Espanha

O ‘protesto silencioso’ de Valverde que escancara tensão com Xabi Alonso no Real Madrid

Uruguaio vive momento raro de desconforto no clube merengue, após declaração sobre posição em campo e decisão surpreendente do treinador

Tem sido um movimento curioso na atual temporada ver que Fede Valverde, peça-chave do Real Madrid desde 2018, enfrentaria um episódio de tensão tão inesperado em sua trajetória no clube. A princípio, parecia apenas uma suplência pontual, mas o contexto deu outra dimensão ao caso.

Na véspera da partida contra o Almaty, o uruguaio declarou que “não havia nascido para jogar de lateral-direito”, justamente quando Xabi Alonso lidava com as ausências de Carvajal e Alexander-Arnold. O recado foi interpretado como honesto, mas firme. E a resposta veio no jogo seguinte: Valverde começou no banco.

O desconforto de Valverde no Real Madrid

O episódio ganhou contornos maiores com imagens captadas no Central Stadium, do Kairat. Valverde, conhecido pela entrega absoluta ao clube, parecia deslocado. Demorou a sair para o aquecimento, manteve-se afastado dos companheiros e até foi flagrado caminhando sozinho, mãos para trás, enquanto os colegas realizavam os exercícios.

A cena chamou atenção de torcedores e jornalistas, a ponto de Bellingham se aproximar para conversar brevemente com o uruguaio. “Conhecendo o Fede, com certeza o incomoda. Ele sempre gosta de estar a postos. Se tiver que ir para a batalha, quero que seja com ele”, comentou o lateral Fran García, revelando a estranheza do grupo com a situação.

Valverde pelo Real Madrid (Foto: Imago)
Valverde pelo Real Madrid (Foto: Imago)

De protagonista a papel secundário com Xabi Alonso

A temporada começou com Valverde em alta, lembrando até a influência de Steven Gerrard em seus melhores dias. Xabi Alonso o elogiava publicamente, destacando sua capacidade de romper linhas partindo de trás, e os dois gols do camisa 8 em amistosos nos Estados Unidos reforçavam a ideia de que teria papel central no novo ciclo.

Mas, com a recuperação de Carvajal e a chegada de Alexander-Arnold, a realidade mudou. Valverde passou a acumular mais funções defensivas e menos protagonismo criativo, situação que gerou frustração.

Estou frustrado, sei quando não estou bem. Fiz um bom Mundial de Clubes, mas no início da Liga não estive no mesmo nível”, admitiu em entrevista coletiva

Ainda assim, reforçou sua postura de liderança: “Como um dos capitães, continuarei a dar a cara, vou erguer a cabeça e seguir em frente.”

A ausência no onze inicial, um dia depois de se pronunciar com franqueza, foi vista por alguns como represália. O jornalista Roberto Gómez, no programa espanhol “La Tribu”, foi duro: “Muito vingativo, o que Xabi fez com Valverde não tem nome.

Ele recordou a tradição madridista de escalar jogadores que participam de coletivas pré-jogo e lamentou o contraste entre o discurso de compromisso e a falta de minutos em campo.

A situação expôs uma fissura improvável entre um dos líderes do elenco e o treinador. Embora Valverde siga como símbolo de entrega, o episódio alimenta dúvidas sobre o espaço que terá nesta nova era merengue.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo