Histórias Olímpicas

Kazimiersz Deyna: herói do ouro de uma Polônia cheia de craques

Eleito o melhor jogador do mundo em 2020, o centroavante Robert Lewandowski admitiu na semana passada que ainda estranha ter recebido a premiação porque “não era para uma criança polonesa ser o melhor do mundo”. Isso pode de fato parecer estranho para um jogador nascido em 1988, dois anos depois da última vez que sua seleção disputou uma partida de mata-mata de Copa do Mundo. Mas, uma década antes, o futebol polonês viveu seu auge, representado na figura de um craque, Kasimierz Deyna.

Nascido em Gdansk em 23 de outubro de 1947, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e da libertação do país, cuja ocupação pelos alemães selou o início do confronto, em 1939, Deyna começou a jogar na adolescência pelo Włókniarz Starogard Gdanski, e teve sua primeira chance num clube profissional a alguns dias de completar 19 anos, jogando pelo ŁKS Łódź. Sua passagem lá durou uma única partida: logo ele foi levado para o Legia Varsovia, um dos principais clubes do país, ligado às Forças Armadas.

Eram os tempos, como já dissemos em outras Histórias Olímpicas, do falso amadorismo nos países do bloco socialista sob influência da União Soviética. E, nesse cenário, Deyna foi nomeado oficial do Exército com a responsabilidade de… jogar bola. Cumpriu à risca a tarefa: com ele cada vez mais presente no elenco, o time foi bicampeão nacional em 1969 e 1970.

Deyna era um meia “das antigas”, com ótima visão de jogo, facilidade no passe e boa chegada à área, o que lhe permitia fazer muitos gols – só com a camisa do Legia foram 93 em 304 partidas, uma excelente média de quase um gol a cada três jogos. Na seleção, sua história começa a ganhar destaque em 1972, nos Jogos Olímpicos de Munique.

Medalha de ouro com a Polônia em Munique-1972

Os Jogos de Munique-1972 foram marcados pelo massacre de 11 atletas, técnicos e dirigentes israelenses, mortos depois de um sequestro na Vila Olímpica. Saiba mais ouvindo o OlimpCast #21, no tocador abaixo.

A vaga havia sido conquistada de forma tranquila num mata-mata contra a Grécia, na primavera do ano anterior: 7 a 0 em casa, 1 a 0 fora, gol de Deyna nesta partida. O sorteio colocou a Polônia num grupo com Colômbia, Gana e Alemanha Oriental, e logo na estreia os colombianos foram presa fácil: 5 a 1 para os poloneses, com dois gols de Deyna e três de Robert Gadocha. Depois, contra Gana, novo passeio: 4 a 0, com gois de Gadocha, um de Deyna e outro de Włodzimierz Lubański. Na decisão do primeiro lugar da chave, o zagueiro Jerzy Gorgoń marcou duas vezes e garantiu a vitória por 2 a 1 sobre os alemães orientais. Aquele foi o único jogo em que Deyna passou em branco.

O regulamento daquela Olimpíada, disputada por 16 seleções, antecipou o que viria nas duas Copas seguintes: em vez de mata-matas nas quartas de final e semifinais, os oito classificados foram divididos em dois grupos, e os vencedores fariam a decisão da medalha de ouro. A Polônia teve uma estreia dura contra a sempre forte Dinamarca, que não era comunista mas também não profissionalizara seu futebol e, por isso, entrava sempre com força máxima nos Jogos. Deyna marcou o gol do empate por 1 a 1, depois de Hansen abrir o placar para os nórdicos. No jogo seguinte, os poloneses teriam pela frente a União Soviética, e Igor Blokhin abriu o placar na etapa inicial. Depois de muita pressão, a Polônia virou no segundo tempo, gols de Deyna, de pênalti, e Zygfryd Szołtysik, este aos 42 minutos.

No outro jogo, a Dinamarca bateu Marrocos por 3 a 1 e assumiu a liderança da chave no saldo. Assim, as duas seleções foram para a rodada decisiva com um olho em cada campo. Em Nuremberg, a Polônia selou seu avanço com um sonoro 5 a 0 sobre os marroquinos, com dois de Deyna, um em cada tempo – Kasimiersz Kmiecik e os já citados Lubanski e Gadocha completaram o massacre. Ao mesmo tempo, em Augsburg, a Dinamarca sucumbia diante dos soviéticos, levando 4 a 0 e perdendo até a chance de lutar pelo bronze.

Bronze que, aliás, acabou dividido: União Soviética e Alemanha Oriental empataram por 2 a 2 e ainda não havia regulamentação de disputa de pênaltis, fazendo com que as duas seleções compartilhassem o pódio (se houvesse talvez não adiantasse muito, visto que o árbitro desse jogo foi o brasileiro Armando Marques, que ano seguinte erraria as contas na decisão entre Santos e Portuguesa, fazendo com os dois times dividissem o título paulista).

