Futebol feminino

‘Deixado do lado’, futebol feminino do Atlético-MG viveu seu pior ano desde seu retorno

Sem um olhar apurado para investimentos e um grande projeto em pauta, o Atlético viveu o seu pior momento no futebol feminino desde que retomou a categoria, em 2019

Depois de ter vivido um bom ano em 2022, com campanha regular no Brasileirão A1, vice em torneio internacional e título do Campeonato Mineiro, o time feminino do Atlético-MG teve uma temporada péssima em 2023, que só não foi ainda pior por incompetência das adversárias. A sensação foi de que as Vingadoras, como são chamadas, foram deixadas um pouco de lado no ano.

O ano do Galo Feminino começou com a primeira participação do time na Supercopa Feminina, já que a equipe foi a melhor colocada de Minas Gerais na Série A1 em 2022. No entanto, o Atlético deu o azar de ser sorteado para enfrentar logo o melhor time do Brasil (e da América), o Corinthians. Apesar da disparidade técnica e de investimentos, o time atleticano fez um bom jogo, mas foi derrotado por 1 a 0.

Péssimo desempenho no Brasileiro

No Brasileirão, a esperança era de uma campanha ainda melhor do que em 2022, quando terminou em 11°, há uma vitória da vaga na fase mata-mata. No entanto, as coisas não saíram como o planejado e uma mudança repentina pegou todos de surpresa. O Galo Feminino iniciou a competição com duas vitórias e três derrotas nos primeiros cinco jogos. Mesmo assim, a técnica Lindsay Camila, que estava no clube desde 2021, foi mandada embora depois de vencer o Real Brasília por 1 a 0.

O Atlético realmente não estava jogando no nível esperado, mas a saída de Lindsay pegou todos de surpresa, principalmente sendo anunciada após uma vitória. A treinadora tem grande história no futebol feminino e chegou ao Galo depois de ser campeã da Libertadores com a Ferroviária. Quem assumiu o lugar dela foi a auxiliar Vantressa Ferreira, que inicialmente foi interina e depois efetivada.

Vantressa começou bem e o Galo ganhou duas seguidas, incluindo o clássico contra o Cruzeiro. Mas, na sequência, as Vingadoras engataram uma sequência de seis derrotas seguidas e estavam muito ameaçadas do rebaixamento. Por sorte, enfrentou nas últimas rodadas as lanternas da competição, conseguindo uma vitória e um empate suficientes para se salvarem. O empate, inclusive, foi o que mais chamou atenção, já que ele aconteceu contra o Ceará, time que até então havia perdido todos os seus jogos e sofrido 73 gols.

O tetra Mineiro ficou só nos sonhos do Atlético

Com a péssima campanha no Brasileirão, o Atlético teve a chance de se redimir na disputa do Campeonato Mineiro, torneio que o clube dominou e venceu nos últimos três anos. Mas nem isso conseguiu de novo. Na primeira fase, acabou em terceiro, atrás de Cruzeiro e América. Nas semis, eliminou o Coelho com uma vitória apertada e um empate. Mas, na grande final, quando podia bater as Cabulosas pelo quarto ano seguido, foram derrotadas e acabaram sem a taça.

O ano do Atlético no futebol feminino passou muito longe do esperado. O time começou mal no Brasileiro, mas as coisas só pioraram com a saída de Lindsay. Vantressa foi inicialmente escolhida como interina, mas foi efetivada mesmo com quatro derrotas seguidas na conta, o que fez parecer que o Galo não fez muito esforço para buscar uma nova treinadora e tentar mudar as coisas. Por sorte, como citado, não acabou rebaixado, e vai ter a chance de retomar o bom caminho que seguia até 2022. Um exemplo pode ser o rival Cruzeiro, que com investimento e qualidade de jogadoras parecidos, conseguiu chegar no mata-mata do Brasileirão e, finalmente, venceu o Mineiro.

Vale destacar também que o time foi modificado em todos os jogos, o que fez ele não conseguir ter um padrão. Três goleiras diferentes jogaram. As laterais foram uma bagunça, tendo até atacante improvisada na posição. No fim da temporada, o Galo Feminino anunciou a saída de Vantressa e vai em busca de uma nova treinadora, essa, quem sabe, para realmente montar um projeto, com investimento e apoio do clube.

Pontos positivos do futebol feminino do Atlético-MG em 2023

Apesar da temporada desastrosa, o Galo Feminino ainda teve alguns pontos positivos que chamam atenção. O primeiro deles foi a contratação da zagueira Jorelyn Carabali, que chegou do Deportivo Cali-COL e atuou muito bem pelo clube, sendo convocada e titular da Seleção Colombiana na Copa do Mundo, novamente jogando bem. A defensora então chamou atenção de clubes e foi vendida ao Brighton-ING, se tornando a primeira venda da história do Atlético no futebol feminino.

Outro ponto positivo para o futebol feminino do Atlético foi a participação na primeira Copa São Paulo de Futebol Júnior da categoria. As Vingadoras somaram uma vitória, um empate e uma derrota na primeira fase, terminando em segundo no Grupo D, mas parando por aí, já que só os líderes da cada grupo avançaram.

Final de ano desastroso com denúncias e falta de planejamento

Se o ano do futebol feminino do Atlético já foi muito ruim em campo, fora dele ele terminou de forma desastrosa. O presidente reeleito do Galo, Sérgio Coelho, foi questionado na última coletiva da temporada sobre os planos para as mulheres do clube e demonstrou não saber ou ter nenhum para elas. Além disso, deu a entender que não tem preocupação com o futebol feminino atleticano, abrindo mão de geri-lo como e repassando essa responsabilidade a outra pessoa.

– Nós estamos fechando o orçamento, não tenho esse valor. Devido às minhas ocupações, conversei isso com os 4Rs, que o futebol feminino nós vamos ter uma gestão separada porque eu já estou assumindo uma cadeira no Conselho de Administração, no Comitê de Futebol, presidente da associação, tenho minhas coisas – disse Sérgio.

Como se não bastasse as falas do presidente terem repercutido bem mal entre os torcedores e torcedoras, as coisas pioraram dias depois, quando o GE revelou denúncias de jogadoras atleticanas sobre tratamentos inadequados que recebiam atuando pelo Atlético, entre eles a falta de um local para treinamentos, já que treinavam em um campo sintético, público, no centro de BH, mesmo a Cidade do Galo tendo oito campos, por exemplo. Além disso, houve também denúncias de falta de toalhas e equipamentos mínimos para a prática do futebol, o que escancarou ainda mais a falta de zelo do Galo com o seu futebol feminino.

– A gente não tem toalha no treino, sabe? Eles não fornecem toalha pra gente tomar banho depois do treino. A gente não pode deixar a chuteira no clube. A gente perdeu o direito de fazer muita coisa ali. Não tem liberdade nenhuma, nenhuma mesmo – disse uma atleta para a reportagem do GE.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander HeinrickSetorista

Jornalista pela PUC-MG, passou por Esporte News Mundo e Hoje em Dia, antes de chegar a Trivela. Cobriu Copa do Mundo e está na cobertura do Atlético-MG desde 2020.
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