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Tim Vickery: A Inglaterra campeã europeia e os desafios da seleção brasileira feminina

Vitória da seleção inglesa na Euro Feminina 2025 deixa grandes lições para outros torneios da modalidade

Domingo à noite, o centro de Londres foi festa. Uma multidão comemorando a vitória das Leoas — a seleção feminina do futebol — na Eurocopa feminina. Ingleses felizes, claro, e alguns torcedores espanhóis bem tristes — bem compreensível, pois jogou melhor e não mereceu perder por pênaltis.

Mas, maior que o resultado, foi mais um passo na consolidação de algo que está crescendo com uma velocidade impressionante. Trata-se, também, de uma modalidade importante.

Uma das batalhas da extrema direita nos Estados Unidos — com tanta influência no Brasil e no mundo — é a busca para colocar a mulher de volta no lar. Provavelmente isso vai intensificar nos próximos anos na medida em que a extrema direita fica mais tempo no poder nos EUA.

A ironia é que o futebol feminino ganhou força naquele país antes que os outros — basicamente porque tratava-se de uma maneira barata de fornecer uma opção esportiva para mulheres no sistema educacional.

Chloe Kelly comemora gol da Inglaterra
Chloe Kelly comemora gol da Inglaterra na semifinal. Foto: IMAGO

Nos Estados Unidos, então, o futebol era uma atividade vista como adequada para mulheres. Em outros países, o futebol feminino tem mais poder, justamente porque é visto como mulheres começando a ocupar um espaço tradicionalmente masculino. Ou seja, a existência e crescimento vira uma bandeira para mulheres que não são mais dispostas a aceitar limitações colocadas por homens.

Neste contexto, temos motivos para comemorar o desenvolvimento do futebol feminino na América do Sul.

Houve, sim, bastante progresso nos últimos 30 anos.

Uma das minhas histórias preferidas é sobre a seleção brasileira que foi disputar os Jogos Olímpicos nos Estados Unidos em 1996, a primeira vez que o futebol feminino fazia parte do evento.

Parece que a CBF não levava muita fé. Tudo foi feito de uma maneira barata. Até as flâmulas. O time só levou flâmulas para os jogos na fase de grupos. Aí, classificou. Não tinha mais flâmulas para trocar com o outro time. A goleira falava inglês e ensinou à capitã o suficiente para pedir desculpas para a sua adversária.

Seleção brasileira em atuação na Copa América (Foto: Fotos : Lívia Villas Boas / CBF)
Seleção brasileira em atuação na Copa América (Foto: Fotos : Lívia Villas Boas / CBF)

Seria impensável hoje em dia. O futebol feminino ganhou outra dimensão. É impossível exagerar a importância da Marta, uma jogadora que acabou tornando o futebol feminino legítimo para duas ou três gerações em lugares onde, sem o seu talento extraordinário, teria sido muito mais difícil.
Mas, agora, para onde vai o futebol feminino sul-americano? O contraste com a Europa é gritante, o abismo entre a Eurocopa e a Copa América é deprimente.

A Europa está claramente ficando menos importante no mundo — mas, até agora, isso não se aplica ao futebol, especialmente feminino. Tem várias vantagens, uma delas a curta distância entre países. A Suíça foi um lugar excelente para ter um torneio — de fácil acesso para torcedores de muitas seleções. Quebrou o recorde para ingressos vendidos — e parte dessa história é a torcida do País de Gales, que teve uma viagem mais longa para apoiar um time sem qualquer chance de ganhar, e ainda assim levou bastante gente.

A América do Sul não desfruta das mesmas características — e tem uma outra diferença chave. A Europa tem mais países, com potencial para equilibrar as forças e uma dinâmica feroz de concorrência. As melhores seleções agora são Inglaterra e Espanha. Pouco tempo atrás essas não eram nada no futebol feminino, e Alemanha e os países da Escandinávia tinham a supremacia. Existe, então, uma dinâmica de países desenvolvendo a sua cultura de futebol feminino, repensando, recriando, investindo na busca para superar os rivais.

Inglaterra campeã da Eurocopa Feminina de 2025 (Foto: Lionesses/X)
Inglaterra campeã da Eurocopa Feminina de 2025 (Foto: Lionesses/X)

A fase decisiva da Copa América pode mostrar o contrário. Mas até agora, estamos contemplando um cenário da supremacia brasileira sem fim. E com o Campeonato Brasileiro levando algumas das melhores jogadoras das seleções vizinhas, a consolidação fica complicada nos outros países do continente. É uma situação parecida com aquela do futebol dos clubes na América do Sul — mas onde a Argentina e Uruguai não têm a mesma força da tradição.

Os desafios da seleção brasileira não são continentais, são globais — o que me deixa muito curioso para ver os impactos da próxima Copa do Mundo. Mais um título mundial para a Espanha? Outro para a Inglaterra? Uma nova força surpreendendo? Os Estados Unidos? Ou Brasil, jogando em casa?

Daqui a dois anos, a gente vai ter um torneio fantástico para desfrutar. No campo, o resultado é imprevisível. Fora do campo, podemos esperar que o torneio vai gritar, contra todas as vozes reacionárias, que o lugar da mulher é onde ela quiser.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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