Europa

Em meio à guerra, Shakhtar se reinventa e retoma fábrica de lucro com joias brasileiras

Com perdas esportivas e financeiras desde 2022, clube ucraniano reconstrói sua ponte com o futebol brasileiro

Em meio à guerra contra a Rússia, o Shakhtar Donetsk, mesmo longe de casa, tenta preservar sua “identidade”. O clube, famoso por ser uma vitrine para o talento brasileiro nas últimas décadas, segue investindo em jovens jogadores e se adapta à nova realidade sem abrir mão de sua tradicional “essência brazuca”.

Apesar da instabilidade provocada pelo conflito, o Shakhtar continua conseguindo seduzir atletas e empresários com a promessa de minutos, visibilidade internacional e um trampolim para as grandes ligas. Foi assim lá atrás, com Fernandinho, Willian, Douglas Costa, Alex Teixeira, entre tantos outros. E agora, com uma nova geração que chega pós-guerra, o ciclo se reinicia.

Com o início da guerra contra a Rússia, em 2022, o Shakhtar perdeu todos os brasileiros que tinha no elenco — eram 13 no total.

Isso aconteceu por conta da brecha concedida pela Fifa (renovada recentemente), que permite que atletas estrangeiros vinculados a times russos ou ucranianos suspendam seus contratos de maneira unilateral.

Na prática, isso gerou um verdadeiro êxodo de estrangeiros — especialmente brasileiros — que buscaram segurança e estabilidade em outras ligas espalhadas pelo mundo. Jogadores como Maycon, Tetê e Vitão aproveitaram a medida para deixar o clube sem custos imediatos. Uma perda esportiva e financeira considerável para o Shakhtar, cuja identidade há décadas está fortemente atrelada ao talento verde e amarelo.

Todos os brasileiros que deixaram o Shakhtar no início da guerra (2022):

  • Marlon (zagueiro) — emprestado ao Monza (hoje está no Shakhtar)
  • Vitão (zagueiro) — emprestado ao Internacional em abril de 2022 (em julho de 2024 assinou em definitivo com o Colorado após o término de seu contrato com o Shakhtar)
  • Ismaily (lateral-esquerdo) — clube optou por suspender o vínculo (fechou com o Lille em agosto de 2022 e hoje está sem clube)
  • Dodô (lateral-direito) — comprado pela Fiorentina em julho de 2022 (joga na Viola até hoje)
  • Vinicius Tobias (lateral-direito) — emprestado ao Real Madrid em abril de 2022 sem sequer atuar (após dois anos na Espanha, retornou ao Shakhtar)
  • Marcos Antônio (meio-campista) — comprado pela Lazio em junho de 2022 (hoje está emprestado ao São Paulo)
  • Maycon (meio-campista) — emprestado ao Corinthians em março de 2022 (empréstimo foi renovado quatro vezes e ele segue no clube paulista)
  • Alan Patrick (meio-campista) — comprado pelo Internacional em abril de 2022 (joga no Colorado até hoje)
  • Tetê (atacante) — emprestado ao Lyon em março de 2022 (hoje atua no Panathinaikos, da Grécia)
  • David Neres (atacante) — comprado pelo Benfica seis meses após ser contratado (e sequer atuar) pelo Shakhtar (hoje joga no Napoli)
  • Pedrinho (atacante) — emprestado ao Atlético-MG em junho de 2022 (retornou ao Shakhtar no ano passado)
  • Fernando (atacante) — comprado pelo RB Salzburg em abril de 2022 (hoje atua no RB Bragantino)
  • Júnior Moraes (atacante) — anunciado pelo Corinthians em março de 2022 (hoje está aposentado)

No dia 24 de fevereiro, logo após a invasão russa na Ucrânia, a Premier League da Ucrânia foi oficialmente suspensa. Em comunicado em seu site oficial, a organização do torneio atribuiu a decisão à lei marcial imposta no país.

Dois meses depois, por conta da continuidade da guerra entre as duas nações, o Campeonato Ucraniano optou por encerrar sua edição 2021/22. O Shakhtar era o líder, com 47 pontos, mas nenhum clube foi considerado campeão.

Lucas Taylor, lateral-direito revelado pelo Palmeiras, foi o único brasileiro contratado pelo clube ucraniano em 2022, ano em que a guerra contra a Rússia começou. Emprestado pelo PAOK em agosto daquele ano, ele jogou a temporada 2022/23 no Shakthtar sendo o único brazuca do elenco.

