Futebol feminino

Atlético-MG tenta ser ‘paixão nacional’, mas se desvaloriza negligenciando o futebol feminino

Atlético amarga lanterna e goleada no Brasileiro Feminino após cortar investimentos na modalidade

“Galo, uma paixão cada vez mais nacional”. Esse é posicionamento de marca que o Atlético-MG adota desde maio de 2023, ou seja, há quase um ano. A ideia é expandir o nome do clube cada vez mais, mostrando seriedade, conquistas e o sentimento que é ser torcedor atleticano. Mas o Alvinegro parece ter esquecido que o futebol feminino também representa a “marca Atlético”, e o escanteou, fazendo com que a modalidade se tornasse vexame nacional.

Quando uma marca quer apresentar algo, principalmente fidelizar isso, é crucial que ela se prepare e invista em todos os setores, para deixar o consumidor entendido que ali tudo funciona da forma correta. O Atlético, é claro, antes de tudo, é um clube de futebol. Mas, principalmente com a SAF, se tornando uma empresa, é cada vez mais uma marca, que precisa ser comercializada visando lucro.

No futebol masculino, as coisas andam bem, dentro do possível. Estádio novo, time considerado forte e sempre disputando, recentemente campeão nacional, tem um símbolo (Hulk) que espalha o nome do clube em todos os cantos do mundo, entre outros casos. Mas a empresa Atlético não é só o masculino, ela também é o feminino, e aí o Galo deixa a desejar cada vez mais, fazendo a marca perder força.

Falta de estrutura e de investimento

O time feminino do Atlético estava em uma crescente interessante nos últimos anos, subindo pela primeira vez para a elite nacional e sendo tricampeão Mineiro contra o Cruzeiro. O Galo tinha Lindsay Camila, uma das melhores técnicas da categoria, que havia conquistado a Libertadores antes de chegar ao clube, e parecia que o projeto estava no caminho. Mas, de repente, as coisas desandaram.

— Em 2020, o projeto começou a se estruturar mais e a equipe foi encorpando, até o acesso em 21. Em 2022, o Galo montou um bom elenco e quase se classificou para as oitavas do Brasileiro, mas a partir daí começou o corte no investimento, que se aprofundou com a chegada da SAF — afirmou a jornalista Natália Andrade, que acompanha de perto o dia a dia do futebol feminino e entende que o Galo nunca fez muita questão da modalidade.

Em 2023, muitos problemas, falta de investimentos e, principalmente, de estrutura. No fim do ano, várias jogadoras fizeram denúncias sobre as más condições de trabalho que o Atlético dava, com falta de material e local adequado para treinos. Esse mesmo time perdeu pela primeira vez a final do Mineiro, e quase foi rebaixado no Brasileirão, ficando na primeira posição fora do Z4. Além de ter mandado embora a técnica Lindsay Camila, citada acima, ainda no início do nacional.

— No ano passado, o time teve um desempenho ruim, quase caiu no Brasileiro e perdeu o Mineiro. Muito pelas condições as quais as atletas eram submetidas e que já foram expostas. Ainda assim, o time tinha bons nomes e, bem estruturado, poderia fazer mais — disse Natália.

Mas, como tudo que é ruim pode piorar, em 2024, o Atlético escanteou ainda mais o time feminino. Reformulou praticamente o elenco inteiro, sem sequer dar satisfação para a maioria das atletas no fim de 2023, e decidiu optar pelo corte de gastos. O investimento no feminino caiu de R$ 9 milhões para R$ 5 milhões, que, segundo o CEO do Galo, Bruno Muzzi, é porque, como SAF, não há mais como pegar recursos das Leis de Incentivo. Além disso, o time montado é, visivelmente, um dos mais fracos da elite nacional

— O resultado a gente vê em campo, um desnível técnico absurdo, que, talvez se as atletas tivessem feito uma boa pré-temporada, não fosse tão grande — concluiu Natália.

O lado “positivo” é que uma estrutura um pouco melhor foi dada para as jogadoras — que era o mínimo —, com elas agora treinando na Vila Olímpica, antigo CT atleticano e hoje um clube de lazer. Mesmo assim, passa longe de ser algo da magnitude da Cidade do Galo, por exemplo, que tem oito campos de treinamentos e um local que poderia receber as atletas.

Vexame nacional e o enfraquecimento da marca Atlético

A prova de que a reformulação feita pelo Atlético no feminino foi para pior está nas primeiras cinco rodadas do Brasileiro A1. De todos os 16 times na disputa, só um sequer pontuou e ainda soma 14 gols sofridos, ou seja, uma média de quase três por jogo. O nome dele? Clube Atlético Mineiro.

