Por que a pressão individual que quebrou sistemas inteiros já está falhando no futebol
Crescimento do jogo direto e opções de construção que flertam com "relacionismo" têm ganhado popularidade
Uma vez que construir o jogo desde o goleiro virou padrão, o óbvio no ciclo do futebol seria inibir essa estratégia. Foi assim que a pressão alta e orientada individualmente ganhou força — e, por sua vez, virou quase que norma no alto escalão. Mas esse estilo já pode estar em decadência.
Nenhuma tática é perfeita e a pressão individual tem algumas falhas específicas. Há treinadores que já estão desenhando formas de se desvencilhar dessa marcação. Mas até onde essas ideias criativas e até perigosas podem sacramentar o fim de algo de tanto sucesso?
A rápida evolução da marcação alta
Até poucas temporadas atrás, a maioria dos times não se importava em defender a primeira fase de construção adversária com leve desvantagem numérica. A prioridade era clara: impedir que a bola saísse pelo meio, então meias e atacantes pressionavam os zagueiros e volantes opositores.
A ideia era justamente fazer com que a bola saísse pelos lados, onde o jogador teria um limitador natural (a linha lateral), o que poderia facilitar a marcação. Mas ainda assim, havia times que estavam confortáveis o bastante para manipular os espaços mesmo quando a bola chegava à lateral.
Foi aí que as equipes deixaram de defender o espaço (a região central) para defender jogadores, focando em uma marcação individual. Isso impedia opções de passes, uma vez que, idealmente, todas estariam recebendo pressão — e erros se tornaram muito mais comuns.

Essa evolução, inclusive, retomou o debate: construir desde trás vale o risco de perder a bola tão perto do próprio gol? Para uma parte considerável da elite, a resposta ainda é positiva. Então, para isso, surge a necessidade de buscar soluções melhores para sair da pressão individual.
As principais fraquezas da pressão individual
Apesar de ser sufocante e vencer partidas em diferentes casos, a pressão alta homem a homem tem leves desarranjos naturais, principalmente por conta de prioridades.
Durante a construção, os laterais ainda não são pressionados tão fortemente quando zagueiros e volantes, por exemplo. Isso se dá porque ainda há prioridade em proteger a profundidade, em vez de subir o time inteiro desenfreado.
Isso significa que existem janelas de poucos segundos em que alguns jogadores têm leve vantagem na construção, seja por estarem brevemente desmarcados, ou por terem vantagem cinética contra um marcador correndo em sua direção.
Pressure in relation to risk. Where a high-press is not a high-risk… pic.twitter.com/Yispnkp6D7
— Matt Gordon (@mattyflash23) March 7, 2023
No que diz respeito a prioridade espacial, uma vez que os defensores estão preocupados com seus opositores diretos, e não necessariamente com sua zona no campo, rotações e movimentações no ataque podem ser simples e efetivas para bagunçar o sistema de marcação.
E a fraqueza mais óbvia: nunca haverá de fato igualdade numérica na pressão. Enquanto o goleiro do time defensor não subir para marcar o centroavante adversário, o time com a bola sempre terá vantagem numérica e um homem livre, apesar de, em vários casos, ser difícil encontrá-lo rapidamente.
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Como os times têm passado pela pressão alta e individual
A forma mais óbvia é também cíclica: se não há espaço atrás, jogue para frente. É por isso que houve um aumento considerável nos números de bolas longas em praticamente todos os campeonatos da Europa — e foi a saída até mesmo para Pep Guardiola.
A ideia nesse caso é justamente atrair a pressão enquanto mantém uma linha de jogadores no ataque, preocupando os defensores. Isso cria um grande espaço entre as linhas de marcação, que pode ser usada para segundas bolas, gerando vantagem cinética para quem recebe de frente e diferentes opções de progressão a partir disso.
