Histórias Olímpicas

Kunishige Kamamoto: o maior goleador do Japão também deixou sua marca nas Olimpíadas

O período do amadorismo fajuto que predominou no futebol olímpico entre as décadas de 1950 e 1970 permitiu aos países do então bloco socialista alcançarem grandes conquistas, mas também abriu espaço para que seleções de menor expressão não apenas conseguissem se desenvolver no esporte, mas também obtivessem resultados e feitos históricos. Um desses feitos foi a medalha de bronze conquistada pelo Japão nos Jogos da Cidade do México, em 1968, com um detalhe que tornou a conquista ainda mais saborosa: a consagração do centroavante Kunishige Kamamoto como goleador do torneio.

Mas essa história começa quatro anos antes, quando o Japão recebeu pela primeira vez os Jogos Olímpicos, com a intenção de vender ao mundo uma imagem de país cosmopolita, que queria superar as barreiras da língua e da distância para se integrar ao Ocidente.

Para conhecer mais histórias dos jogos de Tóquio, ouça o episódio 17 do Olimpcast. É só clicar:

Kamamoto tinha então 20 anos e era um estudante na Universidade de Waseda. Nascera em Kyoto, filho de um policial que havia deixado o curso de Direito e uma dona de casa que contava ter corrido ao lado de Kinue Hitomi, a primeira mulher japonesa a ganhar uma medalha olímpica, prata nos 800 metros rasos em Amsterdã-1928. Seu desempenho bom mesmo não era nas salas de aula, mas como centroavante do time da instituição, que havia encantado o país em 1963 ao conquistar a Copa do Imperador – na final, fez 3 a 0 no Hitachi, então um dos melhores times da liga nacional, ainda amadora, e que depois se tornaria o Kashiwa Reysol.

Chamado pela primeira vez em março, para um amistoso contra Cingapura, começou bem, marcando um gol na vitória por 2 a 1. Como continuou tendo bom desempenho na liga universitária, garantiu sua presença no time que disputou a Olimpíada e avançou às quartas de final, vencendo a Argentina por 3 a 2 e perdendo de Gana pelo mesmo placar – o quarto time da chave seria a Itália, que acabou desclassificada pela acusação de ter usado profissionais nos jogos do Pré-Olímpico. A Polônia, eliminada pelos italianos, chegou a ser convidada para ocupar a vaga, mas recusou.

Nas quartas, porém, os japoneses tomaram um banho de realidade e levaram 4 a 0 da Tchecoslováquia, que ficaria depois com a medalha de prata. Kamamoto foi titular em todos os jogos, mas passou em branco – só marcaria na despedida, uma semifinal entre os eliminados em que o time tomou outra goleada, 6 a 1 para a Iugoslávia.

No ciclo olímpico até a Cidade do México, o atacante ganhou mais uma Copa do Imperador com o time da universidade e se transferiu para o Yanmar Diesel, o único clube em que jogaria pelo restante da carreira – e que nos anos 90, com a criação da J-League e a profissionalização definitiva do futebol no país, se tornaria o Cerezo Osaka (que ganhou esse nome por referência às cerejeiras típicas da região e não por causa do nosso Toninho Cerezo, sempre é bom lembrar).

Kamamoto pelo Yanmar

Com boas atuações, Namamoto foi mais uma vez lembrado para a seleção já no Pré-Olímpico, onde foi fundamental, marcando 11 gols em cinco jogos – seis deles só numa goleada por 15 a 0 sobre as Filipinas. No México, deixou três logo na estreia, na vitória por 3 a 1 sobre a Nigéria; neste vídeo curtinho é possível ver o segundo gol. Depois, passou em branco no empate por 1 a 1 com um Brasil em que só teriam alguma fama os atacantes Manoel Maria, revelado no Santos com um bom coadjuvante para a reta final de Pelé, e Fernando Ferretti, que depois seria campeão carioca com o Botafogo.