A nova “invasão brasileira” pós-guerra

Alisson Santana e Kauã Elias antes de jogo do Shakhtar
Alisson Santana e Kauã Elias antes de jogo do Shakhtar (Foto: Imago)

Passado o choque inicial, os Mineiros (apelido do Shakhtar) decidiram reconstruir sua “ponte” com o Brasil. Se atentando a um perfil mais voltado à juventude e ao desenvolvimento a longo prazo, o Shakhtar adotou uma estratégia agressiva no mercado sul-americano, mirando promessas ainda em formação. Muitas delas com poucas partidas como profissional no Brasil, mas com potencial de revenda elevado.

Depois de Lucas Taylor ser o único representante brasileiro no plantel de 2022/23, as coisas começaram a “voltar ao normal” a partir da temporada seguinte (2023/24). No ano de 2023, três brazucas desembarcaram no Shakhtar: Pedrinho, lateral-esquerdo do Athletico-PR, Newerton, atacante do São Paulo, e Eguinaldo, atacante do Vasco.

Em 2024, mais quatro: além dos retornos de Vinicius Tobias (estava emprestado ao Real Madrid) e Pedrinho (estava emprestado ao Atlético-MG), Marlon Gomes, meio-campista do Vasco, e Kevin, atacante do Palmeiras, se juntaram aos Mineiros. No início de 2025, Kauã Elias, atacante do Fluminense, e Alisson Santana, atacante do Atlético-MG, encorparam ainda mais o grupo brazuca dentro do elenco.

A chamada “nova invasão brasileira” pode ainda não ter a mesma força midiática dos anos anteriores, mas mostra que, mesmo em tempos adversos, o Shakhtar segue fiel à sua essência: uma verdadeira extensão do futebol brasileiro no Leste Europeu.

Esses movimentos mostram a dinâmica de adaptação da instituição, que precisa negociar seus atletas para manter a saúde financeira e seguir buscando novas joias no mercado brasileiro, perpetuando seu ciclo de contratações, desenvolvimento e vendas.

Falando em vendas, dos seis negócios mais lucrativos da história do Shakhtar, cinco envolvem brasileiros, são eles:

  • Fred — vendido ao Manchester United por 59 milhões de euros (2018/19)
  • Alex Teixeira — vendido ao Jiangsu Suning por 50 milhões de euros (2015/16)
  • Fernandinho — vendido ao Manchester City por 40 milhões de euros (2013/14)
  • Willian — vendido ao Anzhi por 35 milhões de euros (2012/13)
  • Douglas Costa — vendido ao Bayern de Munique por 30 milhões de euros (2015/16)
Fernandinho, Alex Teixeira e Luiz Adriano no Shakhtar Donetsk
Fernandinho, Alex Teixeira e Luiz Adriano no Shakhtar Donetsk (Foto: Imago)

Vale destacar que o Shakhtar está afastado de Donetsk desde 2014, quando o território foi ocupado por rebeldes separatistas pró-Rússia. A equipe manda seus jogos nacionais em outras cidades ucranianas, como Lviv ou Kiev.

Já em partidas internacionais, como Champions, Liga Europa ou Conference League, o clube precisa sair do país. Gelsenkirchen (Alemanha), Hamburgo (Alemanha), Varsóvia (Polônia) e Cracóvia (Polônia) já receberam o time laranja.

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A última venda brasileira

Pouco mais de um ano e meio depois de chegar ao Shakhtar, Kevin deixou o clube. O Fulham fechou um acordo com os ucranianos por 40 milhões de euros (cerca de R$ 255 milhões na cotação atual) para contratar o atacante brasileiro. O vínculo é de seis anos.

Revelado nas categorias de base do Palmeiras, Kevin trocou o Alviverde pelo Shakhtar em 2024, numa transação que envolveu uma quantia fixa de 12 milhões de euros, além de 3 milhões de euros adicionais em bônus.

Em 57 partidas disputadas com a camisa dos Mineiros (apelido do Shakhtar), o jovem brilhou com ótimas atuações, tendo anotado 17 gols e dado dez assistências.

Marlon Gomes e Kevin se cumprimentam durante jogo do Shakhtar
Marlon Gomes e Kevin se cumprimentam durante jogo do Shakhtar (Foto: Imago)

Chegada de novos brasileiros

A política de contratações do Shakhtar, como citado, continua de olho no mercado brasileiro. Recentemente, o clube concentrou esforços em quatro nomes: Lucas Ferreira (São Paulo), Isaque (Fluminense), Luca Meirelles (Santos) e John Kennedy (Fluminense).

