Europa

Por que o lateral é peça crucial do futebol na atualidade

Posição tem nova mudança e Mundial de Clubes foi o palco da metamorfose

A evolução do futebol teve diferentes fases: ora mudou com o crescimento dos meias avançados, depois se ressignificou com o desenvolvimento dos goleiros. Estamos vivendo outra onda cultural no esporte — e agora, a vez é dos laterais.

Antes, eram negligenciados — o ponta que não vingaria tanto no ataque vira lateral, como foi o caso de Cafu, assim como o zagueiro que sobe um pouco melhor, como acontece com Koundé ou Ronald Araújo. Agora, os melhores pensadores, defensores e criadores estão na posição, mas por quê?

A posição, inclusive, tem sido tema de longo debate na seleção brasileira. Tite tinha ideias claras do que seus laterais tinham que fazer taticamente, e Carlo Ancelotti, que completou apenas seu sexto jogo à frente do Brasil contra o Japão, já usou cinco combinações diferentes de laterais até o momento.

A breve história do lateral no futebol

De forma literal, na história tática do futebol, os laterais são, na verdade, zagueiros. No início do esporte, ainda na segunda metade dos anos 1800, Os full-backs, a tradução para “laterais”, do inglês, eram os últimos jogadores da defesa e atuavam centralizados. Eram os defensores do 2-3-5, a pirâmide, bastante voltada ao ataque, que era a base das formações no início do futebol.

Na pirâmide, os três à frente deles eram os half-backs. O termo acabou se perdeu ao longo dos anos e não conta com tradução literal, mas no contexto atual, poderiam ser considerados meio-campistas. No entanto, foram eles que recuaram e se tornaram zagueiros ao com o passar dos anos, e esse movimento fez os full-backs abriram para os lados do campo.

Guardiola e Lahm, dupla que ajudou a moldar o lateral moderno
Guardiola e Lahm, dupla que ajudou a moldar o lateral moderno (Foto: Imago)

Mais de um século depois, a posição evoluiu.

Deixou de ser o defensor do lado do campo e passou a atacar — característica popularizada pelos laterais brasileiros, principalmente no sucesso durante as Copas do Mundo das décadas de 1970 e 1980.

Nomes como Carlos Alberto Torres, Júnior e Cafu se tornaram referência na posição. Mas a era dos laterais velocistas e cruzadores, que dominou até os anos 2010, foi chegando ao fim, principalmente sob o comando de Pep Guardiola.

Foi no Bayern de Munique que Guardiola foi mais radical: jogou sem zagueiros, usando laterais de diferentes formas — como os últimos defensores do time, como alas e, principalmente, no meio-campo.

Foi assim que Philipp Lahm e Joshua Kimmich viraram volantes, e uma sequência interminável de laterais invertidos (aqueles que saem suas posições do lado do campo e atuam no meio) ganhou força. Hoje, quase todo time do alto nível tem um para chamar de seu: Nuno Mendes no PSG, Miles Lewis-Skelly no Arsenal, Reece James no Chelsea, e por aí vai.

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O que o lateral moderno precisa fazer?

Para além dos exemplos de laterais invertidos, há um deles que foi além: Marc Cucurella. Com Enzo Maresca, técnico do Chelsea, o espanhol é o estereótipo do “todo-campista”– que geralmente faz alusão àquele volante com diversos dotes técnicos, táticos e físicos.

Cucurella é um coringa: às vezes, atua bem aberto, próximo à linha lateral, e mais avançado, como um ponta, mas que volta para marcar como lateral, na linha de quatro defensores. Outras vezes, é o clássico lateral invertido, que começa aberto, mas forma uma dupla de volantes. Há também os momentos em que atua como terceiro zagueiro na saída de três, ou mesmo como um meia, nos meio-espaços, na linha à frente dos volantes.

Marc Cucurella em jogo do Chelsea
Marc Cucurella em jogo do Chelsea (Foto: IMAGO)

Essa variação foi vista, inclusive, no Mundial de Clubes, um torneio que mostrou as novas ideias dos treinadores do mundo todo sobre a posição. Cucurella atuou de diferentes formas em jogos decisivos contra LA FC, Palmeiras, Fluminense e PSG, por exemplo. Na Juventus, Pierre Kalulu e Lloyd, híbridos de zagueiros com laterais, se tornaram jogadores com liberdade ímpar a partir de uma linha de três.

