Esqueça os pés, eles estão no passado: A evolução dos goleiros está nas mãos
Depois da revolução com os pés, a posição passa por implementação em massa de novas técnicas com as mãos
A posição de goleiro foi, possivelmente, a que mais evoluiu durante um período específico das últimas décadas do futebol, principalmente no que diz respeito ao jogo com os pés. Mudanças de regras e adaptações táticas fizeram os goleiros serem cada vez mais necessários na construção.
No entanto, a evolução não se limitou ao que esses jogadores faziam com as chuteiras.
A nova onda de crescimento dos goleiros é notória, mas com o que tem acontecido com seu trabalho “principal”: defender o gol.
Foi o Mundial de Clubes de 2025 que trouxe uma nova ótica — e dados palpáveis — sobre como os atletas têm evoluído nos anos recentes. Por exemplo: segundo artigo publicado pela Fifa, até as quartas de final do Mundial, em comparação com o mesmo período na Copa do Mundo do Catar de 2022, os goleiros tiveram um aumento de 100% em defesas com “x-block”.
O x-block, comumente referido como apenas “X” no Brasil, é uma técnica vinda do futsal que amplia o raio de ação do goleiro ao defender: ele abre os braços e as pernas de modo que forma um “x” com os membros.
Os goleiros melhoraram com as mãos?

“O X é uma técnica relativamente moderna, mas durante o Mundial, observamos que os goleiros estão tomando melhores decisões nessas situações e parecem ter mais sucesso”, disse o membro do Grupo de Estudo Técnico da Fifa, Pascal Zuberbühler.
Para Vynicius Valença, analista da “The Net Scouting”, que provê consultoria tática a goleiros como Hugo Souza, do Corinthians, e John, do Botafogo, a melhoria dos goleiros passa, também, pela especificidade.
— Os goleiros, hoje, têm mais mobilidade e agilidade do que antes. Eles treinam de forma mais específica. Por exemplo, a técnica do X dá muitas possibilidades, porque a maioria dos goleiros utilizam só o braço. Quando você utiliza o pé da maneira certa, consegue ganhar um ângulo maior de proteção. Isso é muito inteligente –, explicou, em contato com a Trivela.
Depois de uma onda da última década que viu a posição focar muito no trabalho com os pés, agora há a busca de melhoria de ações defensivas — principalmente questões de posicionamento e de saída do gol. Em suas sessões de consultoria, o analista revela que seus clientes querem conselhos não só de como estão construindo, mas também entender como o adversário joga na parte ofensiva.
“Eles querem entender como tal atacante finaliza, como o time adversário entra na área, como se posicionar. Em situações de bola parada, como é que o atacante é se posiciona, quem é o cobrador, como ele finaliza, tudo isso”, explica Vynicius.
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O que foi melhorado exatamente?

A análise técnica e tática tem se popularizado a cada ano que passa. Programas de televisão e as famosas “mesas redondas” já contam com estatísticas e termos que antes eram vistos como “frescura” e desnecessários.
Mas a análise específica de goleiros ainda engatinha.
É mais comum nas redes sociais e imprensa uma análise sobre o atacante perdeu o gol: se movimentou errado? Dominou a bola com o pé que não deveria naquela circunstância? Conduziu demais antes de finalizar? Enquanto isso, os comentários sobre quem preveniu o gol se limitam ao quão bem ele “fechou o ângulo”.
A posição tem muito mais do que apenas isso. São diversos indicadores de desempenho únicos, movimentos específicos e treinamentos que não ganham tantos holofotes — justamente pela especificidade da posição, que acaba a tornando “ingrata” em diversos momentos.
À reportagem, o analista explicou que nos treinos com o clube e nas consultorias, os goleiros trabalham em técnicas como, mas não somente:
- Posicionamento das mãos;
- Posicionamento dos pés;
- Utilização de bissetriz e como ele pode dividir a referência;
- Comportamentos do adversário, como a forma que ele entra na área.
Gustavo Nepote, treinador de goleiros da comissão de Hernán Crespo no São Paulo, vai além: o trabalho aplicado nos clubes também depende do modelo de jogo do treinador principal.
“Nós, treinadores de goleiros, temos que nos adaptar a cada goleiro que treinamos. Eu tenho muitos processos com diferentes goleiros, mas é importante que o técnico se comunique com você, porque é ele que te dá a ideia de jogo”, explicou o profissional argentino à Trivela.
Taffarel escreveu uma linda história no Liverpool, e deixamos essa homenagem na sua saída! 🇧🇷🔴 pic.twitter.com/y2RXPOcnqG
— Liverpool FC Brasil (@LFCBrasil) July 17, 2025
Para o scout, a análise do goleiro é muito baseada no contexto, até mais do que as outras posições. Principalmente porque esse jogador tem uma taxa de ações muito menor do que os companheiros de linha.
“E por ele estar dentro de uma situação específica no futebol, a gente tem que entender o que ele vive e passar aquilo que o clube está vivendo. Por exemplo: querendo ou não, todo volante uma hora vai vir em apoio para receber (dos zagueiros). O goleiro às vezes tem três ações na partida inteira. É importante saber como é que elas são”, explica o especialista.
Na consultoria, o trabalho individual com goleiros passa também por um estudo do seu clube, e existem aspectos que fazem total diferença na preparação do jogador:
- Como a equipe joga com a bola?
- Como permite que o adversário chegue na sua área?
- Quais são as situações de cruzamento em que o time mais sofre?
- Como é que o time está defendendo? Tem mais dificuldade em uma bola de retorno, em bola no canal, na segunda trave?
Já no clube, muitas vezes o trabalho individual com a equipe de preparação de goleiros é de correção e projeção: os treinadores da posição analisam no que o jogador falhou na última partida tecnicamente e passam a orientação, bem como trabalham com base no próximo adversário.
“A gente começa a analisar e corrigir algo que está vendo naquele momento. Eu gosto muito disso. Talvez eu planeje um treino e vá corrigindo. Ou vejo um jogo e dentro desse jogo também adapto ou planejo alguma correção de jogada que aconteceu e que o goleiro cometeu um erro”, explica o treinador de goleiros do São Paulo.
Hierarquização de referências: o segredo dos goleiros de alto nível?
Assim como ser um bom meia não é só dar bons passes, o grande goleiro não é se limitar a fazer defesas plásticas. As minúcias técnicas da posição são tão complexas e exigem tanta interpretação quanto a dos jogadores de linha.
Todas as posições no futebol têm indicadores de desempenho — aquilo que todo jogador daquela posição tem que fazer, elencados do mais para o menos importante, dependendo do contexto e do time. Alguns atletas “dão check” em mais indicadores do que outros. Há também quem seja muito bom em alguns indicadores pouco importantes, mas que pecam nos cruciais, ou vice-versa.

