Histórias Olímpicas

Antal Dunai: dos ouvidos no radinho às três medalhas olímpicas com a Hungria

O início promissor da Hungria nas Eliminatórias da Copa de 2022 certamente faz o país se animar e voltar a sonhar com os tempos de glória. Tempos que, numa primeira lembrança, remetem a Puskas, Kocsis e à brilhante geração que teve no ouro de Helsinque-1952 seu maior resultado.

Mas há outras equipes gloriosas e outros astros que brilharam com o símbolo da Hungria depois da geração dos mágicos magiares, e talvez nenhum deles tenha ido tão longe ma glória olímpica quando Antal Dunai, o camisa 10 que destruiu a Bulgária na final de 1968, na Cidade do México, e se despediu com três medalhas: duas de ouro e uma de prata.

Clique no player abaixo para ouvir a edição do OlimpCast sobre os Jogos da Cidade do México-1968

O jovem Antal se aproximou do futebol ainda na infância, com os ouvidos ligados no radinho em sua cidade natal, Gara, localizada no sul do país, perto da divisa com a Croácia – então Iugoslávia. Como toda criança húngara nascida nos anos 40 (no caso dele, em 1943), sua inspiração era a turma de Puskas. “Ouvíamos os jogos e íamos para a rua tentar imitar o que eles faziam”, contou recentemente em entrevista ao jornal espanhol “As”.

Mas, depois do exílio de parte do time, em 1956, e de a família comprar sua primeira televisão, a inspiração veio de fora: o argentino Sivori, que defendia a Juventus de Turim. “A gente tinha acesso ao sinal dos canais italianos e via muitos jogos da Juventus. Via Sivori, tentava entender seus movimentos e sua técnica para copiá-lo”, disse.

O irmão mais velho, Janos, nascido em 1937, foi o primeiro da família a adotar o futebol como trabalho – ainda que, lembremos, oficialmente o futebol nos países do bloco socialista não era profissional. Janos foi jogar no Bajai e em 1959 transferiu-se para o Pecsi, time da vizinha cidade de Pécs, a maior da região. Logo apareceu no foco da desfalcada seleção – que conseguiu se remontar muito bem a ponte de ganhar a medalha de bronze nos Jogos de Roma-1960.

No ano seguinte, Antal, aos 18 anos, juntou-se ao irmão no Pecsi. E começou logo a fazer gols, muitos gols. A ponto de superar o irmão e ser o convocado da família para a Olimpíada seguinte, em Tóquio. Aos 21 anos, ficou no banco o tempo todo e voltou para casa com uma medalha de ouro no peito, devido principalmente ao brilhante desempenho de Ferenc Benem autor de 12 gols na campanha vitoriosa em Tóquio.

Mesmo na reserva da seleção olímpica, chamou a atenção do Ujpesti, que tentava se firmar entre os grandes times do país. O bom desempenho não foi suficiente para levá-lo à seleção que jogou a Copa do Mundo, liderada por Bene e com Florian Alberr como coadjuvante, e que fez bonito, eliminando o Brasil e chegando às quartas de final, onde foi derrotada pela União Soviética.

Depois de 1967, porém, não havia como deixar Antal Dunai de fora da seleção: foram 36 gols no campeonato local, o segundo lugar na edição inaugural da Chuteira de Ouro, atrás apenas de ninguém menos que o gênio Eusébio, e a convocação para ir ao México em busca do segundo ouro olímpico consecutivo – camisa 10 às costas e jogando um pouco mais recuado, como um ponta de lança, com a missão de surpreender na área. O time começou voando: 4 a 0 sobre El Salvador, mas tropeçou em seguida: empate por 2 a 2 com Gana. Dunai, que havia marcado um gol em cada jogo, assumiu de vez a condição de protagonista, fazendo os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre Israel que garantiu o primeiro lugar no grupo.

