jan Studnicka empatou aos 13 e Leopold Neubauer virou aos 17, e logo em seguida o goleiro alemão Adolf Weber se machucou. Com o atacante Willi Worpitzky improvisado embaixo das traves, a Áustria se aproveitou e marcou mais três vezes: dois gols de Robert Merz e um de Robert Cimera.

Restou aos alemães, então, permanecer na Suécia para um torneio de consolação, e coube ao time enfrentar a Rússia. Fora da formação titular na estreia, Fuchs ganhou uma chance e fez por merecer a escalação: marcou nada menos que dez gols, cinco em cada tempo. O amigo Forderer colaborou com mais quatro; Karl Burger e Emil Oberle completaram o massacre: 16 a 0.

O Karlsruher campeão em 1910

Num tempo sem Copa do Mundo e com o profissionalismo no futebol ainda incipiente, à exceção do Reino Unido, o feito se tornou o recorde oficial de gols por um só atleta numa partida internacional, ao lado dos dez gols feitos pelo dinamarquês Sophus Nielsen num 17 a 1 contra a França, em Londres-1908. A marca seria superada apenas em 2001 pelo australiano Archie Thompson, autor de 13 gols na vitória por 31 a 0 sobre Samoa Americana, pelas Eliminatórias da Copa de 2002.

A aventura olímpica de Fichs, porém, não foi longe: no jogo seguinte, desta vez atuando com o tridente formado por Forderer e Hirsch, o time foi derrotado por 3 a 1 pela Hungria e despediu-se de vez de Estocolmo. De volta para casa, os três seguiram atuando pelo Karlsruher até 1913, quando Hirsch se alistou no exército e, transferido para a Baviera, passou a jogar no Greuther Fürth, pelo qual foi campeão nacional em 1914. Seriam nomes fortes para defender a seleção que seria anfitriã da Olimpíada de 1916, marcada para Berlim, quando estourou a Primeira Guerra Mundial. Todos os adultos alemães foram para o front e a Olimpíada obviamente seria cancelada. Fuchs sofreu quatro ferimentos, mas sobreviveu, assim como Hirsch, que perdeu um irmão mais novo em combate. Ambos foram condecorados com a Cruz de Ferro do exército alemão após o fim do confronto.

Após a guerra, Fuchs voltou a jogar pelo Dusseldorfer, enquanto Hirsch retornou ao Karlsruher a tempo de reconquistar mais um título regional, agora pela liga do sudeste, em 1922. Não tiveram chances de jogar a Olimpíada de 1920, em Antuérpia, na Bélgica, porque a Alemanha, como perdedora da guerra, havia sido proibida de participar do evento. Recuperaria o direito de ter sua sede como capital para a edição de 1936, mas até lá muita água ia rolar sob as pontes do rio Reno.

Ao se aposentar da bola, Fuchs passou a trabalhar da empresa de marcenaria de sua família, que se mudou para Berlim em 1928. Chegou a se associar ao amigo Heirsch numa empresa fabricante de bolas e uniformes, negócio que durou até 1931. Dois anos depois, com a ascensão de Adolf Hitler, o antissemitismo que já era forte se tornou uma política de Estado. Uma das medidas foi restringir a presença de judeus apenas em clubes esportivos judaicos, até que eles fossem totalmente proibidos de participar de qualquer prática esportiva organizada. 

Assim, na Olimpíada de Berlim, a presença de judeus de qualquer nacionalidade foi proibida, com a conivência do presidente do Comitê Olímpico Internacional, Avery Brundage, um dos primeiros homens a defender que “política e esporte não se misturam” enquanto fazia política 100% do tempo. A exceção foi a esgrimista Helene Mayer, filha de pai judeu com mãe ariana, que havia sido campeã do florete em Amsterdã-1928 e recebeu autorização especial para competir – ficou com a medalha de prata. Gretel Bergmann, então recordista mundial do salto em altura, e Lilli Henoch, estrela nos arremessos de peso e disco, não contaram com o mesmo aval.

Gottfried Fuchs em ação

Aos poucos, com o cerco se fechando, quem podia tratou de fazer as malas – ou de, pelo menos, pensar no assunto. Em 1937, Gottfried Fuchs mudou-se com familiares para a Suíça, e depois para a França. Tentou convencer o amigo Hirsch, que chegou a passar uns meses com ele em Paris no ano seguinte, mas se recusou, com a esperança de que seu casamento com uma mulher de família ariana o salvaria. Em 1940, com a França também ocupada pelas forças nazistas, Fuchs conseguiu escapar para o Canadá, onde anglicizou seu nome para Godfrey. Julius Hirsch seria preso pela Gestapo em 1943 e morto num campo de concentração, história que a Trivela já contou aqui. Foi o mesmo destino de Lilli Henoch. Helene Mayer e Gretel Bergmann sobreviveram após fugir para os Estados Unidos.

Mas, ainda que vivo, o legado de Fuchs foi por muito tempo apagado pela Alemanha, mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota dos nazistas. Sua marca não fazia parte das estatísticas oficiais, com a alegação de que o jogo não era oficial, embora sempre tenha contado com a chancela da Fifa.

Ainda no início de 1972, o então técnico da seleção, Sepp Herberger, teve a ideia de sugerir à Federação Alemã de Futebol (DFB) que convidasse Fuchs para o jogo de inauguração do Estádio Olímpico de Munique, que seria disputado em 26 de maio contra a União Soviética. Fuchs era o único judeu ainda vivo com passagem pela seleção, e o treinador acreditou que seria uma boa oportunidade para um acerto de contas com o passado, no estádio que em breve receberia a Olimpíada. Seria uma homenagem, diante dos mesmos adversários, aos 60 anos do recorde do atacante. 

A resposta da federação levou um bom tempo e foi negativa, sob a alegação de que os custos seriam altos e que a homenagem poderia “abrir um precedente que poderia trazer fardos consideráveis ​​no futuro”, precedentes estes nunca devidamente explicados. Nos bastidores, dizia-se que membros do conselho diretor da DFB tinham feito parte do partido nazista na juventude. De toda forma, já era tarde demais: Fuchs havia morrido de enfarte em fevereiro, aos 84 anos, em Montreal. Três décadas depois de driblar a perseguição dos nazistas, escapou de ver uma constrangedora resposta negativa e, pior, de acompanhar o massacre de 11 israelenses sequestrados na Vila Olímpica.

Hoje, a DFB aceita em seus números o feito em 1912, reconhecendo Fuchs como o recordista de gols pela seleção numa só partida. Em Karlsruhe, a praça Gottfried Fuchs faz esquina com a avenida Julius Hirsch, perto do antigo campo onde os dois fizeram a alegria dos torcedores da cidade. Recentemente, os netos de ambos estiveram no Estádio Olímpico de Berlim para acompanhar uma partida e uma homenagem tardia. Reconhecimentos mínimos a dois talentos esportivos ofuscados pelo ódio.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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