O São Paulo acertou a venda de Lucas ao futebol ucraniano por 10 milhões de euros (R$ 63,5 milhões na cotação atual) em agosto. Depois de se sagrar campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior em janeiro, o atacante de 19 anos, formado na base tricolor, foi alçado ao time profissional pelo técnico Luis Zubeldía.

Entre os jovens que fizeram parte do título da Copinha, o atacante foi o que mais se destacou no elenco principal. Ele participou de 23 jogos, marcou um gol e concedeu uma assistência.

Isaque, por sua vez, custou mais dinheiro aos ucranianos. Após ter duas propostas recusadas pelo Fluminense — a primeira de 7 milhões de euros (cerca de R$ 44,5 milhões) e a segunda de 9 milhões de euros (R$ 57,2 milhões) — o Shakhtar fechou a compra do meia por 12 milhões de euros (R$ 76,1 milhões), sendo 10 milhões fixos (R$ 63,4 milhões). O Tricolor carioca manteve 10% dos direitos de uma futura negociação.

Promovido ao time profissional do Fluminense durante a reta final do Campeonato Brasileiro de 2024, Isaque jogou 11 partidas na atual temporada e enfrentou maior concorrência em sua posição com a chegada de Acosta, além da preferência do técnico Renato Gaúcho por atuar com três volantes.

Antes do acerto com o Shakhtar, Manchester City e Liverpool chegaram a sondar a cria de Xerém, contudo, nenhuma proposta oficial foi feita.

O último brasilero anunciado pelo Shakhtar foi Luca Meirelles, atacante de 18 anos revelado pelo Santos. Na transação, o Peixe recebeu 10 milhões de euros (R$ 63,5 milhões) e manteve 15% dos direitos econômicos do jogador, pensando em uma valorização futura.

Luca deixa o Alvinegro Praiano sem sequer ter balançado as redes no time profissional. Foram 17 jogos, nenhum gol e só uma assistência concedida. Sem muito espaço no elenco, o garoto era a terceira opção para a posição de centroavante, atrás de Tiquinho Soares e de Deivid Washington.

Técnico romeno foi um dos grandes responsáveis pela “abrasileiração” do Shakhtar

Mircea Lucescu, ex-técnico do Shakhtar
Mircea Lucescu, ex-técnico do Shakhtar (Foto: Imago)

Lenda do Shakhtar Donetsk, Mircea Lucescu marcou profundamente essa política de contratações e desenvolvimento de jogadores brasileiros no clube ucraniano. A contribuição do técnico romeno foi tanta, que o modelo se manteve mesmo após sua saída.

Quando chegou ao Shakhtar em 2004, Lucescu encontrou um clube com ambição europeia, mas sem expressão no cenário internacional. Ele percebeu que o mercado brasileiro oferecia talento técnico, jogadores jovens e acessíveis financeiramente, e que esses atletas podiam ser moldados para o futebol europeu.

Fluente em português, o romeno trouxe jogadores como Elano, Taison, Jadson, Fernandinho e Willian, e criou um sistema de jogo ofensivo e técnico, que favorecia o estilo brazuca. Deu muito certo.

Com Lucescu na área técnica de 2004 a 2016, o Shakhtar enfileirou oito títulos da liga nacional em 10 temporadas e passou a dominar o futebol ucraniano. O ápice de seu trabalho foi a conquista da Copa da Uefa de 2009 (atual Liga Europa).

O mais importante, porém, foi o legado deixado. A diretoria absorveu a filosofia de contratação e continuou “bebendo da fonte”. Na “era Lucescu”, a instituição formou uma rede de scouting sólida no Brasil e consolidou sua reputação entre empresários e jogadores.

A lenda romena não só iniciou um projeto bem-sucedido, mas criou uma cultura que sobreviveu à sua saída. O Shakhtar se transformou em uma espécie de “clube-escola” para brasileiros, e isso foi possível graças à visão de longo prazo, infraestrutura montada, e resultados concretos que validaram o modelo.

Todos os brasileiros do atual elenco do Shakhtar:

  • Marlon (zagueiro)
  • Pedro Henrique (lateral-esquerdo)
  • Vinicius Tobias (lateral-direito)
  • Marlon Gomes (meio-campista)
  • Isaque (meio-campista)
  • Eguinaldo (atacante)
  • Newerton (atacante)
  • Alisson (atacante)
  • Lucas Ferreira (atacante)
  • Pedrinho (atacante)
  • Kauã Elias (atacante)
  • Luca Meirelles (atacante)

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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