Futebol feminino

Futebol feminino acumula recordes em 2023, mas sofre com choque de realidade do machismo

A temporada foi marcada por um crescimento exponencial do futebol feminino, mas também por episódios trágicos de misoginia

Essa temporada foi marcada por um crescimento exponencial do futebol feminino. Cada vez mais, a modalidade tem atraído a atenção do público e gerado receitas interessantes para os clubes. Por exemplo, a Copa do Mundo Feminina da Austrália e Nova Zelândia, em julho deste ano, teve uma grande parcela no crescimento dos números, assim como as ligas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. 

Porém, os casos de misoginia seguem a mesma crescente. De Luis Rubiales e seu beijo forçado em Jenni Hermoso, em pleno palco de premiação da Copa, até os episódios recentes de assédio sexual nos vestiários, o futebol de mulheres ainda encara a dura realidade do machismo. 

Nesta retrospectiva da temporada de futebol feminino, a Trivela traz números, dados relevantes e as notícias que fizeram do ano de 2023 o maior de todos para a modalidade, mas, ao mesmo tempo, um período de choque de realidade sobre o preconceito.      

Copa do Mundo Feminina 

Por mais que tenha tido um gosto agridoce para os brasileiros, pela eliminação ainda na fase de grupos, a Copa do Mundo Feminina 2023 registrou números nunca vistos. Foi a primeira edição do torneio disputada com 32 seleções, também a que teve mais gols e público nos estádios, assim como a maior audiência da história da competição. 

Por exemplo, mais de 1,2 milhão de torcedores foram prestigiar o evento nas arenas ao longo da primeira fase. O valor representa um aumento de 29% em comparação com a edição de 2019, na França.

No Brasil, a Copa do Mundo Feminina foi exibida pela Rede Globo e registrou índices inéditos de audiência nas transmissões da modalidade. Na estreia da Seleção Brasileira no torneio, o canal de televisão obteve os melhores números em 15 anos na faixa de horário. Além disso, houve uma evolução de 100% em comparação com as semanas anteriores.

Em todo o mundo, 2 bilhões de pessoas acompanharam a Copa, um novo recorde, segundo levantamento realizado pela Fifa. As plataformas digitais da Fifa receberam mais de 50 milhões de visitantes ao longo do torneio, um aumento de 130% em comparação com a última edição. 

No entanto, nem tudo são flores. Um relatório da FIFPro (Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol) apontou que a probabilidade de uma jogadora ser ofendida nas redes sociais durante a Copa do Mundo é 29% maior que a dos equivalentes masculinos. As jogadoras norte-americanas estão no topo dessa lista, e os ataques foram direcionados a algumas específicas, predominantemente por motivação política. 

Além disso, o episódio lamentável que envolveu a agressão sexual a Jenni Hermoso pelo ex-presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), Luis Rubiales, enterrou as comemorações da seleção campeã do mundo. O que era para ser um momento de festa, se tornou mais um pesadelo para as mulheres que praticam futebol. 

Brasil e América do Sul

As últimas temporadas apresentaram uma evolução inédita na América do Sul, mas o crescimento foi notável neste ano. O “boom” de público nos estádios, aliado à audiência na televisão, superaram os anos anteriores. A final do último Campeonato Brasileiro, disputada entre Corinthians e Ferroviária, registrou o recorde de torcedores da categoria em todo continente, com 42.566 presentes na Neo Química Arena.

Além disso, o Corinthians elevou o sarrafo, conquistou a quádrupla coroa e, de quebra, ainda alçou o técnico Arthur Elias ao cargo de treinador da Seleção Feminina.

Na base, as coisas também caminharam a passos largos. Novidades no Campeonato Brasileiro, com a chegada das categorias sub-17 e sub-15, além da criação da Copinha, tradicional torneio que agora ganhou sua edição para meninas, assim como a competição amistosa Brasil Ladies Cup Sub-20. 

Por outro lado, os casos de assédio sexual e abuso moral explodiram nos bastidores do esporte feminino. Denúncias ao redor do mundo se unem a um cenário não tão diferente no Brasil. Uma onda de denúncias derrubou o treinador Kleiton Lima do comando do Santos. Ele foi acusado de assédio sexual e abuso moral por atletas. A Trivela contou detalhes em uma grande reportagem no mês de novembro

Todos os números citados e todas as informações divulgadas nesta retrospectiva pintam o panorama do que foi a temporada do futebol de mulheres. Ainda que as conquistas sejam grandes, ou melhor, gigantes, ainda há muito o que se evoluir enquanto sociedade. Não é só o campo bola que importa. O ambiente também precisa receber e sustentar as mulheres que jogam bola. No momento, o espaço ainda é inóspito, por mais que aparente não ser.

Foto de Livia Camillo

Livia Camillo

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.
Botão Voltar ao topo