Na última rodada, um 0 a 0 com a Espanha, combinado com o empate por 3 a 3 do Brasil com a Nigéria, serviu para classificar a equipe asiática, a quem coube a missão de enfrentar a França. A sorte é que era uma França esvaziada, de poucos talentos que ficaram na memória e cuja geração fracassaria na luta para chegar às Copas do Mundo de 1970 e 1974. Com dois de nosso herói Kamamoto, o Japão fez 3 a 1 e avançou às semifinais, onde um novo encontro com uma seleção da Cortina de Ferro terminou: 5 a 0 para a Hungria, que havia sido ouro em Tóquio e repetiria o feito no México, talvez a melhor Hungria depois do fim da geração de Puskas.

Restou aos japoneses batalhar com os donos da casa pela medalha de bronze. Diante de 105 mil fanáticos torcedores que lotaram o Estádio Azteca na tarde de 24 de outubro de 1968 (dois dias depois seriam 30 mil a menos na decisão), os japoneses estragaram a festa. Ou melhor: Kamamoto estragou a festa, com os dois gols da vitória por 2 a 0, ambos no primeiro tempo. Em 2017, Kamamoto contou em entrevista ao site da AFC (que pode ser lida aqui)  que no final do jogo os japoneses ganharam a simpatia dos mexicanos, que chegaram até a gritar “Japão” e ajudaram a fazer cera nos minutos finais, se recusando a devolver a bola.

Ele terminou como o artilheiro dos Jogos – para se ter uma ideia do tamanho desse feito, nunca mais um japonês foi goleador máximo de um torneio de alcance mundial, mesmo em categorias de base. Na volta para casa, o time foi recebido pelo imperador Hiroito e os jogadores ganham como prêmio… um maço de cigarros embrulhados com o símbolo da família real, que ele deu ao pai.

Yamamoto na seleção

Kamamoto seguiu sua carreira como uma das grandes estrelas do futebol japonês que tentava crescer. Jogou na seleção até 1976, despedindo-se como o maior goleador dos Samurais Azuis, com a incrível marca de 75 gols em 76 partidas – na verdade são 80 gols em 84 jogos, mas as prosaicas estatísticas da JFA, a Federação Japonesa considera,, nas Olimpíadas, apenas as partidas contra seleções que também eram amadoras – ou seja, entram na conta os três gols marcados contra a Nigéria, mas não os quatro feitos contra franceses e mexicanos, além daquele marcado contra a Iugoslávia em Tóquio.

No clube, Kamamoto jogou até 1984 – sendo que, desde 1978, acumulou o cargo de técnico. Foi sete vezes artilheiro da JSL, a liga dos tempos antes da J-League. Ganhou quatro títulos (1971, 1947, 1975 e 1980), mais três na Copa do Imperador (1968, 1970 e 1974) e outros três na Copa da Liga (1973, 1983 e 1984). Aposentou-se aos 40 anos, com direito à presença de ninguém menos que Pelé atuando por alguns minutos a seu lado no jogo de despedida, como mostra o vídeo abaixo.

Bildnummer: 02559884 Datum: 14.09.1977 Copyright: imago/AFLOSPORT Pele (Cosmos New York, li.) und Kunishige Kamamoto (Japan, 2.v.li.) bei der Mannschaftsvorstellung während Peles Abschiedsspiels 1977 in Tokyo - PUBLICATIONxINxGERxSUIxAUTxHUNxONLY (aflo348); Vneg, Vsw, quer Vorstellung, Wimpel, Vereinswimpel Peles Abschiedsspiel 1977, Abschied, Verabschiedung, verabschieden, Tokyo Fußball Herren Mannschaft Gruppenbild Randmotiv Personen
Kunishige Kamamoto ao lado de Pelé, em 1977, em jogo contra o Cosmos

Anos depois, Kamamoto surpreendeu ao aceitar o posto de técnico do Matsushita Electric, o principal rival do Yanmar – que se tornaria o Gamba Osaka, jogando sob seu comando nas duas primeiras edições da J-League, em 1993 e1994. Deixou o cargo e assumiu uma cadeira na Casa dos Conselheiros, equivalente ao Senado no país, ocupando o cargo por seis anos, até 2001. Depois, ainda foi vice-presidente da JFA, cargo que deixou em 2008. Aos 76 anos, se a pandemia deixar, terá a chance de ver os Jogos Olímpicos de perto mais uma vez no ano que vem.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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