Para completar o vexame, na última rodada, o Atlético levou uma sonora goleada de 6 a 0 para o América-MG. Esse mesmo América foi freguês do Galo nos últimos anos, perdendo algumas semifinais de Mineiro e um acesso para a Série A1. Acesso esse que as meninas do Coelho conseguiram no último ano, e já fazem mais bonito que o Alvinegro, estando atualmente em 7° na elite nacional, enquanto o time atleticano, claro, amarga a lanterna.

Em 2023, o Ceará, rebaixado com o masculino para a Série B em 2022, sucateou de todas as formas possíveis o time feminino. O resultado? Goleadas atrás de goleadas no torneio nacional, que geraram revolta e matérias negativas sobre o clube, que terminou o Brasileirão com apenas um ponto, 74 gols sofridos e apenas sete marcados. Com o Galo, o mesmo parece estar acontecendo, com a diferença de que o clube não foi rebaixado, pelo contrário, está firme e forte na elite.

Não há explicação lógica para o escanteamento do Galo Feminino

Com o América pela primeira vez na elite e um time muito mais forte (vide a goleada no último jogo), fica mais inexplicável ainda como e porque o Atlético não tem investimento para ter um time, no mínimo, competitivo no futebol feminino. O Coelho foi rebaixado para a Série B no masculino e ainda mantém um time bom, enquanto o Galo, que foi 3° colocado em 2023, aumentou consideravelmente suas receitas com a Arena MRV, disputa Libertadores, tem boa cota de TV, virou SAF, entre outros, não pode investir no feminino? Não faz sentido.

E não é só o América. Para ficar em Minas Gerais, o Cruzeiro é um clube que, com a SAF, investe cada vez mais no futebol feminino, e tem receitas também bastante inferiores a do Atlético. Esses investimentos refletiram no clube batendo o Galo na última final do Mineiro e se tornando a primeira equipe de Minas Gerais a chegar na fase eliminatória da Série A1, além de uma final da Supercopa Feminina batendo de frente contra o Corinthians em plena Neo Química Arena.

O resultado do que foi feito — ou melhor, mal feito — a gente tá vendo em campo. Todos os outros times estão investindo em qualificação de estrutura e elenco enquanto o Galo passa vergonha — Natália Andrade

Não há explicação da queda de investimento em R$ 4 milhões. Em um clube como o Atlético, o que esse dinheiro faz de diferença? Não é um valor suficiente para pagar dívida, muito menos para contratar um jogador no masculino, e, se for para salário, estamos falando de três ou quatro meses de um atleta. Ou seja, é um valor que não muda em nada para o time masculino.

Fora isso, há o ponto da marca nacional e o faturamento. O Corinthians tem o melhor time do país, provavelmente do continente, e faz jogos na Neo Química Arena lotados, vende camisa, produtos e fidelizou uma torcida para o time feminino tão forte quanto já tinha no masculino. Os paulistas fizeram isso investindo no time, montando uma equipe qualificada. É o exemplo mais lógico de como investir no futebol feminino pode, sim, trazer retorno e “poder” para a marca do clube. Qual a explicação para o Atlético não seguir esse modelo e preferir um time passando vexame a cada rodada do torneio nacional?

A culpa não é das jogadoras

Um ponto que precisa ficar claro na crítica é que a culpa não é das jogadoras atleticanas. Elas foram contratadas e estão jogando com vontade e querem ganhar, mas era óbvio que elas não têm a qualidade necessária para serem atletas da elite nacional. A maioria chegou de equipes que estão em níveis bem inferiores ao da Série A, assim como o treinador. Ou seja, o Galo Feminino é um time que disputa a A1 com elenco e comissão de A3.

Então, querer culpar as atletas, quando os verdadeiros culpados são os que decidiram sucatear o time feminino do Atlético e cortar o investimento quase pela metade, é errado. Os que devem ser cobrados, são os que deixam o Galo passar vergonha nacional por, claramente, estarem fazendo o mínimo exigido, que é ter um time feminino para disputar Libertadores e Brasileirão no masculino, nada além disso.

— Não tem como culpar atletas ou comissão, se as condições impostas pelo clube não ajudam. O Galo usa um discurso de dar oportunidade, mas que oportunidade é essa? No dia da mulher fizeram um evento para provar que estão dando chuteira e uniforme. Isso é material de trabalho. A pergunta é se esses uniformes vão ser renovados ao longo da temporada ou se as atletas vão ter que se virar com dois conjuntos. Se vão ter infraestrutura para fazer uma preparação física que atenda às necessidades. Fisioterapia, alimentação, tudo isso e ao longo de toda a temporada — afirmou Natália Andrade.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick se formou em Jornalismo na PUC Minas em 2021. Antes da Trivela, passou por Esporte News Mundo, EstrelaBet e Hoje em Dia.
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