Nas quartas, outra seleção vizinha dos Jogos e o duelo mais difícil: 1 a 0 suado em cima da Guatemala, gol marcado por Lajos Suckz. Nas semifinais, outra zebra, o Japão de Kunishige Kamamoto, que seria o artilheiro da competição e havia eliminado a França na fase anterior. Mas essa foi superada com facilidade: 5 a 0, três gols de Suckz e dois de Deszo Novak.

Chegou então a final contra a Bulgária. Os ânimos estavam acirrados, já que a Hungria vinha levando vantagem em sucessivos confrontos, como os 6 a 1 da Copa de 1962 e os 3 a 1 de 1966, ambos jogos na fase de grupos. Embora os times fossem bem diferentes, dois anos depois, a tensão estava no ar e aumentou quando os búlgaros saíram na frente, com um gol de Tzvetan Veselinov após cobrança de escanteio, aos 22 minutos. A Hungria só foi empatar as 40 minutos, com Ivan Menczel, um remanescente da seleção de 1962.

E aí a coisa ferveu de vez. No minuto seguinte, um rápido contra-ataque pela esquerda terminou com a virada húngara: Antal Dunai chegou antes do zagueiro para marcar após um cruzamento. Aos 42, logo depois da saída de bola, a Hungria recuperou a posse e recuou para o goleiro Karoly Peter. Ele deu um chutão em busca de Dunai, que conseguiu dominar e levou uma paulada de Tzvetan Dimitrov.

O juiz mexicano Leo de Diego imediatamente expulsou o defensor búlgaro (com gestos, já que ainda não havia os cartões amarelo e vermelho), e os demais jogadores o cercaram. Sobrou ainda para o lateral Kiril Ivkov e o atacante Atanasse Christov – este por jogar uma bola despretensiosa direto na cabeça do árbitro durante a confusão.

Com três a menos e o tradicional calor infernal do Estádio Azteca, a Bulgária foi presa fácil no segundo tempo. Dunai fez mais um, numa cabeçada perfeita após cruzamento da direita, e Istvan Juhász completou a goleada: 4 a 1, terceira medalha de ouro para a Hungria, igualando a marca do Reino Unido – como essa conta inclui o inusitado ouro em um jogo só do Upton Park em Paris-1900, é possível colocar a Hungria até hoje como a maior campeã do futebol olímpico.

No vídeo abaixo, os gols e os principais lances da final. Este vídeo tem menos lances, mas em cores, além de trazer cenas da final do basquete entre Estados Unidos e Iugoslávia.

De volta para casa, Dunai fechou o ano de 1968 com 32 gols na liga local, e no ano seguinte ajudou o Ujpesti a sair de uma fila de quase uma década, com os títulos seguidos em 1969, 1970 (ano em que torneio foi encurtado para se readaptar ao calendário europeu) e 1970-71. Ganhou enfim uma chance na seleção principal e em 1972 disputou tanto a Eurocopa quanto a Olimpíada de Munique.

Na Alemanha, jogou mais avançado, marcou sete gols e dividiu o protagonismo com Ede Dunai, companheiro de time com quem não tinha parentesco. O sonho do tri parou na derrota por 2 a 1 para a Polônia de Kazimiersz Deyna. Em queda física, Antal seguiu no Ujpesti até 1976, e ainda teve fôlego para mais dois anos no Debrecen, um no Simmeringer, da Áustria, e mais um semestre de volta ao Ujpesti antes de se aposentar, em 1981. Migrou para a Espanha e lá virou técnico, passando sem grande sucesso por Xerez, Betis, Castellón, Murcia e Levante.

Em 1993, de volta ao país, foi selecionado para dirigiu a seleção sub-21 da Hungria, que foi eliminada pela Escócia nas quartas de final da Euro da categoria, mas herdou a vaga do algoz nos Jogos de Atlanta. O time ficou pelo caminho com três derrotas na primeira fase, para Nigéria, Brasil e Japão, mas é lembrado com carinho por ser a última participação do país no torneio olímpico de futebol. Ocupou por alguns anos a vice-presidência da Federação Húngara e hoje, aos 78 anos, vive hoje em Budapeste e segue acompanhando o futebol de perto.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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