Mesmo que seja uma das saídas menos consistentes, uma vez que há também grande chance do lançamento não ter sucesso ou o alvo não conseguir reter a bola, é também a forma menos arriscada. Se a posse for perdida, ao menos não foi tão perto do gol e há a chance de fazer a contra-pressão para roubá-la mais próximo do gol adversário.

Para as equipes que preferem criar vantagem desde a defesa, o papel do goleiro se tornou ainda mais importante. O 3-4-4 durante a construção, que inclui uma primeira linha composta pelo goleiro e dois zagueiros, tem sido comum em times como Manchester City, Olympique de Marselha, Porto e Como.
Como a pressão nunca conseguirá atingir igualdade numérica, o goleiro, via de regra, sempre estará livre. Quando ele for pressionado, haverá espaço criado nas costas da marcação para encontrar um dos zagueiros, e é aí que entra o que a Trivela já chamou de “o passe mais importante do futebol“.
Se não for possível sair com as dinâmicas de terceiro homem, encontrando o zagueiro desmarcado com uma parede vinda do volante pelo meio, geralmente haverá a opção de um passe ligeiramente mais longo para o lateral, que tende a estar livre caso o meio esteja povoado.
Crescimento do ‘relacionismo’ no alto nível pode ser uma saída
E a forma mais ousada e criativa, mas também perigosa, tem sido a de usar trocas de posições e rotações para abrir espaços e manipular os marcadores. Uma vez que a marcação é individual, se o zagueiro correr para o ataque, por exemplo, a tendência é que seu opositor o acompanhe — se não, ele ficará livre. E isso abre espaços para a construção.
É isso que tem sido feito em times cujos treinadores têm ideias que flertam com o “relacionismo” — um conjunto de ideias popular, e não científico como o Jogo de Posição, que prioriza movimentos fluidos, aglomerações e trocas de posições.
Quando Harry Kane, no Bayern de Munique, deixa a sua posição para buscar a bola perto dos zagueiros, é um movimento que quebra a ideia de marcação individual justamente por criar dúvidas:
- O zagueiro segue o acompanhando até o outro lado do campo?
- Se sim, abrirá espaço para um passe longo ou para outro jogador atacar essa zona desmarcada;
- Se não, alguém irá acompanhar Kane? Isso faria com que outro jogador ficasse livre, o que cria um efeito dominó. Mas, se ninguém acompanhá-lo, ele mesmo será o jogador livre.
Existem diferentes formas de chegar ao gol adversário, mas acho a do Shakhtar a mais interessante do mundo.
Aproximações exageradas, priorização do meio e a intenção de ser pressionado para chegar ao último terço “mais limpo”.
Preparei isso aqui 👇
— Guilherme Ramos (@guilhermer_amos) September 1, 2021
O contrário também acontece, como no exemplo acima do zagueiro que sai para o ataque. Na Juventus, não é raro ver Bremer, por exemplo, avançar durante o tiro de meta e levar consigo um marcador, liberando espaço para outros jogadores terem tempo para progredir.
Os extremos dessa ideia têm sido cada vez mais comuns. Times como Freiburg e Como têm feito praticamente dois jogos separados dentro da construção: levam todos os seus jogadores para perto do gol adversário, exceto os zagueiros. Isso cria uma clara sessão de três (goleiro e zagueiros) contra dois atacantes.
A vantagem provavelmente é o suficiente para progredir inicialmente, e isso obriga um adversário a abandonar seu marcador para descer e combater um dos zagueiros. Obviamente, esse jogador deixou seu opositor livre por consequência, e as eternas batalhas individuais do sistema de pressão já ruíram.
Sistemas de construção mais focados no relacionismo não se atém a estruturas fixas e abusam de rotações de seus jogadores para confundir e manipular a marcação. É o que fazem os times de Fernando Diniz, o Racing, na segunda divisão espanhola, ou o NEC, quarto colocado da Eredivise. Não são tão populares e são arriscados, mas podem indicar um passo para o futuro do futebol.



