Histórias Olímpicas

Upton Park: 90 minutos para um título olímpico sem ouro em Paris-1900

O otimismo de um mundo que seria dominado pela tecnologia era uma das marcas da Exposição Universal realizada em Paris, durante todo o ano de 1900. Com estandes de diversos tipos em pavilhões espalhados pela cidade, o evento celebrava as conquistas do passado e sonhava com uma evolução liderada pelas máquinas que facilitariam a vida da humanidade, aumentando suas horas de folga.

Faltou combinar com o capitalismo, é verdade. Mas o fato é que, em meio às atrações da exposição, alguém achou que seria uma boa ideia realizar simultaneamente a segunda edição dos Jogos Olímpicos. Mais: esse alguém (ou um deles) foi o barão Pierre de Coubertin, o homem responsável pela criação de um evento multiesportivo inspirado em competições gregas de 2.500 anos e que haviam recomeçado em Atenas, em 1896.

Coubertin chegou até a sonhar com uma réplica da antiga Olímpia, com estádios e estatuas no padrão grego, mas o diretor da exposição, Alfred Picard, teve um lapso de bom senso e freou a ideia: seria anacrônico demais reproduzir o passado numa feira criada para celebrar o futuro. E, assim, Coubertin e o ainda jovem Comitê Olímpico Internacional tiveram que se virar com o que havia disponível. Houve competições de 14 de maio a 28 de outubro. 

Ouça o episódio 2 do OlimpCast para saber mais histórias dos Jogos de Paris-1900:

Para ampliar o interesse dos visitantes, os dirigentes resolveram organizar também o primeiro torneio olímpico de futebol, uma vez que o esporte se tornava cada vez mais um sucesso de público através da Europa. Mas, num tempo em que ainda não havia Fifa (fundada só em 1904), e o futebol de seleções ainda era incipiente, a organização foi uma completa bagunça.

Para começar que cinco países se inscreveram para o torneio: a anfitriã França, Bélgica, Alemanha, Suíça e Reino Unido. E, em vez de duelos entre as equipes, os organizadores marcaram uma série de quatro jogos para a seleção local, cada uma contra um dos representantes estrangeiros. Mas suíços e alemães logo perceberam o tamanho do rombo na barca e pularam fora, assim como o Racing de Bruxelas, campeão belga na temporada 1899/1900 – o país acabou indicando o time da Universidade Livre de Bruxelas. A França se apresentou com o Club Français, uma equipe amadora de Paris.

Na Inglaterra, a coisa foi complicada porque o futebol já era profissional entre os principais clubes, e o amadorismo era uma condição inegociável para Coubertin e os dirigentes do COI. Restou à FA sondar os clubes amadores, e o modesto Upton Park FC abraçou a missão. Fundado em 1866 no bairro de mesmo nome, o clube havia feito parte da primeira FA Cup, na temporada 1871/1872, mas jamais fora além das quartas de final e chegou a fechar as portas em 1887, reabrindo quatro anos mais tarde. O nome mais conhecido da equipe era Claude Buckenham, que seria reconhecido futuramente como um dos grandes jogadores da época… no críquete.

Os jogadores do Upton Park

Pois bem: em 20 de setembro de 1900, diante de apenas 500 espectadores no Velódromo de Vincennes, o principal palco das competições olímpicas, o Upton entrou em campo representando o Reino Unido diante do selecionado francês. E, mesmo longe de mostrar o melhor futebol que pudesse ser visto nas ilhas britânicas, venceu com tranquilidade: 4 a 0. Os registros anotam dois gols de John Nicholas, um de Arthur Turner e outro de James Zealley. 

Três dias depois, desta vez com 1.500 torcedores presentes, o time da França voltou a campo contra os belgas. Saiu na frente, levou a virada ainda no primeiro tempo, revirou e goleou: placar final de 6 a 2. Não há nenhum registro de cerimônia de premiação após qualquer um dos jogos. Na época, não havia entrega de medalhas, rotina iniciada apenas oito anos depois, em Londres. Para falar a verdade, foi uma completa baderna – a ponto de Coubertin, resignado, ter dito anos depois a amigos que “foi um milagre o movimento olímpico ter sobrevivido aos Jogos de 1900”. 

Anos depois, o COI convencionou que o primeiro jogo havia sido a final, e tardiamente anotou nas estatísticas a medalha de ouro para o Reino Unido, provavelmente usando um raciocínio quase sofista: “Se eles ganharam da França, e a França ganhou da Bélgica, eles ganhariam também da Bélgica, então o ouro é deles”. Os franceses “levaram” a prata; os belgas, o bronze. O Upton Park FC continuou disputando competições amadoras até fechar as portas em 1911, mas com o legado de um ouro olímpico – nada mal para uma vitória tranquila numa agradável tarde de quinta-feira em Paris. 

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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