A novidade mais curiosa, no entanto, vem justamente de Guardiola. O comandante do Manchester City variou seus laterais na competição, ora por dentro, formando um 2-3-5, ora por fora, em um 3-1-3-3. E laterais dando amplitude e ultrapassando não têm sido vistos com Guardiola de forma recorrente há muito tempo.

Os meias que viram laterais

Se antes a troca para a posição era mais literal — o ponta que recua ou o zagueiro que abre mais — agora o cenário é outro. Com mais exigências com bola, necessidade de sair da pressão, progredir pelo meio e criar, são os jogadores do meio-campo que têm virado laterais.

No Manchester City é onde encontramos outros exemplos disso: Rico Lewis, meia na base, subiu como lateral, enquanto Matheus Nunes, um meio-campista explosivo, box-to-box, cresceu e vive seu auge desde que chegou ao Etihad agora que se tornou lateral-direito. Mais atrás, há quase 10 anos, Fabian Delph, volante, também chegou a ser lateral no time de Guardiola.

No Liverpool, até mesmo Szoboszlai, que surgiu como um meia-atacante dinâmico e técnico, tem jogado de lateral ocasionalmente. No Real Madrid, Valverde, um todo-campista que já jogou como segundo volante, meia e ponta-direita, também tem sido colocado nessa função — e não tem gostado.

O Chelsea já colocou Caicedo, um volante com rara combinação de técnica, agilidade e explosão física, para ser lateral-direito. Em outro tipo de troca, João Cancelo mudou de lado no City justamente para ser um lateral destro e habilidoso no meio-campo quando invertia.

Da defesa como zagueiro a criação à lá camisa 10

O Brasil de Ancelotti ilustra bem duas funções clássicas dos laterais que, geralmente, são vistas no mesmo time de forma compensatória:

  • Na Seleção, o lateral-esquerdo tem sido aquele que, na primeira fase de construção, fica com os zagueiros em uma linha de três, enquanto o lateral-direito é o responsável pelo corredor naquele lado;
  • Isso ocorre por diferentes motivos: criar superioridade numérica na construção (geralmente em 3-2, com os volantes à frente), dar o lado esquerdo do campo a um ponta mais habilidoso e veloz, e permitir que o meio-espaço direito seja reservado ao ponta criativo.

Filipe Luís, atualmente técnico do Flamengo, era exemplo disso: no Rubro-Negro com Paulo Sousa, jogou como zagueiro em uma linha de três, mas que defendia com uma linha de quatro — e, nesse momento, voltava a “ser lateral”, defendendo no lado esquerdo.

Ainda no Brasil, os exemplos mais claros também fazem parte da seleção brasileira. Paulo Henrique, do Vasco, fez sucesso com Fernando Diniz como um jogador com liberdade para sair da lateral e se aproximar do meio. Com Ancelotti, fez gol atacando a profundidade a partir do meio-espaço, como um meio-campista box-to-box.

Vitinho, do Botafogo, é mais tradicional: apoia pelo lado com ultrapassagens, mas também tem condições de atuar mais recuado para ajudar nas primeiras fases de construção — como todo lateral de alto nível precisa saber fazer.

Filipe Luís, técnico do Flamengo, no Beira-Rio
Filipe Luís, técnico do Flamengo, no Beira-Rio (Foto: Icon Sport)

Há também o lateral que praticamente vira meia. No Liverpool, Alexander-Arnold fazia esse papel: caía por dentro na linha de meio-campistas na construção e tinha grande parte das suas ações no meio-espaço direito, região geralmente ocupada pelos meias mais cerebrais. E quem o substitui após sua ida ao Real Madrid é Frimpong, um ala clássico: praticamente um ponta, driblador, que busca a profundidade e chega a entrar na área para criar, mas quase sempre partindo do lado.

O lateral moderno é isso: sinônimo de polivalência.

Cada time precisa de um estilo e cada treinador tem sua preferência de quais características valoriza nos seus jogadores de lado — se quer um incansável explosivo para subir e descer pelo lado, um criador para atuar como meia, um “xerife” para ser crucial na contrapressão, um controlador para ajudar na construção… ou qualquer outra das diversas funções que o jogador mais importante do futebol precisa atualmente.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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