Para Vynicius, alguns destes formam o divisor de águas para os goleiros: a colocação dos pés, que vai determinar como o jogador vai ter explosão no movimento; e a divisão de referências, que é importante para entender quais são as ameaças que a defesa está sofrendo.
“Hoje, o futebol tem muito cruzamento. Então, a situação que normalmente os goleiros têm dificuldade é na divisão de referência. O posicionamento dos pés, joelhos, mãos, tudo isso também é muito relevante. A gente (na consultoria) costuma passar entendimento de quando sair, quando ficar, técnicas para sair”.
O analista exemplifica com o aumento no número de gols na segunda trave e com cruzamento de retorno. “Se o goleiro está olhando para o lado da bola e existe essa situação da bola vindo para trás, é uma bola que muda a altura, muda o corredor, e, se você não entende como está a sua defesa, isso aí pode ser fatal”.
Todo jogador, independente da posição, te diferentes referências dentro de campo, como a bola, seu opositor mais próximo, seus companheiros e o gol adversário. Para o goleiro, isso é ainda mais importante.
A divisão de referências para os goleiros diz respeito àquilo que ele deve priorizar quando está defendendo — e isso muda dependendo da situação:
- Por exemplo, há um adversário cara tá na linha de fundo. Dificilmente ele vai finalizar com aquele ângulo, há maior probabilidade de um cruzamento para trás. Então, a partir disso, o goleiro pode priorizar outra referência: os adversários que estão na área, prestes a receber esse cruzamento.
- Uma vez priorizada esta área, há outra bifurcação na tomada de decisão: existem opositores atacando a área a partir da marca do pênalti e na segunda trave. Dado o posicionamento dos defensores, o goleiro deve priorizar outro cenário — se há mais zagueiros na marca do pênalti para criar uma barreira, ele talvez possa focar mais sua atenção ao atacante da segunda trave, por exemplo.
Bissetriz: matemática e ângulos formam bons goleiros
A bissetriz, em termos matemáticos, é uma linha imaginária que divide o ângulo em duas partes iguais. Por mais que essa associação não seja tão comum, o trabalho dos goleiros está diretamente ligado aos ângulos quando defendem a sua meta.
No contexto do futebol, a bissetriz refere-se à linha imaginária que divide ao meio o ângulo formado entre o batedor e as duas traves. Por isso, idealmente o goleiro deve buscar sempre se posicionar corretamente na bissetriz. Isso potencializa sua capacidade de reação a um chute, uma vez que, estando no meio da linha imaginária, ele terá uma distância igual para os dois lados que a bola for.

Para o analista, a divisão de referências e a boa localização da bissetriz estão diretamente ligadas aos demais indicadores de desempenho dos goleiros e são a base da posição no que diz respeito às defesas.
“A colocação dos apoio é muito importante, posição da mão e dos pés, saída do gol e direcionamento também, é uma coisa que eu vejo pouca gente falar. Como você direciona as bolas defendidas, para mim, é totalmente relevante, porque vai condicionar o adversário a ter outra finalização ou não”, avalia.
Qualidade nos pés já virou nota de corte ultrapassada
A tendência de goleiros impactantes com os pés chegou e fez morada. Se antes era “moda” jogadores da posição que eram bons com passes, hoje, isso é uma espécie de nota de corte: sem esses indicadores de desempenho, dificilmente o atleta chegará ao mais alto nível. Comentar disso já virou “óbvio” entre especialistas.
No futebol moderno, o goleiro tem que entender quando fazer uma construção curta, quando fazer uma construção longa e, a partir desses cenários, existe a ideia de identificação de vantagem — para quem, quando e como é melhor fazer o passe?
"And he goes by the name of Alvarez!" 🕷️
What a pass from Ederson here 😮💨 pic.twitter.com/WrwzIFdsS9
— Manchester City (@ManCity) April 25, 2024
“Não só o movimento de fazer uma bola longa perfeita. Se ele tem técnica, mas ele não sabe identificar, ele fica no meio do caminho. Em algum momento ele fica no meio do caminho”, avalia o scout.
O psicológico, para Nepote, é outro fator crucial para o desenvolvimento da posição. Segundo ele, análise de vídeo e ferramentas em larga escala disponíveis para o atleta melhoram sua capacidade de performar em alto nível cada vez mais.
“A tendência hoje é que os goleiros estejam mais bem preparados, porque eles têm a possibilidade de ter muito mais ferramentas. E hoje existe a parte psicológica, a parte de ‘evolução do cérebro’. Se direciona o fato de poder estar calmo para poder tomar decisões. O goleiro tem que tomar uma decisão em um ou dois segundos. E isso pode dar certo ou não”, opina.