Na disputa do ouro, a Polônia enfrentou a Hungria, que buscava o inédito tricampeonato olímpico depois das conquistas de Tóquio-1964 e Cidade do México-1968. Os magiares saíram na frente com um gol de Bela Varady, aproveitando uma bola perdida pela defesa polonesa, aos 42 do primeiro tempo. Mas não tiveram muito tempo para comemorar: aos 2 minutos da etapa final, Deyna recebeu passe da esquerda, avançou pelo meio, driblou dois húngaros e bateu seco, rasteiro, longe do alcance do goleiro István Géczi.

A virada veio aos 23 minutos: um cruzamento da esquerda tentou encontrar Lubanski, ele se atrapalhou com os zagueiros húngaros e Deyna, honrando a camisa 9 que vestia, como um verdadeiro centroavante, aproveitou o rebote, limpou o goleiro e tocou para o gol vazio. Além de campeão, artilheiro: foram nove gols em sete partidas e a maior conquista da história do futebol da Polônia.

Mas a seleção não parou por aí, e se firmou nos anos seguintes como uma das forças do futebol europeu. Em 1973, classificou-se para a Copa do Mundo como campeã do grupo que tinha ainda Inglaterra e País de Gales. A equipe estreou com derrota por 2 a 0 para os galeses em Cardiff, mas se reabilitou e venceu ambos em casa: 2 a 0 nos ingleses, 3 a 0 em Gales. Na última rodada, em Wembley, um empate por 1 a 1 definiu a classificação polonesa. Deyna não marcou gols nas Eliminatórias, mas esteve presente em todos os jogos e, no ano seguinte, de volta à Alemanha Ocidental, foi escolhido o capitão do time, com três gols marcados. A Polônia terminou em terceiro, depois de vencer o Brasil por 1 a 0, e teve novamente o artilheiro da competição, Lato, com sete gols.

Montreal-1976, Copa-1978 e fim da carreira

Em 1976, Deyna foi a Montreal para comandar uma nova aventura olímpica da Polônia. Seguiu como titular e capitão do time, que começou mal, empatando por 0 a 0 com Cuba num grupo de três seleções: Gana boicotou os Jogos na última hora, junto com boa parte dos países africanos, em protesto contra a presença da Nova Zelândia, acusada de quebrar o embargo que havia contra a África do Sul, por causa do regime do Apartheid, para disputar uma série de amistosos de rúgbi.

O boicote africano e outras histórias dos Jogos de Montreal-1976, estão contadas no OlimpCast #22, que você pode ouvir abaixo. Aperte o play!

No outro jogo, Deyna marcou seu único gol, que virou para 2 a 1 um complicado jogo contra o Irã – acabou 3 a 2 para a Polônia, que avançou às quartas de final, onde atropelou a Coreia do Norte, 5 a 0. Nas semifinais, 2 a 0 em cima do Brasil de Carlos, Edinho e Júnior. Mas, na decisão, o time não resistiu à força da Alemanha Oriental e foi derrotado por 3 a 1. Restou o consolo de ter novamente o artilheiro, Andrzej Szarmach, com seis gols. Em 1978, a seleção voltou à Copa, depois de eliminar Portugal, Dinamarca e Chipre nas Eliminatórias, e mais uma vez chegou à segunda fase.

Nos campos da Argentina, Deyna marcou seu último gol pela seleção, na vitória por 3 a 1 sobre o México, e fez sua despedida, na derrota por 3 a 1 para o Brasil. Após mais de uma década de bons serviços prestados, com 97 jogos e 41 gols pela seleção, ganhou um direito reservado a poucos até então: foi liberado para ganhar libras esterlinas com a camisa do Manchester City. Depois de três temporadas e apenas 43 jogos pelos azuis, com 13 gols, cruzou o Atlântico para defender o San Diego Sockers na NASL (North American Soccer League).

Aposentou-se após quatro temporadas, em 1984, aos 37 anos, e resolveu ficar morando no país. Além de jogar, esteve em outra seleção: o time de prisioneiros de guerra do inacreditável filme Fuga Para A Vitória, em que contracenou com Pelé, Bobby Moore, Osvaldo Ardiles e Sylvester Stallone. Enquanto isso, a Polônia seguiu fazendo bonito: ficou em terceiro lugar na Copa de 1982 e avançou às oitavas em 1986, caindo diante de um Brasil muitas vezes presente nesta história.  

Na madrugada de 1º de setembro de 1989, a pouco mais de um mês de completar 42 anos, Kasimierz Deyna morreu num acidente de trânsito numa estrada da Califórnia, ao bater seu Dodge numa caminhonete — segundo as investigações da polícia, provavelmente dormiu ao volante, porque não ficaram marcas de frenagem na pista. Uma lenda que deixou saudades, uma referência a menos para o menino Robert, que havia acabado de celebrar seu primeiro aniversário e hoje, mais de três décadas depois, finalmente mostra que, sim, um jogador polonês pode estar entre os melhores do mundo. Assim como Deyna esteve nos anos 1970.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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